Mateus 25.31-46

Auxílio Homilético

24/11/1996

Prédica: Mateus 25.31-46
Leituras: Ezequiel 34.11-16,23-24 e 1 Coríntios 15.20-28
Autor: Carlos E. M. Bock
Data Litúrgica: Último Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 24/11/1996
Proclamar Libertação - Volume: XXI

Pronto! Não tem mais tempo. Terminou. Assim falava a professora no dia do exame. Entregava-se a prova final. Nervos à flor da pele. Agora restava esperar pelo resultado. Aquele momento parecia crucial, mas não era. Se o estudante fizesse o que era sua obrigação durante o ano, seria aprovado. Se não, somente por sorte conseguiria a aprovação.

Esse texto de Mateus 25.31-46 tem para mim, guardadas as proporções, a conotação de prova final. Não há mais tempo. Quem fez, fez. Já não se decide mais nada. Quem fez o que era para fazer recebe a aprovação.

1. Leitura na Comunidade

Eis aí um bom texto para ser lido em conjunto na comunidade. Ele é agudo, penetrante e claro. Destaco algumas reações na leitura comunitária.

1.1. Leitura na Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (OASE)

No encontro das mulheres da OASE lemos o texto e respondemos a seguinte pergunta: qual o sentimento mais forte que percebemos em nós ao ouvirmos este texto? As mulheres responderam: medo, incerteza, dúvida e angústia. Estes foram os sentimentos mais citados. Neste grupo as pessoas se colocaram na situação dos que deveriam ajudar aos necessitados.

1.2. Leitura na Ação Encontro

Lemos o texto num grupo de mulheres de um trabalho comunitário de periferia no Bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo, chamado Ação Encontro. Participam desta ação diacônica da comunidade mulheres pobres, quase a nível de miséria. Elas fazem parte dos mais diversos movimentos religiosos.

Também este grupo respondeu a pergunta feita às mulheres da OASE. Suas integrantes tiveram os mesmos sentimentos. Acrescentaram que procuravam dividir o pão com quem tinha fome ou faziam algum chá para a vizinha doente. Muitas ficaram com medo de já ter mandado Jesus embora da sua porta. Apesar tio meu juízo de que são necessitadas, elas se colocaram no lugar daqueles que devem solidariedade aos necessitados, conforme o texto.

1.3. Leitura no Culto Comunitário

Usei o texto no culto acompanhado de uma dinâmica. Na entrada do culto os participantes receberam uma ficha vermelha ou verde. No momento da reflexão pedi que as cores verdes ficassem de um lado e as vermelhas de outro. Separaram-se casais, pais e filhos, namorados e amigos. Houve um constrangimento geral após a leitura do texto. No diálogo ficou claro que o que causou esse constrangimento foi a ideia da separação aleatória. Algumas pessoas no final do culto disseram que precisavam parar para refletir sobre o seu procedimento em relação aos necessitados.

2. Olhando para o Texto

Segundo Tasker, o texto é uma descrição poética da maneira pela qual a profecia de Jesus em Mateus 16.27 se cumprirá: Ò filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então, retribuirá a cada um conforme as suas obras (Tasker, p. 118).

O juízo tem um caráter universal. Todos os povos da terra se reunirão diante dele... (v. 32). E para dizer como será esse juízo Jesus usa a metáfora do Juiz como pastor (Ez 34.17).

A descrição poética do juízo por Jesus é material próprio de Mateus. Não existe paralelo nos outros evangelhos. O contexto é formado pelas parábolas da parúsia: das dez virgens (Mt 25.1-13) e dos talentos (Mt 25.14-30). Nas três perícopes da parúsia estão presentes a iminência do acontecimento e a cobrança de um procedimento correto em relação à vontade de Deus.

É possível que as palavras de Mt 25.31-40 se dirijam originalmente aos líderes religiosos judeus. A intenção de Jesus é questionar as suas práticas e colocá-los em estado de alerta. Eles são chamados a uma prática coerente com a vontade de Deus. Os beneficiários dessa prática são os necessitados, os pequeninos. Estes não são necessariamente os integrantes das comunidades cristãs em processo de surgimento. São, sim, os que passam fome, sede, sofrem doença, prisão, nudez ou descaso como estrangeiros.

