Mateus 12.22-30

Auxílio homilético

04/11/1979

Prédica: Mateus 12.22-30
Autor: Arnoldo Mädche
Data litúrgica: 21º Domingo após Trindade
Data da Pregação: 04/11/1979
Proclamar Libertação - Volume: IV


I – Texto

O acontecimento referido no v.22 encontramos também em Mt 9.32-34. onde a cegueira não é citada. O mesmo acontece com a paralela em Lc 11.15-23. Os comentaristas opinam que se trata de uma repetição de um mesmo fato, porém com acréscimo de enfermidade no sentido de ressaltar a cura e o poder de Jesus. No caso são feitas três curas: expulsão do demônio, e recuperação de fala e visão. A mudez, no entanto, era a consequência clássica dos endemoninhados.

A referência, no v.23 ( = Mt 9.27), ao Filho de Davi demonstra a intenção de Jesus em ser aceito pelo povo como o Messias prometido. A tradução de Almeida reconhece o elemento da dúvida - porventura. Numa tradução mais livre poderíamos propor: Certamente não será este o Filho de Davi?! A controvérsia com os fariseus tem sua origem, pois, na messianidade de Jesus. E nos vv.31-32 o evangelista toma as consequências imediatas: o pecado imperdoável daquele que duvida da revelação do Espírito Santo -Jesus, o Messias!

Em Mt a admiração (= Mt 9.33 com ETHAUMASAN: aqui EXISTANTO tem a influência da paralela em Mc 3.21) causada pelos atos de Jesus provoca sempre no povo um reconhecimento positivo da divindade de Jesus. Os fariseus, porém, são insensíveis a estes sinais.

O v.25 introduz a mesma motivação de Mt 9.4 (conhecendo seus pensamentos - no sentido de: foi-lhe dito a respeito) para a controvérsia com os fariseus quanto a Belzebu. Mateus usa a forma de pergunta e parte da experiência comum: O reino que é objeto de lutas partidárias = guerra civil, será destruído (cf. Is 1.7). A mesma consequência vale para as células menores da sociedade, como a cidade e a família. A partir desse reconhecimento prático, Jesus conclui que o demônio não pode combater a si mesmo. Na paralela de Mc a argumentação é inversa.

A citação vossos filhos (v.27) refere-se aos exorcistas dos próprios fariseus (cf. Mc 2.18ss - discípulos dos fariseus). Com isso Jesus apresenta mais um argumento quanto à falta de lógica dos fariseus em acusá-lo de endemoninhado. Portanto, a sabedoria (Mt 11.19) exige o reconhecimento de que se os demônios são expulsos - o são pelo espírito de Deus (EN PNEUMATI THEOU), isto é, pela supremacia de Deus em Jesus. Quando o senhorio de satanás recua numa pessoa, já surgiu nela o Reino de Deus (v.28).

O v.29 ( = Mc 3.27 e Lc 11.21-22) tem a única função de apresentar Jesus como o vitorioso e se relaciona com a tentação de Jesus em M t 4,1-11 (cf. neste volume, auxílio homilético sobre esse texto, por Walter Altmann). A cura de endemoninhados testifica a vitória de Cristo no império de satanás. O v.30 radicaliza a controvérsia com os fariseus (cf. Mc 9.40 e Lc 9.50, onde esta radicalização é atenuada: Quem não é contra nós, é por nós.). Com isso a conclusão se torna óbvia: Não existe uma posição neutra frente a Jesus, pois ela negaria a revelação do Espírito Santo. Não se pode também isolar o v.30 pela pergunta da messianidade de Jesus. Impede, pois, uma espiritualização como lema de conversão, ou então uma politização como combate a posicionamentos de centro.

Recomendo a leitura da tradução de Almeida.

II — Meditação

Não se pode fugir de um posicionamento diante do exorcis¬mo em nossos dias. A grande comissão (Lc 9.1-2) delegada à igreja para expulsar demónios e curar enfermos tornou-se tema do dia a partir do crescimento excepcional dos movimentos pentecostais na América Latina. Outro despertamento mais secular desta questão foi o filme norte-americano O exorcista.

Uma ótima fonte de consulta, na qual é baseada esta meditação, encontramos no artigo de Paul Tillich - Curai enfermos; expulsai demônios. Basicamente, Tillich considera o exorcismo um ministério de toda a Igreja. Ë um ato de devolução ao homem de sua unidade perdida. Corpo, mente e espírito formam essa unidade. A ruptura de um deles significa enfermidade. Biblicamente encontramos apoio a essa tese em nosso próprio texto, quando o exorcismo e cura integra na sociedade aquele homem sem voz e sem visão de sua vida.

