Mateus 18.21-35 - A matemática do Evangelho

Prédica

18/01/1979

A MATEMÁTICA DO EVANGELHO
Mateus 18.21-35 (Leitura; Salmo 40.1-11) 

«Quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?» — A pergunta que Pedro dirige a Jesus talvez nem tenha sido só teoria, «para o caso de... ». Podemos muito bem imaginar aquele discípulo nada transigente, tendo um caso de divergência com um irmão difícil; podemos imaginar aquele pescador rude, fazendo a conta de si para si mesmo: «Agora foi a quarta vez que este camarada me ofendeu; agora foi a quinta, a sexta, a sétima vez!» — Podemos imaginar bem que Pedro chegou ao ponto em que achou que bastava de «engolir sapo»; que chegou ao ponto de dizer: Basta! 

Ao encostarmos o ouvido àquela pergunta de Pedro, descobrimos até um pouco de orgulho espiritual, escondido por entre as palavras. Um homem que perdoou sete vezes! Não é cada um que faz isso! Jesus só poderia confirmar o que Pedro achava: Pedro, você já fez mais do que devia. Deixe este seu irmão se virar sozinho. Não ligue mais. Vire-lhe as costas. Ele não mereceu outra coisa! 

Mas Jesus diz uma coisa bem diferente: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.» — Ó, Pedro: setenta vezes sete! Você vai perder a conta! Setenta vezes sete? O Senhor não pode estar falando sério! A gente, afinal, não é o palhaço dos outros! — Mas talvez Pedro era um bom conhecedor da Bíblia. Talvez conhecia aquela passagem de Gênesis 4, onde Lameque, descendente de Caim, diz a suas mulheres Ada e Zilá: «Matei um homem, porque ele me feriu, e um rapaz porque ele me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete.» Talvez Pedro notou que nesta questão de perdoar ou de não perdoar só havia dois caminhos a seguir: O caminho de Caim — e o caminho de Jesus. O caminho de Caim paga o mal com o mal. Paga com juros e correção monetária. Sete por um. E se isto não basta, vai mais. Setenta vezes sete, se for preciso! — O caminho de Caim até parece conter um restinho de justiça, Ele tem um código penal. Paga o mal de acordo com certas regras. Dente por dente, olho por olho. Ele só reforça a dose: Sete dentes por um dente. Sete homens por um homem. Uma cidade incendiada por uma casa destruída. Cada um deve saber de antemão, o que vai acontecer, quando ele mexer com Lameque, descendente de Caim. O caminho de Jesus Cristo se acha totalmente oposto ao caminho de Caíra. Caim mata seu irmão. O caminho se alarga. Lameque mata setenta vezes sete por um. Jesus salva seu irmão. E esta salvação não deve ser limitada e regulamentada por leizinhas que dizem: Se ele fizer isso, vá lá. Mas se o fizer outra vez, então acabou-se. A salvação por parte de Jesus não é uma salvação condicional, uma salvação a prestações. O evangelho é um tesouro dado, uma pérola achada. O evangelho é uma realidade celestial que nos faz mudar de atitude para com nossos irmãos. Deixamos de calcular, de contar os erros, de lançar débitos, de guardar rancor, sempre com a ideia: Vai chegar o dia em que a panela vai transbordar! O evangelho muda o coração do homem. O discípulo de Cristo perde a vontade e o jeito de fazer a contabilidade de Caim. Se conta, ele conta como Jesus. E Jesus, ele conta como Deus. Se Deus só perdoasse sete vezes — então, ai de nós! Então este livro, por exemplo, não teria sido escrito — e, se fosse, não haveria leitores nem ouvintes para tomar conhecimento dele. 

«Por isso o reino de Deus é semelhante a um rei, que resolveu ajustar contas com os seus servos.» É um grande senhor que vai ajustar contas — e ele tem grandes devedores. Aí vem um deles. Ele não deve nenhuma ninharia. Deve dez mil talentos, Um talento-ouro comprava uma casa de rico. Um talento-prata comprava dez vacas leiteiras. Então — mesmo que tenham sido talentos de prata, poderemos imaginar o que o homem devia um rebanho de cem mil cabeças de gado! Este homem tinha realmente uma conta a ajustar. Decerto foi um ministro corrupto. Quando os grandes roubam, então é para valer mesmo. Você e eu não gostaríamos de estar dentro da pele dele. — Realmente não gostaríamos? — Oh, se Deus fizesse as contas conosco! Tem piedade de nós, Senhor! 

