Mateus 10.24-39

Auxílio Homilético

22/06/2008

Prédica: Mateus 10.24-39
Leituras: Jeremias 29.7-13; Romanos 6.1b-11
Autor: Margarete E. Engelbrecht
Data Litúrgica: 6º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 22/06/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII


Quando os corruptos brigam,
é grande o fedor.
Mas quando se entendem,
o cheiro é bem pior.
Gottfried Keller

1 O mundo e nosso pequeno mundo
Os valores do mundo são usados na construção de nossas comunidades. Sucesso e crescimento são esperados, assim como a resolução de desentendimentos familiares e comunitários com uma presença sacerdotal quase mágica.
O que mais se escuta como avaliação numa comunidade é se o desempenho do obreiro ou da obreira não está trazendo conflitos e se está trazendo ânimo e propostas de atividades que mais se assemelham a lazer do que a labor teológico. A “crise de fé” que se origina ali é vista como dificuldade pessoal e não como falta de sintonia entre a teologia e a vida em comunidade.
Em tempos de valores comuns a vários contextos, as percepções do que é ético ou do que é moralmente aceito vão se confundindo com notícias de desgraças relatadas na imprensa, retratando caos e raramente apontando perspectivas de vida.
Notícias sobre corrupção têm sido comuns no Brasil. Enquanto se “lava roupa suja”, vamos percebendo o quanto “nossa barriga tem se apoiado na pia, ficando molhada também”, questionando-nos o quanto contribuímos para a corrupção de cada dia, o quanto fechamos os olhos para quem, ao nosso lado, quer levar vantagem em tudo.

2 Mateus
O Evangelho de Mateus “é o resultado de um longo trabalho de referência ao Antigo Testamento, de colação e reinterpretação de sentenças de Jesus. Não reflete uma visão pessoal de Jesus, e sim um novo judaísmo elaborado dentro de uma comunidade em torno da fé no Messias Jesus”1.
Na época da destruição de Jesusalém, a expulsão das pessoas cristãs das sinagogas ajudou a reconstruir o judaísmo assim como o conhecemos hoje. Mateus toma posse da tradição judaica, mostrando o cristianismo como continuidade dessa tradição.
A comunidade de Mateus está longe de renegar o judaísmo. Pelo contrário, ela reinvidica para si mesma todo o judaísmo, toda a tradição de Israel.2
Mateus usa, portanto, a tradição de judeus e aquela que vem de gente cristã pagã para afirmar a diferença do cristianismo: enxergar o pequeno, perceber quem tem dúvida quem hesita.3
Numa comunidade que precisa afirmar-se e faz isso com a antiga tradição à luz do messias Jesus, cada passo precisa ser revisto e reavaliado. Fazer parte da comunidade cristã acarretou riscos e rompimentos, acarretou dificuldades sociais e familiares.

3 Texto
A delimitação do texto remete a uma organização de denúncias de Jesus para a articulação de atitudes. O seguimento a Jesus a ponto da pessoa “esquecer-se a si mesma” torna evidente que Batismo/comunhão, vida em comunidade fica em contraposição a família, raça. O diferencial das instituições está no seguimento a Jesus, na misericórdia vivida por Jesus. O ensino, direcionado antes apenas aos da “raça”, está enraizado na misericórdia praticada à luz do dia. Em vez da hierarquia servil, propagada pela tradição, prega-se a atitude liberta do medo. E o resgate da dignidade acontece não por conta da hierarquia ou por conta da obediência à tradição, mas vem pelo olhar “do Pai” (Mateus respeita o nome de Deus, usando sempre expressões como “reino dos céus” e “Pai”).
A misericórdia de Deus manifesta-se no acolhimento de quem sofre com a destruição, com a exclusão, com o desrespeito à criação, ao corpo de tanta gente.
Assumir o messianismo de Jesus era fator de exclusão das sinagogas. Mas era também a proclamação pública de pertença a uma comunidade cristã. Então a atitude ética precisava ser reafirmada mesmo em casa, mesmo com quem é “da família”. Isso é mais uma vez um diferencial da idéia da pertença familiar como norma/tradição a ser seguida, uma vez que Jesus ensina que o amor (em Mateus, a misericórdia aos pequeninos) é a base para a vida e não a família. O amor constrói família – e não o contrário.
Mesmo que o judaísmo que se organizará a partir da queda de Jerusalém também não tenha a terra prometida como objetivo maior, a obediência à lei e à tradição era o que os tornava herdeiros. Já a comunidade de Mateus elabora a confissão pública de Jesus Cristo, o seguimento, a comunhão e a promessa da vida eterna como objetivo maior das pessoas cristãs pertencentes a uma comunidade.

4 Hoje
É preciso ficar feliz ante os atos de bravura – profetismo –, como os que aconteceram diante da muralha erguida para dificultar o acesso à reunião do G8 em junho de 2007. São atos de quem não teme a morte decretada por um sistema que exclui.
É preciso enaltecer professores e professoras que, mesmo aprisionados por uma grade curricular decretada, usam seus cargos para fomentar atividades de respeito à ecologia, em gestos pequenos que educam bem mais do que grandes teorias.
É preciso alegrar-se com comunidades que percebem seu papel de promotoras da liberdade e, sem hierarquias que dificultam a convivência, aprendem e ensinam com quem “comunga” e são comunidades que seguem Jesus Cristo. Precisam, é claro, conviver com derrotas, perdas, dificuldades, porque comunhão nunca foi algo fácil. Por isso mesmo o pão precisa ser mastigado, o cálice precisa de todo o cuidado para ser passado de mão em mão. Comunhão em comunidade é alimentada pelo amor maior da Santa Ceia partilhada.
Sempre é preciso perceber cada um dos filhos, cada uma das filhas de Deus. Deus chama. Deus coloca à parte para que sejam filhos e filhas em cada instante de vida. Mesmo assim há momentos difíceis, pesados, sombrios. São momentos em que a morte parece vencer a vida. Rubem Alves escreve uma crônica chamada “A Pipoca”, na qual compara nossa vida “de milhos mirrados” que passam pelo fogo e são transformados. Parte dela transcrevo aqui:
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. (...) Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.
Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã, o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.
“Morre e transforma-te!” — dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. [... ] Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”.A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...
“Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.”
A graça de Deus capacita-nos a reconhecer nossos pecados, limites e transgressões. Dá-nos a certeza de que nossos valores precisam ser revistos. O rompimento com a “antiga vida” é o início da “nova vida”. Relações familiares, comunitárias e sociais precisam ser estabelecidas a partir dessa “nova vida”. A vida em Jesus Cristo irrompe em nossas vidas, denunciando o que corrompe para que não voltemos ao pecado, movendo-nos a romper outros tantos limites que nos foram impostos.

Bibliografia
COMBLIN, José. As linhas básicas do Evangelho segundo Mateus. In: Estudos Bíblicos, 26. Editora Vozes, Imprensa Metodista, Editora Sinodal, 1990. p. 9-18.
BAKKEN, Norman K. Teologia em Mateus. In: Estudos Teológicos, 25/1. São Leopoldo: EST, 1985.
ALVES, Rubem. A Pipoca. Texto originalmente publicado no jornal “Correio Popular”, de Campinas (SP), mas facilmente encontrado em sítios de busca na internet.

Notas
1 Comblin, 1990, p.18.
2 Comblin, 1990, p.17.
3 Bakken, p. 107s
 


Autor(a): Margarete E. Engelbrecht
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 6º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 24 / Versículo Final: 39
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 24310
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