Mateus 3.13-17

Auxílio Homilético

13/01/1985

Prédica: Mateus 3.13-17
Autor: Augusto Ernesto Kunert
Data Litúrgica: 1º. Domingo de Epifania
Data da Pregação: 13/01/1985
Proclamar Libertação - Volume X

 

l — Introdução ao texto

Duas pessoas se encontram: Jesus e João Batista. O encontro se dá em algum lugar às margens do Jordão. O motivo é o batismo requerido por Jesus. A iniciativa para o encontro parte de Jesus. Ele sai de Galiléia e vai em busca de João Batista.

Acontece, e isto é importante registrar, um diálogo entre os dois. Jesus solicita o batismo. João Batista tem escrúpulos. Hesita. Acha impossível que Jesus seja batizado por ele: Eu é que preciso ser batizado por ti e tu vens a mim? Os papéis deveriam ser inversos. João Batista reconhece em Jesus o enviado de Deus, o Messias cujo caminho preparou (Mt 3.3). O profeta se reconhece pequeno diante do Messias que veio para julgar o mundo. Portanto, não lhe compete, assim considera João Batista, batizar aquele que é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar (Mt 3.11). Como, agora, Jesus, o Messias, vem solicitar o batismo dó arrependimento? Pois, o Reino de Deus está próximo, exatamente na pessoa de Jesus! A partir desta situação compreendemos que João Batista vacilou e, inicialmente, não quis corresponder ao pedido de Jesus.

O relato do batismo, respeitadas algumas variantes — a de Mateus nos vv. 14 e 15 é muito importante —, é comum aos quatro evangelhos. Também o Evangelho de João, obviamente à sua maneira, menciona a ocorrência do batismo. Marcos dedica 3 versículos ao assunto (Mc 1.9-11) e Lucas o narra em dois versículos (Lc 3.21-22).

Mateus e Marcos fazem Jesus partir da Galiléia em direção ao Jordão. Lucas silencia sobre a procedência de Jesus. Jo 1.32-34 diferencia-se dos relatos sinóticos, ao dizer que João testemunhou sobre o batismo de Jesus: E João testemunhou: Vi o Espírito descer do céu como pomba e pousar sobre ele.O evangelista João não relata o acontecimento, mas reproduz o testemunho de João Batista.

Os textos em Mateus e Marcos são os que mais se aproximam entre si. Entre os exegetas é pacífico que o texto que serviu de base para os demais evangelhos nos é dado com Mc 1.9-11. Salientam, porém, que para Marcos o acento está na vocação de Jesus, acontecida no batismo. Os acontecimentos, tais como: rasgaram-se os céus, o Espírito descendo como pomba sobre ele, e a voz dos céus, declarando Tu és o meu Filho amado, são ocorrências significativas para Marcos, que as entende como a vocação de Jesus para ser o Messias de Israel. Nos textos de Ez 1.1 e Is 11.2; 42.1, do Antigo Testamento, Marcos vê o reforço para o entendimento da vocação de Jesus como Messias de Israel.

Mateus não assume simplesmente o relato de Marcos. Ele mostra certa independência no seu testemunho. Mateus entende que no batismo de Jesus ocorre a proclamação de Jesus como Filho de Deus. Na compreensão de Mateus, Jesus não foi agraciado com o Espírito no batismo, mas é, segundo Mt 1.18,20, desde a concepção de Maria, portador do Espírito. Mateus, como se vê em Mt 28.20, sublinha a unidade na Trindade. A Trindade ressaltada em nosso texto culmina na Grande Comissão.

Lutero escreveu a respeito: Assim pregamos e louvamos e agradecemos a Deus, o Onipotente, por nos dar este Salvador. Ele o coroou, o ungiu. Recebemos o Espírito Santo que testemunha ao nosso coração que o Pai e o Filho são um. Em outra oportunidade Lutero salientou: Ainda hoje o céu está aberto sobre todo o mundo... . Nós, cristãos, teríamos motivo para viver em disciplina e andar em vida santa, já que o céu está aberto para nós e os anjos cantam... (apud Mybes, p. 78)

Somente Mateus registra o diálogo entre Jesus e João Batista. Mais adiante veremos a importância dos vv. 14 e 15. Enquanto que Marcos deixa os céus se rasgarem, Mateus diz que os céus se abriram. Para Marcos o acontecimento é percebido por Jesus: Logo, ao sair da água, viu os céus rasgarem-se. Mateus, porém, dá a entender, que a ocorrência foi perceptível aos demais que presenciaram o batismo de Jesus (Voigt, Der rechte Weinstock, p. 76). Estas nuances levam à compreensão de que Marcos vê aqui a vocação de Jesus para ser o Messias, enquanto que para Mateus ocorre aqui a proclamação de Jesus como Messias. Mateus muda o tu és o meu Filho amado de Marcos para este é o meu Filho amado, o que reforça a linha de pensamento da proclamação. Em Marcos, Deus se dirige diretamente a Jesus: Tu és o meu Filho amado, enquanto que Mateus, acentuando o pensamento da proclamação, testemunha: Este é o meu Filho amado.