Voltando à metáfora usada por Jesus, é importante verificarmos a prática pastoril de separar as ovelhas das cabras. Segundo Jeremias, no final da tarde o pastor separava as ovelhas das cabras. O motivo que justificava tal procedimento era a diferença de ambiente necessário para as ovelhas e para as cabras passarem a noite. As cabras têm necessidade de passar a noite num lugar fechado e protegido do frescor. Já as ovelhas gostam do frescor da noite.

A figura do pastor separando as ovelhas das cabras serve como ilustração para os ouvintes perceberem o que vai acontecer no dia do juízo. Ela materializa a separação que ocorrerá entre dois tipos de procedimento durante toda uma vida.

O Filho do homem fará a separação no dia em que voltar como Rei glorioso. Este dia do Senhor tem tradição antiga no AT. A expressão aparece em vários textos do AT (p. ex. Is 2.2; 34.8; Am 5.18; Sf 1.7). Esse dia do Senhor é sempre descrito como um dia terrível. A chegada do terceiro milénio está suscitando indagações a respeito do fim do mundo. Esse medo parece acompanhar a humanidade desde que se conta a história do dilúvio.

Para termos clareza acerca de como ocorrerá essa separação, segundo o texto, fiz duas colunas para explicitar a situação de ovelhas e cabras diante do Rei e Juiz.

Cabras                                        Ovelhas

Esquerda                                     Direita
Amaldiçoadas                              Benditas
Castigo eterno                              Reino preparado
Não deram alimento ao faminto      Deram alimento ao faminto
Não deram água ao sedento          Deram água ao sedento
Não vestiram o nu                         Vestiram o nu
Não receberam o estrangeiro          Receberam o estrangeiro
Não visitaram o doente e o preso     Visitaram o doente e o preso
Não sabiam quando deixaram         Não sabiam quando ajudaram
de ajudar um pequenino                 um pequenino

Entre os que ficam à direita e os que ficam à esquerda duas coisas são comuns: primeiro a situação de não saber quando foi que deixaram ou não de ajudar um pequenino necessitado. Segundo, a categoria e a situação das pessoas às quais é dirigido o ato decisivo de praticar a misericórdia, o amor.

O texto deixa bem claro quem são os pequeninos. São os que têm fome, sede, são estrangeiros, estão nus, doentes ou presos. Esta classificação abarca, de modo geral, as principais necessidades humanas. São situações que, existindo, colocam em risco a vida e denunciam a injustiça na convivência entre as pessoas.

Quem são os sedentos? Quem não tem água para beber. Parece lógico e fácil de resolver a partir de nossa situação. Mas não o era na realidade da Palestina. A falta de água era um problema. Dividi-la era um gesto de amor.

Quem tem fome? Quem não tem o que comer. Há duas possibilidades para esta situação: a fome circunstancial ou a fome crónica. No AT encontra-se a figura do pobre nu e faminto (Jó 24.10; 5.5; Is 58. 7).

Quem está nu? A nudez é falta de roupa para agasalhar o corpo. Não é uma questão moral (portugueses vestindo índios ou Adão e Eva no paraíso [Gn 2.25]). Trata-se da necessidade imediata de cobrir o corpo sem ter condições de fazê-lo.

Quem está doente? Doença é a falta de saúde. A falta de saúde gera angústia, medo e aflição. Jesus se compadeceu dos doentes e os curou.

Quem está preso? O preso é o que está recolhido à prisão (Mt 5.25). Ele passa por um julgamento e fica na prisão até que pague a sua dívida. Paulo conhece a prisão romana que usa o cárcere e algemas (Cl 4.3; 4.18). O preso, por estar isolado, necessita de visitas.

Quem é estrangeiro? Estrangeiro é a pessoa que não pertence ao povo, não é da localidade. É forasteiro e está de passagem. Õ AT tem leis específicas para o tratamento dos estrangeiros (Lv 25.35; Nm 9.14). Ele, junto com as viúvas e os órfãos, merece tratamento especial (Dt 24.17; Jr 22.3).

3. Reflexão

Tenho a impressão de que, por mais profundidade teológica e capacidade intelectual que se possam ter, não se conseguirá espiritualizar ou colocar em dimensões de superestruturas a realidade e a crueza deste texto. Não há possibilidade de fuga. Ele é concreto e agudo demais para se fugir de sua mensagem.

