Mateus 5.38-48

Auxílio homilético

27/10/1985

Prédica: Mateus 5.38-48
Autor: Otto Porzel Filho
Data Litúrgica: 21º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 27/10/1985
Proclamar Libertação – Volume X
 

I —Tradução

Para facilitar a compreensão do texto sugiro a tradução oferecida por C. Mesters:

V. 38: Antigamente, se ensinava: Olho por olho! Dente por dente!

V. 39: Mas eu, agora, digo o seguinte: vocês não devem oferecer resistência ao homem agressivo. Por exemplo: se alguém lhe bater num lado do rosto, ofereça-lhe também o outro;

V. 40: se alguém quiser processá-lo, para privá-lo de uma camisa, deixe que leve inclusive o paletó;

V. 41: e se alguém o forçar a carregar a mala dele por um quilômetro, carregue-a por dois!

V. 42: Dê a quem pede, e não se afaste daqueles que vivem pedindo coisas emprestadas!

V. 43: Antigamente, se ensinava: O amigo, ame-o! O inimigo, odeie-o!

V. 44: Mas eu, agora, digo o seguinte: vocês devem amar os seus inimigos e rezar por aqueles que os perseguem.

V. 45: Dessa maneira é que vocês se comportam como verdadeiros filhos do seu Pai que está no céu, que faz brilhar o sol sobre os bons e sobre os maus, e manda a chuva para os justos e os injustos.

V. 46: Que mérito tem amar só os que amam a gente? Isso, todo mundo o faz, até os que não prestam!

V. 47: E o que é que tem de especial dar bom-dia só aos amigos? Isso até os que não têm fé em Deus o fazem!

V. 48: Mas vocês! Vocês devem procurar ser perfeitos do jeito que o seu Pai do céu é perfeito!

II — O amor transforma

O Sermão da Montanha não nos oferece uma receita pronta para situações postas, mas antes faz enxergar o que está certo e errado na vida cotidiana. Ele desperta-nos para que procuremos juntos uma resposta satisfatória, a partir da fé em Jesus Cristo.

Portanto, as palavras do Sermão da Montanha são ditas a pessoas que receberam a graça, pela fé em Jesus Cristo. Nesta fé as pessoas são transformadas em novas criaturas. Esta nova vida vale agora ser vivida, com uma nova postura diante daquilo que a cerca. Isto Jesus expressa no imperativo. As colocações de Jesus, portanto, devem ser entendidas a partir da grandeza da dádiva de Deus. O Sermão da Montanha não é lei, é Evangelho. Vive-se suas palavras quando se vive a fé. Isto acontece no amor a Deus e ao próximo, no agradecimento pelo que Deus fez. Isto é vida nova. Esta é a vida de filhos de Deus.

III - O confronto com o texto

Temos diante de nós dois textos que poderiam ser considerados até separadamente. Trata-se da quinta (vv. 38-42) e da sexta (vv. 4348) antíteses. A comparação com Lc 6.27ss e 32-36 demonstra que o texto já estava contido na fonte Q. A forma antitética, porém, é fruto do trabalho redacional de Mateus. Sua intenção é a de destacar a novidade e a singularidade dos ensinamentos de Cristo. Mateus o faz conscientemente, visando mostrar a diferença entre cristianismo e judaísmo.

Mateus apresenta aqui um trabalho de composição muito bem elaborado o que bem demonstra a moldura formada para cada uma das antíteses (cf. 38-39a e 43-44a).

As antíteses, por sua vez, encontram-se num contexto maior, 5.17-48, que tem por tema lei e justiça. O v. 48 representa o ápice do todo. Desistir da vingança e amar o inimigo distinguem a perfeição dos discípulos de Cristo (v. 48), que excede em muito (v. 20) a justiça dos escribas e fariseus.

