Mateus 6.5-13

Auxílio Homilético

30/04/1989

Prédica: Mateus 6.5-13
Autor: Werno Stiegemeier
Data Litúrgica: Domingo Rogate
Data da Pregação: 30/04/1989
Proclamar Libertação - Volume: XIV


I — O texto e seu contexto

Os vv. 1-18 formam uma certa unidade. Neles encontramos, em forma de três estrofes, admoestações sobre o guardar-se de exercer a própria justiça diante dos homens (v. 1). Nos vv. 2-4 são enfocadas as obras de caridade (dar esmolas); nos vv. 5 e 6 a oração; e o tema dos vv. 16-18 é o jejum. Entre a segunda e terceira estrofe Mateus introduz um excurso sobre o tema da oração (vv. 7-13), desdobrado em duas partes: a) O cristão não ora como o gentio (vv. 7 e 8); o Pai-Nosso (vv. 9-13). Os vv. 14 e 15 explicam a quinta petição do Pai-Nosso. O v. l introduz ao tema geral das três estrofes. Em cada uma delas são repetidas, como se formassem um estribilho, as palavras: Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa (vv. 2,5,16) e teu Pai que vê em secreto, te recompensará (vv. 4,6,18). Todo o texto, vv. 1-18, faz parte do material exclusivo de Mt, exceto o Pai-Nosso, que também se encontra em Lc 11.2-4.

Praticar obras de caridade (dar esmolas), orar e jejuar constituíam, para o israelita, o tripé do verdadeiro culto a Deus. Através destas obras ele procurava cumprir e concretizar a justiça exigida por Deus. Jesus não afirma que esta justiça não possui valor. As obras devem acontecer, mas não perante os homens (vv. 1,2,5,16). Devem ser praticadas em secreto (vv. 4,6,18), perante Deus, o qual vê e está em secreto.

II — Detalhes exegéticos e aprofundamento teológico

1. A oração quer ser a expressão de uma íntima comunhão com Deus. Assusta saber que até mesmo ela pode ser transformada num meio através do qual se procura aparecer perante outras pessoas.

Quem se dirige a Deus para pedir, está de mãos vazias. Ele nada tem para apresentar. Quando a oração é sincera, é impossível demonstrai, por seu intermédio, quão piedoso se é. Se alguém a usa para mostram aos outros quão religioso ele é, revela neste ato a sua hipocrisia. O hipócrita se caracteriza justamente por esta contradição. Ele diz: Deus seja louvado. Mas, em seu íntimo, ele pensa: Tomara que todos me louvem a mim. E é através de seu comportamento que ele faz com que este seu desejo realmente se cumpra.

2. Como evangélicos luteranos cremos que toda boa dádiva vem de Deus. Afirmamos que ele concede tudo segundo a sua graça c não de acordo com o nosso merecimento. O que recebemos, portanto, não é recompensa pelo que somos ou fazemos. — Como então devemos entender as palavras de Jesus: Teu Pai. . . te recompensará? Jesus certamente não está pensando naquilo que alguém conquista através de obras. A recompensa não deve ser vista a partir da capacidade e das qualidades humanas e sim a partir da bondade do Pai (cf. Mi 20.15). A sua bondade o leva a dar muito mais do que alguém merece. Deus nos surpreende com as suas dádivas. Os que Jesus convida a entrar na posse do reino (Mt 25.34-40) não haviam praticado o bem com o objetivo de serem recompensados. Eles se admiram das palavras do Juiz e sentem-se agraciados. Para todos aqueles que praticam o bem com a finalidade única de serem recompensados, valem as palavras de Jesus: Eles já receberam a sua recompensa.

3. Com o objetivo de proteger os seus das intenções secundárias, Jesus recomenda que a oração seja feita no quarto. Tamieïon não é o quarto de dormir. É a despensa, um armazém sem janelas, única sala na propriedade dos agricultores da Palestina que se podia chavear. Quem ora numa dependência tão fechada e reservada está livre da tenta¬ção de querer outra coisa a não ser falar com Deus.

4. Qual é, neste caso, o lugar da oração comunitária? Jesus a desrecomenda? No NT temos inúmeros exemplos de orações em grupo. A comunidade cristã primitiva se reunia para orar (At 2.42ss; 4.23ss). Se isto não estivesse de acordo com o que Jesus ensinou, certamente não o teriam feito. O próprio Pai-Nosso é uma oração comunitária. Pai-Nosso não significa só que Deus não é apenas meu Pai e sim de todos; o nosso se refere também à comunidade que está reunida para orar.

5. No judaísmo a oração muitas vezes era transformada num meio de se projetar perante os homens (vv. 5 e 6). Nos vv. 7 e 8 Jesus aponta para o engano em que vivem os gentios, files pensam que os deuses só atendem aos que falam muito. Este pensamento não é fruto de sua ignorância e sim do medo de não serem ouvidos. Segundo seu conceito sobre os deuses, estes não são amigos dos homens nem estão interessados em seu bem-estar. Não é sua bondade que os leva a responder orações. Eles só atendem quando já não suportam mais ouvir os insistentes pedidos. Por isto é necessário cansá-los (fatigare deos) através do muito falar. Para os gentios orar significa, portanto, bater insistentemente numa porta fechada.

