Mateus 2.1-12

Auxílio Homilético

06/01/1985

Prédica: Mateus 2.1-12
Autor: Carlos A. Dreher
Data Litúrgica: Epifania
Data da Pregação: 06/01/1985
Proclamar Libertação - Volume X

l — Texto e contexto

A perícope Mt 2.1-12 faz parte do primeiro bloco do Evangelho de Mateus (1.1-4.11), denominado pré-história, que fala dos acontecimentos anteriores ao ministério público de Jesus. Dentro deste bloco, os caps. 1 e 2 perfazem a história do nascimento e da paixão do menino Jesus (cf. Brakemeier, p.9). Enquanto 1.1-17 apresenta a genealogia de Jesus e 1.18-25 relata o nascimento virginal, o cap. 2 está sob o enfoque da perseguição do menino por parte de Herodes. Neste contexto, Mt 2.1-12 assume o papel de perícope central, fazendo a ponte entre o relato do nascimento e o da perseguição.

Apesar disso, nosso texto é uma unidade fechada em si. Delimita-se com clareza do que lhe antecede. 1.25 encerra o trecho anterior com a afirmação do nascimento e o ato de dar o nome à criança. 2.1, por sua vez, representa um novo início ao constatar o nascimento em forma de particípio. Diferencia-se da perícope anterior ao acrescentar uma localização geográfica (Belém) e histórica (em dias do rei Herodes), antes ainda não mencionada. Esses dois novos pontos de referência vão caracterizar o novo assunto. Se antes a narração se limitava ao grupo da família (José, Maria, Jesus) e à preocupação com o nascimento virginal, agora amplia-se o horizonte, caracterizando-se o cenário e apresentando-se o antagonista.

Já para o que se segue, a perícope tem o valor de introdução. A fuga para o Egito e a matança dos inocentes (2.13-18) são ocasionadas pelo plano de Herodes que, apesar de não estar claramente exposto em 2.1-12, já começa a esboçar-se. Mesmo assim v.13 representa o início de um novo assunto, colocando os amigos fora de cena. Há, porém, que se levar em conta que a censura não é tão profunda, pois é a visita dos magos que dá a Herodes o conhecimento do que está sucedendo e põe em andamento as cenas seguintes.

As variantes propostas no aparato crítico de Nestle não apresentam alterações substanciais na compreensão do texto. Chama a atenção apenas a substituição de TOUS THESAUROUS por TAS PÊRAS, sugerida por Epifânio (falecido em 402) para o v. 11. Os tesouros dos magos seriam sacos de viagem. O termo também pode significar saco de mendigo, ou ainda fazer parte dos apetrechos próprios de pastores (Bauer, p. 1301s). A variante, contudo, não tem suporte de outros manuscritos, obrigando-nos a permanecer com o proposto no texto de Nestle. Entretanto, não deixa de ser interessante que já por volta dos séc. IV — V tenha havido uma preocupação em definir o status social dos magos como gente humilde. Em vez de homens ricos que carregam tesouros, eles seriam meros viajantes, carregando sacos próprios de gente simples.

Em sua estrutura formal, a narrativa 2.1-12 apresenta-se como quiasma. Vv. 1-2 correspondem a vv. 11-12: Os magos vieram para adorá-lo; adoraram-no e voltaram. V. 3 corresponde a v. 10: Herodes e toda a Jerusalém se alarmam; os magos se alegram. E, por fim vv. 4-6 correspondem a vv, 7-9: Herodes convoca a hierarquia religiosa e a interroga a respeito do loca! em que o Cristo deve nascer, recebe a resposta (Belém), mas ninguém vai até lá; Herodes convoca os magos, indaga-os a respeito do tempo da aparição da estrela e os envia. Há um contraste claro entre a atitude dos magos que vêm para adorar o menino sem saber onde encontrá-lo, e a da corte e do clero que sabem onde encontrá-lo, mas não vão procurá-lo.

Ao que tudo indica, Mt 2.1-12 não é relato histórico. Tem um fundo histórico (Herodes, Jesus, Maria; Belém Jerusalém). Mas em seu aspecto formal e de conteúdo é lenda. À exceção de Jesus, Herodes e Maria, os personagens não têm nome. Nem ao menos se sabe quantos são os magos. A vaga datação no v. 1, em dias do rei Herodes, apenas delimita um horizonte histórico bastante amplo: os anos 374 a. C., período do reinado de Herodes, o Grande.