Nos vv. 38-39a Mateus substitui uma antiga norma judaica por uma nova e esta fundamenta-se em Jesus. Ela corresponde à visão que o evangelista tem do próprio Jesus (humilde e indefeso — Mt 11. 29), que nega toda e qualquer reação violenta. Sob perverso o autor entende as acusações maldosas, difamadoras e inverídicas feitas aos cristãos. Diante de tais acusações a comunidade dos cristãos não tem nem sequer necessidade de se colocar na defensiva. Antes deve desistir do direito — que o ofendido tem — de se defender. Os exemplos contidos nos vv. 39b-41 são uma ilustração do que está contido no v. 39a. Poderiam ser caracterizados como modelos de conduta que visam ações concretas e ao mesmo tempo são ensinamentos de como proceder diante da injustiça. Fazendo uso de um exemplo concreto, eles extrapolam um fato único e apontam à ação correspondente ao que é dito no v. 39a. Os exemplos aqui também não são ditos ao acaso. Eles são citados numa ordem decrescente: agressão física (v.39b), processo judicial (v. 40), autoritarismo (v. 41) e o simples pedido (v. 42). Em nenhum dos casos a pergunta por quem está com a razão é sequer considerada. Devemos imaginar duas pessoas, uma diante da outra, sendo que aquela que for discípulo de Jesus desiste de tudo aquilo que pode dificultar ou impedir a comunhão entre eles. A isso soma-se ainda que ela fará tudo para demonstrar a sinceridade do seu gesto de reconciliação. O exemplo citado no v. 41 situa-se na área da escravatura. Segundo ele, o discípulo deve fazer mais do que lhe é exigido, ou seja, fazer mais do que é seu dever.

O que temos em comum nestes exemplos, que de uma forma radical apelam à desistência ao direito, é que a intenção contida na lei mosaica (vide mandamentos) é interpretada de forma escatológica. E esta intenção da lei mosaica tem por meta que o homem aprenda a voltar o seu coração a Deus. Não é a quantidade de ações que é importante, mas sim o princípio que as origina. É este que lhes dá sentido e valor. Trata-se, portanto, de uma qualidade que pode ser fundamentada também a partir das promessas proféticas (cf. Ez 11.18s; 36. 26s; Is 44.3s; Jr 31.33s), ou seja, um novo coração e um novo espírito. Este espírito novo e escatológico é orientado de forma radical em direção a Deus e ao semelhante, conseqüentemente também à coletividade. Ele lá se manifesta de forma concreta como um amor criativo, à medida em que elimina o mal pela raiz e rompe a corrente de ações injustas.

O exemplo do v. 42 tem como pano de fundo Dt 15.7-11, com a diferença de que lá se fala de maneira clara de um pobre que pede ou necessita de ajuda. Mateus fala de maneira bem abrangente, como já se vê no v. 39b.

A segunda parte do texto, vv. 43-48, concentra-se na exigência do amor ao inimigo. A formulação de Mateus é feita de forma antitética e tem por alvo um judaísmo polêmico. Como entender esta exigência?

Amor ao inimigo é um fato social concreto, uma resistência que encaminha salvação para todos. Esta exigência extrapola todos os limites do direito, pois pede uma desistência de todo e qualquer direito. Este é o objetivo de uma tal exigência. O que, em todo caso, não entra em cogitação aqui é uma diferenciação entre mudança própria ou mudança do inimigo, pois a mudança do outro automaticamente pressupõe que eu próprio sofra uma transformação. Só quando eu próprio for o próximo do meu inimigo, e, portanto, não o ver como um caso perdido, existe a possibilidade de eu fazer do meu inimigo o meu próximo. Ocorre assim, realmente, um fato social concreto, e não podemos falar de que aqui aconteça uma auto-sujeição ao pecado. À exigência do amor ao inimigo ainda é acrescida no v. 44b a intercessão pelos inimigos. Com isto é destacado que comunhão humana constantemente ameaçada só pode ser garantida através do estar aí para o outro. Só assim pode acontecer a superação do círculo vicioso da vingança.

