Marcos 8.31-38

Auxilio Homilético

27/02/1994

Prédica: Marcos 8.31-38
Leituras: Gênesis 28.10-17 (18-22) e Romanos 5.1-11
Autor: Júlio Zabatiero
Data Litúrgica: 2º Domingo da Quaresma
Data da Pregação: 27/02/1994
Proclamar Libertação - Volume: XIX


1. Introdução

A perícope selecionada para este segundo Domingo da Quaresma é, de fato, composta de duas perícopes (8.31-33 e 8.34-9.1). Isso permite uma certa dose de liberdade ao pregador(a), que pode concentrar a prédica em uma das duas perícopes ou, como sugerido pelo lecionário, meditar sobre as duas em conjunto. Qualquer que seja a escolha, porém, o assunto será relevante, pois a primeira perícope tematiza a paixão de Jesus (e não é necessário lembrar que o centro do Evangelho é a teologia da Cruz), enquanto a segunda tematiza o discipulado (o seguimento de Jesus, que é a essência da espiritualidade cristã).

2. Subsídios exegéticos

O texto do lecionário está no início da segunda parte do Evangelho de Marcos (8.27-16.20). Na estrutura global do livro, a primeira parte tematiza os atos podero¬sos de Jesus, como demonstração da realidade de Seu anúncio da proximidade do Reino de Deus (Mc 1.14-15). A segunda parte, por sua vez, tematiza a entrega de Jesus à morte, como o caminho divino para a instauração escatológica do Reino.

A seção do Evangelho (8.27-9.1) à qual pertence nossa perícope ocupa lugar central no argumento do evangelista. Ao mesmo tempo, enfeixa três grandes temas: (1) a messianidade de Jesus — conforme entendida pelo povo judeu em geral; (2) a messianidade de Jesus — conforme entendida por Ele mesmo; (3) o caráter crucial do seguimento de Jesus — ampliando o convite inicial do seguir puro e simples ao pregador galileu.

Em 8.27-30, há uma conversa entre Jesus e os discípulos a respeito da identidade de Jesus. Às respostas inadequadas da multidão segue a resposta formalmente correta de Pedro. Formalmente apenas, porque a perspectiva messiânica dos discípulos não estava em sintonia com a de Jesus — o que é demonstrado na perícope inicial do nosso texto (8.31-33), a qual dedicaremos nossa atenção.

2.1. Um Messias inusitado

Em sequência à afirmação da messianidade de Jesus, por Pedro, o Mestre passa a instruir os discípulos a respeito do verdadeiro caráter de Seu messiado. A fala de Jesus, neste texto, é reconhecida como a primeira de três 'predições da Paixão existentes no Evangelho de Marcos. Abstraindo-nos da discussão histórico-crítica da origem dessas predições, enfoquemos o sentido do texto no conjunto do Evangelho de Marcos.

O verso 31 possui grande concentração teológica:

(1) Em linguagem apocalíptica, Jesus ensina a inevitabilidade de seu sofrimento — era necessário... Com isso, Jesus desarma a mentalidade messiânica triunfalista de seus discípulos e os deixa perplexos. Este Messias Jesus escolhe um caminho diferente para seu triunfo: o caminho da cruz. Não devemos entender essa necessidade como uma simples expressão metafísica ou predestinacional dos desígnios de Deus. Ao contrário, devemos entendê-la como a inevitabilidade sócio-histórica da opção de Jesus pelos marginalizados. O messias triunfante só viria em benefício da elite judaica, e mais uma vez o povo ficaria em condição subalterna. A fim de realizar a vontade do Pai, Jesus tinha de sofrer, pois esse é o destino inevitável dos que se solidarizam com os sem-poder, sem-voz e sem-vez no mundo dos homens!

