Mateus 25.14-30

Auxílio Homilético

04/08/1985

Prédica: Mateus 25.14-30
Autor: Edson Saes Ferreira
Data Litúrgica: 9º Domingo após Trindade
Data da Pregação: 04/08/1985
Proclamar Libertação - Volume: X


I — Considerações gerais sobre o texto

A história pregressa desta parábola oferece algumas dificuldades. Nosso texto encontra um paralelo em Lc 19.11-27.

Um dos pontos que mais chama a atenção é que, tanto em Mateus quanto em Lucas, o terceiro servo, o que escondeu o dinheiro, é duramente castigado. As maiores convergências entre Mateus e Lucas encontramos no final da parábola.

São grandes também as divergências, destacando-se principalmente a pormenorizacão dos motivos da viagem do rico senhor.

Diante do texto de Mateus e de Lucas surge, naturalmente, a pergunta: quem preservou a forma original? Os comentaristas são quase unânimes em dizer que Mateus deve ter sido mais fiel ao texto original.

A presente parábola é compreendida como instrução a respeito da maneira que Deus usa para julgar.

A situação na qual Jesus pronunciou esta parábola é desconhecida. No entanto, o texto está baseado em tradição muito antiga. Isso fica bem evidenciado pelas semelhanças entre Mateus e Lucas. Também deve ser ressaltado o estilo tipicamente oriental, com muitas repetições e diálogos.

Com esta parábola, mui provavelmente, Jesus está trazendo uma mensagem especial para a liderança religiosa judaica. Devemos estar lembrados que tal liderança havia levantado uma cerca bem alta em torno da lei divina, ou seja, os de fora (não judeus) não tinham participação na salvação.

Mateus parece entender o texto como parábola da parusia. O tempo da ausência do Senhor é o tempo que decorre entre a ressurreição e a segunda vinda de Cristo. Nesse ínterim os servos são chamados a viverem e agirem como mordomos responsáveis sobre aquilo que é dado por Deus.

Mateus, entre outras coisas, usa este texto para mostrar como os cristãos devem preencher o tempo até a parusia. O senhor é metáfora para Jesus Cristo. Ao voltar, pede prestação de contas aos servos (cristãos) sobre a maneira como usaram as dádivas recebidas. O tempo que separa o cristão da volta do Senhor Jesus é tempo para aproveitar e aplicar os talentos recebidos.

II - Considerações exegéticas

Originalmente o talento era uma unidade de peso, passando, mais tarde, a ser uma unidade monetária. Seu valor: seis mil denários. Valor do denário: trabalho de um dia. Assim sendo, um talento correspondia a mais ou menos dezoito anos de trabalho. O que, convenhamos, é uma soma considerável.

O uso do termo talento para indicar as habilidades ou dotes naturais, é uma decorrência desta parábola.

O sentido simbólico da palavra talento ganha realce na interpretação desta parábola:

a) alguns acham que se trata das habilidades naturais ou espirituais com que servimos a Deus;

b) outros acham que se trata da oportunidade espiritual, ou seja, da entrega que Deus faz de si mesmo e de seu caminho de salvação; no caso de Israel, significaria a chegada do Reino de Deus e a necessidade de submissão a Deus; no caso da parusia, significaria prontidão, através do serviço; no caso da morte, significaria prestação de contas.

c) podemos dizer também que uma verdadeira interpretação é um tanto difícil e que esta pode tornar-se bastante ampla.

... a um deu cinco talentos, a outro dois e a outro.... Como já vimos na parte anterior, o talento tinha um altíssimo valor. O senhor da parábola confiou uma soma altíssima aos servos. Cinco talentos representa o trabalho, aproximado, de noventa anos de serviço. Por meio de tais valores, o autor está indicando quão grandes responsabilidades estão sendo entregues por Deus aos seus servos.

... saiu imediatamente a negociar. Os dois primeiros servos fazem a mesma coisa, ou seja, saem a negociar. E, assim agindo, dobram o valor dos bens. Aprendemos que, por ocasião da volta do Rei, os servos prestarão conta do uso que fizeram daquilo que esteve ao seu alcance. Esta parábola conclama a que se faça uso imediatamente daquilo que está ao nosso alcance.

