Mateus 21.33-43

Auxílio Homilético

17/10/1993

Prédica: Mateus 21.33-43
Leituras: Isaías 5.1-7 e Filipenses 3.12-21
Autor: Leonídio Gaede
Data Litúrgica: 20º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 17/10/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII


1. Crime

A tarefa da busca de uma interpretação da chamada parábola dos lavradores maus põe-nos no difícil caminho da procura dos assassinos de Jesus de Nazaré. Nossa história torna este caminho difícil. Se, por um lado, não queremos dizer nenhuma frase que sequer se aproxime de uma justificação do trauma Holocausto (matança de judeus na 2° Guerra Mundial), por outro lado, também não ignoramos e nem pretendemos justificar a concentração do que se considera o quarto poder em nossos dias (diz-se que o setor das comunicações de massa concentra-se nas mãos de judeus em todo o mundo).

A questão é esta: Quem matou Jesus, os judeus ou os romanos? Esta questão nos é colocada pela expressão erudita do autor do evangelho de Mateus, um judaico-cristão que gozou de uma formação de escriba (Lohse, p. 152): Kakous kakou apolesei (ele fará perecer de forma má os malvados). E Goppelt diz:

A parábola dos lavradores maus (21.33-46) mostra a rejeição de Jesus como ato final da atitude de Israel contrária à aliança. No passado, sempre de novo fora evocado o apelo de Deus a Israel, o povo da aliança, mediante os profetas. Agora, no entanto, o assassinato do mensageiro derradeiro, do Filho, provocou a ruptura. O dono da vinha destruirá horrivelmente os maus e dará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos no tempo devido (V. 41). A frase redacional conclusiva (v. 43) confirma expressamente a substituição do povo da antiga aliança pelo povo da nova aliança: Portanto vos digo: o reino de Deus vos será tirado e entregue a um povo que produz os respectivos frutos (Goppelt, p. 489).

Assim, facilmente poderemos aderir a uma hermenêutica de substituição (que substitui Israel como povo de Deus pelos cristãos).

Se recorrermos, porém, ao fato de Jesus ter sido crucificado, e não apedrejado, vamos caracterizar uma romanizacão do crime. Poderíamos, então, dizer: os lavradores maus, que mataram o Filho, apenas estavam em chão judaico. A culpa é, então, como se fosse dos ianques, isto é, do Império Romano.

E o povo que gritou: Crucifica-o!? Era o povo da cidade. Em hebraico, o Am. É aquele que vivia em Jerusalém por fazer parte do exército, do templo ou da administração. É este povo que, em Brasília, gosta de descer a rampa com o presidente. Em Jerusalém, eram os romanos sitiantes e os líderes judeus. Estes últimos estão comprometidos com o crime pela denominação principais sacerdotes, nos vv. 45-46.

2. Testemunha

A caracterização da autoria do evangelho de Mateus é interessante. Trata-se de uma testemunha polémica. Já houve muita briga em torno disso. A tradição da igreja não conseguiu sustentar o apóstolo Mateus como autor do relato. Lohse diz que o evangelho faz uso das fontes Q e Mc; por isso o testemunho não é ocular (pp. 149-151). Arremata literalmente: O evangelho de Mateus apenas permite constatar que seu autor proveio do judeu-cristianismo (p. 152). Este parece ser um dado im¬portante a respeito da testemunha: é judeu-cristão.

Mesmo que Trilling, em 1959, e Strecker, em 1962, tenham defendido que a testemunha não estava ligada ao judaísmo, mas somente copiara de fontes judaicas, que foi gentílico-cristão; mesmo que Walker tenha achado, em 1967, que se tratava de um sujeito para o qual Israel, após a destruição de Jerusalém, já era, mesmo assim a tese do entrelaçamento foi mantida: o rapaz era mesmo judeu-cristão (Lohse, p. 153).

