Mateus 2.1-12

06/01/2000

Prédica: Mateus 2.1-12
Leituras: Isaías 60.1-6 e Efésios 3.2-12
Autor: Nilo Orlando Christmann
Data Litúrgica: Epifania
Data da Pregação: 06/01/2000
Proclamar Libertação - Volume: XXV
Tema: Epifania

1. Introdução

O texto proposto já foi estudado em Proclamar Libertação, vols. X (p. 193ss.), XVIII (p. 49ss.) e XXI (p. 46ss.). São auxílios homiléticos com enfoques variados, sendo o primeiro com amplo estudo exegético e o último com a aplicação de princípios pedagógicos ao texto. Por si só este material disponível já oferece subsídios consideráveis e diversificados. Procuraremos, por isso, acrescentar algumas novas perspectivas.

2. Fato da vida

Estudos astronômicos, sendo alguns recentes e outros nem tão recentes assim, levantam a possibilidade de que a história bíblica sobre a estrela que conduziu os magos a Belém contenha o fato histórico da conjunção de Júpiter e Saturno, fenômeno que se repete com intervalos de cerca de 2 mil anos. No dia previsto para a repetição do fenômeno, no início de 1999, tínhamos marcado um estudo bíblico em um ponto de pregação a cerca de 8 km da cidade onde moramos. Para a infelicidade das crianças, curiosas em relação ao fato, chovia a cântaros naquela noite. Sabíamos que com muita chuva o encontro seria inviável pela dificuldade de acesso ao local. No entanto, meio que por intuição, corremos o risco de perder a viagem e nos dirigimos para lá. Depois de alguns quilômetros, o tempo já estava diferente e logo vimos o céu completamente aberto. Todos estavam presentes. O encontro aconteceu num local bem alto e de ampla visão, e todos puderam ver as duas estrelas que de forma diferenciada brilhavam intensamente. Comentamos sobre os estudos a respeito do fenômeno. O estudo bíblico, no entanto, foi sobre outro assunto. Houve convívio, alegria, comunhão e crescimento. Não pudemos deixar de lembrar que também naquela noite foi bem no interior que as estrelas brilhavam, enquanto na cidade o céu estava encoberto. Mesmo assim, não foram as estrelas, e, sim, a vontade de se reunir para um estudo bíblico que propiciou um saudável convívio comunitário.

3. O novo milênio

Quando este auxílio homilético estiver sendo usado pela primeira vez, estaremos nos primeiros dias do ano 2000. Possivelmente algumas especulações acerca da virada do milénio terão caído no vazio. Os arautos da numerologia bíblica e ciências afins estarão à procura de novas explicações e novas datas para prever acontecimentos presumivelmente contidos na Bíblia. Quem sabe, não devêssemos perder a oportunidade, num ano que não deixa de ter um quê de diferente, de relacionarmos a Epifania (revelação) com o tempo que Deus nos concede para apontarmos para o seu Reino. Nesta perspectiva, cada dia é um presente e uma oportunidade para o testemunho da fé. Mais do que isso, vemos reforçada a convicção de que podemos falar de esperança, de vida e de justiça sem nos preocuparmos com fatos vindouros e sobre os quais Deus mesmo declarou sua pretensão de exclusividade (l Ts 5.1ss.). Ademais, Mt 2.1-12 é um dos textos bíblicos que corroboram a tese de que na verdade já estamos por volta do ano 2005, uma vez que está historicamente confirmado que Herodes governou entre os anos 37-4 a.C.!

4. A perícope em Mateus

É importante observar que o texto está devidamente encaixado nos dois primeiros capítulos de Mateus. Trata-se de material exclusivo, colocado na sequência do relato sobre o nascimento de Jesus. Já a partir de 2.13 narram-se a fuga para o Egito e a ordem de matança das crianças por parte de Herodes, lembrando de alguma forma o acontecido com Moisés (Êx 1.15ss.). É igualmente significativo que o mesmo evangelho que no seu final diz: Ide, portanto, por todas as nações... (28.19s.) já no início coloque os gentios (no caso, os magos) em lugar de destaque e em contraposição aos judeus, que não perceberam o nascimento do Messias em seu próprio meio.

