Mateus 13.1-9,18-23

Auxílio Homilético

13/07/2014

Prédica: Mateus 13.1-9, 18-23
Leituras: Isaías 55.10-13 e Romanos 8.1-11
Autoria: Aline Danielle Stüewer e Joel Haroldo Baade
Data Litúrgica: 5º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 13/07/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII

1. Introdução

O texto de Mateus 13.1-9,18-23 já foi quatro vezes estudado em Proclamar Libertação (XXI, XXVII, XXX e XXXV); portanto procura-se esboçar neste auxílio homilético algumas reflexões que complementem e/ou contribuam para uma perspectiva nova.

Os três textos indicados falam da transformação que a palavra de Deus opera na vida daquelas pessoas que a ouvem. No texto do evangelho, a parábola do semeador fala dos tipos de ouvintes que o semeador ou o pregador encontram. Nem sempre o semeador encontra pessoas realmente dispostas a viver o reino de Deus. A pessoa que vive o evangelho produz frutos. O texto de Isaías fala que a palavra de Deus é viva e eficaz. O texto de Romanos fala que a pessoa que está em Cristo vive uma vida dominada pelo Espírito Santo e não mais pela natureza pecaminosa.

2. Exegese

O evangelista Mateus, ao que tudo indica, dirige o seu discurso a uma comunidade judaico-cristã que atua na missão aos pagãos.

Um problema fundamental da comunidade de Mateus reside, da perspectiva do evangelista, no fato de que “o amor dos muitos esfria” (24.12). Como motivo, ele cita o aparecimento da “iniquidade”. Em outra passagem, fica claro que ele, com essa censura, tem em vista pessoas na comunidade, que, embora confessem Jesus Cristo como Senhor, não “praticam a vontade do Pai que está nos céus” (7.21). O evangelista esforça-se, portanto, em estabelecer normas de conduta cristãs que tenham representatividade (BULL, 2009, p. 16).

Mateus 13.1-9,18-23 insere-se na segunda parte principal do evangelho (11.2-16.20), onde o evangelista descreve a intensificação do conflito em torno de Jesus e o surgimento da comunidade dos discípulos (BULL, 2009).

No capítulo 13, iniciam as parábolas sobre o Reino. Aparentemente, apesar de Jesus ter uma multidão que o seguia, ainda assim eram poucas as pessoas que realmente haviam compreendido a palavra de Deus. Jesus inicia contando a parábola do semeador, o joio e o trigo, o grão de mostarda e o fermento, o tesouro escondido, a pérola, a rede (BULL, 2009).

Para a melhor compreensão do texto, cabe observar inicialmente a sua estrutura
(LÜCKEMEYER, 2005):

v. 1-3a: introdução

v. 3b-8: a semente nos quatro tipos de solo

v. 9: chamado de alerta/conclusão

v. 18-23: interpretação

V. 1-3a: Introdução – Os três primeiros versículos da perícope apresentam o cenário em que se desenrolam os acontecimentos. A situação não é nova; Jesus ensina o povo, e muitas pessoas vão a seu encontro. Também não se trata de uma narração isolada, mas em continuidade ao que foi relatado na perícope anterior (Mt 12.46-50), em que Jesus ensina algumas pessoas, aparentemente, no interior de alguma edificação, pois alguém lhe comunica que “tua mãe e teus irmãos estão lá fora” (Mt 12.47). A ligação com a situação anterior é feita através da expressão “naquele mesmo dia” (v. 1). A situação relatada expressa bem o crescimento da popularidade de Jesus, pois mais e mais pessoas vêm a seu encontro com os mais diversos anseios, tanto que Jesus é obrigado a se dirigir para um local aberto, acomodando-se sobre um barco à beira de um lago, de onde poderia ser visto e ouvido por um número maior de pessoas. Contudo o chamado de alerta no v. 9 e a explicação oferecida a partir do v. 18 podem ser indicativos de que nem sempre esses anseios são realmente uma busca autêntica do reino de Deus. Nesse sentido, a parábola contada por Jesus a partir do v. 3 pode ser um recurso linguístico para chamar a atenção das pessoas sobre esse fato. Entende-se que a discussão sobre a originalidade das parábolas ou sua elaboração posterior pelas primeiras comunidades cristãs não influenciam a interpretação sugerida.

