Mateus 9.35-10.8

Auxílio Homilético

27/06/1993

Prédica: Mateus 9.35-10.8
Leituras: Êxodo 19.2-8a e Romanos 5.6-11
Autor: Dario Schaeffer
Data Litúrgica: 4º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 27/06/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII


1. Introdução e primeira reflexão

A conjuntura geral da época em que foi escrito o livro de Mateus não parece ser muito boa. Muita gente doente, especialmente quem não pode ser tratado por estabelecimentos públicos e tem que ser curado por algum passante eventual. E ninguém melhor do que nós para saber que a doença endêmica é fruto de miséria e da fome. Multidões exaustas, diz Almeida. Exaustas? Não seria melhor dizer que estão sofrendo ao extremo? Na realidade, são multidões abatidas, no chão, pisadas, maltratadas, sobrecarregadas, de acordo com as palavras gregas usadas. Como ovelhas que não têm quem cuide delas. A falta de líderes populares parece ser total. Enfim, uma situação que não é tão desconhecida de nós, pois na época de Jesus a realidade descrita era desesperadora, semelhante à nossa.

Dois mil anos mudaram a cara do mundo, mas não mudaram certos não-conteúdos nem certos des-valores, como a descartabilidade da vida humana. Hoje, descarta-se o ser humano via satélite, como se fazia há mil anos via templo. Hoje, empobrece-se o povo via correias de produção, como se fazia há dois mil anos via imposto ao império. Os modos de produção mudaram, mas seu conteúdo desumano continua o mesmo.

Mas você quer mesmo saber de uma coisa: Não sei se ainda tem muita gente por aí com paciência para ouvir estas coisas. Durante muito tempo demais foi repetido isto daí, foi feita esta análise de conjuntura negativa do ponto de vista da miséria do povo. Chega! Ninguém aguenta mais. Muito menos o próprio povo. O povo está é querendo ouvir, ver e sentir concretamente bem outra coisa. Quer é ser entendido, curado, sair da miséria, da violência, da descartabilidade. Ninguém quer mais saber das razões de sua situação, que, muitas vezes, servem mais de argumento e justificativa para a incapacidade dos que se dizem advogados do povo em mudar as coisas do que realmente para colocar as massas em movimento para resolver a situação.
Mas o que o povo quer ouvir e ver? Aquilo que sempre quis ver e ouvir: o surgimento de alguém que o guie, que seja seu líder, que seja seu Jesus, seu salvador, seu pai herói, seu santo milagreiro. É esta a tendência da pós-modernidade, com a produção de uma classe de massa que não quer apenas pão, mas quer carinho, quer se redescobrir, quer ter uma identidade própria. Algo assim acontece os países da ex-União Soviética. Não esqueceram suas individualidades e tratam, hoje, de reconstruir suas nacionalidades, sua cultura, mesmo depois de décadas de ditadura do indivíduo coletivo chamado politburo. Não esqueceram de sua religião. E, hoje, tentam recuperar as expressões de seu imaginário religioso.

E aqui? A miséria não faz esquecer o futebol, e a Xuxa é, sem dúvida, uma contradição capitalista, mas a massa precisa dela. As igrejas pentecostais são alienação, mas dão à massa explorada, faminta e sem rumo algo essencial e necessário: um rumo, um reconhecimento individual, uma aceitação. É engodo, é pura enganação. Quem não acreditar dê uma olhada nos programas da TV Record, da Igreja Universal do Reino de Deus, aos sábados de manhãzinha. Mas... satisfaz. Será que não estamos esquecendo alguma coisa quando criticamos e, ao mesmo tempo, vemos as igrejas luteranas nem sempre tão lotadas? Também as que são dirigidas por pastoras/es engajadas/os na luta popular, no PT e que pregam a transformação das coisas, não obstante sua seriedade e profundidade. Não se atingem massas, especialmente não as mais miseráveis, com uma proposta de revolução. Vamos só ser honestos quanto a isto!

Não se pode mais continuar trilhando os caminhos panfletários da grita discursiva e continuar pensando que o imaginário popular é automaticamente revolucionário por ser produzido na miséria. Não é mais possível continuar tocando a mesma tecla.

Sim, mas e então?

Será que o nosso texto vai nos ajudar, com sua visão do Jesus curador das massas doentes e sem esperança, a ver luz? Sem que se caia na outra velha esparrela religiosa de que a coisa vai cair pronta do céu; é só acreditar e rezar?

Quem quiser me acompanhar verá!

