Mateus 11.25-30

Auxílio Homilético

03/07/2005

Prédica: Mateus 11.25-30
Leituras: Ezequiel 34.1-2 (3-9), 10-16,31 e Romanos 9.9-12
Autor: Guilherme Lieven
Data Litúrgica: 7º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 03/07/2005
Proclamar Libertação - Volume: XXX


1.Introdução

O texto de Mt 11.25-30, previsto para pregação neste 7º Domingo após Pentecoste, tem uma importância teológica especial. Foi fonte para a compreensão trinitária de Deus e para as elaborações da cristologia, ao indicar a união perfeita entre o Pai e o Filho (v. 27) sob o enfoque da eternidade e da encarnação do Filho. Um Deus eterno que se tornou humano plenamente, dando-se a conhecer aos pequeninos e fracos como bondoso e humilde, como um Deus que dá paz e descanso.

Neste estudo proponho uma reflexão com um enfoque comunitário e ético, permitindo que traços da realidade e do cotidiano das cidades da Grande São Paulo determinem e influenciem as propostas para a mensagem e para a celebração. Antecipo uma questão intrigante, que o confronto do texto com esse contexto suscita: como anunciar um Deus que se revelou aos humildes e pequeninos, um Deus que dá paz e descanso, para quem vive num movimento humano marcado por regras e propostas excludentes e injustas, para um público que desaprendeu a descansar e que não conhece a paz?

2. Sobre o texto

Logo após o relato sobre algumas dificuldades de Jesus com os moradores das cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum (11.20-24), Mateus apresenta uma oração, um breve diálogo de Jesus com o Pai, Senhor do céu e da terra, que anuncia a escolha de Deus em se revelar aos pequenos e humildes. Também denuncia a arrogância dos sábios e dos instruídos (v. 25 e 26). Estes formavam um significativo segmento da população de vilas e cidades, que não acreditavam nos milagres de Jesus e não o aceitavam como o messias, o mediador de Deus.

O v. 27 explica por que os sábios e instruídos não conseguem ver “todas as coisas” (“aquilo”, v. 25) que Deus deu ao Filho. Apresenta a íntima e exclusiva comunhão do Deus Pai com o Filho e a revelação “de todas as coisas” como um atributo e vontade do Filho. Ele é o único mediador. As elites e os sábios, marcados pela visão e pela ordem patriarcal, não conseguem ver em Jesus a mediação de Deus. Mateus permite concluir que as dificuldades criadas pelos sábios e instruídos destacam a opção de Jesus em revelar-se ao “povo da terra”, formado pelas pessoas humildes que não tiveram acesso à instrução. Jesus derruba a ordem vigente da revelação, legitimada pela idéia judaica de que a sabedoria de Deus é acessível somente a um pequeno grupo de sábios.

Em seguida (v. 28 s.), Jesus convida os humildes, os cansados, as mulheres, os trabalhadores rurais, os pescadores, as crianças e todos os que vivem à margem do poder e da sabedoria para segui-lo, aprender dele e descansar. Este convite é profético, é o destaque do texto, é um material próprio de Mateus. A humildade e o descanso revelam Deus e comunicam a postura de Jesus, que se aproxima dos pequeninos e humildes com amor, compaixão e solidariedade. Ao mesmo tempo denuncia e nega todas as exigências e poderes que sobrecarregam, oprimem e violentam os humildes e pequenos.

Nesse texto de Mateus, Jesus apresenta o seu convite de forma surpreendente: as suas exigências são poucas e leves, a sabedoria exigida restringe-se à humildade e bondade e tudo é possível na dimensão do descanso. Seu convite traz descanso. Podemos dizer que a revelação de Deus através da mediação de Jesus passa pela experiência da humildade, da solidariedade e do descanso. A misericórdia é superior à sabedoria convencional e ao sacrifício.