Mas por que falar em parábolas e não de uma forma direta? Conforme Blasi (2010), elas poderiam ser uma forma de facilitar o entendimento da mensagem do Reino, embora muitas pessoas as interpretassem apenas como histórias bonitas. Além disso, a comunicação indireta por meio de parábolas pode ter sido empregada por Jesus não apenas para facilitar a compreensão, pois eventualmente a mensagem também seria compreendida por meio de uma comunicação mais diretiva, mas justamente para evitar cair no que se chama em sociologia de “dinâmica da diferença”. Ou seja, quando alguém diz algo contra outrem de modo direto, esse, no intuito de preservar a sua identidade, insiste justamente nas suas antigas convicções; é o famoso “ser do contra”. O recurso a parábolas pode justamente ter sido uma forma de evitar que se caísse nessa armadilha.

V. 3b-8: A semente nos quatro tipos de solo – Estes versículos apresentam a parábola propriamente dita. Fala-se de um semeador que saiu para semear, sendo que caíram sementes em quatro diferentes tipos de solo: à beira do caminho, no solo rochoso, entre os espinhos e na terra boa. Somente terra boa oferece as condições ideais para que as sementes germinem e gerem muitos frutos. Duas oposições parecem relevantes na parábola: a terra ruim e a terra boa; a situação sem frutos e o frutificar. De qualquer forma, parece claro que não há meio-termo; não se pode ser meio cristão; ou a pessoa é cristã ou não é. É interessante ainda notar que o semeador não desiste de semear. Ele continua fazendo a sua tarefa, mesmo que diversas tentativas de semeadura tenham sido aparentemente em vão. Ele confia que sua tarefa, de uma forma ou de outra, vai ser concretizada.

V. 9: Chamado de alerta/conclusão – “Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça.” Jesus usa essa frase em diversas passagens quando quer chamar a atenção dos ouvintes. Ela aparece como um indicativo de que há pessoas ouvindo a Palavra, mas nem todas se deixam transformar por ela (Lc 14.35; Mt 11.15; Mt 13.43).

V. 18-23: Interpretação – Na interpretação, deixa-se de empregar a linguagem indireta e passa-se a utilizar a linguagem direta. Os diferentes tipos de solo em que caem as sementes, ou seja, a mensagem do Reino, são os diferentes tipos de atitudes em relação à pregação da mensagem do evangelho.

3. Meditação

Como é chato conversar com alguém e, de repente, perceber que o olhar e o pensamento daquela pessoa estão longe. Ela faz de conta que está prestando atenção, mas, na verdade, está preocupada com outras coisas e não com aquilo que você está falando. Jesus também percebeu que muitas pessoas apenas “faziam de conta” que se importavam com o que ele falava, pois não colocavam em prática os seus ensinamentos. Jesus percebeu que nem sempre as suas palavras chegavam ao coração das pessoas.

Muitas vezes, percebemos que as pessoas, apesar de ouvirem as prédicas proferidas nos cultos, têm dificuldades para viver aquilo que ouvem. É a famosa frase: “Entra por um ouvido e sai pelo outro”. Às vezes, se tem a impressão de que, ao entrar na igreja, algumas pessoas pegam a “roupa de cristão” e vestem. Ao saírem da igreja, penduram a sua “roupa de cristão” atrás da porta. Dizem que ser cristão é fácil; viver os ensinamentos de Cristo é um desafio.

Na parábola do semeador, Jesus mostra que nem sempre o semeador vai encontrar um solo que logo produza frutos. Muitas vezes, a palavra de Deus não vai encontrar espaço na vida das pessoas. Quantas vezes Deus tem falado conosco e não lhe damos ouvido! Quantas vezes escutamos a palavra de Deus? Até fazemos de conta que nos importamos, mas, na verdade, ela não encontra solo fértil em nossos corações.