II - Detalhes

Localizando o nascimento de Jesus em Belém da Judéia e datando-o de modo um tanto vago em dias do rei Herodes, o texto já aponta para o cerne da narrativa. Mais do que preocupar-se com local e data exatos, procura indicar desde o início o cumprimento da profecia (v. 5s), elemento próprio do Evangelho de Mateus (cf. Brakemeier, p. 14s), e a ameaça ao menino, representada por Herodes. É em cima destes dois aspectos que todo o cap. 2 irá desenvolver-se.

O local é denominado de Belém da Judéia, em contraposição a uma possível Belém da Galileia (cf. Js 19.15). O próprio Evangelho discute essa localização como origem de Jesus (cf. p.ex. Jo 7. 41s). Ele é o Nazareno, não o Belemita. E mesmo Mateus conhece essa discussão, pois cria toda uma situação para fazer com que Jesus vá morar depois em Nazaré, utilizando outra vez o argumento da profecia (cf. 2.22s).

A época do nascimento é determinada para os dias de Herodes. Cognominado o Grande, e conhecido por seu despotismo, sua ambição de poder e sua crueldade, levada ao extremo com a execução de seus próprios filhos, Herodes governou a Palestina de 37 a 4 a. C. De origem iduméia, feito rei pelos romanos, era menosprezado e odiado pelos judeus (cf. Metzger, p. 180ss; Grundmann, p. 76).

Com este pano de fundo, o evangelista introduz os novos personagens. l DOU — eis, veja só! — designa a admiração do fato que se desenrola. Magos vêm do oriente para Jerusalém. O texto não oferece muitos elementos para caracterizá-los. Não se sabe quantos são. Não se diz que sejam reis. São magos que vêm do oriente, seguindo uma estrela. Conforme Grundmann (p.76s), o termo MAGOS designa originalmente o membro da casta sacerdotal persa, podendo então significar aquele que tem e exerce sabedoria e poder sobrenaturais, mas também pode adquirir o significado de feiticeiro e enganador. E, uma vez que os magos se apresentam como detentores de uma sabedoria sobrenatural — sabedoria, astronômico-astrológica — e como conhecedores da esperança messiânica judaica, é provável que sejam intelectuais babilônicos (cf. também Voigt, p.90).

lDOU, eis, veja só! denota surpresa e admiração. Essa surpresa se baseia no fato de que estrangeiros vêm procurar o menino para adorá-lo, ao passo que os habitantes de Jerusalém Herodes e o clero jerosolimita de nada sabem.

Os magos vêm a Jerusalém. Onde mais procurar por um rei, a não ser na capital? Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus? — perguntam eles. O título é o mesmo que estará colocado pelos pagãos sobre a cruz, como causa de sua pena (Mt 27.37). Apenas os magos o utilizam. Nem Herodes, nem os escribas e sacerdotes e pronunciam. Neste âmbito, Herodes é rei, e ninguém mais.

Vimos sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. — Muitas especulações têm sido feitas em torno da estrela, da constelação que se teria formado, de como ela se poderia prestar para a datação do nascimento (cf. Grundmann, p.80). Mais importante do que isso parecem ser duas observações:

1. A astrologia, própria do culto pagão e da visão fatalista reinante até nossos dias, está sendo destronada. A estrela mostra o caminho, mas não é capaz de levar os magos ao loca! exato. Eles vão a Jerusalém. Precisam perguntar lá pelo paradeiro do rei. É a escritura que vai determinar a localização (v.5s). A estreia desaparece, e só se faz ver novamente quando a direção indicada pela profecia passa a orientar o caminho dos visitantes. Não são as estrelas que indicam o caminho. É a Palavra!

2. A história da estrela também é conhecida em Roma, e está ligada à história de César Augusto (cf. Grundmann, p.81). Não seria intenção do texto delimitar-se aqui no culto ao imperador? É bem provável que sim. Augusto, o Grande (Herodes, o Grande?) está sendo destronado pela boca dos cristãos que retirem o brilho da estrela de sobre ele e a colocam sobre a manjedoura.

Parece-me que faremos bem mais jus ao texto, buscando nestas duas observações a sua intenção, do que em especulações sobre uma possível datação.

