Mateus 13.1-9

14/07/2002

Prédica: Mateus 13.1-9
Leituras: Salmo 65.8-13 e Romanos 8.18-23
Autor: Günter Karl Fritz Wehrmann
Data Litúrgica: 8º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 14/07/2002
Proclamar Libertação - Volume: XXVII
Tema:

1. Como entender uma parábola?

Será que é uma mera “história ou comparação baseada em fatos verdadeiros com o fim de ensinar lições a respeito do Reino de Deus, ou de sabedoria ou moral (Mt 13.3-23)”, conforme diz a BLH no vocabulário, p. 8? Sendo assim, para pessoas esclarecidas, seu conteúdo poderia ser expresso resumidamente de forma abstrata. E somente para as mais limitadas lançar-se-ia mão do recurso ilustrativo.

Ou será que o jeito de falar em parábolas serve para encobrir e ocultar o conteúdo para determinadas pessoas, às quais não é “dado conhecer o mistério do reino dos céus” (Mt 13.11)? Este era o pensamento nas comunidades cristãs primitivas, que se admiravam diante do milagre da fé que acontecia mais entre gentios do que entre judeus. Essa pergunta remete à teoria do endurecimento do coração e da predestinação, questões que não podem ser discutidas agora. De momento, contudo, basta lembrar que a vinda de Jesus objetiva que todas as pessoas sejam salvas (1 Tm 2.4). O Evangelho nos anima a crer somente numa predestinação para a salvação, sem, no entanto, ignorar a possibilidade de se perder em alienação temporária e eterna.

Ou será que a alegoria é o jeito adequado de entender uma parábola? A interpretação que Mateus oferece nos v. 18-23 tem uma tendência alegórica quando identifica a semente com a palavra, o solo com os ouvintes e as adversidades com poderes diabólicos e incredulidade. Tal interpretação precisa ver cada traço da parábola em seu sentido alegórico, o que pode levar a paralelos forçados, além de induzir para o apelo moralista.

Ou é a parábola a única maneira adequada para falar do mistério do Reino de Deus? Identificando-o como mistério, afirma-se que ele ultrapassa todas as nossas categorias relativas e contextuais de falar do eterno, do absoluto, do Reino de Deus. Diante dele, o nosso falar e comunicar sempre são inadequados, ficam devendo.

Mas no Natal, o Eterno encarna em nossa realidade humana. Expõe-se, assim, à ambigüidade. Jesus percebe que o cotidiano, como, por exemplo, a relação entre amigos ou pais e filhos, a semeadura e a colheita, tornam-se transparentes para o Reino de Deus, do qual ele quer falar e dar testemunho. Experiências e figuras do dia-a-dia tornam-se veículos de comunicação sobre o Eterno. Assumem o caráter de símbolo, embora não sejam idênticos com o simbolizado. Contudo, participam do simbolizado por ser oriundos dele e para ele transcender e apontar.

O jeito de lidar com uma figura e um símbolo pode ser o analítico. Ele me faz perceber, por exemplo, os detalhes de uma flor: pétalas, cores, folhas lembram-me do processo biológico e químico do metabolismo. Esse jeito analítico aprendemos, desde pequenos, ao longo de todo o processo de formação.

Por mais necessário, enriquecedor e interessante que seja esse jeito de aproximação analítica, ele não nos faz perceber o todo da flor, que é mais do que uma eventual soma de detalhes. O todo é o que fascina, encanta, alegra, expressa doação, comunica amor e cativa. Por isso, convém ensaiar a maneira contemplativa de lidar com uma figura e um símbolo. Esse jeito, além do analítico, queremos adotar na lida com a parábola sobre o semeador. Poderá acontecer que a história transcenda e o eterno mesmo se comunique.

2. O texto no contexto das leituras

O Sl 65 glorifica Deus, que faz abundar de boas dádivas a terra prometida. Is 55.10-11 fala da chuva que fecunda a terra para dar semente ao semeador, o que se torna metáfora para a Palavra de Deus que não voltará vazia. Diante de toda uma realidade adversa, de não-vida e sofrimento, Paulo, em Rm 8.18-23, alimenta a esperança no poder criador e recriador de Deus. Ele terá a última palavra e promoverá vida em abundância. A esperança por libertação de todos os poderes de escravidão, não-vida e morte envolve toda a criação. Nesse sentido, Jesus, conforme Mt 13.1-9, não ignora as adversidades que atrapalham e impedem os frutos esperados, mas anima e encoraja para a semeadura, visto que alguma semente cai em terra boa e dará muito fruto.

