Marcos 9.38-50

Auxílio Homilético

28/09/1997

Prédica: Marcos 9.38-50
Leituras: Números 11.4-6,10-11,16, 24-29 e Tiago 5.1-6
Autor: Antônio L. João
Data Litúrgica: 19º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 28/09/1997
Proclamar Libertação - Volume: XXII


1. Contexto Geral

O texto da pregação está inserido num contexto maior que inicia em 8.22 e vai até 10.52. E a parte do Evangelho de Marcos que trata da caminhada dos discípulos com Jesus e das implicações dessa caminhada. É a parte bem carregada de ensino sobre as implicações do discipulado e as exigências do reino de Deus. Inicia com a cura do cego em Betsaida, feita em duas etapas, e termina com a cura do cego de Jericó, feita de uma forma direta e com este certo do que quer. É através da caminhada com Jesus que os discípulos resolvem suas dúvidas, assumindo de forma positiva os compromissos com o reino de Deus.

2. O Texto

Entendo que a perícope inicia em 9.33 e vai até o final do capítulo (9.50). É difícil estudar o texto sem considerar os vv. 33-37, porque tudo inicia com o questionamento de Cristo: De que é que discorríeis pelo caminho? Essa pergunta desencadeia toda uma série de orientações sobre nossa postura em relação ao reino de Deus e a seriedade que devemos ter perante as coisas do Reino.

Ademais, percebe-se claramente essa ligação, porque não se registra nenhum movimento de Jesus e seus discípulos entre o v. 33 e o v. 50; a mudança somente ocorre em 10.1.

Tendo ele partido para Cafarnaum, estando eles em casa... (v. 33). A casa é um dos lugares prediletos de Marcos como ambiente de ensino e de comunhão de Jesus com os discípulos e com a multidão (l .29; 2. l; 2.15; 3.20; 7.24).

Na área da intolerância, do exclusivismo e desejo de poder, João é o que sempre está tomando a frente. Vejamos: quando estão passando pela aldeia de Samaria e estes recusam-se a hospedar Jesus, João é o que se apresenta exigindo logo do céu para consumir aquela aldeia (Lc 9.52-55). João, junto com Tiago, quer uma posição de destaque no Reino, literalmente, ao lado do trono, símbolo de poder (Mc 10.35-37). Jesus, na escolha dos doze, o chama de Boanerges — filho do trovão (Mc 3.17).

A iniciativa de João é espantosa: sentiu-se no direito de proibir. A pessoa que tem capacidade de proibir é a que pensa que tem o mundo nas mãos. É uma atitude não somente antidemocrática, mas ditatorial e manipuladora ao extremo. Não estamos longe disto hoje em dia na área política e religiosa. São pessoas que pensam ter o controle, o poder da verdade sobre si. A justificativa de João é típica de quem pensa que somente ele tem a verdade: porque não seguia conosco. Provavelmente a cultura judaica, do exclusivismo, está influenciando a comunidade de Marcos.

Jesus não concorda com esse exclusivismo. Jesus é o próprio critério e verdade. Ele é o parâmetro, definido por ele mesmo: em meu nome. A grande questão é justamente esta: em nome de quem nós fazemos milagres? Em nome de quem damos água? Jesus não liberou geral, ele é o critério porque ninguém há que faça milagres em meu nome e logo a seguir passa falar mal de mim (v. 39).

As nossas práticas e atos são em nosso nome, para adquirirmos prestígio, poder, riqueza, fama, adeptos, etc.? As nossas práticas e atos são para manter a situação vigente a fim de recebermos algum benefício? Convém que refutamos nesta linha de pensamento: há muitas práticas políticas e religiosas em que Jesus Cristo é apenas usado para justificar atos egoístas e perversos que não têm nada a ver com o Cristo da Bíblia.

O interessante é que Cristo aproveita o momento para desmistificar o grupo dos discípulos. A prática e os atos em nome de Cristo podem e devem ser de todos e não de um grupo que se acha especializado. Na comunidade todos são beneficiados pela ação em nome de Jesus.

As atitudes são opostas. João não aceita qualquer prática que não seja a dos discípulos. Para João há somente um grupo que tem especialização suficiente para realizar os benefícios. Para Jesus, qualquer um que tem prática — milagres, em nome dele — e tem confissão correta — fala bem dele — pode trazer benefícios; até mesmo benefícios para os próprios discípulos (v. 41).

O texto de Números é bem interessante, quando o olhamos nesta perspec¬tiva. Inicialmente encontramos um povo murmurador, que aprendeu somente a receber, e a única coisa que sabe fazer é reclamar e reclamar. Encontramos, também, um homem sobrecarregado, Moisés, que não sabe mais como fazer para satisfazer o povo sempre insatisfeito. Depois encontra a solução: dividir a carga, distribuir tarefas. O que era solução passa a ser um problema, porque há a tendência de se perpetuar um grupo especializado — os profissionais da área —, gerando ciúmes e contenda. A palavra de Moisés é de grande sabedoria: Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito (Nm 11.20). Infelizmente, o povo ainda hoje espera sempre por homens iluminados e não assume o seu papel libertador na história. As palavras de Moisés c de Jesus chamam nossa atenção para este fato.