Um servo recebeu cinco talentos, outro recebeu dois. A vida deste segundo servo não tem menos valor, não tem menos significado. O que aqui importa é prestar conta daquilo que foi recebido, seja pouco, seja muito. Em última análise, perante o Senhor todos recebemos o mesmo. Nas coisas essenciais Deus trata a todos com igualdade.

Os talentos são dados por Deus assim como ele deseja. Não importa tanto a quantia. O que importa é o que é feito com o que se ganha. Diante de Deus, não é a quantidade da graça recebida que determina a medida do julgamento. Diante do Senhor o que importa realmente é sair imediatamente a negociar, a aplicar. Ou seja, o servo bom e fiel é aquele que enfrenta as tarefas e mais tarefas que o Senhor lhe confia durante o período da sua ausência.

No dia-a-dia de cada servo de Deus, um exército de pessoas e de tarefas desfila perante cada servo e tudo isso se constitui em tarefa para o servo de Deus. E is a chance de sair imediatamente e negociar, fazer, agir, arregaçar as mangas, sujar as mãos.

Pode o servo de Deus ficar tranquilo e acomodado vendo as necessidades do próximo? Pode ficar sossegado por um instante que seja?

... o que recebera um abriu uma cova e escondeu.... É interessante notar que o terceiro servo não é desonesto, não é desperdiçador. Na realidade, não é fácil interpretar este personagem. Dos três, certamente, é o mais interessante, mas também o mais complicado. Este servo guarda (enterra) o que recebera. Guarda-o com muito cuidado. E desta maneira dá provas de que reconhece de certa forma a existência e os direitos do seu senhor. Este servo não protestou e nem se rebelou contra o senhor. Ele simplesmente deixou de aplicar o que ganhou. E nisso consiste o seu grande erro. Assim, podemos dizer que este servo foi negligente. Recebeu e não usou sabiamente o que recebera. Este servo não foi sério diante do seu senhor.

É possível dizer que existem duas formas de seriedade: a revolta ou o empenho ativo. O lançar fora o talento ou o trabalhar seriamente com tal talento. Terceira forma não existe.

A pessoa para a qual Deus não é o primeiro na vida, a pessoa que não recebe dele sentido e consolo, alvo para a vida e ordens para a jornada, é um servo mau e negligente.

O Senhor Deus requer de nossa parte ação, a partir daquilo que recebemos. Seja muito, seja pouco. O que pode fazer o servo com um talento só? O servo que ganhou um só talento é, por assim dizer, o que está no centro do palco.

No mundo de hoje provavelmente existem mais pessoas com um do que com dois ou cinco talentos. Perigos peculiares cercam o homem de um só talento. Tal pessoa é tentada a enterrar o que ganhou. É tentada a pensar que posso fazer?, acabando assim ressentida com a própria vida. Pode tornar-se amargurada por não ser tão bem dotada quanto outras. Pode acabar insurgindo-se contra Deus. Na parábola vemos isso claramente no v. 24: Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste... Tal pessoa chega a acusar Deus do ceifar onde não semeou. Justifica, assim, o fato de ter enterrado o seu talento. Tal pessoa prefere deixar as coisas como estão. Prefere apenas observar. Se quisermos apenas observar os acontecimentos mundiais e o papel que Deus desempenha neles, como fez o terceiro dos servos, nada alcançaremos.

Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos.... Percebemos nessas palavras uma clara alusão à parusia ou segunda vinda de Jesus Cristo. Jesus voltará e requererá prestação de contas da parte de todas as pessoas. A forma como Jesus virá para cada pessoa altera a exigência da prestação de contas. A forma como Jesus virá, o tempo que isso implica, não são os elementos mais significativos. O que tem importância é a correta aplicação dos dons, das capacidades, dos talentos que nos tiverem sido dados.

... eis aqui outros ... talentos.... Aqui está o fruto que renderam os servos bons e fiéis. Aqui está o fruto dos que souberam distinguir entre o bem e o mal. O resultado dos que tiveram visão clara do importante e do supérfluo. Aos servos compete usar os meios concedidos pelo Senhor. De certa maneira, tudo vem por intermédio da sua graça, pois quem entregou os talentos foi o Senhor. O Senhor espera que os servos sejam fiéis e responsáveis. Aqui aprendemos um princípio usado por Deus: ele exige a partir do que ele deu. Nem mais, nem menos.

