Mateus 16.21-26

Auxílio Homilético

08/09/1996

Prédica: Mateus 16.21-26
Leituras: Jeremias 15.15-21 e Romanos12.1-8
Autor: Arteno I. Spellmeier
Data Litúrgica: 15º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 08/09/1996
Proclamar Libertação - Volume: XXI


1. Considerações Exegéticas

O texto (Mt 16.21-26), em que Jesus anuncia pela primeira vez a sua morte e ressurreição, tem passagens paralelas tanto em Marcos (Mc 8.31-9.1) como em Lucas (Lc 9.22-27), havendo diferenças consideráveis entre os relatos.

Em Mateus a perícope em pauta está mais nitidamente separada da controvertida passagem precedente (Mt 16.13-20), em que Pedro professa Jesus como o Messias, o Filho do Deus vivo. Apesar disso, a ruptura não é plena. Na comparação das duas perícopes há, no mínimo, dois aspectos que denotam continuidade, mesmo que seja em forma de contraponto:

1o : Apesar das profundas divergências sobre o uso da passagem de Mt 16.13-20 para fundamentar biblicamente o papado, não há dúvida que Pedro é considerado por Mateus e outros evangelistas e apóstolos o pai do povo escatológico de Deus e um dos principais líderes espirituais das primeiras comunidades. Como pai do povo escatológico de Deus, que, segundo a compreensão de Mateus, compõe-se das ovelhas perdidas da casa de Israel e ao qual os outros povos se agregam, Pedro é o grande exemplo para todos os que fazem parte deste povo (...) Como Abraão ele é a rocha; sobre ela eles são edificados, ao mesmo tempo eleitos e ameaçados. (Grundmann, p. 396).

A partir do v. 21 fica claro que Pedro é aquele que reconhece em Jesus o Cristo e que, no momento seguinte, o desconhece como o Messias sofredor; ele é a rocha sobre a qual será edificada a comunidade e, ao mesmo tempo, aquele que se engana e engana os outros (Satã!); ele é o eleito e também aquele que será julgado. Somente nesta ambiguidade ele é o pai, o líder espiritual do povo de Deus que compartilha com este a mesma condição, até o dia da parúsia final.

Para podermos entender o Pedro histórico necessitamos de ambos os textos. A contradição entre os dois é apenas aparente. Eles falam do mesmo homem, humanamente ambíguo, peregrino entre a graça e o juízo.

Sugiro, pois, que seja lido com a comunidade o texto precedente (Mt 16.13-20) em conjunto com o texto da prédica ou em uma das leituras bíblicas.

Fundamentar biblicamente o papado em Mt 16 e definir o papa como sendo infalível, só é possível mediante a omissão da segunda parte deste capítulo.

2o: A função complementar dos dois textos evidencia-se em outro ponto: no primeiro texto encontram-se a confissão de Pedro, a definição e legitimação do discipulado, a origem de seu poder e a promessa da presença de Deus; no segundo texto anunciam-se o caminho de sofrimento do Messias, a intervenção de Pedro, a convocação para o seguimento e o caráter do discipulado.

Há exegetas que interpretam a postura contraditória de Pedro da seguinte maneira: no primeiro texto, ele manifesta uma fé autêntica, que sucumbiu diante da prática, exigida na segunda passagem. A fé sem prática, no entanto, é morta. Será que para Pedro o problema foi simplesmente a prática? O problema dele parece-me estar localizado um pouco mais fundo. Pedro está baseado num engano; no engano de que o projeto de vida e futuro de Jesus é igual ao seu. Quando Jesus começa a anunciar, no v. 21, que o projeto do Messias desembocará no sofrimento, morte e ressurreição, Pedro intervém, pois este não é o seu entendimento e o seu projeto de vida. O texto da prédica é antes de mais nada definição de quem é o Messias, como ele se relaciona com Deus, qual o seu lugar no plano global deste, e somente em sua segunda parte — a partir do v. 24 — fala do seguimento, do discipulado como prática que corresponde ao caminho e à opção feita pelo Messias. Pedro se engana. O projeto de Jesus é totalmente diferente, até oposto ao seu. Um Messias sofredor, humilhado, sem poder e crucificado não cabe em sua concepção de Deus. Ele e os demais discípulos demoram em reconhecer isso e em amadurecer para o seguimento deste Messias sofredor, caracterizado pela humilhação em lugar da glória, pela mansidão em lugar do poder, pelo sofrimento em lugar de alegria.