O homem chega ao rei. Em verdade, ele não chega por si mesmo ele é trazido! E quando a situação dele se esclarece, quando fica realmente constatado que deve esta soma fantástica e que não tem dinheiro para saldar nem parte da dívida, o rei dá ordem para deixar curso livre à justiça. Naquele tempo a lei era dura. Quem não tinha dinheiro, pagava as dívidas com a liberdade. Ele, mais a mulher e os filhos, Confisco de bens. Prisão. Foi isso que o rei mandou fazer com seu servo, com aquele seu ministro incapaz ou corrupto. 

E agora aquele servo faz uma coisa que não estava no programa. Cai aos pés do rei e pede-lhe paciência. Promete pagar tudo. Promessa boba, aquela. Promessa totalmente irreal. Como é que ele poderá arrumar o dinheiro para pagar o equivalente a cem mil cabeças de gado? — Mas o rei também faz uma coisa que ninguém tinha previsto. Vendo o seu servo, assim miseravelmente prostrado diante de si, compadece-se dele e lhe perdoa a dívida. Perdão de rei, perdão magnânimo, perdão sem condições nem reservas. Aquele homem tinha subido as escadarias do palácio, carregando uma montanha nos ombros. Agora ele desce, de leve. A dívida foi perdoada. Não adiada, Perdoada! Ele está livre daquele peso. O rei lhe perdoou tudo, de vez! Que rei, que perdão! 

E agora a história fica bem triste. O servo perdoado encontra um conservo, um colega, dos bem pequenos, que lhe deve cem denários. Um denário comprava um pão. Cem pães, portanto. Meio salário mínimo. Para ele foi muito -- para o outro, quase nada. Mas o homem, que acaba de receber um presente de cem mil cabeças de gado faz essa coisa horrível. Agarra seu colega, sufoca-o e lhe diz: «Paga-me o que me deves!» — Cem pães. Pois é, mas são cem pães! Paga-me aqueles cem pães! Justiça é justiça! O quê? Você não pode? Quer pagar aos poucos? Ora, esta melodia a gente conhece. Nessa não caio, não. Vai lã o promotor, vai lá o delegado: Aqui está a nota promissória dele, com testemunhas e tudo. Aqui está a lei: Cadeia para este homem! 

Façamos uma pequena pausa para meditarmos sobre uma possibilidade que a parábola de Jesus não menciona: Se aquele grande devedor tivesse encontrado o seu colega na ida, e não na volta — então o seu modo de agir teria sido bem lógico. Porque os cem denários, aquele meio salário mínimo, enquanto ele ia sendo levado ao rei, não eram propriedade dele. Em realidade estes cem pães pertenciam ao rei. Eram parte da massa falida, como dizem os advogados. Pensando bem, na ida, aquele homem nem poderia ter perdoado. Deveria ter dito: Não dá. O que tu me deves eu o devo ao rei. Vai, arruma o dinheiro e paga! Mas na volta, as coisas mudaram. Você nota que a situação do homem perdoado realmente mudou? Porque a massa falida já foi contabilizada como «perdão» nos livros do rei. A grande nota promissória foi rasgada. O rei fez um ato de misericórdia tão majestoso que todas as continhas que o devedor perdoado ainda tem a ajustar perdem sua importância. Pensando bem, o rei, em sua intenção, tinha rasgado estas pequenas notas promissórias também. O grande perdão não pode, senão gerar o pequeno perdão. Compaixão tem que gerar compaixão, misericórdia tem que gerar misericórdia! 

