Mateus 5.13-16 (17-20)

Auxílio homilético

07/02/1993

Prédica: Mateus 5.13-16 (17-20)
Leituras: Isaías 58.5-9a e I Coríntios 2.1-5
Autor: Gerhard Tiel
Data Litúrgica: 5º Domingo após Epifania
Data da Pregação:07/02/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII


1. Associações

Chama a atenção o indicativo do texto.

Vocês são o sal da terra. Vocês são a luz do mundo. Vocês são. Assim é di­to aos ouvintes do Sermão da Montanha. Não por causa do seu saber, da sua mo­ral, da sua boa ética. Não por causa dos seus esforços e do seu empenho cristão. Vocês são sal da terra e luz do mundo, porque é Jesus Cristo, a única Palavra de Deus, quem confirma isso em relação a vocês, quem confia que vocês o sejam.

Vocês não precisam esforçar-se em tornar-se assim. Vejam: O indicativo rege no texto. Faz isso numa maneira mansa e corajosa. Rejeita qualquer imperativo, qualquer apelo normativo. Trata-se de uma cordial impertinência de Jesus. A forte exigência Vocês têm que... é semelhante ao fulminante grito moralista militar, for­çando o empenho, exigindo resultados imediatos.

Vocês são sal, luz. Não açúcar ou pão ou vinho. Quer dizer: Vocês são o essen­cial para o mundo. Que mundo insípido sem sal! Que mundo escuro sem luz!

E, quase automaticamente, vêm as imagens: Instituições de caridade, cristãos/ cristãs preocupando-se com os pobres, marginais e doentes. Todo o aparato da diaconia que as igrejas mantêm. E vêm as imagens de exemplo de caridade que todo mun­do conhece. Como disse Irmã Dulce a um empresário, de quem pediu alguma aju­da financeira: Irmão, não quer abrir uma poupança no céu? Os Bodelschwingh, Wichern, Blumhardt e também os milhares de cristãos anônimos tornam com sua ação social e diaconal, o mundo mais humano.

O texto fala por si mesmo.

Mas, também há outras imagens, que são inquietantes, 500 anos de evangeli­zação... Cristandade. Igreja e poder. Cristãos braço a braço com a injustiça. Gri­tos desesperados de inúmeras vítimas. Imagens de comunidades somente preocupa­das consigo mesmas. Brigas nas famílias, com o pastor/pastora. Todo o pequeno mundo burguês que só quer preservar o que tem. Cristãos sem sensibilidade pelas grandes questões do nosso tempo, xingando pessoas comprometidas com a luta dos Sem-Terra de vagabundos, cristãos sem sensibilidade para com a natureza, pe­la mudança necessária das estruturas. Todo o aparato eclesial que rejeita qualquer ação política sob o pretexto de que ser sal e luz tem um sentido estritamente espi­ritual e, portanto, assistência!, enterrando as vítimas sem lutar contra os responsá­veis (Bonhoeffer). Se o sal vier a ser insípido...

Existe, assim parece, um problema com o indicativo do texto...

2. Anotações exegética

2.1. Pode-se resumir o texto como a essência do discipulado (Strecker). A maioria dos exegetas concorda com que o texto retrocede a uma coleção de palavras isoladas do Senhor. Sem dúvida alguma, o texto reflete a proclamação de Jesus, po­dendo proceder, já na sua formulação original, do próprio Jesus (Schweizer).

A palavra do sal (v. 13) encontra-se também em Mc 9.50 e Lc 14.34, a da luz (. 14s.) em Mc 4.21 e Lc 8.16 e 11.33. Mt 5,16 pode ser considerado um acréscimo redacional de Mateus. Enquanto em Marcos e Lucas as imagens do sal e da luz se referem à proclamação e à doutrina de Jesus, elas em Mateus ilustram a essência do discipulado. Trata-se de palavras de imagem. (Bildworte): Uma verdade abstrata é apresentada na forma de uma imagem. Mas os exemplos não se dirigem exclusi­vamente aos discípulos de Jesus, como poderia sugerir o início do Sermão do Monte (Mt 5.1,2). Todos os ouvintes de Jesus, todos os seguidores de todos os tempos são interpelados, como mostra claramente o fim do sermão (Mt 7.28). A tarefa do ser discípulo é expressa com os exemplos do sal e da luz.