Nem sempre a palavra de Deus encontra solo fértil para frutificar. Quem sabe muitas pessoas pensem: “Ah, eu sou um solo muito fértil, que dá frutos. Afinal, participo das atividades da igreja, faço minhas orações e leio a Bíblia”. Precisamos lembrar que os solos que não produziram frutos também receberam a semente. A diferença é que o solo fértil não apenas recebe a semente, mas essa frutifica.

As pessoas nas quais a palavra de Deus encontrou solo fértil não só ouvem a Palavra, mas a vivem; perdoam, não só falam do perdão; buscam a paz nos relacionamentos difíceis e não o ódio e a mágoa; vivem o amor ao próximo, não só falam dele.

Jesus quer semear vida em nossas vidas. Não uma vida qualquer, mas uma vida com Deus. Uma vida que não só fala de paz, mas transpira paz. Uma vida que não só fala de amor, mas transpira amor. Uma vida que não só fala de esperança, mas transpira esperança.

Apesar de nem sempre encontrar solos férteis, o trabalho do semeador é semear. O semeador semeia, pois sabe que o frutificar depende de Deus. O semeador é teimoso e persistente, pois sabe que a palavra de Deus tem o poder de transformar os solos mais pedregosos e espinhosos em solos macios e férteis.

4. Imagem para a prédica

Para ilustrar o quanto as pessoas têm facilidade para esquecer o que a palavra de Deus diz, sugere-se contar a seguinte estória:
“Num dos cultos, o pastor subiu ao púlpito com seu aparelho de barbear, bacia, água, espuma, caneca, espelho e toalha. Nem sequer cumprimentou a comunidade e, tranquilamente, colocou água na bacia, testou a temperatura, ajeitou o espelho, pegou uma caneca, fez espuma, passou na cara e começou a se barbear.

“No final, quando todos esperavam que o pastor fosse fazer um desfecho maravilhoso, fosse apontar-lhes a ‘moral da história’, ele simplesmente enxugou o rosto com a toalha, encerrou o culto e despediu o povo de volta para as suas casas. O povo comentou o fato todos os dias, tentando adivinhar o significado de tudo aquilo: ‘Que mensagem ele nos quer passar?’

Dias depois, quando ele subiu novamente naquele púlpito, a igreja estava cheia. O pastor olhou para a comunidade e disse:

– Sei que vocês querem saber o significado do que fiz aqui neste púlpito na semana passada. Bem, eu vou lhes dizer: não há significado algum. Nenhum simbolismo. Nenhuma mensagem. No entanto, se podemos tirar alguma lição disso tudo, é a seguinte: Há anos eu venho apresentando a vocês a mensagem bíblica, mas não tenho visto nenhuma mudança em suas vidas. Minhas mensagens têm caído no esquecimento tão logo vocês saem do templo. Eu gostaria que vocês comentassem meus sermões durante a semana, do mesmo modo que se dispuseram a comentar o meu barbear nesses últimos dias, ou será que a minha barba é mais importante para vocês que a palavra de Deus?” (Autor desconhecido)

5. Subsídios litúrgicos

Seria interessante colocar um vaso com barro no altar e deixar algumas sementes espalhadas na igreja. No final da pregação, convidar as pessoas para pegar algumas sementes e levá-las ao vaso com barro, dizendo: “Que a palavra de Deus encontre solo fértil em minha vida”.

Sugestão de hinos: HPD 2 nº 380, nº 390, nº 449, nº 490; O Povo Canta nº 57.

Bibliografia

BLASI, Marcia. 4º Domingo após Pentecostes: Mateus 13.1-9,18-23. In: VOLKMANN, Martin (coord.). Proclamar Libertação, v. 35. São Leopoldo: Sinodal, 2010. p. 240-245.
BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento: história, contexto e teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009.
LÜCKEMEYER, Valdemar. 8º Domingo após Pentecostes: Mateus 13.1-9. In: HOEFELMANN, Verner; SILVA, João Arthur Müller da. Proclamar Libertação, v. 30. São Leopoldo: Sinodal, 2004. p. 189-192.


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Autor(a): Aline Danielle Stüewer e Joel Haroldo Baade
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 5º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 13 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 28656
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