É importante, neste contexto, retomar o pensamento de Mi 1. 18,20, o que foi nela gerado é do Espírito Santo, pois Jesus é o Filho de Deus e não vem a sê-lo com o batismo. Portanto, Jesus é proclamado o Filho amado de Deus e não passa a sê-lo com o batismo. Aí a diferença entre vocação para Marcos e proclamação no entendimento de Mateus. Jesus é apresentado como Filho de Deus. E assim ele deve ser aceito e reconhecido. Nele devemos confiar e a ele devemos obedecer na vida e na morte. Ao seu lado não existem outros valores, nem poderes, nem conceitos ou imagens.

II — Interpretação

Vv. 13-15: Jesus não pede o batismo do arrependimento. Ele não vem como quem precisa do batismo para voltar a Deus. Pelo contrário, Jesus vem como o justo, sem pecado e se coloca livre e espontaneamente ao lado e junto dos pecadores. Ele vem para cumprir toda a justiça. Ele assume obediência total. Ele vem para entregar-se em favor do mundo. Jesus se distancia do anúncio de João Batista. Não compartilha as declarações dele. Pois não vem como juiz no final dos tempos. Ele vem como quem se dá em resgate pelos pecadores, por aqueles que acorrem ao Jordão para se submeterem ao batismo de arrependimento. Jesus vem para salvá-los. A insegurança de João Batista diante de Jesus, o que o diálogo reflete muito bem, é compreensível. João Batista parte de outra ótica da missão de Jesus. Como uma pessoa humana pode ser o Cristo de Deus? João Batista não entende que Deus não permaneça afastado, distante, não permaneça no céu, mas que, no Verbo que se fez carne, venha para junto do homem sofredor, para junto do homem em seu emaranhado de culpa. Jesus sente as dúvidas de João Batista e responde: Deixa por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. É como se Jesus lhe dissesse: João Batista, tu interpretas os acontecimentos de maneira errônea; não te compliques! Voigt parafraseia o deixa por enquanto: João Batista, tu não podes saber que o meu caminho será bem outro. Eu poderia responder-te que Deus assim o decidiu, mas eu te digo: Convém-nos cumprir toda a justiça. O Filho de Deus deve ser entregue... julgar o mundo, salvar o mundo! Isso não se faz com um simples golpe de caneta. Isso não acontece com uma declaração de Deus, dizendo que seu juízo fica eliminado, que futuramente não interessa o que os homens pensem a respeito. Não, a justiça deve acontecer. Mas isto significa seguir o caminho mais difícil. Agora não precisamos falar sobre isso. Mas devemos falar de um outro fato, o qual eu quero praticar. Eu sigo o caminho como alguém de vocês, o caminho que todos os homens deveriam seguir. Vocês me encontram ao seu lado como um de vocês: Tu pregas que a ira de Deus haverá de descarregar-se sobre os homens. Sim, eu estarei no meio da humanidade que sofrerá a ira de Deus, já agora eu estou ali nascido de mulher, nascido sob a lei (Gl 4.4). (Voigt, p. 72)

Vv. 16 e 17: Ao sair da água, Jesus vê o céu aberto. Mybes (p. 71) diz a respeito: No milagre da auto-revelação de Deus a visão fica livre para o mundo. O Espírito desce como pomba sobre o recém-batizado. Jesus, agora que os tempos amadureceram, se prepara para a sua missão e é agraciado com a força do Espírito. Isto não acontece tanto por sua causa, mas sim para o bem de outros. (Calvino, apud Mybes, p. 72)

Jesus, reconhecido o Filho de Deus e servo de Deus (veja SI 2.7 e Is 42.1), traz a salvação. Já a cristandade primitiva viu uma ligação muito íntima entre o batismo de Jesus no Jordão e a cruz de Cristo no Gólgota. Em Mc 10.38; Lc 12.50 a paixão de Cristo é chamada de batismo. Este pensamento evidencia a linha teológica que interpreta que o batismo significa o morrer e ressuscitar com Cristo. O Evangelho de João, em 1.29, se coloca na mesma linha, quando aponta: Eis o cordeiro de Deus. Mesmo que o texto não o afirme com clareza, o diálogo e toda concepção de Mateus dão a entender que Jesus é aquele que se identifica com a figura véterotestamentária do EBED JAHWE: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores, levou sobre si (Is 53.4s, 12).

