Mateus 1.18-25

Auxílio Homilético

19/12/2004

Prédica: Mateus 1.18-25
Leituras: Isaías 7.10-14 e Romanos 1.1-7
Autor: Ulrico Sperb
Data Litúrgica: 4º. Domingo de Advento
Data da Pregação: 19/12/2004
Proclamar Libertação - Volume: XXX
Tema: Advento

1. – Introdução

A leitura do Antigo Testamento fala da virgem que dará à luz o Emanuel (“Deus conosco”). É interessante que o próprio Deus desafia o rei Acaz (736 a 716 a. C.) para pedir um sinal nas profundezas ou nas alturas. Como esse se recusa a fazê-lo, Deus se dispõe a dar um sinal, porém na terra dos viventes (nem no fundo, tampouco no alto) – no chão mesmo: o filho da virgem.

No início de sua Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo apresenta-se como servo de Jesus Cristo, prometido pelos profetas, descendente de Davi, Filho de Deus. Nessa leitura de epístola fica claro que emissor e receptores da carta são de Cristo.

E o texto para a pregação fala da origem de Jesus, como aquele que foi prometido pelo profeta Isaías e que será o redentor do seu povo. Isto, porém, se realiza dentro de um contexto muito humano e compreensível. A ação de Deus se dá dentro da história e da vida de pessoas.

2. - O 4° Advento

No 4° Domingo do Advento acende-se a quarta vela na coroa de Advento. Esta foi introduzida por Johann Hinrich Wichern em 1839 na “Casa Rústica” (“Rauhes Haus”), instituição fundada por ele para o amparo de jovens órfãos, em Hamburgo, na Alemanha. Quatro velas vermelhas simbolizam os quatro domingos do Advento. A cada domingo é acesa uma vela, até que as quatro brilhem no quarto Advento. Os quatro domingos do Advento têm os seguintes temas (entre parênteses o significado de cada vela):
1º Advento (Paz): A segunda vinda de Cristo no juízo final.
2º Advento (Fé): O preparo para a vinda do Salvador.
3º Advento (Amor): Os precursores do Senhor (João Batista).
4º Advento (Esperança): A alegria que se aproxima.

3. - O José traído
(Pode ser lido antes do texto da prédica)

– Ela está grávida! Grávida está ela! – pensa ele. – Como foi acontecer isto comigo? Ela parecia tão pura e ingênua. No entanto, andou me traindo. Sim, porque eu não fiz nada com ela – disso tenho certeza. Ela está esperando um filho de um outro! O que vou fazer agora? O que os outros vão pensar? E ela não fala comigo sobre isso. Como pode? Se eu quiser limpar o meu nome e fazer valer os meus direitos, será o fim dela. Ela não terá nenhuma chance. Vai ser mesmo o fim dela. Mas será que é isso o que eu quero? Bem, talvez a minha honra seja lavada, mas e a minha paz? Será que eu um dia ainda vou ter paz, sabendo que o nome e a vida dela foram jogados na lama? Sei não! Será que eu vou ficar feliz, vendo ela ser justiçada, como merece? Vale a pena eu me vingar dela? Isso vai devolver a minha dignidade? Os outros sempre vão me encarar como o traído. Eu acho que o melhor que tenho a fazer é eu me mandar. Vou embora... para bem longe. Assim ela fica na dela e eu posso recomeçar a minha vida onde ninguém saiba do meu passado.