“... servo bom e fiel... Tais servos mostraram-se bons porque não receberam em vão a graça de Deus, ou seja, os talentos. Mostraram-se bons porque, a partir do que receberam, foram responsáveis. Em cima desta responsabilidade, e a partir da bondade do Senhor, receberam mais.

Cinco talentos é mais ou menos o fruto de noventa anos de trabalho. Aparentemente é uma grande quantia. Embora tais talentos representem bastante aos nossos olhos, ainda é pouco comparado com o que Deus tenciona fazer com os que lhe são fiéis. A vontade do Senhor é colocar os servos fiéis sobre o muito que é contrastado com o pouco desta vida.

Entra no gozo do teu senhor... Que privilégio, compartilhar do gozo do Senhor. Mateus fala aqui da alegria da vida eterna. A palavra CHARA (gozo, alegria) é interpretada por alguns como sendo uma referência à festa que é celebrada quando da volta do senhor. A festa seria símbolo da participação que temos no Reino dos Céus.

... por fim o que recebera um talento... Neste servo imperou o medo e isto o impediu de dar qualquer passo concreto no uso do talento recebido. De certa maneira este servo se mostrou egoísta: não serve aos seus semelhantes, serve-se a si mesmo. Não tem visão suficiente para colocar em prática, em funcionamento, o talento recebido.

Essa pessoa de um só talento é como uma nota no piano: se estiver desafinada ou muda poderá estragar o piano inteiro. A pessoa de um só talento pode falar, votar, trabalhar, orar. Na realidade, pode lançar mão de muitas habilidades, e o avanço do Reino depende dela também. Caso tivesse sido fiel, na história contada por Jesus, o servo de um só talento também teria entrado no regozijo de seu senhor.

Por causa do medo, o servo que recebera um talento fazia uma ideia errônea sobre o seu senhor. Uma ideia não insuficiente como pessoas podem ter hoje sobre Deus. Muitos veem em Deus um monstro terrível que espalha destruição e miséria. Culpam Deus pela falta de frutificação em suas vidas. Mesmo reconhecendo uma certa severidade no seu senhor, o servo de um talento preferiu ser negligente, nada fazendo de prático. Dessa maneira podemos dizer que não colocou em prática o conhecimento que tinha sobre seu senhor.

Tirai-lhe o talento... O reinar sobre o muito precisa passar pela experiência de ser fiel no pouco. Quem fez uso do talento que lhe foi confiado, receberá outros. No entanto, quem deixou de fazer uso do talento recebido, até esse um talento lhe será tirado. Em última análise, cada um é responsável pelo uso que fizer da graça que lhe é conferida. As oportunidades espirituais podem ser aproveitadas ou desperdiçadas. Quem desperdiça, até o um talento lhe será tirado. Como consequência maior, será considerado servo inútil e lançado para fora. Essa é uma declaração que Cristo repetiu muitas vezes (cf. Mt 8.12; 13.42; 22.13; 24.51; Lc 13.28).

As expressões trevas, choro e ranger de dentes, procedem dos ensinos e da literatura dos judeus, e são uma maneira de descrever o caráter do juízo imposto aos que ficam do lado de fora do Reino. Estando nas trevas as pessoas sofreriam muitas dores. Os que ficariam do lado de fora (trevas) sofreriam de frio e de fome, e por isso haveria ranger de dentes. Estes são símbolos do juízo. Tais expressões são usadas para expressar a ideia do julgamento final.

III — Meditação

A parábola dos talentos quer nos ensinar a aproveitar nossas capacidades. Aprendemos que os talentos são distribuídos em proporção desigual. Cada um recebe de acordo com a sua capacidade. Assim sendo, ao voltar, o Senhor não considerará os números absolutos, mas a percentagem da renda conseguida pelos servos.