Viemos para adorá-lo — PROSKYNEO, adorar, venerar com o rosto em terra (cf. Bauer, p. 1421) - indica o costume da prosci-nese, própria do mundo oriental. O termo se repete nos w. 8 (Hero¬des sugere fazê-lo) e 12 (os magos adoram o menino).

A pergunta dos magos está deslocada. Vieram ao lugar errado. Em Jerusalém ninguém sabe de nada. E a pergunta causa alarma (TARASSO = alarmar, transtornar, causar pânico, cf. Bauer, p.1593), primeiramente em Herodes, e, em consequência em toda a Jerusalém. Herodes teme a perigosa concorrência. Já teve que afastar seu cunhado, Aristóbulo, seus filhos e o antigo sumo-sacerdote Hircão — este na idade de 80 anos —, por temer a conspiração por parte deles (cf. Metzger, p. 182s). Sua ânsia pelo poder não admite rival. E não é a toa que toda a Jerusalém se alarme, trema de medo. Pois sabe que, quando Herodes se alarma, o sangue corre solto.

O alarme provoca a convocação dos principais sacerdotes e dos escribas, cujo intuito é descobrir o local de nascimento do Cristo. A pergunta dos magos é logo identificada com a expectativa messiânica. Contudo, é interessante notar que a palavra rei não sai da boca de Herodes nem do clero jerosolimita.

A resposta de sacerdotes e escribas é tirada de Mq 5.1,3 (Almeida — 5.1,4). Mas o citado é bastante livre, não correspondendo ao texto Massorético nem à LXX. Além disso, está acoplado a 2 Sm 5.2. Notemos as diferenças entre o texto de Mateus e o de Miquéias:

1. Enquanto Miquéias fala em Belém Efrata, Mateus fala em Belém, terra de Judá.

2. Se Miquéias diz que Belém é pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, Mateus afirma que ela não é de modo nenhum a menor entre as principais de Judá.

3. Se Miquéias i fala naquele que há de governar (MASCHAL, diferente de reinar MALACH) em Israel, Mateus toma sua afirmação de 2 Sm 5.2, falando do guia (HEGOUMENOS).

4. Finalmente ambos concordam na opinião de que ele há de apascentar {Mq 5.4; Mt 2.6b 13) o povo de Israel. Esta afirmação combina também com 2 Sm 5.2, onde se diz que Javé falaraz sobre Davi: Tu apascentarás o meu povo Israel, e serás chefe (NAG l D) so¬bre Israel.

A primeira diferença não apresenta problemas. Trata-se apenas de substituir a denominação pouco comum Efrata (ela aparece apenas como designativo de Belém em Rt 4.11; 1 Cr 2.24 e Mq 5.1) por uma localização geográfica mais precisa: terra de Judá (cf. Grundmann, p.78), também para o que segue).

Já na segunda, há uma alteração substancial do texto, que parece ser motivada pela compreensão teológica de Mateus, conforme a qual, se Jesus nasce em Belém, ela não pode ser de modo nenhum a menor entre as principais de Judá.

Quanto ao terceiro ponto, é significativo que nem Miquéias nem Mateus se utilizam de termos próprios para designara figura de um rei. Os termos MASCHAL (Mq) e HEGOUMENOS (Mt) podem, sem dúvida, aplicar-se a uma figura real. Mas por que não ser claro, quando há possibilidade de sê-lo? Por que não MALACH, por que não BASILEUEIN? Parece-me que tanto Mateus quanto Miquéias querem distanciar-se da figura do rei, e talvez Mateus o faça de modo mais claro que o profeta. Aquele que vem de Belém deve guiar! Isto é muito diferente daquilo que fazem Herodes e outros reis conhecidos por seu despotismo. E afirmação tirada de 2 Sm 5.2 ainda reforça esta hipótese: o Guia deve apascentar (POIMANEIN) meu povo Israel. Claro, a figura se adapta muito bem a Davi, mas ao Davi popular da História da Ascenção, não ao Davi despótico da História da Sucessão.

Não há dúvida, Mt 2.1-12 vai clareando sua expectativa messiânica aos poucos: Se os magos procuram pelo Rei dos Judeus (v.2), Herodes fala no Cristo (v.4) e a profecia anuncia um Guia, um Pastor. Há uma virada na compreensão do esperado. Ele é diferente do que se está acostumado a ver: de poderoso, forte, prepotente e despóstico, ele passa a ser Pastor e Guia.