4. - A análise do texto

v. 18 – Naquele tempo, o noivado equivalia ao casamento. Nos v. 19, 20 e 24 fala-se de José e Maria como “seu esposo” e “sua mulher”. José ainda não tinha mantido relações sexuais com sua noiva, ou seja, esposa. Mas ela engravidara! Isto equivalia a adultério. Mas o autor do evangelho acrescenta uma informação que tira do leitor qualquer dúvida sobre a honestidade e a castidade de Maria: ela estava grávida “pelo Espírito Santo”.
v. 19 – José, porém, não tem condições de saber isso e está convicto de que Maria o traiu. Mas ele não quer prejudicá-la ou castigá-la. A punição poderia culminar no apedrejamento. José é um “justo”, ou seja, “piedoso”. Justiça e piedade têm a ver com bondade no trato com as outras pessoas. Isto tem uma importância vital no Evangelho de Mateus, tanto nesse seu prólogo como em diversas outras passagens. Vide o Sermão do Monte (5.6 e 20; 6.1 e 33; 7.1). A resolução de José de deixar (abandonar) sua noiva secretamente faria recair sobre ele toda a culpa e a isentaria das desconfianças normais.
v. 20 – Seus propósitos foram interrompidos por um mensageiro de Deus, que lhe apareceu num sonho. Anjos aparecem no início e no fim da história de Jesus, na tentação, na paixão e na ressurreição – nos quatro evangelhos: Mt 2.13; 4.11; Mc 1.13; Lc 22.43; 24.4; Jo 20.12. Eles estão a serviço de Deus e não têm um fim em si mesmos. Sua função é transmitir a mensagem (vontade) de Deus. Neste caso, o anjo restabelece a pureza da relação entre José e Maria. Sua gravidez tem origem divina.
v. 21 – O anjo diz de maneira resumida o conteúdo do evangelho: Maria dará à luz um menino. José deverá dar-lhe o nome de Jesus; pois ele “salvará o povo dos seus pecados”. Esta expressão provém do Salmo 130.8. O perdão dos pecados está intimamente ligado à salvação de Deus – tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Já no início do evangelho, Mateus deixa claro a que veio Jesus. Os leitores sabiam que seu nome era emblemático para a salvação: Jesus é o Salvador!
v. 22 – Também nesse contexto já aparece uma das intenções de Mateus: com Jesus se cumprem as Sagradas Escrituras (nosso Antigo Testamento) e os anúncios dos profetas.
v. 23 – A citação de Is 7.14 é quase que verbal. Com o “Deus conosco” (Emanuel) Isaías se refere ao Messias esperado. E Mateus diz que ele chega com Jesus. Tudo é sublinhado com o nascimento através da “virgem”. Do texto hebraico pode-se depreender que se trata de uma jovem mulher, com sua primeira gravidez. No grego, também se pode concluir que é uma mulher “pura”. Para Mateus e Lucas, é importante ressaltar que o Espírito Santo “engravidou” Maria.
v. 24 – José obedece ao mensageiro de Deus e mantém a sua união, o seu matrimônio com Maria.
v. 25 – Até o nascimento do menino, que chama de Jesus, José não tem relações sexuais com Maria.

5. - O drama de José é solucionado

Para José, a evidência depunha contra Maria: uma gravidez extraconjugal. Quando tudo parecia terminar para José, Deus transformou sua frustração em uma grande tarefa a ser cumprida: ser o pai do Salvador. O que aos olhos de José parecia o fim do mundo é o começo da história da salvação: a encarnação do Redentor, o cumprimento das profecias, a realização da esperança do povo de Deus. Onde José não via outra saída, a não ser o abandono da esposa que o traíra, acontece a entrada de Deus na história humana. Aquilo que era um drama se torna o início de uma caminhada que transformaria os rumos do mundo. De espectador e sofredor, o carpinteiro José (Mt 13.55) passa a ser protagonista e participante. Deus lhe dá um papel preponderante como pai de Jesus. José torna-se assim o pai do filho de Maria, dando-lhe a linhagem e a descendência de Davi (Mt 1.16).
Nos quatro evangelhos, José não aparece muito – somente Mateus e Lucas o mencionam. O texto de prédica deixa claro que José é um homem justo que ama. É um homem de fé. É obediente e tem muita paciência.

6. - A ação de Deus

Mt 1.17 diz que o tempo estava maduro: de Abraão até Jesus Cristo são três vezes catorze gerações (42 gerações), passando por Davi, o ilustre rei antepassado de Jesus. O prólogo do Evangelho de Mateus, portanto, contém a genealogia de Jesus e descreve a sua origem divina (Mt 1.18ss).

O Deus que está fora e acima do tempo e do espaço entra na história humana e incumbe um casal com a tarefa de criar seu Filho. Tanto Maria como José aceitam o desafio. Em Lc 1.26-56 é dado um destaque especial à mãe de Jesus. No texto para a nossa pregação, há uma reflexão maior sobre o seu pai. O conteúdo de Mt 1.18ss é único nos evangelhos.