2.2. V. 13: Conforme doutrina rabínica o sal não pode perder o seu sabor. Assim o Rabino Josua ben Chananja responde a uma pergunta correspondente: Sal, por acaso, estraga? Portanto: restaurar o sabor do sal é impossível, Sal é sal, ou não é sal. Pode se concluir, portanto, que a tradução como restaurar o sabor não é correta. Se o sal vier a ser insípido, com que se pode salgar? Resposta: Com nada. Trata-se de um paradoxo, de uma impossibilidade: sal insípido só pode ser jogado fora.

Portanto, o indicativo do texto também inclui uma advertência: no ouvir da palavra de Jesus, os discípulos são para o mundo, o que o sal é para a comida: uma parte necessária, indispensável. Mundo neste versículo tem o sentido de cos­mos, contém, portanto, a ordem da missão e quer dizer: Cumprindo a ordem da missão, mostra-se o caráter do discipulado.

Vv. 14-15: A palavra da luz tem várias paralelas no AT (Isaías 42.6: o servo de Javé como luz dos povos) e no MT (João 8.12: o próprio Jesus como luz do mun­do). Em relação ao discipulado a palavra da luz quer dizer: Luz é somente luz en­quanto brilha. Também aqui tem que se pensar na tarefa missionária da comunida­de de Jesus Cristo.

Alguns exegetas entendem a comparação com a cidade edificada sobre um monte numa maneira apocalíptica: Mateus teria pensado, neste sentido, na esperan­ça profética para o Sião do tempo final. Mas, provavelmente, esta interpretação não está certa. O texto não fala do monte, mas de um monte. O exemplo da cidade so­bre um monte tem um sentido parenético-ético: Os discípulos são destacados do mundo pela sua justiça. Eles estão chamados para um agir responsável.

A palavra da candeia corresponde à da cidade sobre um monte. Trata-se de uma lâmpada de óleo sem suporte. O alqueire serve para apagar a luz sem fuma­ça. O sentido está claro: Como a luz se apaga sob um alqueire, assim o discipulado perde o sentido, se este (o discipulado) não estiver ativo. Ser e fazer não po­dem ser separados. Todos indica a universalidade da difusão da luz.

V. 16: À essência do discipulado pertencem boas obras. Igreja tem que ser visí­vel. Mateus não faz, nestes versículos, uma diferença entre dádiva e dever. A comu­nidade cristã tem que corresponder à exigência de Jesus pelo seu empenho para a justiça no mundo.

2.3. Portanto, tem que ser dito que o discipulado se realiza na realidade do inundo. Entretanto, as obras dos discípulos não glorificam a pessoa, mas o Senhor. Pode-se dizer, então, que o v. 16 representa o lema do Sermão do Monte. Quer dizer, a essência do discipulado não consiste apenas no ouvir a palavra de Jesus, mas na conexão entre ouvir e fazer. Tudo depende do fazer concreto dos que ouvem.

3. O que pregar?

3.1. Indicativo e imperativo, assim mostra a exegese, complementam-se mutua­mente. O texto abrange ouvir e agir, reflexão e ação, graça e exigência, fé e obras. Pois bem, isso não é nenhuma novidade. Como, portanto, pregar sobre tais concei­tos básicos da teologia e da fé, sem que os ouvintes já nas primeiras palavras come­cem a adormecer?

3.2. Dietrich Bonhoeffer tentou resumir as boas obras que o texto de Ma­teus exige, da seguinte maneira: Que são essas boas obras que podem ser vistas nes­ta luz? Outras não podem ser do que aquelas que Jesus neles criou ao chamá-los, ao transformá-los, sob a cruz, em luz do mundo — pobreza, estranheza, mansidão, amor à paz e, por último, perseguição e rejeição. E em tudo isso uma só coisa: to­mar sobre si a cruz de Jesus Cristo. A cruz é a luz singular que brilha e a qual tor­na visíveis todas as boas obras dos discípulos. (Discipulado, p. 66)

Cruz e, depois, a ressurreição são, portanto, para Bonhoeffer, a chave para entender o texto. Para ele, que lutou contra o fascismo na Alemanha e morreu em consequência disso num campo de concentração, ser sal e luz tem um significa­do de sofrimento (...perseguição e rejeição ...tomar sobre si a cruz de Cristo). Igreja naquele tempo tinha que ser “Igreja Confessante e, com isso, Igreja Sofredora''.

