Mateus 15.(10-20) 21-28

Auxílio Homilético

17/08/2008

Prédica: Romanos 10.5-15
Leituras: Isaías 56.1, 6-8; Romanos 11.1-2a, 29-32
Autor: Vera Weissheimer
Data Litúrgica: 14º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 17/08/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII


1 Introdução
A nossa perícope está inserida em um contexto de controvérsias sobre algumas aplicações da lei mosaica. O evangelista Mateus “sustenta categoricamente que Cristo, longe de abolir a lei, cumpre-a, isto é, confere-lhe plena validade. (...) ‘nem um só i, nem uma só vírgula da lei será omitida’ (Mt 5.18)” (Zumstein, p. 47).
As controvérsias quanto à aplicação e interpretação da lei que permeiam os questionamentos dos fariseus e doutores da lei apresentam também um Jesus que reivindica para si a justa interpretação da Torá. As prescrições da lei, sobretudo para os círculos deuteronomistas, remontavam ao próprio Deus (Êx 18.15). A lei era, portanto, uma exigência incondicional de Deus a todos os membros de seu povo.
Para o Novo Testamento, “Cristo é o fim da lei” (Rm 10.4). Essa frase tem duplo sentido: de um lado, o evangelho completa a lei, porque a lei foi o caminho pedagógico que conduziu a Cristo (Gl 3.23); de outro, o evangelho significa o fim da lei, isto é, a lei acaba conforme as palavras de Jesus: “A lei e os profetas prevaleceram até João; desde então é anunciado o reino de Deus” (Lc 16.16). Para o quarto evangelista, a lei foi substituída pelo mandamento de Cristo, sobretudo pelo mandamento do amor (Jo 12.50; 13.34; 15.12).
A reinterpretação da lei ocorre em Jesus através de dois caminhos:
a – A vontade originária do Pai – Mt 15.1-3: “Por que é que os seus discípulos comem sem lavar as mãos, desobedecendo assim os ensinamentos que recebemos dos antigos? E por que é que vocês desobedecem ao mandamento de Deus e seguem os seus próprios ensinamentos?”.
b – O mandamento do amor – Mt 23.23: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Pois vocês dão a Deus a décima parte até mesmo da hortelã (...) mas não obedecem aos mandamentos mais importantes da lei, que são: o de serem justos com os outros, o de serem bondosos e o de serem honestos. Mas são justamente essas coisas que vocês devem fazer, sem deixar de lado as outras”.

2 Exegese
Ler o texto que antecede a perícope dá-nos uma clareza sobre os assuntos que permeavam a fala de Jesus no momento em que ocorre o encontro com a mulher cananéia (o evangelista Marcos – 7.24-30 – retrata-a como uma grega de origem sírio-fenícia). Nos v. 10-20, o que está permeando o discurso é a justa interpretação da lei, o ponto nevrálgico nas controvérsias entre Jesus e seus opositores. Quanto a esses questionamentos, Jesus esclarece de forma muito pedagógica:
Não é o que entra pela boca que faz com que alguém fique impuro. Pelo contrário, o que sai da boca é que pode tornar a pessoa impura.(...) O que entra pela boca vai para o estômago e depois sai do corpo. Mas o que sai da boca vem do coração. É isso que faz com que a pessoa fique impura. Porque é do coração que vêm os pensamentos maus (...). São essas coisas que fazem com que alguém fique impuro. Mas comer sem lavar as mãos não torna ninguém impuro (17-20).
É no contexto dessa controvérsia entre dois pontos de vista – uma fé pautada pela lei humana ou uma fé pautada por leis que vêm do coração – que se dá o encontro entre Jesus e a mulher. A mulher não deveria estar ali: aos olhos dos “homens da lei”, ela não compartilha da mesma fé, portanto é indigna e pagã. Se no texto anterior à nossa perícope Jesus questiona quanto ao uso da lei, aqui o que está em jogo é quem são “os filhos e filhas de Deus” que têm acesso ao pão que está sobre a mesa (v. 26).
É possível seguir duas trilhas de interpretação das reações de Jesus. A primeira é seguir o caminho de um Jesus que por meio de seu silêncio e aparente dureza de coração – “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” – põe à prova e depura a fé da mulher. Ele está se dirigindo “para a região de Tiro e Sidom”, cidades da Fenícia, região pagã. O que estaria ele querendo nessa região, sendo que no texto seguinte ele e os discípulos voltam através das terras de Sidom para o mar da Galiléia (Mc 7.31)?
A segunda possibilidade é a que me provoca. Aqui me parece ser ele o questionado e surpreendido pela imensa fé dessa mulher insolente. Pensemos. Não poderia ele estar sendo aqui questionado pela mulher? Não poderia ele ter mudado de idéia através da postura de fé da mulher?
Gosto de pensar que foi ela que, questionando a postura rígida da lei, faz valer a profecia de Isaías, de um Deus que se alegra com os estrangeiros que se aproximam para o servir – “porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos. Assim diz o Senhor Deus que congrega os dispersos de Israel: Ainda congregarei outros aos que já se acham reunidos” (texto de leitura).
Essa mulher se coloca num lugar que não lhe é devido. Não tem nome. É de origem incerta, talvez cananéia, grega ou sírio-fenícia. Ela crê no poder desse homem e o enfrenta. Sabe com quem está falando, porque o chama de “Filho de Davi” (= Messias) e Senhor. Pela fé, essa mulher se apresenta como alguém que já crê, apesar de não estar no rol dos considerados puros, segundo a leitura que alguns fazem da lei. No projeto original de Deus, primeiro vêm as necessidades do povo escolhido (Jr 50.17-19); mas a fé da mulher que não era nem um pouco “pagã” e a bondade de Jesus superam qualquer privilégio.

