Mateus 13.24-30 (36-43)

Auxílio Homilético

28/07/1996

Prédica: Mateus 13.24-30 (36-43)
Leituras: Isaías 44.6-8 e Romanos 8.26-27
Autor: Clemente João Freitag
Data Litúrgica: 9º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 28/07/1996
Proclamar Libertação - Volume: XXI


1. Introdução

O texto de Mt 13.24-30 é de cunho proclamatório (a vinda de Deus) e instrutivo (orientação teológica). É dirigido a uma grande multidão (Mt 13.1). Fala da proximidade de um reino que é para todos/as. Não só para alguns/mas, como na política, economia e religião da época. Mas também é dirigido a uma Igreja em crescimento e com profundas contradições na sua maneira de ser (v. 28). Essa Igreja vivia a ansiedade de modificar a situação existente. Apesar de não ser o Reino, já queria viver a perspectiva do juízo final, fazendo a cisão entre bons e maus. Nessa ação poderiam abortar o ensino da vinda de Deus. A pregação, o ensino da vinda desse reino glorioso liderado por um homem escolhido por Deus, é que encantava as multidões. Multidões que já estavam cansadas de guerrear política e militarmente contra seus opressores. A Igreja vivia atribulada pelo sofrimento injusto e precisava seguir firme na espera da vinda de seu Senhor. Estes são alguns elementos que envolvem a perícope.

A segunda parte da perícope indicada (Mt 13.36-43) é uma explicação da parábola que foi proferida publicamente (Mt 13.24-30). Esta explicação é feita dentro de casa, em um outro momento (v. 36). Uma conversa ao pé do ouvido. Um bálsamo para o espírito aflito dos discípulos/comunidade que ansiavam pelo imediatismo do julgamento final. Estavam cansados das injustiças e perseguições.

Assim sendo, não trabalharei os vv. 36-43. Recomendo ainda o trabalho de W. Witter, em Proclamar Libertação XVIII, p. 289ss., sobre o mesmo texto.

Na história do Reino, o joio também é semeado por alguém. É semeado enquanto os do trigo estavam dormindo. A situação é de joio, porque se estava dormindo enquanto o trigo ainda era semente. O conflito, a confusão, o sofrimento são lançados, mas o autor do joio vai embora. O joio ganha poder e finca pé.

Quem se identificou com o semeador sentiu o peso do sono. Por que foi dormir? Quem se identificou com a boa semente está apertado e misturado com o joio. Está como que amarrado. Duas frentes de batalha surgem. Uma com o inimigo interno, o sono; outra, com o inimigo externo que semeou o joio. Assim, o semeador é alguém que sofre, e o trigo também é sofredor. Essa possibilidade de identificação de cada oprimido com o sofrimento do semeador mexeu com a crença da multidão, despertando um sentimento crítico e uma sensação que resultaram no pedido de poder agir. São duas doutrinas que perpassam o indivíduo, a comunidade e a multidão.

V. 26: O conflito entre trigo e joio é visível. São duas doutrinas, duas grandezas do mundo e da vida com poder imenso. Temos tempo para ver cada um crescer e amadurecer. No granar é que joio e trigo se diferenciam. A diferença salta aos olhos. O confronto fica mais evidente.

V. 27: Os servos são possuídos por um sentimento crítico e de justiça formal. Ficam atribulados e em dúvida e intimam o proprietário. A semente parecia ser tão boa e agora está tudo misturado com o joio. Momento de angústia. A qualidade do plantio e a semente são contestadas. A demora da parúsia aumenta o seu sofrimento e modifica o tempo de espera.

2. O Texto

Mateus 13.24-30 faz parte das parábolas de cunho escatológico. Este relato é exclusivo do Evangelho de Mateus. Atende ao anseio dos ouvintes pela vinda de Deus. Traz em sua orientação teológica o cerne do entusiasmo dos ouvintes. Cada um, a multidão e a comunidade podiam sentir na pregação, como se já o estivessem vivendo, o futuro glorioso do reino dos céus. O relato expressa a dialética da vida no já e ainda não estar em definitivo com o Filho do homem entronizado.

V. 24: Multidão de ouvintes em pé na praia, ávidos por uma mensagem de esperança e vida digna. Tão sedentos pela ação de Jesus, que o obrigam a permanecer na água, dentro do barco. O ensino de Jesus parte de uma nova compreensão da existência humana. Valoriza o trabalho (semeador) e martela no anúncio da vinda de Deus, como algo iminente e palpável. Fala de um reino dos céus. Neste reino o trabalhador exigente usa o melhor em seu campo. Lança semente boa. É cativante saber que o Reino envolve um trabalho que era conhecido de muitos, mas também abandonado por outros tantos.

E chamativa a veemência do ensino (propôs-lhes...) sobre a realidade futura que já podia ser vista, sentida e vivida no presente.

V. 25: Apesar do cuidado com a semente, do capricho na preparação do campo, surge um inconveniente: o joio. Quem lida na lavoura sabe que o joio não precisa ser semeado. Ele nasce e cresce por si. Aqui não.