Talento é, num sentido bem amplo, tudo o que recebemos da parte de Deus para ser trabalhado. É tudo aquilo que nos é concedido para aplicarmos em benefício do Reino de Deus e para o bem do próximo. Cada um corre o perigo de enterrar o seu ou os seus talentos. É bom saber que teremos de prestar contas tanto do que temos quanto do que sabemos e do que fazemos.

Que temos feito, até o momento, com o(s) nosso (s) talento(s)? Somos enviados ao mundo para que acionemos, ativemos e desenvolvamos o que nos é confiado. Nós, servos, já ao nos levantarmos pela manhã, devemos pôr o novo dia à disposição do Senhor. Devemos tomar o propósito de lhe servir.

Quantos talentos devem estar enterrados!!!

Não é tão fácil interpretar o servo que escondeu o talento. Dos três personagens é, certamente, o mais complicado. Ele seria hoje o típico cristão convencional. Não protesta, mas também não age. É morno.

Diante de Deus existem somente duas formas de seriedade: a revolta ou o empenho ativo, lançar fora o talento ou aplicá-lo. Terceira forma não existe.

O que fazer como comunidade cristã?

Como comunidade cristã vivemos num período onde aguardamos a volta do Senhor. E o que fazemos com nossos talentos? O tempo da espera não pode ser um tempo de passividade, de preguiça, de medo, de enterrar os talentos.

A demora do Senhor não deve ser vista como algo ruim, mas como grande oportunidade para aplicar, em benefício do Reino de Deus e do próximo, os talentos recebidos.

IV — Subsídios litúrgicos.

1. Confissão de pecados: Senhor Deus, neste momento, de maneira muito especial, colocamo-nos diante do Senhor. Agora, quando cultuamos o Senhor, como comunidade de Jesus que está reunida, pedimos que o Santo Espírito nos ilumine para que tenhamos coração sincero, coração voltado no Senhor, pois queremos pedir perdão pelos nossos pecados. Perdoa, ó Deus, quando deixamos de te adorar e de te servir assim como o Senhor merece. Perdoa, quando deixamos de usar correta e sabiamente as capacidades que o Senhor nos tem dado. Perdoa, quando enterramos os talentos que do Senhor temos recebido. Perdoa, quando deixamos de viver uma vida em benefício do nosso próximo. Perdoa e capacita-nos, ó querido Deus, para que tenhamos uma viva comunhão com o Senhor e que no dia-a-dia da nossa vida isto se refuta atingindo outras pessoas. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

2. Oração de coleta: Senhor Deus, queremos honrar e louvar o nome do Senhor. Queremos agradecer pela semana que tivemos. Obrigado pela vida, pela nossa vida, pela vida dos outros que não podem estar aqui. Obrigado que tua Igreja está espalhada pelo mundo todo e que o Senhor zela por ela. Obrigado pela nossa comunidade, pela nossa família, pelo trabalho, pelo pão de cada dia. Que bom que o Senhor nos chama a colocarmos em prática aquilo que do Senhor mesmo recebemos. Ajuda-nos, ó Deus, a sermos servos bons e fiéis. Ajuda-nos a caminharmos em direção do outro. Ajuda-nos a vivermos uma vida que traz contribuição ao Reino de Deus. Obrigado pela obra de Jesus Cristo realizada em nosso benefício. Em nome de Jesus Cristo. Amém.

3. Assuntos para a oração final: a semana que inicia, a família, a situação brasileira, nossa Igreja; os doentes da comunidade, os necessitados; aplicação correta dos talentos dados por Deus.

V – Bibliografia

- BRAKEMEIER, G. Preleção sobre Mateus. São Leopoldo, 1971 (polígrafo).
- CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado. vol. 1. São Paulo, 1980.
- JEREMIAS,.J. As parábolas de Jesus. São Paulo, 1976.
— —. Teologia do Novo Testamento. São Paulo, 1980.
- THIELICHKE, H. Mosaico de Deus. São Leopoldo, 1968.


Autor(a): Edson Saes Ferreira
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 10º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 25 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 30
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14678
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É isto que significa reconhecer Deus de forma apropriada: apreendê-lo não pelo seu poder ou por sua sabedoria, mas pela bondade e pelo amor. Então, a fé e a confiança podem subsistir e, então, a pessoa é verdadeiramente renascida em Deus.
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