Os vv.7-9 retomam os vv.4-6. Antes Herodes convocara o clero jerosolimita para obter dele a informação a respeito do local de nascimento do Cristo. Agora convoca, secretamente, os magos. Precisa saber de mais uma coisa: quando apareceu a tal estrela? O objetivo desta sua pergunta estará esboçado em 2.16. Crê que com esta informação poderá determinar a idade do menino. É com base na resposta dos magos, não expressa claramente em nossa perícope, que irá ordenar a matança de todos os meninos de Belém e seus arredores, que tenham menos de dois anos de idade. Mas seu plano ainda não é este. Espera que os magos localizem o possível rival. Então irá adorá-lo (v.8) — mas a sua maneira.

Estas duas reuniões com o clero e com os estrangeiros, permitem a Herodes arquitetar seu plano. É em função disso que os envia a Belém. Dá-lhes a informação que pediram (v.2), uma informação de que tanto ele quanto o clero de Jerusalém podem dispor, pois ela se encontra nas Escrituras.

Os magos vão a Belém, conforme o objetivo que os trouxe à Palestina. Herodes e os intérpretes da Palavra, porém, não fazem o mesmo. Eis a ironia: os estrangeiros, os adoradores de estrelas, os pagãos vão a Belém. O rei de Jerusalém, construtor do Templo, e os que conhecem a Palavra ficam em casa. Quem deveria ir até lá não vai; os que não pertencem ao povo eleito põem-se a caminho.

O poder político, religioso e ideológico resiste, não quer conhecer o menino. É como se Mateus prefigurasse aqui o conflito que Jesus irá desenvolver com os detentores do poder, com aqueles que se agrupam em torno do Templo, que deveriam saber, mas fingem que não sabem. A atitude dos magos, por outro lado, é semelhante a do centurião de Cafarnaum, cuja fé provoca a afirmação de Jesus: Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. (Mt 8.11s; cf. Gorgulho/Anderson, p.22s).

Os magos retomam o caminho, agora com o destino certo. E eis que a estrela reaparece. Não se dissera antes que ela desaparecera, mas a surpresa indicada pelo lDOU deixa perceber o acontecido. Antes ela os levara ao local errado; agora, depois de a direção haver sido corrigida pela Escritura, ela pode reaparecer. Mais uma vez se afirma que é a Palavra, e não a estrela, que indica o caminho em direção ao menino.

Se Herodes e toda a Jerusalém se alarmam com a notícia do nascimento (v.3), os magos se alegram com grande e intenso júbilo. O contraste é ressaltado. Os estrangeiros alegram-se com o nascimento do rei dos judeus. Os judeus alarmam-se com a notícia.

Os dois últimos versículos fecham a narrativa, retomando os vv.1-2. Os magos vieram para adorar o menino. Agora o adoram (PROSKINEO - vv. 2s,11) e podem voltar. O local onde encontram Jesus com sua mãe é uma casa (OIKIA). Mateus parece não conhecer a tradição da manjedoura (cf. 1.18-25).

Após a adoração os magos ofertam presentes: ouro, incenso e mirra. A menção a três presentes diferentes provavelmente levou a que se passasse a falar em três magos na tradição cristã. E, sem dúvida, terá sido a menção ao ouro que os elevou à categoria de reis. Mas o próprio de reis é receber presentes, não dá-los. Os magos adoram o menino como rei, pois foi à procura de um rei que vieram. Presentes para o rei são mencionados em SI 72.10ss, o ouro especificamente no v.15. lá 60.6 menciona ouro e incenso. Mateus acrescenta a mirra. O que torna os presentes preciosos é o fato de não serem originários da Palestina. Incenso e mirra são obtidos do cerne de determinadas árvores do sul da Arábia (cf. Grundmann, p.79; Bauer, p.936). Tanto no SI 72 quanto em Is 60, o ouro é proveniente de Sabá, igualmente no sul da Arábia. Não obstante, as passagens do AT mencionadas devem ter contribuído para que a tradição cristã transformasse os magos em reis. Além de ouro, incenso e mirra, porém, nada há no texto de Mateus, que permita indicá-los como figuras reais.

Advertidos por Deus em sonho para que não voltem à presença de Herodes, os magos voltam por outro caminho a sua terra. A providência divina tematiza já o que irá seguir-se. Desobedecendo a Herodes, os visitantes participam da preservação do menino ameaçado pelo diabólico plano de extermínio do poderoso rei.