(2) Jesus rejeita o título de Messias, embora formalmente correto. Prefere o ambíguo título Filho do Homem. Na teologia cristã, este já é um título de dignidade. Aos ouvidos judeus, porém, era uma expressão dúbia. Normalmente significava apenas o humano; ou era uma circunlocução para o pronome pessoal da primeira pessoa do singular. Assim, aos ouvidos dos perplexos discípulos, a expressão soaria mais ou menos assim: Era necessário que o homem sofresse... ou era necessário que eu sofresse...! Para a expressão, porém, uma outra possibilidade semântica estava em aberto: o título apocalíptico de Daniel 7.13ss. Em Daniel, por sua vez, o título já é ambíguo, pois a figura celestial por ele designada é, na explicação da visão, identificada como o povo dos santos do Altíssimo (Dn 7.28). À luz da tradição cristã pós-pascal podemos entender o título em dupla chave: (a) a função apocalíptica de Jesus, como o portador escatológico do Reino de Deus; (b) a identificação solidária de Jesus com a humanidade em geral, a partir de sua solida¬riedade messiânica com os marginalizados.

(3) Os agentes responsáveis pelos sofrimentos e morte de Jesus seriam as autoridades judaicas, anciãos, principais sacerdotes e escribas. Ao invés de entender essa afirmação de modo anti-sionista, preconceituosa, devemos entendê-la em chave sócio-histórica: ao identificar-se com os marginalizados, Jesus entra em choque direto contra os marginalizadores — naquele contexto, a elite governante judaica. Era necessário que o caráter mortal do sistema teológico-político dominante ficasse às claras. Por isso, a inevitabilidade da morte do verdadeiro Messias dos pobres. Entretanto, a morte não seria a última palavra. Contra a vontade dos marginaliza-dores Deus ressuscitaria Jesus, dando início à nova manifestação escatológica do Reino.

Os w. 32s enunciam o debate entre Jesus e Pedro a respeito desse ensinamento do Mestre. Segundo a compreensão de Pedro, 'Messias' necessariamente significa triunfo régio e o restabelecimento da honra coletiva de Israel (Myers, 1992:297). A essa compreensão estreita dos discípulos Jesus ofereceu uma dura repreensão: Arreda, Satanás. A cegueira dos discípulos se agudiza aqui, e eles são designados de inimigos de Deus, pois seus critérios de valor e ação são meramente humanos, ou seja, autocentrados, egoístas, não-libertadores. Satanás é, portanto, todo aquele que se levanta contra a ação libertadora de Deus, e Seu compromisso solidário com os marginalizados e marginalizadas da humanidade. Em chave existencial, Satanás é aquele que opta pela ortodoxia fria e dogmática e não tem amizade com o Deus que opta pelos pecadores.

2.2. Seguir Jesus: o preço da graça

Deixemos de lado os elementos especificamente apocalípticos da segunda parte de nosso texto (8.38-9.1). Enfoquemos o convite de Jesus à multidão e aos discípulos. (8.34-37).

Jesus enuncia o convite em termos contrastantes: segui-Lo implica abandonar projetos pessoais autocentrados de vida, bem como projetos de classe, raça ou nação. Seguir Jesus é exigência radical de discipulado e não pode ser entendido como convite emotivo ou espiritual. Seguir Jesus não se concretiza em resposta meia mente religiosa, muito menos em atitude hipócrita: uma fé legitimadora do auto interesse (pessoal, político, econômico, etc.). Seguir Jesus significa identificar-se com o caminho de Jesus, fazer a mesma opção de vida feita por Jesus, ou seja, trilhar o caminho da solidariedade com marginalizados — caminho que pode levar à própria morte.

Nos tempos de Jesus e da comunidade de Marcos, a ameaça da morte era bastante visível e presente aos que, como Jesus, assumiam o caminho do Reino de Deus. Se, nos tempos da vida confortável de religião dominante, esse caráter de risco do discipulado não se apresenta tão visivelmente, isso não pode ser desculpa paia a tergiversação do texto marcano. Jesus fez um convite que implicava disposição para o martírio — não por masoquismo ou fanatismo, mas por causa da identificação consciente com sua pessoa e o Seu evangelho: boa nova para pobres e pecadores, li desnecessário lembrar que, também hoje, não são poucos os que têm experimentado sofrimento e mesmo martírio por causa de sua fé em Jesus, o libertador dos pobres.