5. Olhando o texto

A forma como é contada a história dos magos que visitam Jesus, orientados por uma estrela, somada ao fato de apenas Mateus trazer esta narrativa, tem levantado a pergunta acerca da sua historicidade. Por este caminho, as conjecturas poderiam ir longe. Há um certo consenso no sentido de que o central  da teologia que a história contém e não se o todo da história ou partes dela efetivamente aconteceram da forma descrita. Em todo caso, a força do texto c inquestionável. Não há dúvida de que é uma das histórias bíblicas mais conhecidas, inclusive com os acréscimos que lhe foram sendo conferidos. No século V, p. ex., se dizia que os magos eram reis (aliás, uma atribuição fora de propósito) e no século VIII já se mencionam os nomes de Gaspar, Melquior e Baltazar. Pode-se questionar se o tempo não se encarregou de tirar o texto fora de foco. Contudo, o componente miraculoso (a estrela que guia os três homens) tem servido de base para tornar a história conhecida, alimentando inclusive tradições e folclores, especialmente no interior de alguns estados brasileiros.

Outro fator a ser considerado é a cosmovisão que se tinha na época em que o texto foi escrito. Há uma diferença enorme entre o sentido que damos às estrelas em tempos modernos, de conquista do espaço e de descoberta de novas galáxias, e um tempo quando cada estrela era por si só um milagre. Com certeza, neste sentido, o movimento dos corpos celestes há 2 mil anos era visto com maior admiração e reverência. Da mesma forma podemos presumir que a história dos magos fosse ouvida e entendida em perspectiva bem diversa da nossa.

6. Tópicos que brotam do texto

A história dos magos do Oriente permite diversas ênfases. Queremos nos ater a três delas.

6.1. O jeito de Deus se manifestar

A Epifania vem reforçar o que anunciamos no Natal: a vinda do Filho de Deus ao mundo. Agora, no entanto, na perspectiva da glorificação de Deus na pessoa e obra de Jesus Cristo.

Uma das características da forma de Deus se revelar ao longo de todo o testemunho bíblico é fazê-lo de forma inusitada, contrariando a lógica humana. Não é diferente em Mt 2.1-12. O Filho de Deus nasce fora do centro do poder político, econômico e eclesiástico. O menino que nasceu para ser o rei dos judeus (v. 2) é encontrado na pequena Belém. Diferentemente de Lucas (2.1ss.), é mencionada uma casa e não a estrebaria. Em todo caso, o nascimento de Jesus se dá em lugar simples e fora de Jerusalém. Ale os magos perderam o rumo a certa altura da sua viagem, tomados pela ideia lógica de que um rei deveria nascer na capital. Muitas vezes, ali onde os seres humanos não esperam e imaginam, Deus se faz presente para revelar os seus propósitos. E o nascimento de Jesus, também em suas variantes, expressa isso de forma maravilhosa e com toda a intensidade. É o próprio Deus se distanciando do luxo, do poder viciado e se aproximando do povo simples onde encontra lugar para nascer.

Se, no entanto, por um lado, Deus se distancia do poder (tipificado na capital!), por outro lado, o poder de Deus se manifesta de forma inequívoca. Som a estrela, a história perderia o seu encanto. O Criador de tudo e de todos mostra que a natureza está em suas mãos. Ele tem o domínio sobre o que foi criado (veja, p. ex., Is 40.26) e faz uso disso para conduzir magos, na verdade astrólogos da Babilônia, à presença daquele que traz em si uma nova perspectiva, não apenas para Israel, mas para todos os povos e para toda a humanidade.

6.2. Herodes — poder, violência e medo

É difícil compreender como um rei, que dispunha de enorme poder, pudesse se sentir ameaçado pelo nascimento de uma criança em algum recanto do seu reino. Chega a parecer ridículo. No entanto, observando a história de Herodes, entendemos melhor a lógica do acontecido.
Herodes, de origem iduméia, governou a Judéia entre 37 e 4 a.C. O seu governo foi marcado por grandes obras (inclusive reconstrução do templo de Jerusalém), mas especialmente pela violência e pela crueldade. Para assegurar o poder e evitar concorrentes, mandou matar os próprios filhos: Alexandre, Aristóbulo e Antípater.

O poder mantido pela força e pela violência e à revelia da vontade das pessoas é na verdade extremamente frágil. Herodes representa este tipo de autoridade. A sua insegurança e medo são tão grandes que se sente impelido a sufocar qualquer possibilidade de ameaça ao seu trono. Mostra-se, ainda, um grande estrategista ao aliciar os magos e ao usar os sacerdotes e os escribas para que também ele pudesse adorar o futuro rei dos judeus.

É evidente que assim como Herodes manifesta insegurança e medo, também as pessoas sentiam medo (ou seria pavor?) do seu governante. A falta de escrúpulos do rei espalhou entre o povo o receio, manifesto na frase que dizia: Herodes assustado significa: vai correr sangue! Neste contexto chama a atenção a ingenuidade dos magos em relação a Herodes. O mesmo pode-se dizer dos sacerdotes e professores da lei. Ou no caso destes era conveniência e conivência?