3 Auxílio para a meditação
Quando uma mulher fez Jesus mudar de idéia
(partilha de uma meditação feita sobre o texto)

Das histórias sagradas sabemos o nome de uma e outra rainha e de duas ou três profetisas. Mas de muitas mulheres que aparecem nas histórias bíblicas não sabemos o nome. Às vezes, dá a impressão de que elas aparecem porque eram teimosas, e por isso foi impossível deixá-las de lado.
Uma dessas histórias é de uma mulher que nos é apresentada pelo evangelista Mateus como uma Cananéia. Essa vai ao encontro de Jesus, talvez na estrada, a caminho de Tiro e Sidom. Para Marcos, ela é grega de origem sírio-fenícia, que entra numa casa em que Jesus queria ficar sozinho (queria que ninguém o soubesse ali). Não sabemos o seu nome. Sabemos apenas que veio gritando para conseguir a atenção de Jesus. Sabemos pelos relatos bíblicos que, nas tradições da época, ser mulher já era visto como um fardo. Nas contagens não era sequer incluída. Veja, por exemplo, o que acontece na contagem daqueles que comeram na tarde da multiplicação dos pães – “os que tinham comido eram quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças” (Mt 15.38).
Ela tem consciência de seu status ou da falta dele, mas se lança na direção daquele que era a última esperança para sua filha doente. Aos gritos, ela vai chamando a atenção das pessoas para sua dor. Nem os discípulos agüentaram! Devem ter pensado que era mais uma histérica correndo atrás de seu Senhor.
Ela tem em casa uma filha muito doente, apresentada como uma menina que está possuída por espíritos estranhos. Estar possuído significava estar tomado por uma força sobre-humana que maltrata e faz a pessoa parecer um animal. Talvez seja o que conhecemos hoje por epilepsia. Algo assustador, uma força que joga no chão, faz revirar os olhos e dizer palavras desconexas. Era natural que, naquele tempo, relacionassem o que não entendiam a algo diabólico.
“Senhor, tem piedade, minha filha está sendo atormentada por um demônio”, grita a mãe desesperada. Os homens que caminhavam ao lado de Cristo, os seus discípulos, parecem não ter muita paciência. Eles querem afastar aquela mulher de perto de seu Mestre. Mas é uma mulher persistente, corajosa. É teimosa e não se importa com o que aquela gente está pensando. Ela crê naquele homem e clama por sua ajuda.
Essa mulher está sedenta por carinho, buscando um olhar que dê dignidade. Ela se aproxima esperando um gesto, uma palavra, um sinal. Jesus não a manda embora, mas silencia diante de seu pedido. A resposta dele à mulher é dura. Primeiro silencia, depois diz: “Eu vim somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel. Somente para o povo de Israel e não para gentios e pagãos”. Ela, no entanto, reconhece em Jesus a sua última esperança. Ela crê. Ela não desanima, insiste, arrisca tudo. “Senhor, ajuda-me!”
Então Jesus é mais duro e diz: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cães”. A mulher em súplica arrisca tudo: “Então me dê as migalhas”.
Nesse momento, aquela mulher anônima age em favor da filha com tamanha fé, que convence Jesus e fá-lo mudar de idéia. “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feita a tua vontade.” Se antes Jesus sentia-se enviado somente ao povo de Israel, aqui ele abre um precedente e deixa-se convencer, seduzir pela fé dessa mulher.
Nesse encontro com o sublime, quando podemos reclamar, chorar toda lágrima, para depois alegrar-nos novamente é que nossa parte humana encontra-se com a parte divina que há em nós, tornando-nos fortes na fraqueza.

4 Imagens para a prédica
Independente do caminho de leitura que for escolhido, a imagem marcante da mulher é a da mãe que, com toda a sua força e fé, pede não por si mesma, mas pela filha doente. E por causa de sua perseverança é atendida.

Bibliografia
ZUMSTEIN, Jean. Mateus – o teólogo. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.
 


Autor(a): Vera Weissheimer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 14º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 10 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 24321
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