III — Meditação

1. A pregação sobre Mt 2.1-12 está prevista para o dia de Epifania, a festa da Revelação. Originalmente o dia 6 de janeiro é a data em que se comemora o nascimento de Jesus. Ainda hoje a igreja armênia festeja o Natal neste dia. Apenas a partir do séc. IV a Igreja passou a festejar este acontecimento no dia 25 de dezembro, não sem encontrar sérias resistências.

Mas não era este o único conteúdo original da festa. Dela também faziam parte a adoração dos magos, o batismo de Jesus e o milagre das bodas de Cana. Epifania não se restringia, pois, à revelação de Deus acontecia em Jesus Cristo. Acentuava também a importância de que esta revelação fosse descoberta e constatada pelo homem. Ao transferir sua celebração de Natal para o dia 25 de dezembro, a igreja ocidental esvaziou a festa de Epifania, roubando-lhe o conteúdo próprio do nascimento de Jesus e distribuindo os outros temas pelos domingos subsequentes. Assim, o texto básico de Epifania passou a ser a narrativa sobre a visita dos magos, que terminou por determinar o assunto da festa até aos dias de hoje (cf. Nagel, p.530s; Voigt, p.89).

2. O proprium de Epifania é, pois, a revelação de Deus oculta no menino humilde. A história dos magos acentua este aspecto ao indicar que o povo de Israel não reconheceu esta revelação, ao passo que pagãos vieram ao menino e o adoraram. Jesus é o Cristo prometido a Israel, e é ao mesmo tempo Senhor sobre todo o mundo. Já por ocasião de seu nascimento os outros povos estão presentes.

3. Ao transformar os magos em reis, a tradição cristã foi progressivamente esquecendo que se tratava de pagãos. Cada vez mais se acentuou a realeza dos estrangeiros, através de uma supervalorizacão de seus presentes, a ponto de hoje ser comum em nossas igrejas e na opinão popular a intepretação de que ricos e pobres vieram à manjedoura. Associam-se assim a narrativa de Lucas sobre os pastores e a história de Mateus sobre os supostos reis, o que fornece um ótimo elemento para sustentar a ideologia do poder: apaga-se um pouco a visão esquerdista de Lucas, contrabalançando-a com a mais favorável aos ricos de Mateus. Uma ótima receita para estragar o Natal, que é a festa da pobreza, da manjedoura, da boa nova aos marginalizados, daquele que é perseguido desde a sua primeira infância (Mt 2. 13ss) até a sua morte na cruz.

4. Um fato que não pode, de maneira alguma, ser esquecido na interpretação de Mt 2.1-12 é o de que Herodes não foi adorar o menino. Pelo contrário, seu intersse nele aponta claramente para o sistema repressivo dos detentores do poder despótico, que não admitem a possível concorrência, e que não hesitam nem mesmo em promover o genocídio. A figura do rei Herodes mostra claramente que os reis não foram à manjedoura (apesar de Mateus não falar em mangedoura). É, pois, decisivo desmistificar a lenda e voltar com urgência ao que o texto realmente diz.

5. Apagada esta memória ideológica favorável aos dominantes, importa buscar os acentos imprimidos pelo texto. A meu ver destacam-se três aspectos, todos eles construídos no texto em cima de contrastes:

a) Os astros estão sendo destronados: a Palavra tem a primazia sobre a estrela.

b) Os poderosos não admitem a possibilidade de perderem seu poder: Herodes, o Grande se alarma ao ouvir falar do nascimento e busca um meio de eliminar o menino.

c) O poder político, religioso e ideológico de Jerusalém (Herodes, sacerdotes e escribas) treme nas bases e se alarma com a notícia trazida pelos estrangeiros, enquanto que estes, a quem o Cristo não foi anunciado, se alegram intensamente ao encontrarem o menino.

a) Os astros estão sendo destronados

Os magos vêm a Jerusalém, seguindo uma estrela. É através de seus estudos astronômico-astrológicos que ficam sabendo a respeito do nascimento do Rei dos Judeus. Mas a estrela os traz ao lugar errado. Leva-os a Jerusalém, à capital, pois é normal que se procurem pessoas poderosas nos centros de poder. Com isso, entretanto, a narrativa está reduzindo considerável mente o valor da estrela. Ela não tem poder por si só. Poder tem a Palavra, a profecia. Esta sim é capaz de corrigir o rumo, de mostrar com clareza o local em que o menino nasceu.