Com a vinda do Messias não ocorre a aniquilação dos pecadores; não acontece uma controvérsia de Deus com o mundo e sim uma participação incompreensível no sofrimento dos homens. No lugar do ajuste de contas está a graça. Deixa por enquanto; Jesus segue este caminho sem que seja compreendido. Esse caminho significa para muitos escândalo e loucura.

A denominação Filho de Deus é uma intitulação conhecida. Encontramo-la nos mitos de Homero e na teologia política da adoração aos imperadores. A comunidade primitiva assume esta designação para Jesus. Ele é o Filho amado no qual Deus se revela definitivamente ao mundo. Ele é a realização e consumação de todas as esperanças que se manifestam também nas diversas religiões e ideologias. Jesus, o Filho amado, é a resposta de Deus para todas as pergunta. A ele pertencem graça e juízo.

III — Meditação

1. A Igreja Oriental tem por tradição a pregação sobre o batismo na época de Epifania. Ela determinou, a partir do ano 378, que a data de 6 de janeiro fosse festejada como o dia do batismo de Jesus.

Ao mesmo tempo se considerava ligadas à data 6 de janeiro a visita dos Magos do Oriente e as Bodas de Caná.

A Igreja no Ocidente, desde cedo, cuidou de afastar do Natal tudo aquilo que pudesse concorrer com a sua importância. Com isso aconteceu um esvaziamento do dia 6 de janeiro, eliminado-se a comemoração do batismo de Jesus. Permaneceu, então, somente a lembrança da visita dos Magos do Oriente. Felizmente a comissão litúrgica, ao reestruturar os textos para o Ano Eclesiástico, quebrou esta tradição de esvaziamento de Epifania, recolocando ali textos sobre o batismo de Jesus. (Voigt, p. 70)

Não devemos deixar de lado os motivos que levaram à mudança de critérios no passado. Havia na época uma forte confrontação com o gnosticismo. Este preferia a coincidência da data do nascimento e do batismo de Jesus. Para o gnosticismo não é importante que o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós; que Jesus nasceu homem e Deus verdadeiro lhes é perturbador e contrário à sua linha de pensamento. Eles defendem a concepção de que no Jordão o Espírito desceu sobre Jesus; antes Jesus era um simples homem. Diante dessa concepção devemos ter o máximo cuidado para não incorrer no erro de quem entende que Natal significa simplesmente o nascimento do homem Jesus e que somente na Epifania se deu sua adoção por Deus, o qual então lhe transmitiu o Espírito. O próprio Mateus deveria, se assim fosse, reescrever o seu Evangelho. Quanto à compreensão de Mateus de que Jesus é homem verdadeiro e Deus verdadeiro, lembro Mt 1.18,20. Também o diálogo (vv. 14-15) não teria sentido se Jesus não tivesse ido ao Jordão como aquele que se diferencia fundamentalmente de todos os homens. Se, por um lado, a árvore genealógica atesta que Jesus é homem, Mt 1.20 deixa claro: O que nela foi gerado é do Espírito Santo.

2. A pregação deverá apontar a DOXA encoberta de Jesus que se revela para quem tem ouvidos para ouvir e olhos para enxergar. Ela se revela no reconhecimento do Deus conosco do Deus pró me. Jesus se coloca ao nosso lado. Ele entra no mundo e toma morada entre nós. A glória de Jesus se revela assim que Deus se identifica com Jesus e o declara Filho amado. A declaração de Deus este é o meu Filho amado e o testemunho e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele confirmam que o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós; que Jesus é Deus verdadeiro, gerado pelo Espírito Santo, e homem verdadeiro nascido de mulher. Este Deus verdadeiro e homem verdadeiro se decide pe!a solidariedade com os homens, conosco, os perdidos e condenados. A decisão de Jesus é incompreensível para João Batista, contradiz as expectativas da época a respeito do Messias, e continua sendo para muitos escândalo e loucura. A decisão de Jesus foi e continua pedra de tropeço. A glória de Jesus, porém, se revela exatamente no sim de Deus para com a decisão de Jesus. O sim de Deus é dado com a proclamação: Tu és o meu Filho amado, o EBED JAHWE.