2. Saída para a frente

Jesus é a maior referência mítica para a fé dos cristãos. Sua capacidade analítica e sua sensibilidade para com os problemas do povo são um reflexo da experiência de vida diária das comunidades, cujo testemunho se tornou eterno no escrito do Evangelho de Mateus. As comunidades de Mateus querem que suas atividades nos sejam transmitidas com a legitimidade das atividades de Deus. Suas utopias e suas esperanças são registradas como palavras e ações do Deus/Jesus.

Vai daí que Jesus se torna uma figura perfeita, surgida da perfeição do imaginário comunitário, da fé num mundo bom, saudável. E esta figura, tão tranquila, que viaja pelo mundo conhecido de então, que fala de um reino que está às portas da história e que cura toda sorte de doenças, sem dúvida é a manifestação ideal da visão e da fé, da esperança e da utopia de gente cuja realidade era totalmente outra e que transparece na veemência do desejo.

Se um reino está por vir, o povo vive o contrário deste reino; se Jesus ensina é porque não se conhece a realidade da qual ele fala; se prega, é porque deve convencer os que não estão convictos; e mais, se cura toda sorte de doenças, é porque elas existem abundantemente e não há quem as cure.

O momento de análise de conjuntura tem um resultado claro, no entanto: o povo, a massa, a maioria está caída (ripto) e vive uma situação de opressão constante (skyllo). É como um monte de ovelhas sem ter quem as cuide. A compaixão de Jesus por estas massas desnorteadas, de um paternalismo centralizador a nossos olhos, é, na verdade, um preparo para o que virá depois. A igreja primitiva estava construindo sua base de ação. Sua visão do povo era correta: oprimido e desesperado, andava sem rumo. Ao mesmo tempo, no entanto, via o povo como, no máximo, um bando de animais sem vontade própria e, logo depois, como plantas maduras pra serem colhidas. Sua preocupação estava com os que dirigiam ou deixavam de dirigir esta massa. Na realidade, sabemos que a direção social, política e econômica sempre existe. Nunca houve na história da humanidade um significativo momento em que povos viveram sem ramo. Sempre havia alguém que dirigia a massa. E a própria situação de exploração, de abandono, é sempre resultado de uma direção, de uma vontade política. Não existe o vazio de poder.

E isto quer dizer que a comunidade primitiva estava construindo seu espaço de poder ali onde pretensamente ninguém o exercia. No entanto, os embates com o império não surgiram do vazio político, mas da luta por este poder.

Mas, para isto, a legitimidade da missão da Igreja incipiente vai sendo construída: Jesus vê a grandeza da massa e a tarefa por fazer é a de dar rumo a ela. Rumo este que vem da compreensão de que somente Deus,- o Senhor da seara, é capaz de reconduzir os perdidos ao caminho através de trabalhadores da seara. Isto significa que líderes estão surgindo dentre os que se professam à nova religião e que eles precisam ser enviados ao trabalho de pregação e de construção da nova realidade almejada e crida pêlos cristãos. Surge daí a tradição dos doze discípulos ou apóstolos. Em Lucas (10.1-12), não obstante ter ele a mesma tradição dos doze (9.1-6), o envio missionário já se dirige a um número significativamente maior, setenta, o que poderia significar que a proposta missionária de Lucas e das comunidades que se expressam em seu escrito seja já mais ambiciosa do que a dos outros. Porém, não creio que os números sejam de todo significativos como expressões matemáticas, mas, muito antes, como números simbólicos e cabalísticos, que tentam evidenciar (unto a necessidade quanto também a legitimidade provinda da dimensão divina desta missão, agora especialmente do Deus de Israel, de Jesus, o que se preocupa com u aflição do povo pobre.

Para as comunidades de Mateus, era primordial um trabalho dentro da própria casa. As ovelhas perdidas da casa de Israel são evidentemente, dentro do contexto anterior, as massas de povo oprimido. A elas é pregada a esperança da vinda de uma vida diferente da que vivem até aí. E, como sinal evidente e concreto desta nova realidade, a cura, a ressurreição e expulsão de demônios são predominantes, pois certamente era isto que correspondia mais às necessidades imediatas, tanto do viver cotidiano quanto do imaginário popular. Os vv. 9-15, não incluídos na perícope a ser analisada aqui, contêm mais instruções aos discípulos missionários, especialmente no que se refere ao modo de se portar na execução da missão (o despojamento quase total, a confiança na provisão alimentar espontânea, a incorruptibilidade e u palavra dada como missão expressam o alto nível de militância, necessário nestas primeiras épocas de implantação da nova proposta de vida).

A análise mostra uma situação difícil, e a proposta de saída é a organização de uma missão que tem a esperança escatológica da criação de uma nova realidade, especialmente para as massas descartáveis de pobres. A saída não reside na conservação de tradições judaicas, mas na construção do novo, da sociedade em que doentes têm cura e mortos vivem. A saída é para a frente, o que caracteriza fundamentalmente a comunidade da esperança.

