Mateus 4.12-23

Auxílio Homilético

23/01/2011

Prédica: Mateus 4.12-23
Leituras: Isaías 9.1-4 e 1 Coríntios 1.10-18
Autor: Claiton André Kunz
Data Litúrgica: 3º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 23/01/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV


1. Introdução

Quando olhamos ao nosso redor, percebemos a quantidade de pessoas sem Deus, sem esperança e sem razão para viver. Parece que as coisas estão cada vez mais difíceis e mais complicadas. Entretanto, as dificuldades não são privilégio nosso; problemas não começaram a existir em nossos dias. Já no Antigo Testamento era assim. Isaías falou de uma terra que estava aflita, de um povo que andava em trevas, daqueles que viviam na região da sombra da morte (Is 9.1-4). Chega a ser assustadora essa descrição.

Mas a boa notícia é que já o profeta anunciou que isso não continuaria assim. Esse mesmo povo veria uma grande luz. Essa profecia se cumpre com a vinda do Messias, e Mateus identifica-a com Jesus (Mt 4.12-17). A luz de Cristo resplandeceu aos que viviam nas trevas e aos que viviam na sombra da morte. A vinda do Messias trouxe consigo a manifestação do reino de Deus, e a chegada do Reino traz implicações para todas as pessoas. Primeiramente, a exortação de que todos precisam colocar a sua vida em dia, e, portanto, a chamada é: “Arrependei- vos!” (Mt 4.17). Mas, ao mesmo tempo, surge a convocação de que cada um precisa seguir o Messias e entregar-se totalmente a Ele, como fizeram os discípulos de Jesus (Mt 4.18-22). Finalmente, é necessário que aqueles que experimentaram a luz de Cristo possam proclamar essa mensagem a todos aqueles que ainda não a conhecem. Paulo tinha isso como sua missão: Cristo não me enviou para outra coisa, senão para proclamar o evangelho, a mensagem da cruz (1Co 1.10-18).

2. Exegese

Mateus e Marcos confirmam que Jesus voltou para a Galileia depois da prisão de João Batista. Mas Mateus é mais específico, afirmando que Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, no lado ocidental do mar da Galileia. Alguns comentaristas querem afirmar que isso foi uma fuga de Jesus do perigo de He- rodes. Entretanto, a Galileia e também a Transjordânia estavam sob a jurisdição de Herodes Antipas (denominado por Lucas de “a raposa” – 13.32), que daria a ordem para que se decapitasse João Batista (Mt 14.1-12). Assim, parece que Jesus se dirige à Galileia a fim de assumir a obra de João e, em certo sentido, desafiou a ação de Herodes.

Parecia ser apropriado que Jesus iniciasse seu ministério público na Galileia, pois era um distrito da Palestina densamente povoado e muito fértil. Josefo informa que a região tinha inúmeras cidadezinhas, e a menor delas com pelo menos 15 mil pessoas. A Galileia não era uma região de interior, mas uma área produtiva, cortada por duas estradas muito usadas na época. Como o próprio nome Galileia sugere (significa “anel” ou “circuito”), ela estava rodeada por gentios (fenícios a oeste, sírios ao norte e leste e samaritanos ao sul). Por isso ela é chamada no v. 15 como a Galileia dos Gentios.

A cidade de Cafarnaum tornou-se a sede do ministério de Jesus na Galileia. Em 9.1, Mateus refere-se a Cafarnaum como sendo a própria cidade de Jesus. Essa cidade localizava-se onde antigamente ficava a região de Zebulom e Naftali. Assim, quando Jesus se muda para essa cidade, Mateus vê o cumprimento da profecia de Isaías 9.1-2, a qual afirma que a terra de Zebulom e a terra de Naftali, onde um povo vivia em trevas, viram grande luz.
Mateus faz então um resumo da pregação de Jesus: “Arrependei-vos, por- que está próximo o reino dos céus” (v.17). Sua mensagem insiste nas palavras do Batista, que proclamava o arrependimento diante da vinda iminente do reino dos céus (3.2). Embora haja uma similaridade muito grande entre as palavras de João Batista e as de Jesus, a diferença era que, com a chegada de Jesus à Galileia, o reino de Deus tinha-se tornado uma realidade presente. O rei do reino estava ali pessoalmente.

Mateus passa a relatar os efeitos práticos da pregação de Jesus junto aos pescadores do mar da Galileia. Esse mar (também chamado de Genesaré em Lc
5.1 e de Tiberíades em Jo 21.1) é um mar em formato de pêra, medindo 20 km de norte a sul e 13 km de leste a oeste. Na verdade, é um lago de água doce e fica em torno de 200 metros abaixo do nível do mar. Josefo relata que, na época de Jesus, havia pelo menos nove cidades que prosperavam em suas praias, ficando o mar repleto de pescadores.