Mas nesta história triste, a grande compaixão foi compaixão jogada fora. O homem perdoado não transformou o grande presente recebido em troco miúdo. Não foi gastando a misericórdia que o rei lhe dera. A dureza de seu coração não foi mudada nem um pouco. Ele não aprendeu a pensar e a agir como o rei. Continuou a pensar e a agir como um homenzinho calculador e mesquinho. para o qual a pessoa humana é um simples número na contabilidade. E já que não mudou, já que ele continua vivendo naquela servidão, da qual o rei o quisera salvar, ele volta a carregar a montanha de sua dívida. Justiça seja feita. O rei manda cumprir toda a justiça. Quem despreza o grande perdão do rei, não tem outra alternativa: Só resta a justiça do código civil, a justiça do «paga-me o que me deves». 

«Quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?» uma pessoa que não foi agraciada com o grande perdão de Deus em Cristo, ela não é capaz de perdoar -- nem sete vezes, nem uma única vez. Se ele perdoasse, enganaria, pois perdoar é doar, é dar. E só pode dar, quem tem. E 0 homem que não se converteu a Deus, que não caiu a seus pés, rogando perdão, que não experimentou a libertação que o evangelho de Jesus traz e que se acha resumida nas palavras: «Os teus pecados te são perdoados» —. ele é incapaz de perdoar. A massa falida não deixa. —. Mas o homem perdoado por Deus, o homem, de cujas costas Deus, por amor de seu Filho, tirou a montanha de culpa, ele tem condições de perdoar. Tem condições de tratar seus irmãos assim como ele foi tratado por seu Senhor. Quando ele perdoa, não dá do seu. Ele dá do que é de Deus. O cristão que não perdoa, inclusive o que diz: «perdoar, sim, esquecer, nunca!» — ele já não vive em Cristo. Ele vive «em Caim». Você está lembrado de Caíra, cuja descendência inventou a vingança com juros e correção monetária? — O homem só tem duas opções a fazer, só tem dois caminhos a trilhar: Ou Jesus — ou Caim. Meio termo não há.

Há cristãos que ficaram assustados com a quinta prece do Pai Nosso: «E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.» Parece uma prece perigosa. Parece um convite dirigido a Deus para nos tratar assim como nós tratamos os nossos semelhantes. Esta prece é «fogo» mesmo. Mas é fogo num outro sentido. É fogo que queima em nosso coração, porque o cristão é aquele servo que devia as cem mil cabeças de gado e que foi perdoado de vez. Na vida dele houve o grande perdão inicial, quando Cristo tomou conta da vida dele. Houve aquela grande faxina, onde o passado foi liquidado, onde não ficou nada. Houve o dia em que a montanha foi tirada das costas dele. O que o cristão ora agora: «Perdoa-nos, assim como perdoamos» — é apenas uma consequência bem lógica do grande perdão inicial. É a contabilidade do dia-a-dia do discípulo que vai gastando COM, os irmãos o que Deus lhe vai dando, dia a dia. Se esta contabilidade da gratidão não mais funcionar — então não se trata de um simples erro, de um simples engano. Então uma coisa fundamental está errada. Então o cristão saiu da comunhão com seu Senhor. Saiu da esfera do perdão e entrou na esfera da lei, do código chamado: «paga-me o que me deves», E este código é duro. Ele não perdoa nada. 

A parábola de Jesus não foi contada para botar peso em ninguém. Ela foi contada para tirar peso. Tirar peso por parte de Deus e tirar peso por parte de você. Por que você não aproveita a oportunidade para falar com Deus — falar sério mesmo, sobre tudo — e depois para falar com seu irmão, ou com sua irmã; você sabe muito bem de quem se trata. O mundo está faminto de evangelho. E você pode passar este evangelho adiante. Sete vezes e setenta vezes sete vezes. 

Oremos: Senhor e Salvador. Tu perdoaste a grande dívida de nossa vida. Rasgaste o documento de nossa culpa, quando foste pregado à cruz, sofrendo em nosso lugar. Tu pagaste por nós, Senhor. Ajuda-nos para que o tentador não nos faça recair na vida antiga. Ajuda-nos a perdoar e a amar, assim como tu perdoas e amas. Amém.

Veja:
Lindolfo Weingärtner
Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS


 


Autor(a): Lindolfo Weingärtner
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 18 / Versículo Inicial: 21 / Versículo Final: 35
Título da publicação: Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19663
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