Em Jesus Cristo, o transcendente entra no imanente. Esta é a razão de toda a esperança humana. Por isso pode haver alegria na semana que antecede o Natal. A expectativa pelo que virá está fundamentada naquele que já veio.

7. - A prédica

Na semana do Natal é bom pregar sobre o nascimento de Jesus e – desta vez – sob a ótica de seu pai José, o carpinteiro. Sugiro o seguinte roteiro:
– Ler a breve crônica sobre o José traído.
– Ler o texto de Mt 1.18-25.
– Explicar o texto, conforme a análise exegética acima.
– Falar sobre a maneira maravilhosa como o drama de José foi transformado no desafio para ele de ser o pai do Salvador.
– Refletir sobre a entrada de Deus na vida humana.
– Citar o termo preconizado por Richard Shaul: A alternativa ao desespero. Quando para as pessoas tudo parece levar ao desespero, a interferência de Deus traz a alternativa, que se transforma numa grandiosa esperança.
– Atualizar o significado do Advento, em especial o 4º Domingo do Advento.
– Expressar os votos de que a época de Natal seja muito feliz, serena e repleta de esperança e paz.

8. - Orações

Confissão de pecados: Senhor, nosso querido Deus e Pai. Confessamos que somos mais rápidos em desconfiar do que em confiar nas outras pessoas. Estamos prontos a condenar, mas relutamos em dar uma oportunidade. De ti, porém, esperamos que nos perdoes sempre e que nunca nos deixes na mão. Perdoa esse jeito incoerente de conviver. Nesta semana de Natal, ajuda-nos a manter uma boa relação familiar e comunitária. Limpa o nosso interior, para que teu amado Filho Jesus Cristo possa nascer dentro de nós. Amém.

Oração de coleta: Senhor Jesus Cristo, tu nasceste para dentro de uma família. Trouxeste alegria e esperança a Maria e José. Mas ambos também sofreram por ti. Desde o início da tua vida aqui entre as pessoas, houve situações delicadas. Neste 4º Advento e nesta semana de Natal, a história do teu nascimento ocupará os momentos da comunidade e da família. Ajuda-nos a dar atenção aos desafios que isso traz para a nossa vida diária. Para tal pedimos que nos dês o teu Santo Espírito. Amém.

Oração comunitária: Querido Deus e Pai, nós te agradecemos que vieste para dentro da vida humana, valorizando-a e trazendo uma esperança que ultrapassa as fronteiras das coisas do dia-a-dia. Por isso hoje rogamos que nos dês uma feliz semana de Natal. Que a nossa felicidade venha do teu Filho! Pedimos por todas as pessoas que nos são queridas, perto ou longe – que tenham um tempo de Natal tranqüilo, sereno e alegre. Suplicamos por nosso povo e por nossa pátria – que aconteçam muitos gestos fraternos de amor, para que muitas situações de infelicidade sejam superadas. No Natal falamos muito de paz. Mas no mundo ela é um artigo raro e caro. E tu a ofereces de graça em teu amado Filho Jesus Cristo. Que ele preencha os nossos corações com a sua paz e que ele comova as pessoas que governam, a fim de que busquem a paz que provém do Natal e deixem para trás os interesses partidários e facciosos. Oramos a ti, Deus Pai, movidos pelo Espírito Santo e unidos no amor de Jesus Cristo. Amém.

Bibliografia

EHLERT, Heinz. Meditação sobre Mateus 1.18-25. In: SCHNEIDER, Nélio; WITT, Osmar L. (coord.). Proclamar Libertação. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p. 29-33.
SCHNIEWIND, Julius. Das Evangelium nach Matthäus. In: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1964. p. 13-16.
ZIPPERT, Christian. Meditação sobre Mateus 1. In: HÄRTLING, Peter (coord.). Textspuren, Konkretes und Kritisches zur Kanzelrede. Hamburgo: Radius, 1990. p. 36-40.

Proclamar Libertação 30
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Ulrico Sperb
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 4º Domingo de Advento
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2004 / Volume: 30
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7010
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