6. Quão diferente é a imagem que Jesus transmite sobre o nosso Deus! Não precisamos bater, sem parar, numa porta fechada. Não precisamos arrombá-la, pois a porta está aberta: ... o vosso Pai sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais (v. 8). Isto significa: Vocês não precisam fazer Deus mudar de ideia, não precisam convencê-lo através de muitos argumentos. Ele deseja ser vosso Pai. Ele quer conceder muito mais do que vocês esperam.

Se Deus sabe de nossas necessidades e se ele está pronto a nos conceder, o que precisamos, por que ainda o pedimos em oração? — Deus não pode ser comparado com um mercado de abastecimento com atendimento automático. Ele é o Pai que deseja o contato pessoal com seus filhos. Filhos se relacionam com seus pais, dialogam com eles. De modo semelhante Deus espera que seus filhos se comuniquem com ele.

7. Neste sentido Jesus ensinou a chamar Deus de nosso Pai. O Pai que está no céu não é um Deus desconhecido. Ele se revelou através de Jesus Cristo. É por causa de Jesus que o conhecemos e que nele confiamos. Abba — pai — é a palavra que crianças pequenas usam para se dirigir ao pai. Elas o dizem de maneira descontraída, natural, carinhosa. É uma das primeiras palavras que uma criança aprende a pronunciar. Para poder dizer pai não é necessário ter um grande conhecimento sobre a vida. — Como uma criança pequena balbucia esta palavra, assim nós nos dirigimos a Deus com simplicidade, alegria e confiança.

8. No que se refere à oração do Pai-Nosso, não é possível apresentar, neste auxílio homilético, uma exegese detalhada. Quem deseja aprofundar-se nas diversas petições, poderá consultar o Suplemento I de Proclamar Libertação.

As sete petições podem ser classificadas em duas partes: a) As três primeiras dizem respeito ao que é de Deus, ao que é do seu interesse, b) As demais petições falam das necessidade humanas. Esta classificação em dois grupos não significa, no entanto que se possa fazer uma separação entre o que pedimos a favor de Deus e o que pedimos para nós mesmos. O interesse daquele que ora o Pai-Nosso não é outro do que o interesse de Deus. Quando o nome de Deus é santificado, quando seu reino vem e a sua vontade é cumprida, também o ser humano terá a sua parte. O que Deus quer para o homem é o melhor que lhe pode acontecer. Assim, à medida em que se cumpre a vontade de Deus tanto no céu como na terra, o homem terá supridas todas as suas necessidades. Aquele Pai que confia a nós o que diz respeito a si mesmo, também assume como sua própria causa aquilo que garante o nosso bem-estar e felicidade.

9. Visto no contexto da proclamação de Jesus, entendemos que o Pai-Nosso quer ser mais do que uma fórmula litúrgica estática. Trata-se de uma oração que fornece importante subsídio na aprendizagem e ensaio de uma vida de oração. O Pai-Nosso é um exemplo a partir do qual aprendemos como podemos e devemos orar a qualquer momento, seja qual for a situação.

Ill — Para meditar

l. Nem todos os que se chamam cristãos possuem ideias claras sobre a oração. Talvez o número dos que sentem sérias dificuldades em relação a ela chega a alcançar a grande maioria. O que é a oração? Com quem falamos? Há, do outro lado, alguém que me escuta?

Podemos distinguir pelo menos quatro diferentes maneiras de pensar sobre a oração ou de reagir frente a ela:

a) Para uns orar não faz sentido. Desconhecem o endereço ao qual são dirigidas as palavras de oração. Existe um Deus? Se existe, ele se importa comigo? Como é possível que um único ser ouça, ao mesmo tempo, milhares de pedidos?

b) Outros entendem que a oração não passa de uma autoconscientização. Ao orar, a pessoa medita sobre a sua vida e a respeito do que ela gostaria que acontecesse. Assim ela adquire confiança em si mesma e se torna apta para a ação. Ela mesma consegue fazer o que aparentemente está pedindo de alguém outro.

c) Também há os que não oram por comodismo. Uma vez não têm vontade, outra vez estão cansados ou não têm tempo.

d) Para um quarto grupo a oração é o que ela de fato quer ser: um diálogo direto com Deus. Quem ora se dirige ao Deus que o conhece e ouve. Ele responde, concedendo o que a pessoa por si só, com suas próprias forças, não é capaz de conquistar.