3. Meditação

Anunciar a revelação de Jesus aos humildes e pequenos no contexto urbano das cidades da Grande São Paulo, conjugando-a com o seu convite para aprender uma outra proposta de vida, que inclui comunhão, paz e descanso, é uma ação desafiadora, tal como foi na Palestina para o próprio Cristo e seus discípulos. A proposta e a mensagem do nosso texto conflitam com os valores, opções e comportamentos de pessoas, grupos, organizações sociais, comunidades e instituições religiosas que apresentam alternativas para superar ou curar o sofrimento humano. A revelação de Deus aos humildes e o convite de Jesus ao descanso invertem consensos, questionam comportamentos, valores e propostas de vida consideradas alternativas para a superação dos estados de opressão e de sofrimento das pessoas. Enquanto nosso texto apresenta um caminho que passa pela experiência e valorização da paz, do descanso, da humildade e da solidariedade, a sociedade urbana pós-moderna, com seus meios e métodos, induz saídas para a felicidade e para a liberdade, fabricadas pelas indústrias de lazer e prazer, que comercializam meios, espaços, mão-de-obra, utensílios, conteúdos e propostas sustentados por mecanismos que mantêm as desigualdades, a injustiça social e econômica, o individualismo, o culto ao corpo e ao ser humano, o benefício de poucos, a vantagem social de pessoas e pequenos grupos, a prosperidade individual.

Nas cidades existe uma demanda reprimida por descanso, paz, sentido para a vida, consolo e segurança. O enorme movimento humano pela busca desesperada por sobrevivência causa doenças físicas, psíquicas e emocionais. Cria privações, medos e angústias. Todos correm, ameaçados e amedrontados, para o trabalho, em busca do emprego ou em busca da formação intermediária (cursos de línguas, atualizações). Em todos os espaços e demandas existem filas e disputas para conseguir acesso a tudo o que é necessário para viver. Neste movimento são corriqueiros os conflitos, as contradições e as ameaças à vida. As regras de convivência são marcadas por um sistema que, via de regra, transforma todos em mercadorias de uso, de troca e de lucro. As diferenças são visíveis. Os espaços e impérios da riqueza estão cercados pelos bolsões enormes da população excluída dos meios essenciais para a sobrevivência, que interagem num movimento humano gerador de desigualdades, perdas, injustiças, violência e morte. Este movimento tem dimensões e poderes monstruosos, criando em todos o sentimento de inoperância e conformismo, que passa ao largo da proposta de humildade, solidariedade, paz e descanso, apresentada por Jesus.

Aponto ainda três situações que esclarecem melhor esse descompasso e conflito entre a mensagem do nosso texto e as propostas apresentadas como salvadoras pela sociedade urbana:

a – Proliferam as ofertas de lazer e descanso, que prometem resolver os problemas causados pelo estresse e pelo cansaço, que vendem solução para a superação das sobrecargas do trabalho e das conseqüências maléficas do trânsito, da poluição sonora, da exclusão e da marginalização. São inúmeras as ofertas de hotéis-fazenda, academias, clínicas, academias de musculação e de tratamento do corpo. Nos feriados, é grande a correria em direção às áreas públicas e particulares de lazer.

b – Cresce o número de adeptos às propostas religiosas e espirituais desvinculadas de instituições religiosas tradicionais. Essas pessoas aceitam e convivem com conteúdos, significados e práticas religiosas múltiplas, que não exigem compromissos comunitários de nenhuma ordem. Elas individualmente procuram por soluções, explicações e justificação dos problemas do cotidiano.

c – Aumentam e se estruturam as propostas cristãs neopentecostais, que prometem felicidades aqui e agora, criando e estimulando “ilhas de fantasia” para desempregados, doentes, empresários falidos, desesperados e marginalizados. No entanto, via de regra, essas pessoas são espoliadas e, mais tarde, devolvidas para a cruel realidade em que vivem.