6.3. A alegria do encontro com o menino

A perspectiva teológica de Mateus não poderia ser mais evidente. Se a sua intenção, com a inclusão deste texto, é mostrar que o nascimento do Messias significa esperança e salvação para todos os povos, então a presença de pessoas que vêm de um lugar distante, no caso a Babilônia, e que, além disso, são ligadas à astrologia, não poderia ser mais convincente. Os magos são pessoas que se põem a caminho, orientados e conduzidos por Deus, não para adorar o rei dos judeus na perspectiva do povo de Israel, mas na perspectiva daquele que veio para anunciar a morada de Deus entre todas as pessoas e nações.

É de extrema importância perceber dentro do texto — e talvez aí resida toda a sua força — a convicção e a alegria que acompanham os magos em sua viagem e também quando finalmente se encontram com o menino que procuravam. Ao caírem de joelhos e roçarem a testa no chão, pois assim acontecia o gesto de adoração, o mundo pagão e dos astros simbolicamente se rende à revelação de Deus. Os gentios, antes do povo judaico, percebem que junto ao Filho de Deus podem-se encontrar alegria, esperança e perspectiva impossíveis de ser encontradas em qualquer outra crença. Os presentes atestam esta alegria e também a reverência. O aviso, em sonho (v. 12), de voltar por outro caminho manifesta mais uma vez o Deus que caminha junto, que conduz, orienta e zela pelos que ouvem a sua voz.

Uma criança nascida numa vila qualquer, a alegria e a convicção dos magos são o contraste gritante com o tipo de poder exercido pelo Império Romano, através do rei Herodes. O poder, mantido à força e na base da violência, revelando insegurança e medo, chega a ser ridículo, se não fosse trágico, diante da serenidade e da alegria de três homens que se deixaram conduzir ao encontro do menino Jesus.

7. Enfoques possíveis na pregação

Aquilo que foi dito sobre o texto até aqui já contém diversos elementos que poderiam ser destacados numa mensagem para a comunidade. Hm termos de estrutura, uma das possibilidades seria a seguinte:

- Lembrar, junto com a comunidade, as diversas expectativas que se criaram em torno da virada do milénio, incluindo um comentário sobre as especulações teológicas, inclusive com argumentos bíblicos, sobre o fim dos tempos.

- Recontar, se possível com o auxílio da comunidade, o texto de Mt 2.1-12.

- Enfatizar o caminho percorrido pelos magos (se deixaram conduzir!) para o encontro com o Filho de Deus; sua viagem é marcada pela convicção e pela alegria; o encontro esperado não os frustra, ao contrário, lhes dá satisfação (presentes!).

- Hoje não somos conduzidos por estrelas nem por acontecimentos mirabolantes. Mas é o mesmo Deus que conduziu os magos que quer guiar o seu povo, através da sua palavra, ao encontro daquele que pode dar alegria, acolhida e libertação.

- Realçar que os governos à la Herodes continuam também no terceiro milênio; mas há uma diferença: são mais astutos, mais travestidos e agem com mais sutileza. O poder continua fascinando o ser humano; a falta de transparência (sinal de insegurança e medo), presente na mentira de Herodes, é marca registrada na maioria das administrações em nosso país.

- Uma observação: como obreiros/as, precisamos aprender a refletir mais a respeito de como nós mesmos/as lidamos com o poder; falamos de liberdade e agimos como tiranos/as; pregamos democracia e somos centralizadores/as; e isto perpassa diferentes linhas teológicas. E aí vale a afirmação de Edmund Burke: ' 'A escola da humanidade é o exemplo, e as pessoas não aprendem de outra forma.

- A pregação poderia conter em sua parte final a ênfase de que não podemos ser ingênuos em relação aos que detêm o poder, sob o risco de sermos usados na perpetuação de uma estrutura injusta e excludente. Por outro lado, a Epifania, na história dos magos que vêm do Oriente, nos anima e convida a encontrarmos junto ao Filho de Deus a motivação e a alegria para um testemunho comprometido no novo milénio; sabendo que o mesmo Deus que conduziu os magos também estará nos conduzindo, afastando as preocupações em torno do fim dos tempos, e fazendo de cada dia um tempo precioso no anúncio do reino de Deus com todas as suas consequências.

Bibliografia

RIENECKER, Fritz. Das Evangelium des Matthäus. Wuppertali : R. Brockhaus, 1953.
TASKER, R. V. G. Mateus — introdução e comentário. São Paulo : Mundo Cristão, 1991. (Cultura
bíblica, 1).
VOIGT, Gottfried. Der schmale Weg. Göttingen : Vandenhoeck & Ruprecht, 1978.


Proclamar Libertação 25
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Nilo Orlando Christmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania

Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1999 / Volume: 25
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 12792
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