3. O texto e os paralelos sinóticos

Uwe Wegner (p. 196s) destaca em Marcos a mudança do singular (v. 4-7) para o plural (v. 8). Conclui desse fato que a atenção cai, sobretudo, nas sementes que dão muito fruto. Está em evidência “a boa nova de uma colheita abundante, a despeito de um ou outro grão improdutivo”. Mateus e Lucas, contudo, permanecem no uso do singular. Esse fato parece indicar que Mateus e Lucas dão mais espaço para a reflexão sobre as adversidades. Além disso, Wegner observa que, em Marcos, a “quantidade da produção é descrita em números crescentes”, o que destaca o milagre escatológico da boa colheita, apesar das adversidades. “Mateus, curiosamente, apresenta a produção em números decrescentes.” “Não acentua mais o contraste original da história; para ele, as várias sementes reproduzem situações paralelas, embora diferenciadas quanto à produção de frutos.” (p. 201).

A tentação de entender a parábola a partir da interpretação alegórica é grande. Esta substitui o acento escatológico pelo psicológico e parenético (cf. Jeremias, p. 149). Mateus liga decididamente o aspecto escatológico ao aspecto eclesiológico, característica de suas sete parábolas sobre o Reino de Deus (cf. Bornkamm, p. 16). Essa compreensão enfatiza a realidade de adversidades ao processo de dar fruto. De fato, não se pode ignorar a existência de ouvintes que não assimilam a palavra, de outros que só de passagem a assimilam e ainda de outros que a rejeitam. Certamente devemos analisar a fundo as diferentes causas do insucesso de nossas propostas de pregação e edificação comunitária. Nem tudo pode ser justificado pela insensibilidade e indisposição dos ouvintes. Pode ser que a falta de fruto dependa também de uma maneira de pregar muito apelativa e psicologizante. Para não cair nesse perigo, talvez seja salutar ignorar, por um instante, a interpretação dada por Mateus e ater-se à parábola propriamente dita, sem ignorar a realidade de adversidades.

4. Contemplando a parábola à luz do contexto

Cientes dos condicionamentos que nossa história, experiência e vivência em família, comunidade, Igreja e sociedade nos impõem, aproximemo-nos do texto, dispondo-nos a ele.

Vejamos as cenas:

1ª – vv. 1-3: Jesus ensina sobre o mistério do Reino de Deus.

Ele sai daquela casa onde havia ensinado que se estabelecem novos laços de irmandade e fraternidade entre as pessoas que fazem a vontade de Deus. Agora ele senta à beira-mar. – Para descansar? – Para estar sozinho? Nada disso agora!

Grandes multidões acorrem para ouvir seus ensinamentos. Pessoas que ele havia identificado como “aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36). Pessoas desempregadas, dependentes de drogas e outros produtos químicos, crianças e mulheres que apanham em casa, pessoas idosas que se sentem um estorvo em casa e na sociedade, pastores e pastoras à procura de sucesso em seu trabalho, ...

Talvez pensemos: Ó, se também nós pregadores e pregadoras tivéssemos tanta gente afluindo a nossas pregações assim como acontece com Jesus ou lá na Igreja Universal! – Jesus, contudo, não parece sentir assim ao contar a parábola do semeador.

2ª – vv. 4-7: três partes da preciosa semente se perdem de uma ou de outra maneira. Que desperdício! Isso nenhum agricultor admite! Caso contrário, vai à bancarrota. É óbvio que na semeadura se perca algum grão isolado por razões diversas como a parábola indica, mas não três partes, o que daria um total de 75%. Justamente em cima do normal e do corriqueiro Jesus desenvolve a parábola. As grandes multidões que se achegam para ouvir Jesus não o iludem sobre a eficácia de seu ensino.

Isso não tem somente a ver com as descobertas que a ciência hoje nos apresenta sobre o processo da comunicação. Sem dúvida, importa considerar questões como, por exemplo, de linguagem, ambiente, exploração dos diferentes sentidos de percepção, contexto, ...

Sem dúvida, Jesus era o comunicador por excelência. Contudo, chegou a desesperar da inércia e incompreensão dos próprios discípulos (Lc 18.34). Isso faz parte de sua cruz, provocada pelo choque que sempre surge quando o passageiro e relativo se defrontam com o eterno e absoluto.

3ª – v. 8: outra parte da preciosa semente não se perde, cai em terra boa e fértil, germina, cresce viçosamente, forma espigas com cem, sessenta, respectivamente trinta grãos. Dá para ver a abundância de fruto! Todo esforço de semeadura e cultivo, que aparentemente parecia em vão, é coroado com extraordinário êxito. Alegria e felicidade para quem semeou e para a própria semente. Pois ela cumpriu sua finalidade de redundar em fruto. Alegria para aquela pessoa que por ela foi alcançada e transformada. É alegria escatológica, sim! Alegria e gratidão que contagiam e envolvem toda a criação. Fazem o universo entoar um hino de louvor e adoração a Deus, que possibilita esse milagre da vida abundante.