A rigor, não existem pessoas sãs. Todas estão enfermas. São vítimas da desintegração de sua unidade violentada. Essa tarefa é a mais difícil para o pregador diante de uma comunidade aparentemente sã. São os enfermos que precisam de Jesus. Nossas comunidades encontram-se ameaçadas de não mais precisar de Jesus, por terem secularizado a enfermidade e considerado satanás assunto ultrapassado ou fruto de superstição. A ação de Jesus atinge somente o campo espiritual de suas vidas. Para estes, a cura do corpo que inclui a dinâmica de vida social dos salários mínimos, não é mais tarefa de Jesus e, por consequência, da igreja. O distanciamento do homem do espírito de Deus é a origem da enfermidade física e mental, individual e social. Mas a igreja não pode se arrogar ser a única libertadora dos enfermos. Os dons de cura também existem em outras fileiras, como comprova Jesus ao citar os discípulos dos fariseus - seus conterrâneos. Há dons de ordem natural (médicos) e histórica (tradições, símbolos e heranças comuns da humanidade), assim como o dom da revelação em Cristo: o poder do perdão que cria novas realidades onde imperou a desintegração.

Notadamente nossa geração desperta para uma igreja que decididamente quer exorcizar males sociais. Tillich adiciona combustível ao dizer: E temos aprendido que não se podem curar indivíduos sem libertá-los dos males sociais que contribuíram para sua desgraça. Esse dom de libertação inclui a própria fraqueza e enfermidade do pregador - sua postura social na sociedade vigente! Nessa linha de pensamentos, a herança de uma igreja conivente com os multiplicadores dos males sociais (capitalismo privatista), é uma tarefa fundamental das novas gerações em praticar exorcismes até os confins da terra.

Talvez o maior desafio do pregador neste texto e nesse tema está diante de si - os que estão sentados nos bancos da igreja. Comunidades que criam ilhas e guetos estão possuídas de demônios. O processo de libertação delas se constitui no próprio culto dominical. A decisão por Cristo (v.30) quebra as resistências e barreiras de ver a evangelização do homem como uma unidade inseparável. Evangelizar o corpo é libertar o mundo para que suceda o Reino de Deus (v.28!). A libertação espiritual só faz sentido quando integrar o homem com todos os seus direitos de ser voz reconhecida no processo social de seu povo. Espiritualidade que deixa a cegueira persistir é desumana e cruel.

Não podemos fugir nessa meditação da compreensão popular de satanás como poder autónomo, ser superior ao homem, pessoa horrível e tantas outras interpretações Creio que negar ou afirmar a ontologia do mal sempre se cairá na especulação. O único caminho que permite concreticidade é apontar as consequências do mal - seus frutos! Teologicamente sabemos que a origem do mal não nos é respondida nas Sagradas Escrituras. Ë um mistério que permanece inexplicável, mas que atua de maneira multiforme na história dos homens. Localizar o mal pelos resultados de sua ação é a única maneira de se falar responsavelmente de satanás. Pelos seus frutos os conhecereis (Mt 7,16) - esta foi a pista deixada por Jesus como critério de conhecimento da origem de todas as coisas.

III – Prédica

A grande tentação (!) seria colocar o v.30 no início da prédica e construir a pregação na base do decide-te por Jesus!. A explicação do texto no primeiro capítulo tentou ressaltar a questão da messianidade de Jesus. Essa messianidade de Jesus comissionada à igreja propõe o combate à endemoninhaçâo do mundo. Portanto, o peso estaria em proclamar a vitória de Cristo sobre o mal e a autoridade conferida ao povo de Deus como instrumento do Reino de Deus.

Sugiro que se fale concretamente do que aconteceu no v.22. ressaltando o exorcismo como devolução da vida plena e útil na sociedade. A controvérsia, que coloca a questão de origem do poder de Jesus, serve apenas para confirmar a messianidade de Jesus.

O v.25 também oferece uma falsa oportunidade de moralizar a família e o conflito entre pais e filhos. Assim como condenar os que apontam críticas as estruturas injustas de nossa cidade e pais. O v.25 está a serviço da afirmação messiânica de Jesus. Não permite outras divagações.
Sugiro, pois, uma prédica nesses moldes:

1. A redescoberta do tema do demônio:
a) seitas
b) filme
c) programas de TV

2. Nosso texto — Jesus exorcizando:
a) o endemoninhado
b)a cura
c) as consequências da cura

3. O demônio na atualidade:
a) o mistério da origem
b) os resultados do mal
c) todos estão endemoninhados

4. O exorcismo completo:
a) a tentação de espiritualizar
b) a cura do corpo como cura social
c) v.28 - o Reino já chegou - sinais do Reino

5. V.30 - um alerta:
a) Jesus exige fidelidade (Mt 6,24!)
b) divisões na comunidade - ajuntar ou espalhar?
c) exortação à luta pela unidade de vida de todos os homens.

IV – Bibliografia

TILLICH, Paul. Curai enfermos: expulsai demônios. In: Evangelização. Suplemento do CEI. No 5. Outubro 1973.


Autor(a): Arnoldo Mädche
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 22º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 30
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 4
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14602
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