Mateus 14.22-33

Auxílio Homilético

11/08/2002

Prédica: Mateus 14.22-33
Leituras: Salmo 85.8-13 e Romanos 9.1-5
Autor: Edson Edilio Streck
Data Litúrgica: 12º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 11/08/2002
Proclamar Libertação - Volume: XXVII
 

1. A moldura do texto e sua localização em outros evangelhos

Em dois outros evangelhos, encontramos a narração desse episódio: Marcos (6.45-52) e João (6.15-21).

Em João, como em Mateus e Marcos, esse episódio também é antecedido pela multiplicação de pães e peixes. Depois, porém, o evangelista comenta a procura do povo por Jesus, o que dá origem a suas conhecidas palavras sobre o “pão da vida”. Em João, o formato do texto é mais singelo: “Ao descambar o dia, os discípulos (por iniciativa própria?) tomam um barco. Já é escuro, e Jesus ainda não está com eles. Sopram ventos fortes. O mar se agita. Em meio ao trajeto, longe da margem, os discípulos vêem Jesus andando sobre o mar, aproximando-se do barco. Ficam possuídos de medo. Jesus, porém, identificando-se, acalma-os. Eles o acolhem, de bom grado. E o barco chega a seu destino.”

Em Marcos, a moldura em que esse texto se encontra é semelhante à do Evangelho de Mateus. Antes desse episódio, é narrada a multiplicação de pães e peixes. Depois, ambos os evangelistas comentam que Jesus, tendo chegado ao outro lado, a Genesaré, cura muitos enfermos. Marcos narra praticamente os mesmos detalhes trazidos por Mateus. Omite, em relação a Mateus, todo o episódio que envolve Pedro.

Mateus é, portanto, o único que narra a cena de Pedro, traz o diálogo entre Jesus e os discípulos e apresenta a confissão cristológica dos discípulos.

2. O texto, com comentários

V. 22a – “Jesus compele os discípulos a embarcarem e passarem adiante dele para o outro lado do lago.”

Após a multiplicação de cinco pães e dois peixes, de forma a alimentar cinco mil homens, além de mulheres e crianças, Jesus praticamente força seus discípulos a entrarem num barco. Outras versões empregam os termos: Jesus ordena, obriga os discípulos a entrarem no barco.

Jesus também define o objetivo da viagem: alcançar a outra margem. E os discípulos seguem a ordem de Jesus. Não agem por conta própria.

O barco tem sido um dos símbolos mais usados para descrever o ser Igreja: “Qual barco singra pelo mar a Igreja do Senhor” (Hinos do Povo de Deus, nº 98). “Os que estavam no barco” (v. 33) representam a comunidade cristã em todos os tempos e lugares, ao longo destes quase dois mil anos de existência da Igreja.

Quem em-barca obedece à voz de quem comanda o barco. Quem em-barca deve conhecer o destino da viagem. Quem em-barca deve ter noção inclusive dos perigos que rondam uma viagem. O convite para seguir a Jesus não é garantia para a fé, mas é um convite que garante profundas experiências com ele.

Segundo Mateus, essa é a primeira vez que Jesus se separa de seus discípulos. Esse é o primeiro momento em que os discípulos, como grupo, ficam entre si, sem seu mestre. Que viagem! Antecipa-se, assim, de certa forma, a realidade que os discípulos viverão a partir do momento em que Jesus, após sua morte, não mais estará presente em sua vida diária. A comunidade, à qual Mateus se dirige, saberá apropriar-se muito bem desse relato e conseguirá traduzir sua mensagem para seu dia-a-dia.

V. 22b – “Jesus despede as multidões.”

Enquanto isso, Jesus despede as multidões. Ele dedica um pouco mais de tempo ao povo que vai à sua procura e vem ao seu encontro. Antes, Jesus havia se negado a despedir a multidão com fome (Mt 14.15). Agora que ela está devidamente alimentada, quer despedi-la também com sua palavra e atenção.

V. 23 – “Jesus sobe ao monte, a fim de orar sozinho. Caindo a tarde, lá está ele, só.”

Montanhas ocupam lugar de destaque na história de Israel. Também na vida de Jesus, são vários os momentos em que ele vai a um monte, especialmente naqueles momentos em que sente necessidade de retirar-se. Busca espaço para meditar e orar.

Jesus praticamente nunca está sozinho. Tem a todo instante o grupo de discípulos a seu lado. Mateus narra que, após sofrer rejeição em sua terra natal e receber a notícia da morte de João Batista, Jesus se retira. Busca um barco e se afasta (Mt 14.13). Precisa estar só. Agora, após a multiplicação de pães e peixes e das conseqüências que esse milagre pode trazer para sua vida, Jesus mais uma vez se retira para orar. Quer estar só.

