Mateus 25.14-30

Auxílio Homilético

07/11/1993

Prédica: Mateus 25.14-30
Leituras: Oséias 11.1-4,8-9 e 1Tessalonicenses 5.1-11
Autor: Nelson Kilpp
Data Litúrgica: Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico
Data da Pregação: 07/11/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII

1. O tema e os textos do domingo

O Antepenúltimo Domingo do Ano Eclesiástico contempla os textos do 26° Domingo após Pentecostes que correspondem às leituras do 33° Domingo do Tempo Comum. A leitura do Antigo Testamento (Os 11.1-4,8-9) diverge da primeira leitura proposta pelo lecionário ecumênico, que é Pv 31.10-13,19-20,30-31. Causa da substituição por parte dos luteranos talvez tenha sido a constatação de que o texto de Pv não combina bem com o tema dado pelo Evangelho: a parábola dos talentos (Mt 25.14ss.). A mulher trabalhadora e virtuosa de Pv 31 pode ser considerada um exemplo do servo bom que investe sabiamente os talentos recebidos de seu Senhor? Muitas mulheres talvez se rebelem contra a ideia de que seu trabalho e engaja¬mento em favor do lar deva ser visto como melhor investimento dos dons que Deus lhes deu.

Será que a substituição por Os 11 foi feliz? A decisão das Igrejas luteranas resgata, sem dúvida, um texto muito importante na teologia do Antigo Testamento, que não era contemplado homileticamente em nenhum outro lugar. Os 11.1-4,8-9 compara o amor de Deus por seu povo ao amor da mãe por seu filho: a mãe que ensina a criança a caminhar, que pega seu filho no colo e se inclina para oferecer-lhe o leite materno. É uma bela imagem do amor e da misericórdia de Deus por seu povo, apesar do grande pecado deste. Os 11.2 parece fazer a ponte para o tema da parábola dos talentos: (...) eu os chamava, (...) (mas eles) se iam da minha presença. O povo eleito, como o servo agraciado, pensa poder viver descomprometidamente, sem precisar corresponder à sua eleição. O texto de Oséias deveria mostrar, então, como a fé não deveria ser estéril, mas levar ao compromisso. Muito se espera de quem muito recebe (cf. Am 3.2).

Mas o escopo de Os 11 é outro: o texto afirma que a misericórdia de Deus é bem maior do que a culpa de seu povo, de modo que, apesar de tudo o que ocorreu no passado, Deus não o castigará. Exatamente nisto consiste a sua divindade (Os 11.9). Mt 25.14ss., por outro lado, ressalta a necessidade da atuação coerente da comunidade. Cada discípulo e discípula deverá prestar contas desta sua atuação por ocasião do Juízo Final. Teríamos, então, uma proposta homilético-teológica muito interessante: o Novo Testamento enfocaria a responsabilidade, a lei, e o Antigo Testamento acentuaria a misericórdia de Deus, o evangelho. A meu ver, no entanto, também o texto de Os não combina bem com a mensagem de Mt 25 nem com o tema do Domingo, que enfoca a vida cristã diante do fim dos tempos.

A Epístola (l Ts 5.1-11) se enquadra muito bem na temática geral dos últimos domingos do Ano Eclesiástico, que tratam do fim dos tempos, da segunda vinda de Cristo e do Juízo Final. (A Primeira Epístola aos Tessalonicenses é lida entre o 22º. E o 27º. Domingos após Pentecostes.) A afinidade de Ts 5 com a época litúrgica transparece claramente na menção da parusia de Cristo e na comparação da mesma com a vinda imprevisível do ladrão à noite )cf. Mc 13.35). Não há como calcular o dia nem a hora. Cabe à comunidade cristã estar constantemente vigilante.

As três leituras do Domingo têm grande peso teológico. Cada uma tem uma mensagem própria, mais ou menos ligada ao tema do Domingo. Cada um dos três textos pode ser base de uma pregação rica e frutífera.

2. Uma prédica sobre o Evangelho (Mt 25.14-30)

Concentro-me em dar algumas ideias de como o texto do Evangelho pode sei abordado numa pregação.