O leitor e o ouvinte fazem a mesma pergunta que os escolhidos para participar do Reino e os condenados ao inferno fazem ao Rei: quando é que demos de comer ao faminto, água ao sedento, vestimos o nu, abrigamos o estrangeiro ou visitamos os doentes e os presos? Ao saber que alguém em situação de fome, sede, nudez, doença, prisão ou estrangeiro é o próprio Cristo, a consciência entra em alerta.

E a consciência entra em alerta porque repetidas vezes alguém já bateu à porta pedindo pão, água, roupas e nada recebeu, ou parentes estiveram hospitalizados e não foram visitados. Visitar presos nem se fala, pois as prisões atuais são verdadeiros caldeirões de perigo. Como confiar em alguém que necessita de abrigo? Esta realidade é vivida pelas pessoas, e elas não encontram soluções para resolverem os problemas dos necessitados. Cria-se, então, uma série de desculpas diante deles. As mais frequentes são:

— Eu não vou dar nada. Esses dias dei um pão a um moleque c ele o jogou na primeira lata de lixo.

— Dinheiro eu não dou. Não sei se eles vão comprar leite ou cachaça.

— Água? Só em copo descartável. Não uso meus copos para dar água a pedintes porque tenho medo de que alguém da minha família se contamine.
— Roupa velha eu só dou quando não tem mais lugar no meu guarda-roupa.

— Visitar doentes? Eu não vou, porque não gosto do cheiro do hospital. Além disso, não sei o que falar aos doentes.

— Visitar presos, nem pensar. Eu quero mais é que morram. Deveria ter pena de morte neste país. Não haveria tantos presos. Eu não tenho culpa do crime deles.

— Como posso abrir a minha casa a um desconhecido? E se eu for assaltado?

Este texto angustia pessoas que racionalizam com essas desculpas a sua falta de interesse pelo próximo necessitado. A realidade atual está fornecendo paradigmas que apontam para o individualismo. No paradigma neoliberal, pós-moderno, não há espaço para a solidariedade. A situação vivida no dia-a-dia entra em choque com a mensagem cristã. Como resolver essa situação? Penso que esta é a dificuldade diante do texto.

A mensagem, porém, diz que os que estão de acordo com o Rei são os que fazem a sua vontade, independentemente de terem ou não consciência do que realizam. É a ação amorosa, desinteressada, sensível e piedosa em favor do próximo que vai decidir o destino que o Cristo Juiz vai dar às pessoas. Quem se fechar em si mesmo, em preconceitos, arrumando desculpas diante do necessitado, estará negando ao próprio Cristo aquilo que ele espera do ser humano: Praticar o amor e a justiça sem querer nada em troca.

Não podemos perder de vista que com esta narrativa do juízo Jesus quer nos alertar para o momento em que não haverá mais tempo. Se não praticarmos a solidariedade com o necessitado no momento em que ele se apresenta à nossa frente, não haverá mais oportunidade. O tempo é agora.

4. Para a Prédica...

Para a prédica não podemos perder de vista os seguintes aspectos:

— Haverá um julgamento final.

— Diante do Juiz não há desculpas.

— O tempo de praticar o amor desinteressado é agora.

— Os ouvintes se colocarão na situação de quem precisa ajudar o necessitado.

Pode auxiliar a história Onde há amor, aí está Deus (Tolstoi ) que se encontra em Somos Confirmados (livro do confirmando), volume 2.

Outra possibilidade é a encenação do texto. O grupo de liturgia pode previamente preparar a encenação conforme o texto de Mt ou criar uma situação idêntica usando as desculpas mais usuais para não se ajudar o próximo.

5. Bibliografia

JEREMIAS, Joachim. As Parábolas de Jesus. 3. ed. São Paulo, Paulinas, 1980.
TASKER, R. V. G. O Evangelho segundo Mateus. São Paulo, Vida Nova.


Autor(a): Carlos E. M. Bock
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Último Domingo do Ano Eclesiástico - Cristo Rei

Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 25 / Versículo Inicial: 31 / Versículo Final: 46
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14259
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