O seguimento e discipulado são determinados pelo esquecer os próprios interesses ou renegar-se, pelo carregar a sua cruz e pelo acompanhar o mestre. Será que esse renegar-se implica anular-se, negar-se a si como um ser que tem necessidade de uma identidade e de aceitação pelos outros? Uma anulação total do próprio ser terá como consequência a anulação da própria personalidade e identidade. Será que Deus quer isso? Deus não quer a anulação daquilo que criou, mas quer perpassar a nossa personalidade, quer ser parte de nossa identidade. No caso concreto, Jesus está dizendo: Pedro, desembaraça-te de teus planos de glória, honra e reconhecimento. Os que me querem seguir, precisam assumir a cruz que eu vou assumir. Os que querem ser meus discípulos precisam contar com que receberão o mesmo tratamento que eu receberei.

É possível relacionar o renegar-se à primeira bem-aventurança: Felizes são os que sabem que são espiritualmente pobres, pois o reino do céu é deles (M( 5.3), e o carregar a sua cruz à última bem-aventurança: Felizes os que sofrem perseguição por fazerem a vontade de Deus, pois o reino do céu é deles (Mt 5.10). Perder a vida por causa desse Reino significa ganhá-la para sempre. Abrir mão de seus sonhos de realização e glória para seguir no difícil caminho do Mestre significa substituí-los por algo que até na morte não perde o seu sentido.

O dilema de Pedro não foi o de seguir seu Mestre ou não, mas o de entender que o Filho do Deus veio ao mundo para sofrer, ser crucificado e ressuscitar.

Quanto à interpretação de Mt 16.13-20, aos possíveis enfoques para a pregação e à discussão sobre o relacionamento entre as duas perícopes, sugiro consultar o auxílio homilético elaborado pelo colega Walter Altmann no vol. II de Proclamar Libertação.

2. Meditação e Pistas para a Prédica

Pedro é apresentado em Mt 16 como uma figura trágica, com a qual consigo identificar-me sem maiores problemas, talvez por ele ser tão humano, tão contraditório. Sinto-me próximo dele quando diz: O senhor é o Messias, o Filho do Deus vivo (16.16), e quando Jesus lhe responde: (...) porque esta verdade não foi dada a você por nenhum ser humano, mas veio diretamente do meu Pai que está no céu (16.17). Também consigo entendê-lo quando diz, em resposta ao anúncio de Jesus de que seria necessário sofrer, ser morto e ressuscitar: Que Deus não permita! Isso não pode acontecer com o senhor, de jeito nenhum! (16.22.) Sinto seu desnorteamento quando Jesus lhe responde rudemente: Saia de minha frente, Satanás! (16.23.)

Será que Pedro não tinha certo direito de argumentar como argumentou, considerando-se que abandonou tudo para seguir o seu Mestre? Será que ele não tinha o direito de querer que continuasse vivo aquele em quem apostou todo o seu futuro, toda a sua vida?

Há ainda outros motivos, de ordem teológica e ideológica, subjacentes ao protesto de Pedro:

1a: O sentimento de justiça de Pedro não lhe permite aceitar a ideia de que Jesus, o Filho do Deus todo-poderoso, tenha que sofrer e morrer. Ao bom não pode suceder nenhum mal! O quanto esta convicção determina o nosso próprio sentimento de justiça, descobriremos, o mais tardar, quando nos defrontarmos com a morte de uma criança ou quando a doença ou a morte de alguém que muito amamos nos parece sem sentido.

2a: Se Jesus é o Cristo, o Salvador prometido, ele não pode ter o destino de um simples mortal. Para poder ser o Salvador ele deve, no mínimo, ficar vivo, pensa Pedro.