2.1. Após leitura pausada do texto bíblico (integral), sugiro uma problematização do mesmo, para que venha à tona toda a sua estranheza. As perguntas que a comunidade fará ao texto certamente serão variadas. Destaco as duas questões seguintes:

a) A estrutura da narração faz com que o leitor ou ouvinte da parábola se identifique com o terceiro empregado — nós também ganhamos pouco? Isto geralmente provoca em nós um sentimento de solidariedade (pena?) com este último servo. Temos, em todo caso, simpatia por ele. Alguns o considerarão injustiçado. Nisto reside o maior problema do texto: Deus aparece, nesta parábola, como sendo o patrão severo, injusto e déspota. O próprio v. 24 o diz com todas as letras: Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste, e juntas onde não espalhaste...

b) Um texto como este não contradiz tudo o que aprendemos de Deus? O v. 29 traz o exemplo de um capitalismo descarado, da pior espécie, sem nenhum escrúpulo: Porque a todo que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até p que tem lhe será tirado. Como Deus pode concordar com isto? Esta parábola ainda é a Palavra de Deus?

2.2. Após esta problematização, podem ser mostrados alguns detalhes do texto que apontam numa outra direção.

a) O v. 15 afirma que o proprietário distribui seus bens de acordo com a capacidade de cada servo.

b) O dinheiro não é dado como recompensa, mas para ser administrado. Não há, portanto, um pré-julgamento da atuação de cada servo no sentido de boa, média e ruim.

c) Não interessa o montante do lucro conseguido por cada empregado através do investimento do dinheiro. Tanto que lucrou cinco quanto o que ganhou dois talentos recebem a mesma recompensa (v. 21 e v. 23).

d) Na verdade, todos os três servos receberam muito do seu patrão. Um talento vale mil denários, ou seja, o salário de mil dias de trabalho.

2.3. Como um homem que vai viajar, Jesus deixa seus discípulos, sua comunidade para administrar seus bens até que ele volte no dia da prestação de contas. Os bens, os talentos que Cristo lega à sua comunidade, podem ser interpretados como sendo o Evangelho, a própria Palavra sobre o que Cristo é e faz. Poder-se-ia, aqui, enfocar a tarefa missionária da Igreja.

A temática pode, no entanto, ser enriquecida se entendermos talento de forma mais abrangente — não somente como o Evangelho de Cristo, mas também como dádiva de Deus, o Criador, a cada pessoa humana. Esta é a interpretação que a Igreja e o povo deram à palavra talento no decorrer dos tempos. Podemos, a partir daí, entender os talentos no sentido paulino de carismas ou como serviços que os diversos membros realizam na comunidade (e fora dela). Estes serviços/carismas poderiam ser arrolados na prédica. Não deveriam ser esquecidos os serviços mais humildes, geralmente não considerados talentos. Resgata-se, assim, a dimensão da tarefa, implícita no legado deixado por Cristo ou Deus. Os exemplos de talentos//dons/serviços contemplarão o que, de fato, existe na comunidade e o que ainda poderia haver. A intensão é de desenterrar talentos encobertos.

2.4. Devemos voltar ao terceiro servo. O que ele fez de errado ao esconder o dinheiro na terra? O que há de errado em guardar algo, para que não seja roubado? Isto não é uma atitude responsável diante da tarefa de proteger e assegurar propriedade alheia? Aqui pode ajudar uma reflexão de cunho mais existencial. Enquanto os dois primeiros servos fundamentam sua vida e sua atuação na confiança naquele que sustenta a comunidade, o terceiro servo baseia sua vida no medo. Características desta última atitude/existência são: tentar garantir o futuro; assegurar o que se tem; esconder-se atrás de paredes, cercas, muros; não se expor; buscar egoisticamente a sua própria salvação — incurvatus in se! Os que vivem a partir do medo têm uma imagem distorcida de Deus: Ele se transforma no deus déspota, que castiga.

2.5 A pregação poderia terminar com uma narrativa alternativa à parábola dos talentos, onde transparecesse que também o terceiro servo arriscou o seu talento. Mais ou menos assim: o terceiro empregado foi e investiu o seu talento, mas perdeu tudo. Como o patrão reagiria? Creio que diria também ao terceiro o que disse aos dois primeiros: Entra no gozo do teu senhor. Ficaria, assim, evidente que o que interessa é arriscar o talento, colocá-lo a serviço. Assim também a pregação não culminaria no juízo, ou seja, no castigo do terceiro servo. A intenção é, antes, incentivar que se desenterre o talento escondido, mesmo que seja pequeno. O menor dos talentos, quando colocado a serviço das outras pessoas, pode ganhar dimensões inusitadas. Quem arriscar-se a perder a sua vida é que vai ganhá-la.


 


Autor(a): Nelson Kilpp
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 25 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 30
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13563
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