3. Subsídios homiléticos

Penso em uma prédica baseada em 8.31-37 como um todo, o que não impede outras abordagens. Em primeiro plano, cabe expor o significado da paixão de Jesus. A ênfase deve recair no aspecto missiológico da opção de Jesus pelos marginalizados, que o levou à morte, e não sobre formulações doutrinárias (ainda que válidas e bem produzidas). A fidelidade ao texto nos obriga a tomar esse caminho: a necessidade da morte de Jesus não pode ser apresentada como um drama religioso a-histórico. Deve, sim, ser anunciada em seu caráter chocante, escandaloso, de opção amorosa por marginalizados: pobres e pecadores. O aspecto conflitivo do caminho de Jesus também deve ser ressaltado, pois Sua opção a favor de toda a humanidade teve, inevitavelmente, de ser opção contextualmente contra os inimigos de Deus e da humanidade.

A opção de Jesus deve ser atualizada: Quais são os marginalizados e margina lizadas de hoje? Quem são os inimigos da cruz de Cristo, os marginalizadores contemporâneos? O escândalo da mensagem não pode ser eludido. O risco certamente existe: risco de parcialidade, risco de incompreensão, risco de engano. Todavia, c um risco necessário — a não ser que queiramos anunciar um evangelho diluído, legitimador de opções de classe e/ou ideológicas.

A segunda parte da prédica deverá enfocar o convite de Jesus. Como uma relação de causa-efeito, o caráter messiânico de Jesus determina o caráter da resposta dos pretendentes ao discipulado. A prédica, então, deverá centrar-se no anúncio incondicional da renúncia como condição para seguir Jesus. Renúncia ao controle pessoal da existência, renúncia às opções confortáveis de vida social e econômica, renúncia à religião alienante, meramente intimista e trans-histórica. Não basta confessar que 'Jesus é o Messias'; o importante é 'que tipo de Messias dizemos que é Jesus' e até onde se está disposto a acompanhá-lo (Gallardo, 1986:1640).

Em nossos tempos de aparente vitória do capitalismo neoliberal, mais uma vez a marginalização social assume perspectivas globais e aterradoras. Não só a maioria da humanidade é colocada à margem da vida, como também é excluída dos meios de acesso à sobrevivência digna. Para os excluídos da lógica do mercado, já que não são vistos como agentes ativos da economia, o mercado não prevê garantia do mínimo vital, ou seja, a sua dignidade e seus direitos humanos básicos não estão contemplados na lógica do mercado (Assmann, 1991:39).

A prédica terá, portanto, de dar nome aos marginalizados atuais e dar nome aos obstáculos que nos impedem de seguir fielmente Jesus. Cabe, pois, uma séria análise de até que ponto nós, evangélicos, estamos sendo mais sensíveis aos apelos ideológicos do mercado do que aos apelos salvíficos de Deus. Qual é, enfim, a nossa opção de vida? Esse deverá ser o eixo dessa parte da prédica.

4. Conclusão

Há muito mais a ser escrito. Entretanto, nada substitui a nossa relação direta com o texto bíblico. A pregação tem de passar por dentro da gente, ou será meramente um exercício discursivo irrelevante. A melhor preparação para a medita¬ção sobre esse texto, portanto, será uma auto-reflexão: Até que ponto eu tenho seguido fielmente Jesus? Tenho feito as mesmas opções do Mestre, ou não abri mão ainda de meus próprios projetos de vida e ministério?

5. Bibliografia

ASSMANN, H. Desafios e Falácias, Paulinas, São Paulo, 1991.
GALLARDO, C. B. Jesus, hombre en conflicto, Sal Terrae, Santander (Espanha), 1986.
GNILKA, J. El Evangelio segun san Marcos, Sígueme, Salamanca (Espanha), 1986.
MYERS, C. O Evangelho de São Marcos, Paulinas, São Paulo, 1992 (Grande Comentário Bíblico).
PALLARES, J. C. Um Pobre Chamado Jesus, Paulinas, São Paulo, 1988.


Autor(a): Júlio Zabatiero
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: 2º Domingo na Quaresma
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 8 / Versículo Inicial: 31 / Versículo Final: 38
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 16182
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