Não ocorre que também nós imaginamos, seguidamente, Cristo como um rei poderoso, que salvará os seus seguidores de todo o mal? Lógico, nós já assimilamos a ideia de que ele teve que morrer, mas dificilmente tiramos as consequências desse fato: não o identificamos nos sofredores e crucificados de hoje. A gente acredita somente numa ideia. Assim como em nossa memória natalina a estrebaria é substituída pelo berço estilizado e desinfetado, na memória pascal a cruz não é mais cruz, mas um sentimento e uma ideia vaga que perderam seu sentido original.

Na imagem que Pedro fazia do seu Deus não cabia um Messias sofredor e crucificado. Cabe cie em nossa imagem de Deus? Cabe ele na imagem daqueles que propagam uma teologia da prosperidade e que definem a proximidade de Deus a partir das bênçãos e riquezas recebidas? Cabe o Messias sofredor e crucificado num mundo em que o certo é aquele que se impõe, independentemente de custos sociais, ecológicos...? Cabe o Messias sofredor e crucificado no mundo daqueles que adoram o Deus-mercado, o Deus-livre-concorrência que, de acordo com o credo, irão resolver todos os impasses econômicos, sociais e ecológicos, sendo indesejável a interferência do Estado e da sociedade no mercado? Cabe o Messias que morreu pelos pecados da humanidade no mundo daqueles que têm como meta suprema e única a satisfação de todos os desejos de consumo?

O Messias sofredor e crucificado não cabe no mundo daqueles que adoram o Deus-tecnologia como aquele que irá solucionar todos os problemas. O Messias crucificado não cabe no mundo daqueles que acham que a morte de milhares de crianças (desde que não sejam as próprias) é inevitável no processo de ajuste do mercado, para o qual sintomaticamente se usa uma linguagem repleta de símbolos tirados da Bíblia: travessia do deserto, sacrifício, promessa de fartura e bem-estar... Aqueles que aceitam o mercado total aceitam o sacrifício humano (José Bittencourt Filho).

O sofrimento e a morte de Jesus embaralham as ideias que os discípulos tinham acerca de Deus. Não é de admirar que eles, durante um bom tempo, não conseguissem mais entender o seu Senhor e que Pedro o tenha negado. As suas ideias estavam confusas e os seus sonhos destruídos. Pela sua experiência e no seu projeto de vida o anunciado para a Sexta-Feira Santa e para o Domingo de Páscoa não fazia sentido. Só paulatinamente foram compreendendo o paradoxo e a verdadeira dimensão do acontecido:

1°: Que Jesus não veio para iniciar um reino restrito ao povo de Israel, mas um reino universal e eterno, aberto a todos e todas, para todos os lugares e por todos os tempos. Que este reino já está presente, realiza-se no serviço aos outros, manifesta-se contraditoriamente nos desprovidos de poder e vai ao encontro da plenitude na eternidade.

2o: Que Jesus não é um senhor poderoso que se impõe pela força e coerção. As pessoas que entram em seu discipulado o seguem de livre e espontânea vontade. Condição do discipulado, no entanto, é o seguimento que implica renegar-se, tomar a sua cruz sobre si e seguir o mesmo caminho.

3o: Que na morte e ressurreição de Jesus Deus manifestou toda a profundidade de seu amor para com a sua criação e, assim, a convida para assumir o discipulado como opção de vida.

4o: Que Jesus veio para desvelar a nossa situação de pecadores e trazer a chave que abre as portas da prisão do pecado pessoal, social, estrutural.

5o: Que Jesus teve que seguir o humilhante caminho da cruz para sinalizar aos seres humanos que Deus não desiste de sua justiça. Ele continua justo porque Jesus morreu em nosso lugar. Nós somos partícipes dessa justiça porque ele no-la dá gratuitamente.

Quando Pedro entendeu tudo isso, até o sofrimento e a morte de Jesus começaram a fazer sentido. Não havia mais necessidade de lutar para ser aceito por Deus e pelos seres humanos. Ele agora sabia que estava sendo aceito. Não havia mais necessidade de persistir no projeto de vida antigo, pois nascera um novo, mais amplo, mais duradouro. Ele agora sabia diferenciar entre a vontade de Deus e a dos seres humanos. E sentiu uma liberdade tão imensa como nunca pensou que pudesse existir.

Quando Pedro entendeu tudo isso, ele estava pronto para o discipulado com todas as suas consequências: Porque quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa vai achá-la'' (16.25).