Jesus, o homem verdadeiro e Deus verdadeiro; Jesus, o Filho amado; Jesus, o EBED JAHWE, o cordeiro de Deus que leva o pecado do mundo, foi ao Jordão para ser batizado. Ele é o mesmo Jesus também hoje. Ele entregou todos os trunfos do poder. E o seu procedimento é loucura para uns, escândalo para outros e pedra de tropeço para muitos. O Cristo que João Batista anunciou e desejou teria tido um caminho mais fácil. Mas o Cristo que todas as gerações de homens necessitam — a esperança do mundo — que reconcilia e salva os pecadores, escolheu o caminho da paixão. Este leva à ressurreição, à vida nova, à vida em abundância. O caminho escolhido nos dá o Cristo pro nobis, o Cristo pro me.

3. Jesus, ao deixar-se batizar, confessa Deus; solidariza-se com os homens, assume e inicia o serviço que lhe é atribuído com sua escolha e envio.

Lutero compôs um hino que segue a linha de pensamento do nosso texto: Cristo, nosso Senhor, quando foi ao Jordão, pela vontade do Pai, recebendo o batismo de João, iniciou sua obra e função.

João Batista chama e batiza. Muitos atendem o seu chamado. Comparecem homens pertencentes às mais diversas classes sociais, que exercem as mais diversas profissões; eles vêm de longe e de perto. São pessoas com as mais diversas experiências de vida, com diferentes interesses; todas estão cheias de culpa e sentem medo e angústia. Elas chegam e alimentam esperança.

João anuncia aquele que há de vir. Ele preconiza novos tempos. Ele aponta a culpa que pesa sobre o homem e o povo. E nesta situação o Reino de Deus se faz próximo, entra no mundo. Aproxima-se o dia do juízo. A justiça haverá de vencer. Os exploradores, os corruptos, os causadores do sofrimento e da miséria tremem diante da vinda do juízo. Haverá a transformação da situação. Por isso, arrependei-vos dos pecados, dos maus caminhos, da exploração do homem pelo homem, da prática da injustiça e discriminação. Voltai para Deus. Entregai a Deus a vossa vida. Todo o vosso fazer e agir sirvam a Deus. Assim João Batista chamou, convidou para o batismo do arrependimento nas águas do Jordão! Mas Jesus não vem assim a João Batista: como o juiz do mundo que destrói os pecadores. O novo tempo começa de maneira diferente. Ele começa como oferta da graça.

4. Jesus entra na fila dos que esperam novos tempos, novo céu e nova terra. Descendo às águas do Jordão, se coloca entre os que confessam sua culpa. No seu batismo Jesus confessa o pecado dos homens. Assume o caminho do servo de Deus. Jesus se faz solidário com os homens. Ele assume a responsabilidade pelo pecado dos homens. Entra na brecha em favor dos homens, vive, sofre e morre por eles. O justo se faz pecador para que os pecadores sejam justificados.

Johann Hinrich Wichern,o fundador da Missão Interna na Alemanha, disse certa vez que Jesus é o homem que sente todo sofrimento em seu coração e que em seu coração podemos encontrar auxilio contra toda miséria. De fato, Jesus tem compaixão e misericórdia. Ele não só observa atentamente o sofrimento, mas toda pessoa é importante para ele. A pessoa em perigo e no sofrimento recebe auxílio. Um doente é curado. Um carente é consolado. Jesus participa das nossas deficiências sem perder-se na ajuda para uns poucos. Ele prega o Reino de Deus em sua abrangência. Ele anuncia a transformação de todas as coisas. Ele vai à cruz em favor de todos. Mas, em sua missão universal, Jesus não esquece a pessoa, o indivíduo em seu sofrimento.

Jesus tem compaixão com os que sofrem. Ele não consola os doentes prometendo dias melhores no futuro. Alquebrados, cansados e oprimidos recebem ajuda. Agora, no hoje da vida, Jesus se envolve com os homens e luta contra o sofrimento. O seu auxílio é dado para o corpo e para a alma. O seu auxílio não é auxílio alienado, mas um serviço pessoal. Quem assim auxilia tem autoridade para perguntar: O que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? O que vale ao surdo ter abertos os seus ouvidos, mas permanecer surdo para o Reino de Deus? O que vale o pão para o faminto quando lhe retemos o pão da vida? (Mybes, p. 74)

A vida de Jesus é um único serviço, iniciado com o seu batismo. Ele demonstra que o serviço é a resposta obediente da fé. Antes da pergunta o que devemos fazer?, é necessário ver o que Jesus fez por nós.