Para compreender bem o que se passa, é necessário lembrar que os magos provêm do mundo babilônico, um mundo, cuja religião se baseia nos astros. Já no período do Exílio, após 587 a. C., o povo de Israel teve de se defrontar com essa fé no sol, na lua e nas estrelas. É em cima dessa fé que se constrói o relato da criação de Gn 1,1-2, 4a. Ali luz, sol, lua e estrelas são criaturas de Deus. Também ali os astros são destronados, são levados ao ridículo as divindades babilônicas, quando se diz que Deus as fixou no céu.

Essa religião babilônica serve de base ideológica para toda a sustentação do poder babilônico. Sol e lua, secundados pelos astros menores, representam o mundo hierárquico. Assim como eles governam sobre o dia e a noite, assim o rei e sua corte governam sobre o povo. Os astros legitimam o poder dos fortes e garantem a dominação sobre os fracos. Aliás, este é o verdadeiro problema da idolatria. Não se trata apenas de uma crendice popular. Trata-se de todo um sistema que quer inculcar na consciência do povo o direito de os poderosos dominarem sobre eles.

Não é assim o Deus de Israel. Javé é um Deus que liberta, que derruba as estruturas opressoras. Sua Palavra vale mais do que mil sinais no céu. É por isso que, por um lado, a estrela se torna instrumento de Deus. Ela traz os pagãos para onde Deus quer. Mas, por outro lado, ela é colocada em posição de inferioridade em relação à Palavra. O sistema idólatra vai continuar levando as pessoas a Jerusalém, ao centro de poder. A Palavra, ao contrário, vai apontar para um outro lugar, para Belém, uma cidadezinha insignificante, pequena demais para Miquéias, já não tão pequena assim para Mateus, porque Deus a escolheu para ali se revelar.

Os astros estão sendo destronados, e, com isso, os olhos de todos são desviados para longe dos centros de poder, para a humildade de Deus, que não fica brilhando nas alturas, mantendo o poder dos poderosos, mas que desce ao chão, que se faz homem, pobre, para começar com os homens uma nova caminhada, caminhada de libertação.

Há ainda um segundo aspecto a destacar com relação à aparição da estrela. Dissemos acima que também as lendas em torno de César Augusto conhecem o fato de seu nascimento haver sido precedido pelo surgimento de uma estrela. Isso com toda a certeza era conhecido pelos cristãos, que viviam sob a dominação do Império Romano. Transferindo esse elemento das narrativas em torno de Augusto para a história de Natal, destrona-se mais um poderoso. Se associarmos este reflexão ao que dissemos antes, temos então em Mt 2.1-12 duas indicações ligadas à estrela de que o nascimento de Jesus se dá em oposição à estrutura de poder reinante na época. Tanto os deuses babilônicos quanto o poderoso imperador de Roma estão sendo destituídos. Não é à toa que Herodes se alarme. Afinal, ele é o Grande, um Augusto menor, sem dúvida, mas sempre um Augusto que não admite concorrência.

b) Os poderosos resistem à possibilidade de perder seu poder

O contraste trabalhado no texto, entre Herodes e Jesus, é claro e evidente. Os magos vêm procurar um novo rei, quando o outro ainda governa. Herodes se alarma, isso caracteriza o conflito.

Já falamos do despotismo sanguinário de Herodes. Ele é um homem forte, estabeleceu seu poder pelo terror, não admite concorrência. Jesus é um frágil menino desconhecido, do qual em Jerusalém nem sequer se sabe que nasceu. Mesmo assim, Herodes o teme, e começa a esboçar-se mais um terrível plano de afastamento de possíveis ameaças.

O plano é sutil. Herodes não faz calar os magos. Não reprime a notícia. Ele é mais inteligente do que outros governantes. Tenta aliciar os magos. Quer que encontrem o menino, para que também possa ir ao seu encontro e adorá-lo. E os magos quase caem na armadilha. Precisam ser expressamente advertidos de que não devem voltar à presença do rei. E o texto reforça a sutileza do mandatário, ao, só no último versículo da perícope, começar a apontar para a ameaça que paira sobre Jesus. A gente mesmo quase se deixa levar pela voz branda e pela linguagem religiosa do rei. Afinal, ele conhece a religião. Sabe que o Cristo foi prometido. Controla seu receio e sua raiva. Fala manso, alicia, mostra-se bom.