3. Subsídios Litúrgicos

Confissão de pecados: Deus justo e bom, sempre voltamos a ser como Pedro. Confessamos o teu senhorio, mas queremos impor-te o nosso projeto de vida e a nossa visão de salvação. Confessamos o teu senhorio, mas adoramos e seguimos os falsos deuses que prometem para nós uma vida fácil, repleta de felicidade, mesmo que seja às custas do mais fraco em tua criação. Leva-nos ao reconhecimento do teu reino, perdoa-nos o nosso pecado e nos põe a caminho no teu seguimento.

Oração de coleta: Senhor, nosso Deus. Queremos viver de acordo com a tua vontade, mas seguidamente nos apaixonamos pelas imagens e ideias que fizemos de ti. Tentamos, assim, apossar-nos de tua vontade. Diluimos a radicalidade do seguimento. Amansamos a força do teu evangelho.
Abre-nos ouvidos e mentes para que o teu evangelho em nós penetre com a sua capacidade libertadora e transformadora. Em nome de Jesus Cristo, que contigo vive e reina eternamente. Amém!

Oração de intercessão: Senhor, nosso Deus. Tu amas teu Filho Jesus como uma mãe ama seus filhos. Assim mesmo, não o poupaste da dor, da exclusão e da morte na cruz, porque quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa vai achá-la.
Senhor, tu, que nos amas como uma mãe ama seus filhos, tens para nós um projeto de vida que nos confrontará com o sofrimento, a exclusão e a morte. Ajuda-nos a entender e assumir o teu projeto de vida.

Agradecemos-te: por este projeto de vida que custou a vida de teu Filho, por podermos participar dele, por sermos aceitos por ti, por tua paciência conos-co, pela possibilidade de podermos voltar constantemente, pela inclusão de toda n criação nesse teu projeto.
Pedimos-te pelas nossas comunidades, para que entendam o teu caminho e queiram segui-lo com todas as suas consequências.
Pedimos-te pelos governantes, para que se orientem por ti no uso do poder cm favor dos mais fracos.

Pedimos-te por nós, para que tenhamos uma consciência crítica quanto aos falsos deuses que nos estão enfiando goela abaixo com um projeto de sociedade c ideologias baseadas no egoísmo, ganância e dominação humana. Dá-nos forças para o testemunho claro e o enfrentamento.
Pedimos-te pelos doentes, pelas crianças abandonadas e maltratadas, pelas mulheres marginalizadas, pelos excluídos, machucados e moribundos.
No projeto de vida que tens para nós até a morte tem sentido.
Tudo isso pedimos em nome de Jesus, o Filho do Deus vivo. Amém!

Bênção:

O Senhor esteja à nossa frente,
para nos mostrar o caminho certo.
O Senhor esteja ao nosso lado,
para nos abraçar e proteger dos perigos.
O Senhor esteja atrás de nós,
para nos preservar das armadilhas dos maus.
O Senhor esteja debaixo de nós,
para amparar-nos quando caímos.
O Senhor esteja dentro de nós,
para nos consolar quando estivermos tristes.
O Senhor esteja ao nosso redor como um muro protetor,
para nos defender quando outros nos atacarem.
O Senhor esteja sobre nós,
para nos abençoar.
Assim nos abençoe o bondoso Deus de todos os povos. Amém! (Baseado numa oração de Patrick, o apóstolo da Irlanda, falecido em 461).

4. Bibliografia

GORGULHO, Gilberto & ANDERSON, Ana Flora. A Justiça dos Pobres — Mateus. São Paulo, Paulinas, 1981.
GRUNDMANN, Walter. Das Evangelium nach Matthäus. Berlin, Evangelische Verlagsanstalt, 1981.
MATEOS, Juan & CAMACHO, Fernando. O Evangelho de Mateus. São Paulo, Paulinas,
1993.


Autor(a): Arteno I. Spellmeier
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 15º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 16 / Versículo Inicial: 21 / Versículo Final: 26
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14257
REDE DE RECURSOS
+
É dever de pai e mãe ensinar os filhos, as filhas e guiá-los, guiá-las a Deus, não segundo a sua própria imaginação ou devoção, mas conforme o mandamento de Deus.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br