3.3. Mesmo vivendo numa situação muito diferente da nossa, Bonhoeffer apon­tou com tal interpretação para um fato que, a meu ver, nenhum outro exegeta desta­cou com tanta clareza. Mateus não interpela o indivíduo cristão. Rege no texto o plural: Vocês... Já que no Sermão do Monte não são conclamados somente os discípulos de Jesus em seu sentido mais restrito, mas todos os ouvintes da Palavra em todos os tempos, tem que se concluir que vocês quer dizer: Igreja. Não é assim que o/a cristão/ã isolado/a é sal e luz do mundo. São os/as discípulos/as, os /as ouvintes da Palavra de Jesus, a comunidade. Em outras palavras: o Sermão do Monte não é uma ética individual, mas uma ética comunitária.

3.4. Claro que isso tem consequências para a prédica. Não basta a ação isola­da de um cristão para que o mundo glorifique o Pai (v. 16). As boas obras da igreja, da comunidade, são condição para o êxito de cada missão. Talvez fosse Leonard Ragaz, um dos representantes mais destacados do assim chamado socialismo reli­gioso, quem tenha apontado com mais rigor para este fato: Construam um mun­do da justiça do Reino de Deus, e as pessoas acreditarão em Deus (In: Die Bergpredigt Jesu).

3.5. Mesmo assim, o tema é conhecido. O que se ouve demais não se ouve mais. Cuidado, portanto, com os exemplos demasiadamente ouvidos!

Claro que ser sal e luz na América Latina tem alguma coisa a ver com a justiça, quer dizer, com a justiça no sentido bem amplo. Significa que a igreja tem que lutar para que as estruturas que geram injustiça mudem.

Claro que ser sal e luz tem alguma coisa a ver com a ecologia, em termos teológicos: com a integridade da criação de Deus. Não somente as igrejas, mas toda a sociedade latino-americana ainda está muito longe de um compromisso deci­dido neste sentido.

Claro que ser sal e luz tem alguma coisa a ver com política. Lutando contra a injustiça estrutural, a igreja não pode evitar de interferir na política, como mostra o exemplo de Bonhoeffer e da Igreja Confessante.

3.6. Pode-se pensar em usar no púlpito dois ajudantes de prédica: um sa­quinho de sal e uma vela num suporte, explicando que estes elementos não são aju­dantes de prédica por si próprios, mas por causa de palavras de Jesus, que compa­rou os cristãos a sal e luz: Vocês, que ouvem.as minhas palavras e agem confor­me estas palavras, vocês são sal e luz. Vocês não precisam ser insípidos ou escuros.

3.7. Como conclusão pode se usar uma poesia de O. Wiemer (In: Forum Abendmahl 1979, p. 123):

Vós sois o sal da terra,
talvez só uma semente,
mas a semente será provada.
Vós sois a luz do mundo,
talvez só um pequeno brilho,
mas o pequeno brilho ilumina o caminho.
Vós sois a cidade sobre o monte,
talvez só uma casa,
mas a casa respira alegria e riso.
Vós sois o sal da terra,
talvez só uma pequena porção,
mas o sal não deixa apodrecer.

4. Bibliografia

STRECKER, G. Die Bergpredigt. Ein exegetischer Kommentar. Göttingen, 1984.
SCHWEIZER, E. Das Evangelium nach Matthäus. NTD Vol. 2, Göttingen, 1981.
BONHOEFFER, D. Discipulado. 3a ed., Sinodal, São Leopoldo, 1989.
THEURISCH, H. e SCHRÖER, H. Mt. 5, 13-16. In: Predigtstudien. Perikopenrei-he I — Zweiter Halbband. Stuttgart, 1985, pp. 170-177.
RAGAZ, L. Die Bergpredigt Jesu. Bern, 1945

Proclamar Libertação 18
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Gerhard Tiel
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 5º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 16
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7027
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