Mateus 15.21-28

Auxílio Homilético

25/08/1996

Prédica: Mateus 15.21-28
Leituras: Isaías 56.1,6-8 e Romanos11.13-15,29-32
Autor: Kjell Nordstokke
Data Litúrgica: 13º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 25/08/1996
Proclamar Libertação - Volume: XXI


1. O Texto

No esquema sinótico de contar a história de Jesus, o encontro com a mulher cananéia acontece num momento decisivo: depois da disputa com fariseus e escribas vindos de Jerusalém (Mt 15.1-20), Jesus de certa forma encerra a sua atuação pública na Galiléia e retira-se junto com os discípulos para os lados de Tiro e Sidom. Nesta nova fase do ministério de Jesus destacam-se o ensino ao grupo limitado de seguidores e a preparação para o caminho a Jerusalém.

Nessa linha de narração, o aparecimento da mulher cananéia é sentido num primeiro momento como incomodação, ao ponto de Jesus rejeitá-la tanto por meio de um silêncio frio quanto de palavras duras. Num segundo momento, porém, a mulher luta por um espaço na caminhada de Jesus. Na redação de Mateus, neste segundo momento ela assume um papel importante como representante da fé dos gentios e da superação dos limites étnicos na história da salvação.

Em comparação com a versão mais antiga em Marcos (7.24-30), Mateus necessita de algumas modificações importantes para esse trabalho redacional. Resumindo, podemos dizer que uma história de exorcismo à distância é transformada numa história exemplar de fé. Para a análise do texto e também para a pregação é importante levar em conta esses dois níveis da narração. Pois somente assim é possível entender a reação cínica de Jesus e o sentido de suas palavras sobre filhos e cachorros.

Uma leitura sociológica do texto pode ajudar-nos a descobrir a causa dessa atitude. No seu estudo sobre o texto na versão de Marcos, Gerd Theissen (pp. 63-85) aponta para os conflitos sócio-econômicos reinantes nessa região fronteiriça, onde a população era em parte pagã, em parte judaica. A cidade de Tiro era um centro de indústria e comércio, mas, como não tinha produção própria de comida, controlava a agricultura no interior. Isto era feito por meio de opressão e ameaças, e muitas famílias de agricultores passavam fome porque toda a safra linha que ser entregue à cidade. É compreensível que esta situação tenha levado os agricultores judeus a dizer que o pão dos filhos era lançado aos cachorros.

Nesta leitura a mulher cananéia é uma representante dos opressores. Conforme Marcos, ela é grega (7.26), o que para Theissen confirma sua alta posição social. Assim, ela pertence ao grupo de cachorros que são responsáveis pela fome do povo camponês. Neste contexto a reação de Jesus é compreensível: se desse atenção a ela, não seria isto o mesmo que tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos (Mt 15.26)? Pois ele se entendia como enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel (15.24).

Sentimos a dureza da realidade social e os conceitos brutais que são necessários para colocar o pé no chão do contexto desta passagem. A resposta aparentemente cínica de Jesus expressa uma opção pelos mais fracos nessa realidade conflituosa e questiona o direito da mulher de acrescentar privilégios messiânicos a todos os privilégios de que já goza.

Por um momento reina a impressão de que a história termina por aqui, e que os conceitos duros são absolutos, eivados de preconceitos que não permitem mais o diálogo entre os dois.

A mulher, porém, insiste e arrisca tudo para quebrar esse impasse. Jogando com as palavras preconceituosas, ela defende um espaço que possibilita relação e atenção. Não é possível delinear o que transforma a situação. Seria o jeito de a mulher demonstrar que ela também defende a vida de uma filha? Ou seria a sua disposição de assumir a sua situação de cachorro, mas mesmo assim lutar por misericórdia?

Na versão de Mateus, Jesus vê na luta da mulher uma expressão de grande fé, e o seu pedido de cura é atendido. Desta maneira a história aproxima-se da cura do criado do centurião, outro gentio que expressa fé exemplar (Mt 8.5-13). É bom lembrar que a pergunta pelo contexto sócio-econômico não é contrária à apresentação da mulher cananéia como grande símbolo da fé provada, mas é importante descobrir que essa provação acontece num contexto histórico concreto (Theissen, p. 65).