IV — Preparação da prédica

1. É necessário observar, a fim de que ofereçamos pão aos ouvintes e não pedras para a sua já sofrida caminhada, que o batismo de Jesus não seja apresentado como mais uma entre tantas outras histórias bíblicas. Epifania é a revelação de Deus em Jesus Cristo. Deus proclama e apresenta Jesus como o seu Filho amado. Jesus, distanciando-se da intepretação de João Batista, não assume o caminho da glória e do poder visíveis, mas escolhe o caminho da paixão. E Deus, dando o seu sim à escolha de Jesus, o declara Filho amado, deixa o céu se abrir e faz descer o Espírito sobre Jesus. Ele vem como o servo de Deus que leva o pecado do mundo. Epifania é a ação de Deus em favor do mundo. Epifania, batismo e paixão de Cristo estão interligados de maneira inseparável. Deus revela o Messias como Filho amado e Jesus assume o caminho do sofrimento.

2. A prédica deve deixar clara a diferença entre o entendimento que João Batista tem do Messias e o caminho escolhido e seguido por Jesus; e mais, que Deus aceitou o caminho escolhido por Jesus e por isso o declarou Filho amado. Em especial o diálogo, como nos é narrado por Mateus nos vv. 14 e 15, nos dá boa oportunidade para apontar a intepretação divergente sobre o caminho e a ação de Jesus. Os textos Mt 3.1-12; Mt 11.7-19; Mc 1.1-8; Lc 3.1-20 e Lc 7. 18-22 nos ajudam, a partir da declaração de Jesus deixa, por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça, a compreender melhor a diferença fundamental dos dois posicionamentos.

O item 4 da meditação nos oferece subsídios para entendermos a compreensão que Jesus tem da sua tarefa, do caminho a seguir e da maneira de agir.

A glória de Jesus está encoberta para o mundo. João Batista esperava que Jesus assumisse o seu papel de Messias: juiz com esplendor, soberano e poderoso. Ficou admirado e até perplexo quando Jesus não correspondeu às suas expectativas. Ainda hoje, nas expectativas frustradas e no caminho escolhido e seguido por Jesus, se separam os homens. Poucos, os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, recebem Jesus como o EBED JAHWE. Para muitos, os que não reconhecem a glória de Jesus no caminho da cruz, a ação de Jesus continua escândalo, loucura e pedra de tropeço.

3. Poucos são os textos que espelham com tamanha clareza a revelação do santo, trino e uno Deus. Com isso somos induzidos a uma prédica doutrinária sobre a Trindade, pois no texto temos afirmações impressionantes, tais como: se lhe abriram os céus; viu o Espírito de Deus descendo; uma voz dos céus que dizia: Tu és o meu Filho amado. Contudo, prefiro permanecer com Lutero que vê o escopo do texto no Cristo pro me (no Cristo para mim, em meu favor). Frente ao Cristo pro me ocorrem exatamente a admiração e negativa inicial de João Batista. Este, esperando o juiz soberano, confronta-se com o Cristo pro me que assume o caminho mais difícil, o da cruz. O escolhido de Deus, com quem está a plenitude do Espírito desde o tempo em que estava no ventre de Maria (Mt 1.18,20), não veio para ser servido, mas para servir, veio para ser o nosso resgate. Ele, que com autoridade pode afirmar eu e o Pai somos um, veio a nós.

4. Jesus, o servo de Deus, o cordeiro que leva o pecado do mundo, se revela com glória na graça, no amor e na misericórdia e não como juiz vingador. Assim, destronou e destrona hoje os que se consideram ser algum tipo de filho de Deus. Os políticos, os poderosos, os que se fazem donos de pessoas, que usam uma moderna escravidão da pessoa humana e fazem promessas maiores do que jamais poderão cumprir, tropeçam no Cordeiro. Quem requer culto à sua pessoa e não se humilha, vê no servo pró me escândalo, loucura e pedra de tropeço. Os que depositam em sua força, poder e capacidades pessoais a sua esperança, ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir. Todos que se têm na conta de um poderoso filho de Deus, sucumbem diante do Filho amado de Deus. Nisto se inclui a nossa religiosidade que visa conquistar Deus; inclui-se nossa capacidade moral, quando se torna um meio legalista para ser agradável a Deus. O Filho amado de Deus entra em nossa vida, no ontem e no hoje; e aponta o nosso futuro. Hoje Deus fala conosco no Filho amado da Epifania e do batismo do Jordão.