O ensino de Jesus continua nessa direção, porém mostrando que o discípulo tem como prioridade o reino de Deus. A prática libertadora não tem como fim próprio a fama, o engrandecimento ou a perpetuação do grupo no topo da pirâmide; era o que estava acontecendo: discutiam quem era o maior (v. 34); impediam os considerados indignos de agir em nome de Cristo (v. 38); faziam tropeçar (v. 42); acabavam com a paz (v. 50). Não esqueçamos que Jesus desmantelou a pirâmide quando colocou a criança no meio (v. 36), quando valorizou as práticas simples e profundas dos considerados pequenos (v. 41), quando trouxe à consciência dos discípulos a prioridade do reino de Deus (v. 47).

Em seguida Jesus entra no tema do tropeço: quem pode tropeçar? Os pequeninos (v. 42) e nós mesmos (vv. 43-48). Os pequeninos estão em contraste com os discípulos que, no texto, se consideravam uma casta privilegiada, os únicos detentores do poder para agir em nome de Cristo. Jesus quer tirar todo o grau de pomposidade dos discípulos ao falar da renúncia de si mesmo em prol da vida — reino de Deus. Isto é, se vocês não querem tropeçar, renunciem! Na comunidade há aqueles que são considerados pequeninos crentes, porém para Deus eles têm muito valor e é gravísssimo fazer tropeçar um só deles.

Os vv. 44, 46 e 48 abordam a questão dos tropeços; eles contêm uma sequência de ensinamentos idênticos sobre a mão, o pé e o olho, com um pequeno acréscimo no v. 43. A diferença é: os vv. 43 e 45 falam de entrar na vida e o v. 47 de entrar no reino de Deus. Percebemos que, para Marcos, vida é sinónimo de reino de Deus. Os vv. 44, 46 e 48, historicamente, referem-se ao lugar do lixo, um vale, perto da cidade de Jerusalém, que ficava constantemente em chamas. Esses versículos são uma citação de Is 66.24 (sobre isto, o Proclamar Libertação, vol. II, p. 305, nos dá boa ajuda).

Nestas três sequências — mão, pé e olho — Jesus mostra a seriedade do reino de Deus e a necessidade que temos de renunciar a muitas coisas de nossa vida terrena — egoísta, mesquinha, cheia de interesses próprios — em prol de algo maior e mais valioso, que é a vida no reino de Deus. O texto, lido em conjunto com 8.34-37, faz sentido. As mãos, pés e olhos representam o ser humano na sua totalidade e são vitais para qualquer pessoa, daí Jesus as ter usado para falar de renúncia e sacrifício.

Jesus nos convida a abrir mão de tudo aquilo que, por mais essencial que seja, está nos impedindo de experimentar a manifestação do reino de Deus e, como consequência, causa nosso tropeço. Usando a expressão da Bíblia Pastoral, devemos cortar o mal pela raiz. Os discípulos devem cortar tudo aquilo que tem aparência ou conduz para a corrupção, poder, riqueza, fama. Tiago condena a riqueza, a opulência, a opressão (5.1-6). A vida de Cristo e seus discípulos é totalmente oposta a esta descrição que Tiago faz dos ricos.

A perícope termina com uma palavra sobre o sal. Nossa atenção deve focalizar-se justamente na parte final do v. 50: Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros. O que se espera dos discípulos é a genuinidade. A realidade do discipulado deve estar clara, à mostra. Assim como o sal é inconfundível pelas suas propriedades e características, os discípulos devem ser vistos através de suas características de humildade, de desprendimento das riquezas, de rejeição da fama, de ser um grupo exclusivista, etc....

Tende paz uns com os outros. O texto começa com uma discussão no meio dos discípulos sobre quem é o maior (v. 34), passando pelo exclusivis¬mo e desejo de poder (v. 38). Essas coisas geram tensão, desentendimento e conflito; a palavra paz no final ajuda a acalmar os ânimos, a desarmar os espíritos mais exaltados. O sal, no texto, deve ser interpretado como toda ação positiva do discípulo no relacionamento interno — na comunidade — e com todas as pessoas. Agir em causa própria, buscar fama, riqueza e poder é tornar-se insosso e causar conflitos.

3. Para a Pregação

O item anterior está carregado de subsídios para a pregação. Como sugestão, damos o seguinte esboço:

1. Introdução — situar o texto dentro do contexto maior (8.22-10.52) e dentro da perícope a que pertence.

2. Argumentação — pode passar por dois pontos essenciais:

a) A questão do sacerdócio universal, destacando a mentalidade exclusivista de João e o desejo de Jesus de que todas as práticas de libertação em seu nome sejam valorizadas (vv. 38-41).

b) A necessidade que temos de respeito mútuo. Considerar o nosso irmão como pequeno e, no mínimo, desrespeito. Devemos, sim, antes de tudo, levar a sério o reino de Deus (vv. 42-48).

3. Conclusão — lembrar que o discípulo deve ter sempre ações positivas. Não esquecendo do Espírito Santo que está aí para nos auxiliar.

4. Bibliografia

BÍBLIA SAGRADA; Edição Pastoral. São Paulo, Paulinas, 1990.
CALLE, Francisco de Ia. A teologia de Marcos. 2. ed. São Paulo, Paulinas, 1984.
DELORME, J. Leitura do Evangelho segundo Marcos. São Paulo, Paulinas, 1982.
SCHNE1DER, Silvio. Meditação sobre Mc 9.43-48. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1979. vol. I-II, p. 305 310.


Autor(a): Antônio L. João
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 19º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 38 / Versículo Final: 50
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17670
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