De governos assim, só por milagre se pode escapar. E é isso que o texto vai revelando. O sonho, a fuga, o auto-exílio são a única maneira possível de resistir à sagacidade do poderoso rei de fala fina. As analogias com os dias de hoje não são difíceis de traçar.

Mas o próprio texto se encarrega de decretar o fim desse tipo de poder cruel, sanguinário e enganador. As escrituras apontam para algo novo. Aí vem alguém que é diferente. Vem do interior, do meio do povo, do lugar humilde. Vem para ser Guia, não mais déspota. Vem para apascentar o povo, para ser pastor, e não lobo que devora os mais fracos. No contraste gritante com Herodes, o Grande, está a novidade do Jesus menino. O mundo se transforma, pois Deus se revela a partir de baixo.

Mas tudo isso não acontece como passe de mágica. Assim que a transformação se anuncia, a estratégia para abafá-la na origem já está traçada. E, mesmo que não seja bem sucedida de início, mesmo que o menino consiga escapar agora, as forças da dominação não descansarão até pregá-lo na cruz. De um lado está o perseguidor incansável, de outro, aquele que do começo ao fim de sua vida irá sofrer a perseguição. Mas mesmo na morte — e muito mais nela — ele deixará viva a esperança e a certeza de que o fim dos prepotentes chegou.

A dialética exposta no texto evita euforias simplistas. Se decreta o fim dos poderosos por um lado, é suficientemente sóbria para deixar bem claro que aqueles não desistem tão fácil. O seu fim realmente só chega com muita luta, muito sofrimento e muito esforço para superar o que está aí. Esta luta entre Jesus e o poder constituído será constante no Evangelho. E, mesmo ao seu final, os dominantes estarão tão fortes quanto antes, tão fortes quanto continuam hoje, apesar de seu fim ter sido decretado há tanto tempo. Entre estes dois pólos deve ficar a mensagem: nem euforia por uma vitória que ainda não chegou, nem derrotismo diante dos poderes opressores. A fé pode cantar a vitória, pois tem certeza de que Deus a levará ao alvo, mas não pode ficar parada nisso, pois a luta está apenas no princípio.

c) Herodes e os seus se a/armam; os magos se alegram

O texto dá uma tapa de luva no judaísmo. Os herdeiros da Palavra não sabem que o menino nasceu, tremem ao ouvir a notícia, não vão adorá-lo e ainda intentam matá-lo. Ter a Palavra ainda não significa nada. Não é difícil ajustá-la a propósitos ideológicos inversos a sua mensagem libertadora. O melhor exemplo disso está na própria interpretação lendária do texto, que fez dos magos pagãos reis piedosos.

Herodes governa o povo de Deus, até se põe a restaurar e ampliar o Templo. Conhece a expectativa messiânica dos judeus. É ele quem interpreta corretamente os magos, ao perguntar aos sacerdotes e escribas onde deve nascer o Cristo (v.4). Vejam só, ele até pede informações sobre a Palavra! Até se propõe a adorar o menino! Mas faz uso do saber de sacerdotes e escribas, faz uso da Palavra e da fé dos magos para atingir seu próprio objetivo: afastar ú possibilidade de subversão da ordem, matando o menino capaz de catalisar as esperanças populares. Manipula o clero, manipula a Palavra, manipula a fé. E age assim, porque tem medo, porque treme, porque se alarma.

Ele não vai até lá. E também não vão lá os escribas. Também não vai lá o povo. A fé foi esvaziada pelo medo, pois a fé pretende mudanças, e isso não é bom. É melhor que fique tudo como está. Assim ninguém se incomoda. Mais uma criança morta, mas não um banho de sangue. Fé e conservadorismo até que vão bem de mãos dadas.

O problema não está só nos astros, nos outros deuses. O problema está também aí, quando se transforma Deus em ídolo, quando se faz do Libertador um mantenedor da ordem constituída. Por isso é melhor não ir lá. É melhor nem saber que o menino nasceu.