Os primeiros pescadores avistados por Jesus são Simão Pedro e André, os quais lançavam as redes ao mar. Ambos eram de Betsaida, no lado norte do lago, onde desemboca o rio Jordão (Jo 1.44), mas parece que agora estavam morando em Cafarnaum. Jesus os chama, e eles deviam deixar de apanhar peixes e tornar-se “pescadores de homens” (v. 19). Conforme João 1.37, André e João eram alunos de João Batista, através do qual conheceram Jesus. Eles seguiam Jesus, mas ainda não estavam constantemente com ele. Exerciam paralelamente o seu ofício de pescadores (cf. Lc 5.1-5). Agora o convite que lhes foi feito é que abandonassem totalmente sua profissão. Sua reação foi imediata. Pedro e André abandonaram tudo e seguiram Jesus. A palavra grega eutheos, traduzida por imediatamente, é seguida por ekolouthesan, que frequentemente tem o sentido de um discípulo bem disposto e obediente, que segue seu mestre como aquele que aprende e que serve.

São dois pares de irmãos. O primeiro par chama-se Simão e André. O se- gundo par de irmãos eram filhos de Zebedeu e, de acordo com Marcos 15.40, de Salomé. Quando são mencionados em conjunto, Tiago é citado primeiro. Deve ter sido o mais velho, enquanto João era o mais novo. Tiago e João, junto com Pedro, formaram o círculo mais íntimo dentre os 12 discípulos. Tiago e João estavam trabalhando com seu pai num barco, consertando redes. Convocados por Jesus, ambos abandonam suas redes e o seguem. A urgência do chamado e a reação imediata dos pescadores são fatos dignos de nota.

Mateus finaliza essa parte, resumindo o ministério de Jesus, de forma muito semelhante a Mateus 9.35. “Percorria Jesus toda a Galileia...”. Percebemos aqui que Jesus não se limitava em propagar o evangelho apenas onde estava, mas percorria vários lugares anunciando sua mensagem. A palavra grega para “percorria” significa literalmente andar em derredor, o que denota um andar contínuo e incansável no cumprimento de sua tarefa. Nesse verso encontramos três particípios, que resumem o ministério de Jesus enquanto andava de um lugar para outro:

a) Ensinando (didaskon): O ensino era uma prática constante de Jesus. Muitos eram alcançados por seu ensino, pois o próprio evangelista Mateus relata que as multidões ficavam maravilhadas com a sua doutrina, porque Ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas (Mt 7.28-29).

b) Pregando (kerysson): A palavra grega traduzida por pregar significa “proclamar como um arauto (keryx).

c) Curando (therapeuon): O verbo curar significa restaurar, sarar, restabelecer. Jesus tinha uma grande preocupação com o bem-estar das pessoas. Obviamente, ele primeiro preocupava-se em restaurar e sarar a vida espiritual das pessoas, mas também a sua vida física.

3. Meditação

A proclamação central, tanto de João Batista como de Jesus Cristo, era a chegada do reino dos céus. Entretanto, a chegada desse reino, que significa o domínio soberano de Deus sobre as vidas e sobre tudo o que existe, implica algumas coisas:

3.1 – O reino dos céus implica arrependimento

O v. 17 afirma: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus”. A chegada do reino exige uma reação das pessoas; elas não podem permanecer como estão. Arrependimento significa voltar atrás, significa uma mudança de mente (ou direção), significa remorso pelo pecado (muito mais do que sentir pesar).

Em Atos 3.19, Pedro exorta o povo que está no templo ao arrependimento e justifica claramente sua exortação: “para que sejam cancelados os vossos peca- dos”. A fé que recebe Cristo precisa ser acompanhada pelo arrependimento que rejeita o pecado (John R. W. Stott). Também Lutero afirmou que “não voltar a fazer determinada coisa é a essência do mais verdadeiro arrependimento”.

3.2 – O reino dos céus implica seguir a Cristo

A chegada do reino significa também seguir a Cristo. Há uma exigência dupla: primeiramente, de deixar o pecado, mas também de voltar-se a Deus. A primeira precisa ser complementada pela outra.

Jesus deixa muito claro que o caminho do discipulado não é simples e nem fácil, mas é necessário. Mais adiante diz a seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). Ir após Jesus significa negar-se a si mesmo, negar o próprio EU. Tomar a própria cruz é interpretado muitas vezes como algum problema particular que precisa ser carregado durante toda a vida. Mas o texto não tem nada a ver com isso. Cruz sempre foi símbolo de morte, e portanto seguir a Cristo implica crucificar a própria vontade em detrimento da vontade de Cristo. Não é mais a minha vontade que é a mais importante, mas sim a vontade de meu Senhor. É exatamente isso que oramos na oração do Pai-Nosso, quando dizemos: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.

3.3 – O reino dos céus implica levar outros a Cristo

Ao serem convidados a seguir Jesus, os discípulos foram confrontados com um apelo específico: “eu vos farei pescadores de homens”. Jesus não queria simplesmente que eles o seguissem, mas que eles levassem outros a fazer o mesmo. Embora com algumas dificuldades, parece que Pedro e João aprenderam a lição de forma muito clara. Percebe-se isso quando, após a ressurreição e ascensão de Jesus, estando eles na presença do Sinédrio, que lhes ordenara que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome de Jesus, simplesmente respondem: “Nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20).