O texto não deixa claro se também aconteceu alguma coisa com Jesus. A partir da leitura sociológica, não há necessidade de ver a dureza de Jesus como uma atitude cínica, quase lamentável. É possível vê-lo como alguém que, na opção pelos oprimidos, questiona os poderosos, mas que também não absolutiza a realidade conflituosa e se deixa dirigir por preconceitos fechados.

2. As Leituras Tradicionais do Texto

Nos comentários mais antigos, a mulher cananéia era uma prosélita já familiarizada com a esperança da vinda do Messias. Mateus também dá esta impressão, pois as palavras: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! indicam familiaridade com a linguagem religiosa judaica.

A leitura alegórica da Igreja antiga partiu dessa compreensão na espiritualização do texto. Agora a mulher que intercede em favor da filha gentia simboliza a intercessão pelos gentios, para os quais Jesus não foi enviado em primeiro lugar. Esta leitura relativa à história da salvação admite a posição privilegiada dos judeus como filhos, mas também os cachorros são incluídos na salvação quando recebem do pão (= o evangelho) da mesa (= a Bíblia). Por meio dessa espiritualização a resposta negativa de Jesus é explicável: ainda não é chegado o tempo dos gentios. O fato ele atender o pedido dela é compreendido como uma antecipação do que era para vir, e também como uma afirmação do valor de virtudes como a humildade e prudência. Assim desdobra-se uma leitura parenética, outra tradição na recepção deste texto, representada, entre outros, por Agostinho, que com satisfação observa que a mulher não protesta, mas admite ser cachorro.

Desde Lutero o texto tematiza a fé e dá ' 'um verdadeiro exemplo duma fé sempre perfeita. É uma fé que enreda Cristo com a sua própria palavra. Assim, o texto foi escrito para nos consolar e iluminar quando a graça de Deus está oculta para nós, a fim de que não julguemos conforme o nosso sentir e pensar, mas somente conforme sua palavra. Nesta leitura o texto convida para uma reflexão sobre as condições e a natureza da fé.

Hoje todas essas leituras apresentam problemas. Para nosso pensamento moderno é difícil ver o sentido duma humildade que aceita uma degradação ao nível dum cachorro, em especial quando essa virtude é vista como feminina e, conseqüentemente, um desafio em primeiro lugar para as mulheres.

É igualmente difícil compreender a dureza na primeira reação de Jesus. As leituras que espiritualizam o texto não conseguem esconder o aspecto escandaloso em sua atitude. Tampouco convence a explicação psicológica de que Jesus estava cansado e decepcionado depois dos conflitos surgidos na Galiléia e por isto reagiu tão cinicamente.

Por isso convém levar em conta a leitura sociológica referida acima, inclusive como uma oportunidade apropriada para a interpretação do texto em nossa realidade brasileira.

3. Rumo à Prédica

Também a nossa realidade é conflituosa e necessita de conceitos que denunciem injustiça e abuso de poder. Sem conceitos concretos corremos o risco de mascarar a realidade. Também hoje a tendência de espiritualizar o nosso discurso religioso pode acabar no distanciamento da vida real das pessoas. Neste sentido o compromisso de Jesus com a realidade social continua sendo um grande desafio.

Mas o que fazer quando os conceitos duros se fecham em preconceitos absolutos? É legítimo que pessoas injustiçadas se defendam por meio de preconceitos, p. ex. dizendo que todos os policiais são brutais, todos os políticos são corruptos e todos os homens são violentos e querem mandar nas suas mulheres? Ou implicam tais preconceitos uma visão que em última análise demoniza a realidade, tornando-a sem futuro e sem possibilidade de mudança?