Os pagãos, porém, vão até lá. Alegram-sel Caem com o rosto em terra e adoram o menino humilde. E são eles os adoradores de estrelas! São gente estrangeira, pagãos, maus conhecedores da Palavra! Muitos virão do Oriente e do Ocidente... Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus (Mt 22. 31s), pois eles creram, vocês não. Que absurdo! A verdadeira fé está com os de fora! Eles não oram, não lêem a Bíblia, não vão à igreja! Mas se alegram.

Não é â toa que voltem por outro caminho. Não dá para converter-se para dentro de uma fé conservadora. Desistem dos astros, sim, pois desistiram dos poderosos. Mas seria prova de total incompreensão, se abandonassem seus ídolos e voltassem para Herodes. Pois aí não haveria diferença. Continuariam idólatras. Idólatras crentes, talvez. Mas sempre idólatras, pois nada teria mudado. E é isso que não pode acontecer. Afinal, a gente não se converte para a igreja, converte-se para a vida.

IV — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: A minha alma engrandece ao Senhor, porque o Poderoso me fez grandes coisas. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes. (Lc 1.46,49,52).

2. Confissão de pecados: Senhor Deus, nosso Pai! Diante de ti colocamos a nossa culpa e o nosso pecado. Temos deixado que os ídolos do poder governem nossas vidas. Temos exaltado os poderosos e esquecido os humildes. Nós te transformamos em ídolos. Fizemos de conta que tu só estavas aí para abençoar e justificar os nossos atos de desamor e injustiça. Esquecemos que a tua Revelação se dá a partir de baixo, acontecendo numa pobre manjedoura e numa cruz. Com isso nossos olhos se desviaram dos fracos, dos pobres, dos sofredores, e se voltaram para o poder, a honra e a glória em nosso próprio benefício. Restitui-nos, Senhor, a clareza da fé. Mostra-nos, através de tua Palavra, a tua verdadeira vontade. Tem piedade de nós. Senhor!

3. Absolvição: Por breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias torno a acolher-te; num ímpeto de indignação escondi de ti a minha fa¬ce por um momento; mas com misericórdia eterna me compadeço de ti, diz o Senhor, o teu Redentor. (Is 54.7s).

4. Oração de coleta: Senhor, em tua Palavra tu te revelas a nós. É através dela que te conhecemos. Pedimos-te: abre-nos os ouvidos e as mentes, para que possamos escutar o que tu nos tens a dizer. Não permitas que nossas ideias e nossos anseios nos afastem de tua verdade. Por Jesus Cristo, amém.

5. Leitura bíblica: Is 60.1-6

6. Assuntos para a oração final: agradecimento pela Revelação de Deus em meio aos humildes; pela Palavra que corrige a nossa visão do mundo; pela esperança de que Deus levará a bom termo a caminhada em direção a seu Reino; pela certeza de que os poderosos do mundo estão derrotados. Intercessão por todos aqueles que ainda não entenderam a Revelação de Deus, e continuam crendo nos ídolos e nos poderosos; por todos aqueles que sofrem perseguições, injustiças e violência na caminhada em direção ao Reino de Deus; por todos aqueles que ainda têm medo de participar da caminhada; e, especialmente, por todos aqueles que sofrem as consequências deste mundo idólatra: os pobres, os famintos, os explorados, os injustiçados.

V — Bibliografia

- BAUER, W Griechisch-Deutsches Wörterbuch zu den Schriften des Neuem Testament und der übrigen urchristlichen Literatur. 5. ed. Berlin, 1971.
- BRAKEMEIER, G. Observações introdutórias referentes ao Evangelho de Mateus. In: Proclamar Libertação., v. 2. São Leopoldo, 1977.
- GORGULHO, G. e ANDERSON, A.F. A justiça dos pobres — Mateus. In: Coleção Círculos Bíblicos, v. 4, São Paulo, 1981 .
- GRUNDMANN, W. Das Evangelium nach Matthäus In: Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament. V.1.3.ed. Berlin, 1972.
- METZGER, M. História de Israel. São Leopoldo, 1972.
- NAGEL, W. Epiphanienfest. In: Die Religion in Geschicht und Gegenwart. v. 2. 3. ed. Tübingen, 1958.
- VOIGT, G. Meditação sobre Mt 2.1-12. In: - Der Schmale Weg. Göttingen, 1978.


 


Autor(a): Carlos A. Dreher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania

Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 12
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14669
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Ao deixar de orar por um único dia sequer, perco grande parte da minha fé.
Martim Lutero
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