Quando no v. 23 se afirma que Jesus “percorria” toda a Galileia, isso significa literalmente que “andava em derredor”, num andar contínuo e incansável no cumprimento de sua tarefa. Hoje, geralmente colocamos desculpas ou algum empecilho para justificar nosso comodismo. Entretanto, temos de estar cientes de que hoje dispomos de muito mais recursos para alcançar qualquer local, por mais longínquo ou de difícil acesso que seja; e lembrar também que o Senhor Jesus percorria longas distâncias em regiões acidentadas da Palestina apenas com a força e a resistência de seu próprio corpo. Jesus procurava as pessoas ali onde elas estavam. Não esperava que elas viessem a Ele. Samuel Keller disse: “A chave para a alma das pessoas está pendurada em sua casa. Por isso é necessário ir até elas, procurá-las em sua vida cotidiana, em suas aflições, em suas doenças, em sua solidão”.

A exemplo de Jesus, precisamos ensinar, pregar e curar, a fim de levar muitos a Cristo. Em 2 Timóteo 4.2, vemos a exortação de Paulo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não...”. É essa postura de pregadores incansáveis e persistentes que deve ser assumida por nós, quer aproveitando oportunidades, quer criando, “provocando” oportunidades, mas convém que o evangelho seja pregado. Também o ministério de cura pode ser muito amplo em nossas igrejas hoje, pois há muitas coisas que podemos fazer pelo bem-estar das pessoas. Jesus nos proíbe deixar de lado a grande miséria física, social e econômica das multidões, como se não tivéssemos nada a ver com ela.

4. Imagens para a prédica

4.1 – A visita do rei

Um arauto real rodou pelas ruas da aldeia, proclamando sua urgente mensagem: “Vem o rei! O rei virá amanhã à vossa aldeia. Preparai vossas casas, pois ele almoçará com um de vós quando chegar”. Grande foi a atividade que se seguiu. Varria-se aqui, esfregava-se ali, lavava-se acolá, removia-se o pó, podavam-se as árvores, limpava-se o quintal, punha-se aqui e ali um adorno – e assim se passaram todo o dia e parte da noite. Certo homem, no entanto, não se uniu aos preparativos exteriores. “Melhor que isso é eu limpar meu coração”, disse ele simplesmente. “Cuidarei de que tudo esteja direito entre mim e meus semelhantes. Essa será a melhor maneira de me preparar para me encontrar com o rei”. Segundo conta a história, o rei preferiu almoçar numa casa humilde, cujo único ornamento era uma rosa branca no parapeito da janela; e seu morador, um homem que não se preocupou com tantos preparativos. “Receio que os outros tenham procurado encobrir injustiça e maus sentimentos”, justificou o rei, “mas esse homem embelezou o coração. Almoçarei com ele”.

4.2 – Arrependimento

“Esquadrinhemos os nossos caminhos, provemo-los, e voltemos para o Senhor” (Lm 3.40). Na Guatemala, a tribo de índios kekchi tem uma boa palavra para arrependimento, cujo sentido é: “dói meu coração”. Distante dali, no interior da África, a tribo baouli tem um vocábulo talvez ainda melhor; o termo que usam quer dizer: “dói tanto que quero desistir disso”. Ao nos esquadrinharmos, podemos descobrir muita coisa que careça de ajuste. Lá na África existe uma interessante palavra tribal que descreve o que acontece ao coração de uma pessoa que se arrepende. Dizem eles: “torna-se destorcido”. Isso é justamente o que Deus deseja: destorcer todas as coisas torcidas, endireitar tudo o que está torto! Pode haver alguma dor nesse processo de distorção. Deus permite que doa o suficiente para desejarmos “desistir disso” e voltar “para o Senhor”.
5 Subsídios litúrgicos

Para uso na liturgia, seguem algumas sugestões:

Leitura bíblica:
– Mateus 9.9
– Lucas 13.1-5
– Atos 2.36-41

Frases de impacto:

 Arrependimento é uma transformação completa do coração natural do homem com respeito ao pecado (J. C. Ryle)

 Arrependimento e fé são irmãos gêmeos.

 Ninguém vai para o porto seguro da glória sem navegar pelo canal estreito do arrependimento (William Dyer)

 O arrependimento é o único portão pelo qual o evangelho é recebido (Basilea Schlink)

 Verdadeiro arrependimento é parar de pecar (Ambrósio)

 Arrependimento não é uma ideia; é uma ação (J. Blanchard)

 O arrependimento começa na humilhação do coração e termina na reforma da vida (John Mason)

 Nunca é cedo para se arrepender, porque não se sabe quão depressa pode ser tarde demais (Thomas Fuller)

Testemunhos:

– Se houver na comunidade alguma pessoa que tenha tido alguma experiência marcante em termos de uma decisão de seguir a Cristo, pode lhe ser solicitado que compartilhe a sua experiência.

Bibliografia

MOUNCE, Robert H. Mateus: novo comentário bíblico contemporâneo. São Paulo: Vida, 1996. 280 p.
RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus. Trad. W. Fuchs. Curitiba: Esperança, 1998. 460 p.


 


Autor(a): Claiton André Kunz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 3º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 4 / Versículo Inicial: 12 / Versículo Final: 23
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18615
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