É bom lembrar que os preconceitos dos poderosos são os mais cruéis, pois procuram justificar realidades que, sem esses mesmos preconceitos, não seriam aceitáveis. O nosso texto faz lembrar a tradição existente no sul do Brasil de chamar pessoas indígenas de bugres, palavra extremamente preconceituosa que, na sua origem francesa, tira da pessoa a dignidade humana e a equipara ao cachorro. Este é um exemplo evidente de uma linguagem que oprime e não permite a igualdade do outro. (Neste contexto também o primeiro texto de leitura do domingo, de Is 56, é relevante.)

Os preconceitos desumanizam, não somente as suas vítimas, mas também aqueles que se deixam orientar por sua lógica. Onde prevalecem os preconceitos não há comunhão, pois a comunicação é impedida e, conseqüentemente, também toda intervenção visando curar e transformar. Os preconceitos são sempre conservadores no sentido de que não admitem mudança; em sua lógica todo conflito é constante e toda injustiça é insuperável.

Será que o texto nos mostra um Jesus preconceituoso? Penso que não. Jesus se deixa orientar por conceitos que refletem a realidade, uma realidade de conflito entre filhos e cachorros; por isso sua atitude dura deve ser considerada consistente com a sua missão. Mas Jesus não deixa esses conceitos limitarem sua ação; nele sempre há a disposição de superar situações de impasse e transformar o que é endemoninhado em vida nova.

A grande fé que Jesus registra na mulher cananéia não se manifesta por meio de dogmas ou de piedade religiosa, mas simplesmente como luta incondicional em favor duma vida digna para sua filha. Nessa luta ela chega ao ponto de abandonar a sua posição social e cultural. Escutamos uma confissão de co-responsabilidade quando ela admite que também os cachorrinhos passam necessidade? A humildade que se expressa na sua última resposta (v. 27) não deve ser entendida como virtude individual, mas como reconhecimento de cumplicidade e nudez moral perante Jesus.

Mesmo assim, ela insiste na sua súplica. É nisto que se revela a grandeza de sua fé, com características que se aplicam a toda fé cristã:

— é uma fé que luta. Esta fé não se deixa calar, nem pelo silêncio, nem pelo argumento teológico, nem pelo conceitos duros que condenam. Assim como Jacó luta com Deus (Gn 32.22s.), temos mais casos onde o relacionamento com Deus é determinado exatamente pela luta (Jó; Mt 8.5-13; Lc 18.1-8; 2 Tm 4.7) e não por tranquilidade e paz, como muitos pregam;

— é uma fé que luta pela vida. Pois para a mulher o que está em jogo não e sua honra ou convicção, mas a vida ameaçada. Enquanto sua filha estiver nulcmoninhada, a vida será horrível e ficará reduzida a uma mera sombra do que n vida deveria ser;

— é uma fé que luta pela vida do outro. Nesta história a fé se manifesta como uma fé em serviço (em diaconia) e em defesa da vida de uma filha, pois só cm comunhão com o outro é possível uma vida plena;

— é uma fé que vê em Jesus a única possibilidade de salvação. Se nos três pontos anteriores essa fé se assemelha a toda fé humana, a partir deste ponto assume plenamente a sua característica cristã. Pois a partir do encontro com Jesus acontece um descentramento: o centro da fé não é mais o vigor de sua luta, mas o Misericordioso que a fé insiste em ver apesar de todos os preconceitos que querem impedir tal fé.

O presente texto apresenta uma boa oportunidade de localizar essa fé em nossa realidade e as transformações que pode efetuar.

4. Bibliografia

LUTHER, Martin. Fastenpostille 1525. In: WA 17/11, pp. 200-204.
LUZ, Ulrich. Das Evangelium nach Matthãus; Teilb. 2; Mat 8-17. Zürich/Braunschweig, Benziger; Neukirchen-Vluyn, Neukirchener, 1990.
THEISSEN, Gerd. Lokalkolorit und Zeitgeschichte in den Evangelien; ein Beitrag zur Geschichte der synoptischen Tradition. Freiburg (Schweiz), Universitätsverlag; Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1989.


Autor(a): Kjell Nordstokke
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 21 / Versículo Final: 28
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14256
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