V. 28: Um senhor acessível e compreensível que os chama para a realidade e a responsabilidade. Fala aos servos de um inimigo poderoso que os confundiu. Com esta resposta, desperta nos servos uma vontade para a ação. Uma ação, não contra o inimigo, mas contra o joio. Não um ataque à causa, mas ao efeito (joio). São tomados por um espírito de divisão e purismo. Não refletiram sobre o custo desta ação. Seria a repetição das guerrilhas contra romanos e alguns judeus.

V. 29: A solução proposta pelos servos é contestada pelo Senhor. Seria uma atuação imediatista e que traria uma perda irreparável: ... arranqueis também o trigo. O joio certamente é mais resistente e poderia haver entrelaçamento de raízes. Ou, dito de outra forma, no ser humano coexistem o bem e o mal. Ainda, o Senhor estaria contestando o uso corriqueiro da justiça legalista que na certa causaria um massacre no trigo. Seriam colhidos pés de trigo sem estar no tempo da colheita. Seria como uma ação política de guerrilha contra opressores na qual, com uma reação destes, haveria a morte de inocentes sem mudar a situação de opressão.

V. 30: Tudo o que ocorreu do v. 24 ao v. 29 ainda não era o Reino. Não era o tempo da colheita. Foi semeado e estava em crescimento. Tempo de ação e espera. Tempo de aprender a distinguir os frutos do trigo dos do joio. Sem os separar.

Os servos não podem agir sem ordens do Senhor. Além disso, as diretrizes e o tempo da colheita emanam do Senhor. Só na colheita é possível separar o joio do trigo, sem causar dano ao semeador. Tudo isso foi feito para resguardar a qualidade da colheita. Na colheita o mal não tem mais poder de ação.

Enquanto a colheita não chegar, precisamos acordar e buscar a orientação, o ensino do Senhor para resguardar o trigo.

3. A Multidão Ouve!

Uma população ávida por mudanças. Uma Igreja em crescimento e perseguida. O período que antecedeu a redação do Evangelho de Mateus foi marcado por opressão econômica, política e religiosa. Saíram vitoriosos nesta luta os romanos e os judeus mais bem situados. Os demais sofriam calados após participarem de levantes políticos violentos liderados por visionários e nacionalistas.

Com a multidão sedenta para melhorar de vida e parar de sofrer, Jesus ensina por parábolas. Parábolas que evocam um reino, uma vida cheia de graça para uns e maldição para outros. Esse reino, essa vida cheia de graça vai ser liderado pelo Filho do homem. Isso não vai ocorrer do dia para a noite. Vai ser como uma safra/colheita. Vai ser algo diferente dos levantes políticos-militares, em que os opressores não serão os eternos vencedores. É proclamado um reino que ultrapassa a proposta sócio-econômica vigente. Um reino que seja o cumprimento das exigências da justiça. Um reino em que a luta com os opressores vai ocorrei em outra dimensão. A luta se dará só no tempo adequado: na colheita. Viver na esperança e já sentir no corpo um futuro glorioso traz um novo sentido para a vida. Este ensino começou a mudar o jeito de ser e crer da multidão/Igreja. Não mais um líder salvador, mas o Deus conosco, como no AT. Uni Deus que age na vida dos caminhantes e na história de cruz de cada um. Livrando-nos assim da pesada e cobiçada tarefa de julgar o joio. Mostrando-nos o valor c a necessidade da prática do ensino na e da vida de fé em obediência. Obediência que nos impede de calar ante as dificuldades e perigos das falsas doutrinas (joio).

4. Pistas para a Prédica

1) Leitura do texto de Mt 13.24-30.

2) Recontar o texto, dando ênfase ao período que separa o colher do semear. É o tempo de acordar, ver as doutrinas e ensinar, ativando assim a compreensão da tarefa dos servos, que não é colher o trigo antes do tempo. É ensinar a distinguir o trigo do joio.

3) A descrição do mistério que envolve o semear até o colher foi um parâmetro para o ensino do reino do Deus. Jesus priorizou o ensino às multidões, aos discípulos e às pessoas particularmente, devolvendo-lhes a dignidade humana. Apresentar e avaliar a comunidade/Igreja como mola propulsora do ensino. Pois uma das premissas do terceiro milênio é o ensino em todos os níveis. Na minha compreensão, o ensino sobre o Reino, o tempo que Jesus/ comunidade dedicou ao ensinar às multidões é que diferenciou a proposta cristã dos movimentos armados e outros. Assim, a pregação oriunda deste texto pode incrementar, despertar uma maior ansiedade pelo ensino da vida abundante.

5. Bibliografia

BRAKEMEIER, G. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo, 1974.
KONINGS, J. Meditação sobre Mt 13.24-43, Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, vol. 38, fase. 154, 1978.
RIENECKER, F. Das Evangelium des Matthäus. 2. ed. Wuppertal, Brockhaus, 1961.
WITTER, W. Meditação sobre Mt 13.24-30(36-40). In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, Sinodal, 1992. vol. XVIII.


Autor(a): Clemente João Freitag
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 9º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 13 / Versículo Inicial: 24 / Versículo Final: 30
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14253
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Jamais a fé é mais forte e gloriosa do que ao tempo da maior tribulação e tentação.
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