Em Jesus o céu se abriu e continua aberto, vem-nos a Boa Nova da salvação, da nova vida. O céu se abriu para que percebamos a presença do Filho amado de Deus. A verdade evangélica do amor, da graça e da misericórdia não está na técnica moderna, no desenvolvimento nem na capacidade intelectual ou de trabalho do homem mas ela está na soberana Epifania, quando Jesus Cristo, proclamado Filho amado de Deus, assume o caminho da via crucis, que é o caminho do Cristo pro me.

V — Subsídios litúrgicos

1. Confissão dos pecados: Santo Deus e Pai, enviaste-nos o teu Filho amado. Na sua paixão e misericórdia, o caminho escolhido por Jesus para salvar o condenado e perdido, aceitas os pecadores. Pecamos contra ti em pensamentos, palavras e ações. O desrespeito às pessoas é pecado contra ti; nossa injustiça para com pessoas é pecado contra ti. Por isso. Senhor, não podemos subsistir ante a tua justiça. Apresentamo-nos a ti no conhecimento do teu amor, revelado na cruz de Jesus Cristo, e pedimos que tenhas misericórdia de nós! A ti suplicamos. Senhor: Compadece-te de nós, perdoa-nos a culpa e dá-nos o teu Espírito, para que em seu poder, renovados em nosso homem interior, cumpramos a tua vontade e recebamos vida nova e a vida eterna. Tem piedade de nós. Senhor!

2. Oração de coleta: Senhor, deixaste acontecer Epifania. Te revelaste em Jesus Cristo o Deus misericordioso. Abriste o céu para os pecadores e nos di¬zes na declaração de Jesus Cristo como teu Filho amado, que não queres a morte dos pecadores e sim que vivam, recebendo na paixão de Cristo o perdão. Encurtaste distâncias. Saíste do afastamento e vieste para junto dos homens. Louvamos e agradecemos-te, ó Deus e Pai do Filho amado. Tu és nossa esperança em meio ao desespero. Não rejeitas, mas aceitas. Estamos felizes por sabemos da tua presença em Jesus Cristo, o teu Filho amado e o nosso Salvador. Amém!

3. Oração final: Nosso Deus e nosso Senhor, louvado seja o teu nome por teres enviado o teu Filho amado ao mundo, para que trouxesse luz na escuridão que envolve os homens e os povos. A ti pedimos: Fortalece a nossa fé! Sê conosco em nossa fraqueza! Aumenta nossa esperança por vida! Sê com a tua comunidade, que confessa o teu nome. Sê na pregação do teu Evangelho para que o mundo creia que não há salvação senão em Jesus Cristo.

Senhor, pesa-nos no coração o sofrimento dos homens. O medo e a angústia de muitos nos preocupam. Os desempregados perguntam pelo pão para suas famílias. A insegurança ronda os lares. Assaltos e violência aumentam. Abre-nos corações e mentes para a fraternidade com os que sofrem.

Senhor, ilumina todos nós com o teu Espírito para que a inimizade seja vencida pelo amor, o desentendimento seja superado pela compreensão e pela paz entre os homens. Sê tu mesmo a luz para os doentes, os cegos, os oprimidos e angustiados. Libertando-nos da culpa. Senhor, faze-nos aptos para o serviço no amor. Ilumina todos nós com a luz de teu Espírito, sé a viva esperança nesta vida e para a vida eterna. Amém!

VI — Bibliografia

- LAMPARTER, H. Meditação sobre Mateus 3.13-17. In: Für Arbeit und Besinnung. Ano 28. Caderno 13. Stuttgart, 1974.
- MYBES, F. Meditação sobre Mateus3.13-17. In: Homiletische Monatshefte. Ano 54. Göttingen, 1978/79.
- VOIGT, G. Meditação sobre Mateus 3.13-17. In: -. Der rechte Weinstoch. v. 1, Göttingen, 1968.
- Meditação sobre Mateus 3.13-17. In:-. Der schmale Weg. Göttingen, 1978.


Autor(a): Augusto Ernesto Kunert
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14670
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