IV – Meditação

A pregação sobre a presente perícope deveria partir do v. 48. Nele é apontado, por um lado, o fundamento do anúncio de Jesus e, por outro lado, também o seu objetivo. O fundamento é a perfeição (= misericórdia) de Deus que visa a perfeição (=misericórdia) dos homens. A perfeição divina é descrita no v. 45. Partindo do Deus Criador, Jesus vai de uma maneira crítica contra a lei judaica. Jesus destaca que o agir de Deus não distingue entre bom e mau, entre justos e injustos. Este Deus Jesus anuncia aos seus ouvintes como sendo o vosso Pai. É a ele que Jesus também aponta quando mantém comunhão com publicanos e pecadores, quando convida os fariseus, quando cura e perdoa pecados. Jesus põe de lado toda e qualquer tentativa de dividir através de leis os homens em amigos e inimigos. Disto só pode resultar um tratamento diferenciado entre eles. A atitude que Jesus vive e anuncia é criativa e tem por conseqüência fomentar a vida e a salvação. Partindo deste fato, os discípulos de Jesus são conclamados a demonstrarem que são filhos de Deus. Assim como Deus não escolhe os bons para amá-los, assim também deve acontecer entre os discípulos. Isto traz consigo que os discípulos jamais podem aceitar como normais as barreiras que separam as pessoas, ficando diante delas numa atitude passiva ou conformista. Devem, isto sim, de uma maneira ativa e criativa, participar na sua superação. Jesus pede isto a uma massa de pessoas. Mas só um punhado (uma minoria) consegue dar pequenos passos neste sentido. É para isto que Jesus nos quer encorajar.

Qual a nossa atitude diante de pessoas que nos complicam a vida? Ficamos indecisos, cheios de raiva e ódio, ou temos a liberdade de ir ao seu encontro, sem medo, sem ódio? Somos capazes de orar por elas, fazendo com que na nossa oração seja refletida a razão do nosso ser cristão? É o nosso ser cristão que nos determina a maneira mais correta de agir com elas? O v. 44 aponta para a intercessão pelo outro (aqui claramente identificado), mostrando que a oração do verdadeiro discípulo se diferencia daquela que está centrada no próprio eu. Esta última, através do muito palavreado, quer apropriar-se de Deus e obrigá-lo a agir em favor próprio (Mt 6.7).

Em Mt 26.40,42,44 vemos Jesus antes da sua morte em oração, sujeitando-se totalmente à vontade de Deus. É esta a oração que se deve acentuar na pregação. A vontade de Deus é justamente aquela que leva em direção ao próximo, mesmo que este seja o inimigo ou peseguidor. Desta forma, também fica claro que o amor ao inimigo não é uma lei moral, mas uma expressão da fé. Intercessão por aquele que persegue e amor ao inimigo estão intimamente interligados.

Mt 5.43-48 fala de uma maneira muito agressiva, visando justamente a superação de situações que, aos olhos humanos, são tidas como normais. Devemos, contudo, destacar que aqui o sentido do amor ao inimigo é de realmente terminar com toda e qualquer inimizade e transformá-la em amizade. Inimizade não é algo último e absoluto, mas apenas um estágio com sentido temporário e limitado. A tarefa do discípulo é superá-lo. Insistir na inimizade e tranformá-la em vingança é algo estéril e retrógrado. O mandamento do amor ao inimigo faz sentido, pois tem por finalidade restabelecer a verdadeira natureza humana à medida que supera no outro a própria perversidade, que é fruto do pecado. É claro que uma tal atitude não parece nada natural ao homem normal, já que o amor ao inimigo pressupõe que se arrisque algo. Nisto, ao meu ver, também está a tarefa do pregador: motivar a comunidade para que ela arrisque algo, não mais aceitando as coisas assim como estão. Esta atitude poderíamos descrever como dar um salto no escuro; o que se exige é justamente um ato anormal. Oportunidades para tal não nos faltam.

Como agora relacionar os vv. 43-48, que apontam para a ação, com os vv. 39-42, que aparentemente sugerem a passividade? Desistir da reação pode, com o tempo, levar a que o inimigo tome conta e acabe impondo suas aspirações injustas. É o que podemos sentir na nossa realidade brasileira nos últimos 20 anos, onde os interesses de alguns poucos privilegiados acabaram se impondo à custa do sacrifício da maioria da população. A aceitação da não violência como algo autêntico e construtivo só pode acontecer lá onde esta está intimamente ligada à resistência ao mal, onde ela é um meio de luta e de missão, visando a salvação do todo e de todos. Por isso também os vv. 43-48 podem ser explicados junto com os vv. 39-42, pois estes últimos de forma alguma defendem pura e simplesmente o princípio da não violência por si só. O que temos em comum nas duas partes é a orientação de que os discípulos de Jesus devem desistir de tudo aquilo que pode destruir a comunhão com os outros, sejam eles quem forem.