O que de interessante sobra desta discussão? Sobra que o pau não sai quebrando para o lado dos judeus e que fica garantida a inclusão da perspectiva veterotestamentária no relato cristão. A presença do Salmo 118 em nossa perícope se deve a isto. Esta inclusão é bem pensada. O judeu-cristão Mateus está dizendo: A raiz do cristianismo está em nossa tradição, e nós não nos damos conta disso! Seu argumento favorece a unidade testamentária.

3. Depoimento

Estamos diante de uma parábola. Precisamos assegurar isto para garantir sucesso em nossa busca. Com a devida licença de J. Jeremias, vejamos o que diz N. Perrin. Segundo ele, Jülicher

... estabelece a distinção entre parábola (símile, fábula exemplar) e alegoria. Parábola é discurso 'autêntico', isto é, significa o que ele diz, empregando figuras para expressar seu sentimento. Alegoria, por seu turno, é discurso 'não autêntico', isto é, não significa o que ele diz, mas oculta seu sentido em símbolos (Perrin, p. 314).

Dá para dizer assim: na alegoria não se menciona o que é alegado; por isso somente o grupo, por cuja causa se faz alegação, recebe a comunicação. Quem sabe o fato entende a figura. Exemplo típico disto está em Ez 17.

Na parábola, é diferente: a menção comunica o que é alegado. A diferença está no fato de ser possível fazer uma menção sem comunicar o que está sendo alega¬do, e não é possível fazer o inverso.

Para que serve isto? É importante fazer esta diferenciação, porque alegoria e parábola partem de conceitos diferentes de ensino: a parábola é um desafio direto a todos (Perrin, p. 314), e a alegoria tem uma mensagem a um grupo que tem a chave da interpretação requerida no caso.

Nosso maior problema neste depoimento da testemunha Mateus continua sendo que Jülicher foi, segundo Perrin, combatido na sua ideia de que as parábolas de Jesus eram destinadas a ser prontamente entendidas e a expressar uma única verdade especial, uma verdade de aplicação geral e mais ampla possível (Perrin, p. 314). Mesmo que tivéssemos dificuldades em assegurar qual é esta única verdade especial, comunicada pela parábola em questão, a tese de Jülicher nos ajudaria a evitar a sua alegorizacão.

4. Júri popular

Li este texto com um grupo de agricultores que faz parte do ponto de pregação de Volta da Vitória, no interior do município de Rodeio Bonito — RS. Também o propus para leitura numa reunião de jovens em uma comunidade interiorana. Chamou-rne a atenção o fato de que, em nenhum dos grupos, os lavradores da parábola foram relacionados com agricultores de hoje.

Da boca de alguém que representa bem a classe média de uma cidade pequena (marcada pela atividade comercial com agricultores), no entanto, já ouvi: Os colonos se aproveitam da situação quando podem. Referia-se com isto ao v. 35.

Também de um militante político, dos chamados esquerdistas, ouviu-se: Os colonos deveriam fazer isso mesmo: enfrentar aqueles que simplesmente lhes tiram o que é ganho com suor.

Nos grupos onde propus a leitura de Mt 21.33-43, no entanto, a relação mais insistentemente feita foi a do patrão (v. 40) com Deus. Isto aconteceu mais no sentido de afirmar que Deus, mesmo parecendo meio ausente em nosso mundo (veja no hinário Hinos do Povo de Deus, da IECLB, os hinos de n° 85,4 e n° 174,3), ele ainda tem em suas mãos todo o poder. É como se os agricultores estivessem dizendo: Precisamos viver esperando como se, em qualquer hora dessas, tivéssemos que prestar conta a quem agora parece ausente. Parece ausente só porque cada um está fazendo o que lhe vem à cabeça.

Na minha cabeça, consegui fazer uma ponte que liga o texto com uma esperança e um compromisso, de que falaram os agricultores. Esperam eles algo que vem, e isto os compromete já agora. Relacionei a esperança com o reino de Deus e o compromisso com a comunidade cristã (a igreja, eclesia).