Mesmo com o surgimento e a estruturação desses caminhos e propostas, são visíveis e audíveis gritos por vida, busca por dignidade, paz e, especialmente, descanso. Muitas pessoas que negam essas ofertas ou que por elas são descartadas, ou ainda, que a elas nunca tiveram acesso, continuam buscando outra alternativa para partilhar seus conflitos e aliviar suas cargas e sofrimentos.

4. Sugestões para a mensagem

– Apresentar o texto de Mt 11.25-30, destacando a sua revelação aos humildes e o seu convite de Jesus para o descanso.

– Questionar a idéia de que o ser humano sozinho é o único sujeito capaz de superar as suas próprias barreiras e de curar as suas doenças, anunciando a mediação de Jesus ao Deus do consolo, da cura, da paz e do descanso.

– Apresentar o amor incondicional de Deus, revelado por Jesus aos humildes, como uma rede de vida (um movimento) no mundo, que inclui todos, sem a exigência de obras, currículo, experiência, conhecimento de línguas, poder, corpo com peso, curvas e medidas especiais, sabedoria, cartão de crédito, conta bancária, propriedades etc.

– Lembrar que o convite de Jesus (v. 28: “venham a mim, todos vocês...”) faz parte da liturgia da Santa Ceia e é uma das palavras bíblicas mais conhecidas pelas comunidades. Assim sendo, associar essa oferta de descanso com a experiência espiritual e comunitária do sacramento.

– Apontar para os eventos e serviços da comunidade com as características do convite de Jesus, que facilitam o envolvimento concreto e espiritual das pessoas.

– Apresentar uma proposta comunitária cristã que valorize o descanso, a humildade e a comunhão; que partilha a vida com respeito, transparência e alegria.

– Sugiro encerrar a mensagem com esta orientação: alertar a comunidade para não diminuir o descanso a uma dimensão somente espiritual, que permite a experiência do alívio e descanso, conformando-se com a opressão, o cansaço e a violência. Ressaltar, portanto, que Jesus promete em seu convite descanso também físico e real.

5. Sugestões para momentos da celebração

Acolhida: Saudar a comunidade motivando para o descanso, para a comunhão e a alegria. Citar os versículos 28 e 29: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar a suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso....”
Caso julgar conveniente, após a saudação jogar uma enorme bola de plástico sobre a comunidade, sugerindo a brincadeira e tocá-la uns para os outros. Esta dinâmica pode despertar em muitos uma meditação sobre a importância do descanso e da alegria. Incluir as crianças nessa brincadeira e apresentá-las como cidadãs do reino que sempre, tal como Jesus, convidam para o descanso.

Salmo do dia: Salmo 145.1-10.

Kyrie: Deus, ouve o nosso clamor! Tem piedade de todos os que estão cansados e sobrecarregados pelas exigências dos sistemas de vida, que exigem poder e sabedoria, que prometem falsas fantasias e injustas prosperidades.

Anúncio da graça: Fazer o anúncio da graça com os versículos 1, 2, 3 e 6 do Salmo 23.

Leituras bíblicas do dia:

– Ez 34.1-2(3-9)10-16: Deus acusa o sistema de poder que visa os seus próprios interesses. Anuncia uma nova proposta de vida em que há comunhão, alimento, cuidado, cura e descanso. O convite de Jesus resgata o projeto de vida já anunciado pelos profetas.

– Rm 8.9-12: O Espírito de Deus é vida. Ele nos aproxima de Deus. Ele é Deus presente em nós desde o Batismo. Ele facilita e viabiliza a nossa opção pela proposta de vida de Deus, revelada aos humildes e pequenos. O Espírito de Deus nos auxilia a aceitar o convite de Jesus.

Bênção: Abençoe-vos o Deus da graça, da paz e do descanso. Abençoe-vos o Deus das crianças. Que ele vos guie por caminhos da alegria, da solidariedade, da humildade e da esperança. O Deus dos pequeninos e humildes vos dê a paz. Amém.


Autor(a): Guilherme Lieven
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 7º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 11 / Versículo Inicial: 25 / Versículo Final: 30
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2004 / Volume: 30
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 23581
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