2. O que é a oração? Como devemos orar? Jesus apresenta, em nosso texto, dois exemplos negativos: o hipócrita (presente no judaísmo) e o gentio. A oração do cristão deve ser diferente. Ou melhor: a oração do cristão pode ser diferente. Isto, não porque ele seja melhor do que o judeu ou o gentio. Se ele fosse bom, não precisaria orar: Perdoa-nos as nossas dívidas. . . O cristão pode orar diferente porque ele sabe que não precisa se autojustificar. Ele não precisa fazer da oração um meio que sirva para demonstrar a sua piedade perante outros. A justiça é uma dádiva que lhe é concedida por Deus. Por isto, ao orar, ele está somente diante de Deus. A sua única intenção é dialogar com o Pai. E o cristão pode orar diferente do que o gentio, porque ele sabe que a porta da casa paterna está aberta. Deus não é um ser estranho, desconhecido. Por causa de Jesus o conhecemos. Podemos chamá-lo de nosso Pai. Ele é o Pai bondoso que sabe de nossas necessidades (cf. itens 6 e 7 da parte exegética).

3. Por isto também podemos orar: Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu. O que Deus quer para nós é bom. Não é sua intenção castigar-nos ou estragar nossos planos ou impedir nossa felicidade. Infelizes seremos se fizermos nossos planos sem perguntar j por sua vontade e depois ficarmos esperando que ele faça acontecer : o que nós queremos. Felizes seremos, com certeza, quando a sua vontade se cumpre, seu nome é santificado e seu reino se torna realidade presente em nosso meio. Além disto, nada mais precisamos. As nossas reais necessidades de cada dia estarão supridas.

IV — Tópicos para a prédica

A prédica poderá seguir os passos que a exegese e a meditação elucidaram:

1) Introdução: Falar das dificuldades que muitas pessoas sentem diante da oração.

2) Os dois modelos negativos que Jesus apresenta. O seguidor de Jesus não orará como o hipócrita nem como o gentio.

3) A oração do cristão é diferente porque: a) Ele sabe que é Deus quem o justifica; b) Por intermédio de Jesus ele conhece o Pai que sabe de nossas necessidades.

4) Conhecemos o Pai. Por isto podemos pedir que a sua vontade se cumpra. O que Deus quer é bom para nós.

5) Conclusão: O Pai-Nosso como modelo na aprendizagem de uma vida de oração.

V - Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Misericordioso Deus, nosso Pai! Nós te agradecemos e te louvamos pelo fato de podermos falar contigo na oração. Não nos dirigimos a um ser estranho do qual não sabemos quais os seus pensamentos para conosco. Nos dirigimos a ti, ó Pai, que nos és conhecido por intermédio de Jesus. Tu és o Pai bondoso, que quer o melhor para nós. Mesmo assim não temos confiado em ti. Muitas vezes oramos só por costume. Na verdade não esperamos que aconteçam as transformações pelas quais pedimos. Achamos que tudo vai continuar como antes. Isto acontece porque não entregamos a nossa vida totalmente em tuas mãos. Procuramos traçar nossos próprios caminhos. É isto que hoje te confessamos como nosso pecado. Ajuda-nos e tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Senhor nosso Deus! Ensina-nos a compreender e aceitar a tua vontade e leva-nos a santificar o teu nome. Abre os nossos olhos para que reconheçamos os sinais concretos do teu reino que já são uma realidade hoje. Desejamos que a nossa vida seja significativa. Estamos em busca da felicidade. Ajuda-nos a vermos sempre de novo que o nosso bem-estar e felicidade dependem da comunhão contigo, ó eterno Deus. Sedentos de vida nos aproximamos da Fonte. Obrigado por saciares a nossa sede. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Agradecer: pela bondade, fidelidade e misericórdia do Pai; pelo fato de ele saber de nossas necessidades mesmo antes de nos dirigirmos a ele em oração; por tudo que Jesus ensinou sobre a bondade do Pai. Interceder: em favor daqueles que por causa de muito sofrimento, decepções e ilusões não mais conseguem orar nem crer num Pai amado que quer bem a seus filhos; pelos que acreditam que não precisam de Deus por se considerarem auto-suficientes; pelos que precisam trabalhar tanto que não sentem mais vontade de orar; pelos acomodados e indiferentes. Que todos reconheçam em Deus o nosso Pai.

VI - Bibliografia

- BUCHWEITZ, W. Meditação sobre Mt 6.5-13. In: Proclamar Libertação. São Leopoldo, 1977. V. 2.
- FÜRST, W. Meditação sobre Mt 6.5-13. In: Göttinger Predigmeditationen. Ano 72. Caderno 2. Göttingen, 1983.
- JEREMIAS, J. O Pai Nosso: A oração do Senhor. São Paulo, 1976.
- JETTER, W. Beten für Anfänger. In: Vertrauen Lernen. Göttingen, 1981
- SCHABERT, A. Die Bergpredigt. München, 1966.
- SCHNIEWIND, J. Das Evangelium nach Matthäus. In: Das Neue Testament Deutsch. Göttingen, 1968. V. 2.
- VOIGT, G. Meditação sobre Mt 6. (5-6)7-13 (14-15). In: Die bessere Gerechtigkeit. Göttingen 1982.


Autor(a): Werno Stiegemeier
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 6º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 5 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1988 / Volume: 14
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17941
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