5. Sentença

A parábola que nos faz pensar no assassinato de Jesus de Nazaré não chama para uma reclusão em cela solitária, mas para um compromisso de comunitariedade de todos os culpados. As grades da prisão (limites do judaísmo para a mensagem cristã) podem ser substituídas pela dimensão de uma esperança que, extrapolando nossa realidade, questiona-a com perspectivas novas.

6. Notícia

Na prédica sobre esta parábola, corremos o risco de querer dizer quem são os lavradores maus de hoje, os profetas que apanham, o filho, o dono, a vinha, a sebe, o lagar, a herança em vista... No meu ponto de vista, deveríamos evitar este esquema.

A prédica pode começar com uma tentativa de traçar um perfil de novos sujeitos históricos. Sujeitos que, na compreensão do pregador e de seu grupo, seriam capazes de atuar como elementos transformadores deste mundo, que temos e com o qual não sonhamos. Neste primeiro passo, podem ser levantadas as bandeiras mais presentes na realidade da comunidade ouvinte (a dita realidade não necessariamente precisa ter sido forjada pela comunidade, mas está presente em seu dia-a-dia por causa da atuação de outros grupos). Assim me imagino como traços do perfil destes novos sujeitos históricos: um traço indígena, um traço feminino, um traço naturalista... Eventualmente, pode-se também mencionar um sujeito que está perdendo o trem da história. Seus traços são: machismo, paternalismo, assistencialismo...

Num segundo passo, podemos entrar no texto bíblico pela porta dos fundos, isto é, pelo v. 43. Podemos tentar motivar os ouvintes com esta expressão forte: o reino será arrancado de uns e entregue a outros. Na oportunidade, propor a leitura de toda a parábola. É interessante conseguir como leitora uma pessoa estranha ao ambiente. Uma pessoa amiga de outra igreja, ou alguém que visita, pela primeira vez a igreja, pode ser convidada a ler o texto.

O terceiro momento da prédica é aquele que aponta para a comunidade cristã. As palavras compromisso e esperança são chaves na comunicação da notícia. Deve ficar claro que a substituição de sujeitos não é uma questão de raça ou de mérito pessoal. Uma ponte simplista entre o novo e o pobre também não é viável. Atuações historicamente eficientes fazem os novos sujeitos (são os frutos respectivos do v. 43).

A comunidade real para a qual pregamos não é a comunidade dos novos sujeitos. Lembremos, por exemplo, os inimigos da cruz de Cristo, para dizê-lo nas palavras do apóstolo Paulo (Fl 3.18). A comunidade cristã é, todavia, o grupo que mantém vivos todos os que são sujeitos transformadores na esperança. E é esta esperança que leva ao compromisso. Não se coloca nada abstrato, mas sinais concretos de comprometimento com a comunidade, assim como ela é.

7. Subsídios litúrgicos

1. Intróito: Sl 125.3

2. Confissão de pecados: Ler, parafraseando, Is 5.4-6

3. Absolvição: Sl 1.1-3

4. Leitura: Fl 3.12-21

5. Oração final: Após as intercessões, ler de Salmos Latino-Americanos (Edições Paulina/CECA, 1987) o Salmo da p.32.

8. Bibliografia

GOPPELT, Leonhard. Teologia do Novo Testamento, 2° Volume, São Leopoldo/ Petrópolis, Editora Sinodal/Editora Vozes, 1982. 575p.
GORGULHO, Frei Gilberto S. e ANDERSON, Ana Flora. A Justiça dos Pobres — Mateus. São Paulo, Edições Paulinas, 1981, 259p.
JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, Edições Paulinas, 1977. 492p.
LOHSE, Eduard. Introdução ao Novo Testamento. São Leopoldo, Editora Sinodal, sem data. 492p.
PERRIN, Norman. O que Ensinou Jesus Realmente. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1977. 327 p.


Autor(a): Leonídio Gaede
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 20º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 21 / Versículo Inicial: 33 / Versículo Final: 43
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13559
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