V. 24 – “Enquanto isso, o barco com os discípulos já está longe. Navega contra o vento e é açoitado pelas ondas.”

Para a comunidade à qual Mateus escreve, o mar é sinônimo de perigo. Simboliza o caos, as forças contrárias à criação. Traz destruição. É ameaça de morte.

Nesse momento, essa visão do mar é extremamente exata para os discípulos de Jesus. É o que estão sentindo na carne. O barco já se encontra longe da margem da qual partiu. Não consegue, porém, alcançar o outro lado do lago, porque o vento sopra em direção contrária e com muita força. O vento, além disso, produz ondas que açoitam o barco. Outras versões trazem os termos: ondas batem, torturam, castigam o barco.

Há outros relatos sobre experiências que os discípulos têm num barco, na presença de Jesus. Em Mt 8.23-27 – e nos textos paralelos – é narrado um momento em que uma tormenta os surpreende. Jesus está dormindo. Os discípulos o acordam, porque têm medo de morrer. Jesus, então, repreende o vento e as ondas, que se acalmam.

V. 25 – “Já é madrugada, quando Jesus vai ao encontro dos discípulos, andando sobre o mar.”

Entre três e seis horas da manhã, em plena madrugada, portanto, Jesus vai ao encontro de seus discípulos, que há horas lutam desesperadamente contra as forças da natureza que ameaçam destroçar o barco.

Nada vai impedir Jesus de socorrer seus discípulos, quando estes se encontram em dificuldade.

V. 26 – “Os discípulos vêem Jesus andando sobre as águas. Ficam aterrados e exclamam: ‘É um fantasma!’ Tomados de medo, gritam.”

Muitos dos discípulos são pescadores. Conhecem o ambiente em que se encontram. Mas este, no momento, é-lhes muito hostil. A água é funda. As ondas são fortes. O vento é contrário. O barco é frágil. A noite é escura. A luta é longa. Já é madrugada. A morte ronda. Não bastasse tudo isso, ainda vêem alguém perambulando sobre as águas. “Um fantasma!” Se a situação já estava péssima, piorou! Estão totalmente à mercê de forças inimigas.

No fundo, ao ver o “fantasma”, os discípulos sabem que se trata de Jesus. O medo, porém, toma conta deles. Ficam apavorados e se põem a gritar.

Segundo crença de povos antigos, andar sobre as águas é algo possível somente para Deus. Jesus, portanto, que multiplica pães e peixes, que sacia a fome de multidões, que cura doentes, não é um mágico. Uma única explicação é possível: o poder que dele emana somente pode ser o poder de Deus.

Às forças externas, da natureza, somam-se forças internas que cada ser humano e cada comunidade têm: medo, dúvida, falta de esperança, pequena fé, pânico...

Por conta própria, os discípulos, mesmo tendo vários pescadores em seu meio, não sabem o que fazer. Se sabem, sua ação não produz o efeito desejado. Daí resulta o medo. E passam a ver fantasmas.

V. 27 – “Imediatamente Jesus lhes fala: ‘Tenham coragem! Sou eu! Não tenham medo!’”

Com sua palavra, Jesus não apenas se identifica, mas acalma e busca encorajar seus discípulos. Em outros momentos de sua convivência com os discípulos, inclusive após sua morte, quando estão tomados de medo, Jesus repetirá estas palavras: “Não tenham medo!” (Mt 28.5,10).

A ajuda de Jesus começa com a palavra que acalma, tranqüiliza e consola, e não diretamente com o afastamento da dificuldade. Ele quer ajudar, encorajar e fortalecer, dessa forma, seus discípulos, para que reúnam as forças necessárias para superar dificuldades e medos que os sobressaltam.

Que há fantasmas, há! Psicólogos nos ajudam a ver a necessidade de dar-lhes os nomes. No momento em que identificamos os fantasmas que assombram nossa vida e conseguimos chamá-los por seu nome, a vitória sobre eles está encaminhada.

V. 28 – “Pedro responde-lhe: ‘Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas!’”

O Evangelho de João narra um acontecimento parecido entre Pedro e Jesus. Após sua ressurreição, ao clarear da madrugada, Jesus procura seus discípulos. Estes se encontram-se pescando num barco, não muito distantes da terra. Pescam sem sucesso. Da praia, Jesus, ainda não reconhecido por eles, ordena que lancem a rede à direita do barco. É muito grande a quantidade de peixe que retiram. Pedro imediatamente reconhece que se trata de Jesus e se lança ao mar, ao encontro de seu Senhor (Jo 21.4-8).

Esse episódio de Pedro, porém, que chega a caminhar sobre as águas, é exclusivo de Mateus.

V. 29 – “Jesus diz: ‘Vem!’ Pedro desce do barco, anda sobre as águas e vai até Jesus.”

Jesus fala. E Pedro obedece, realizando algo “impossível”. Mateus descreve com a naturalidade de quem relata algo do cotidiano: ele desce do barco e anda sobre as águas.