V – Prédica

Situações concretas para a pregação podem facilmente ser encontradas no nosso ambiente, nos jornais, televisão. Na pregação sugiro seguir estes três passos:

a) Jesus convida seus seguidores a não aceitarem leis humanas que separam pessoas umas das outras (citar exemplos onde e como isto está acontecendo no próprio ambiente).

b) a não aceitação destas leis significa colocar-se sob a cruz, o que traz consigo o sofrimento, mas não o sofrimento passivo e resignado. O sofrimento a partir da cruz de Cristo visa justamente a superação de situações de injustiça e pecado. Sua arma: amor, perdão.

c) Amor e perdão conduzem a uma nova vida. Esta só é possível a partir do convívio com Deus. Em seu amor Deus não diferencia pessoas. No amor e no perdão fica-se livre e supera-se barreiras para poder estar aí para o semelhante.

VI —Subsídios litúrgicos

1. Intróito: Salmo 112.1; 4.6
2. Confissão de pecados: Senhor, em tua Palavra nos convidas a irmos ao encontro do nosso irmão, seja ele quem for. Isto é difícil para nós. É difícil porque ele pensa e age diferente do que nós. É difícil porque achamos que ele deveria vir até nós. É difícil porque somos orgulhosos. É difícil porque custa-nos muito perdoar. O teu amor bem por isso nos é incompreensível, pois, mesmo sendo como somos, tu te preocupas conosco. Confiando neste teu amor pedimos: perdoa-nos o nosso pecado e tem piedade de nós, Senhor!

3. Oração de coleta: Agradecemos-te, Pai bondoso, pelo teu grande amor para conosco. Tu não te cansas de apontar a nós o teu caminho e a tua vontade. Obrigado pela oportunidade de podermos estar aqui reunidos. Obrigado pela tua Palavra que nos corrige, nos consola e orienta para a vida. Dá que a compreendamos como tua santa vontade para nós. Para tal afasta tudo o que nos inquieta nesta hora. Por Jesus Cristo, amém.

4. Assuntos para a oração final: agradecer pelos desafios que o Evangelho nos coloca e pelo consolo, admoestação e orientação que ele nos traz; pedir pela comunidade para que seja testemunha clara da verdade; para que ela se empenhe na superação de barreiras entre os seus membros; para que ela não tenha medo e vergonha de ir ao encontro dos marginalizados; para que ela pratique o perdão e também viva do perdão de forma clara; pedir pelas famílias para que os cônjuges superem atritos e contem com o amor de Deus; para que pais e filhos unam-se em busca do bem comum e na concretização da vontade de Deus; pedir pelos presos e perseguidos para que não sejam vistos como um caso perdido; pedir por aqueles que não conseguem viver a liberdade em Cristo e por isto estabelecem e seguem leis que, em vez de unir, separam, degradam e dividem pessoas.

VII –Bibliografia

- FALKENROTH, A. Meditação sobre Mateus 5.38-48. In: Hören und Fragen. v. 5. Neukirchen-Vluyn, 1967.
- MESTERS, C. O Sermão da Montanha. In: Círculos bíblicos, v. 8. Petrópolis, l973. In: O Sermão da Montanha. In: Círculos bíblicos, v. 9. 2. Ed. Petrópolis, 1976.
- MEINCKE, S. O Sermão da Montanha. 1977 (mimeografado).
- SCHNIEWIND, J. Das Evangelium nach Matthäus. In: Das Neue Testament Deutsch. v. 2. 12. ed. Göttingen, 1968.

Proclamar Libertação 10
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Otto Porzel Filho
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 22º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 38 / Versículo Final: 48
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1984 / Volume: 10
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7037
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