Dessa vida abundante, que envolve todas as esferas e todos os níveis, escreve Uwe Wegner. Ela envolve saúde, relações sociais, comida, eliminação de dívida, etc.

Já que a parábola culmina no fruto abundante, entende-se que as adversidades e a cruz não terão a última palavra, mas sim a vida em abundância. É assim no Reino de Deus! Disso sabemos desde a Páscoa. Por isso, não mais precisamos desanimar diante de insucessos, mas continuamos com a semeadura, intensificando o esmero com o preparo da semente e do solo e com o cultivo. Nesse sentido, sentimo-nos animados a juntar nossos esforços com vistas ao recriar e criar comunidade juntos, como propõe o Plano de Ação Missionária da IECLB. Sabemos que, no final, haverá fruto abundante. Por cada sinal de fruto que, porventura hoje, já dê para ver, alegramo-nos, louvando ao Senhor da colheita.

5. Pensando no culto

Intróito: Como palavra serve Rm 8.18 ou como leitura responsorial Sl 65.8-13.

Confissão de pecados: Senhor, bondoso Deus, tu és o criador e mantenedor da vida. Tu terás a última palavra sobre todos os poderes da não-vida. Nós, porém, nos esquecemos disso tão facilmente quando nos defrontamos com adversidades e insucessos. Acontece que desanimamos, trabalhando apenas por obrigação, sem alegria e sem convicção. Assim damos mau testemunho de teu poder. Perdoa-nos e renova nossa esperança e confiança em ti, por causa de Jesus Cristo, que vive e faz viver. Ouve-nos quando cantamos: Senhor, tem piedade! (3 vezes)

Palavra de absolvição: Assim diz o Senhor ao seu povo desanimado, que se volta para ele: Is 55.10s. Por isso, cantemos com os anjos natalinos:

Glória, glória, glória a Deus nas alturas ... (Taizé).

Oração do dia: Louvado sejas, misericordioso Deus, porque derramas chuvas de bênção sobre tudo o que vive. Tu dás a boa semente, que produz o pão de cada dia. Faze com que hoje experimentemos o poder de tua palavra, que recria e cria. Na contemplação de tua palavra, ajuda-nos a perceber algo do mistério da vida eterna, a fim de que sejamos reanimados e revigorados, com vista a semear a semente de teu Reino em nossos dias. Isto te pedimos por causa de Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo vive e reina eternamente. Amém.

Prédica: Ela pode seguir as cenas indicadas. Destaca-se o milagre do fruto abundante apesar de tanto insucesso. Deus mesmo opera esse milagre, hoje já em forma de sinais, utilizando nosso empenho e esmero.

Aspectos para a oração final: Louvor e adoração pela perspectiva do fruto abundante no final dos tempos; agradecimento por sinais de fruto já agora; pedido por todas as pessoas que voluntária ou profissionalmente atuam na comunidade, no sínodo e na igreja – para que Deus as fortaleça em sua fé e esperança, para que se unam e se estimulem mutuamente e semeiem com perseverança, para que por seu testemunho surjam sinais concretos de fruto da vida abundante para toda a criação, especialmente onde ela mais falta e mais estiver ameaçada.

Bibliografia

BORNKAMM, Günther. Überlieferung und Auslegung im Matthäu-sevangelium. 5. ed. Neukirchen : Neukirchener, 1968.
GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. 5. ed. Berlin : Evangelische Verlagsanstalt, 1981.
HUBEL, Uli, LANGENBACH, Uwe. Sexagesimae Lucas 8,4-15. In: LANGE, Ernst et alii (Coords.). Predigtstudien zur Perikopenreihe I. Berlin : Kreuz, 1972. p. 125-130.
JEREMIAS, Joachim. Die Gleichnisse Jesu. 7. ed. Göttingen : Vandenhoeck & Ruprecht, 1965. p. 149-50. (cf. também As parábolas de Jesus. 2. ed. São Paulo. Paulinas, 1978.).
WEGNER, Uwe. Mateus 13.1-9. In: SCHNEIDER, Nélio, DEIFELT, Wanda (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1995. v. 21, p. 196-202.
SCHREIER, Christian. 15. Sonntag im Jahreskreis (A) Matthäus 13,1-9(1-23). In: RUHBACH, Gerhard, et alii (Eds.). Meditative Zugänge zu Gottesdienst und Predigt : v. VII, 2: Marginaltexte (LPO)/ Evangelientexte (OLM). Göttingen : Vandenhoeck & Ruprecht. p. 247-251.

Proclamar Libertação 27
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Günter Karl Fritz Wehrmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 8º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 13 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2001 / Volume: 27
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7013
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