V. 30 – “Mas Pedro repara na força do vento e tem medo. Começando a afundar, ele grita: ‘Salva-me, Senhor!’”

Basta um desvio da atenção, que estava voltada para um só objetivo (obedecer ao comando da voz de Jesus e ir ao encontro dele), para que a realidade, com seus desafios, semeasse a dúvida em seu coração. E imediatamente Pedro começa a afundar. No momento de extremo medo, sentindo a morte a sufocá-lo, Pedro grita para ser salvo. Busca em Jesus sua salvação.

No exato momento em que Pedro sucumbe, está o ponto alto da fé. Pedro não pode salvar-se por força própria. Somente Jesus pode salvá-lo. Seu grito por socorro é o grito da fé, dado por um discípulo no ponto mais agudo de seu desespero. Ele percebe que tornou-se cem por cento dependente de seu Senhor.

Jesus carrega nossa fé, que, se dependesse apenas de nossa ação, afundaria. Onde tudo depende de Cristo, até mesmo a pessoa fracassada pode ser seu discípulo. Como Pedro, assim nós.

V. 31 – “E prontamente Jesus estende a mão, agarra Pedro e lhe diz: ‘Homem de pequena fé, por que duvidaste?’”

Se no barco cada comunidade cristã se reconhece, com Pedro cada cristão se identifica. O grito de Pedro por socorro e salvação é o grito do povo hoje. É a oração de cristãos, de comunidades. É a prece da Igreja.

Jesus não critica Pedro por este não ter fé. Aponta para sua fé, mas comenta que é pequena, porque deu espaço à dúvida.

Quando Jesus chama, não há espaço para dúvidas. A palavra dúvida encerra o significado: duas vias. Na língua alemã fala-se em Zweifel, zweifältig: duas possibilidades. O mesmo sentido tem a palavra grega nesse texto. Estar em dúvida é como encontrar-se numa encruzilhada que aponta duas vias e tentar colocar um pé em cada caminho. É tentar pisar em duas direções, desejando ir por dois caminhos ao mesmo tempo.

Se o cristão tem o foco de sua vida em Cristo e vai decididamente ao encontro de sua palavra, então experimenta a força do amor de Jesus que convida, estende a mão, ampara e salva. Se, nesse caminho, as ondas conseguem turvar sua vista e o levam a afundar os passos, a ponto de se afogar na realidade que o cerca, é necessário reconhecer quem é o único Senhor capaz de salvar e gritar pela salvação. Aos que estão em dúvida e chamam por ele, Jesus estende a mão.

No caminho de quem obedece a Jesus, não há espaço para que adversidades e dificuldades falem mais alto. Quem tem fé vê as ondas, mas consegue ver, através delas, a Jesus. Quem tem fé percebe a força dos ventos, mas ouve, além deles, o convite de Jesus: “Vem!”

A crítica a Pedro não se dá por tentar algo impossível, mas dar espaço ao medo em plena empreitada. Tirar Jesus de vista, mesmo que seja por alguns segundos, para dar atenção às ondas e ao vento, é o suficiente para voltar à realidade que nos suga e quer afundar.

V. 32 – “Então os dois sobem para o barco. E o vento se acalma.”


A natureza obedece a Jesus. Antes, Jesus havia dominado a fome de uma multidão. Há instantes, havia dominado o pânico de seus discípulos. Agora, domina o mar revolto, os ventos e as ondas. Ao desembarcar no outro lado, revelará mais uma vez seu domínio sobre a doença, curando todos os enfermos que lhe são trazidos.
O mar faz parte da criação de Deus. Como tal, é-lhe submisso. Não pode separar ninguém de Deus. Assim, as tormentas (fatores externos) e os tormentos (fatores internos) que tentam nos abalar, arrastar consigo e fazer sucumbir não resistem ao poder de Deus.

V. 33 – “Os que estão no barco o adoram, dizendo: ‘De fato, és o Filho de Deus!’”

O episódio culmina com um sinal de adoração e com uma confissão de fé por parte daqueles que estão no barco.

Milagres não estão aí para serem provados, mas provocam uma resposta de fé, por parte dos seres humanos, à ação de Deus em seu favor.

Os que estão no barco – também hoje – têm seus momentos de falta de fé, ou melhor, de pequena fé, de medo, de terror. Mas também vivem momentos de obediência, de diálogo com Jesus, de oração, de agradecimento, de confissão de fé.


Bibliografia

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WITTER, Teobaldo. Meditação sobre Mateus 14.22-33. In: SCHNEIDER, Nélio, WITT, Osmar (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1998, v. 24, p. 249-54.

Proclamar Libertação 27
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Edson Edilio Streck
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 12º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 33
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2001 / Volume: 27
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7016
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