3. O Brasil anda para trás

As comunidades luteranas são tradutoras e carregadoras desta missão com a qual as comunidades primitivas se comprometeram. A Igreja somente pode ser Igreja e a comunidade somente comunidade de Jesus Cristo, quando esta missão não é negada. A visão da massa de povo, esmagada e sofredora, como a via o Jesus de Mateus e como está dito no início deste trabalho, não pode ser escamoteada de nosso trabalho missionário diário. Não há como hoje desconhecer o crescimento das doenças que, em parte, são seculares e, em parte, novas, mas todas imediatamente se transformam em epidemias e endemias, seja a AIDS, seja a cólera, seja a tuberculose, seja a malária, seja a paralisia infantil, enfim, um número impressionante de agressões à nossa saúde. Ou então não há como desconhecer o recrudescimento da violência em todos os níveis. As vítimas são sempre as mesmas, mas seu número aumenta: crianças e jovens, mulheres, especialmente negras e pobres, velhos, etc. Os requintes e os mecanismos da violência desafiam constantemente os avanços sociais que se conseguem no sentido de enfrentar esta epidemia. E, enfim, a maior de todas as agressões ao ser humano é a fome nua e crua, que extermina milhares de crianças e, quando não extermina, marca-as indelevelmente com a morte prematura.

A humanidade avançou muito. A moderna sociedade tem, hoje, uma cara muito diferente da de dois mil anos atrás. Mas, o âmago, as estruturas que desrespeitam a vida e fazem com que corramos constantes perigos estão muito vivas. Certamente um militante das primeiras comunidades, que ressuscitasse hoje no Brasil, ficaria totalmente desnorteado num primeiro momento, quando visse as grandes descobertas da humanidade, que visaram, em sua boa intenção facilitar e tornar mais agradável a vida neste planeta. Mas, certamente reconheceria com muita rapidez as estruturas de poder, as relações de trabalho, as divisões de classe com seus resultados milenares de destruição da vida humana. E certamente diria que a cara mudou, mas o pensamento continua o mesmo. Seria muito interessante contar a história dessa maneira, ao contrário da boa ideia de J. J. Benitez, quando escreve as sequências de Operação Cavalo de Tróia.

Mas precisamos também discutir um pouco a metodologia missionária contida na visão de que a massa do povo é bando de ovelhas e plantação madura para ser colhida. A ideia que pode ser transferida para nós é a de que o povo é uma massa inerte e sem vontade própria. Isto não corresponde à realidade conhecida por quem se insere na luta popular. Há toda uma dinâmica contida na vida do povo, há toda uma cultura que se estabelece no convívio de pessoas. Se alguém quiser ter uma ideia disso, visite aqueles que normalmente são vistos como massa disforme e perdida: os trabalhadores e trabalhadoras pobres das favelas e baixadas. Dê atenção ao que fazem, pensam, como reagem, qual seu imaginário, como fazem para sobreviver, como estruturam seu lazer, etc. Como Igreja adotamos, muitas vezes, os parâmetros burgueses e hegemônicos para medir ações e reações, para entender o que é cultura e o que não é. Mas isto está errado. E creio também que é uma mistificação da proposta missionária contida em nosso texto. Mistificação esta que leva a uma tentativa de mudar a cultura de uma população, para que ela se adapte ao que nós, dentro de nossas medidas e compreensões do que seja modo de vida, dentro da compreensão hegemônica, porque econômica e politicamente dirigente, nos imaginamos (imaginário eclesiástico/ético/moral).

Mas a proposta do texto não vai neste sentido. Mesmo que a compreensão expressa que o povo é como animais ou plantas, o peso da argumentação é que não existem líderes, não existem dirigentes que tenham condições de tirar o povo da situação em que se encontra. É, sem sombra de dúvida, uma preocupação política, provinda de uma análise social. E para isto é preciso achar uma solução política: chamar líderes natos do povo (10.1), formá-los e enviá-los (10.5ss.), mas no sentido de achar soluções para a miséria do povo e não para aliená-lo! Esta é a diferença fundamenta entre missão e mistificação religiosa.

Como fazer isto hoje? Creio que, a partir de Lutero, fica claro que somos todos responsáveis por esta missão. Não se pode mais colocar um pastor ou uma pastora paramentado/a num púlpito, pedir que desça o verbo sobre a comunidade e esperar que as coisas mudem. A construção de uma consciência de que as comunidades precisam se preocupar com o rumo que as coisas tomam neste país é uma necessidade objetiva e intrínseca ao fato de que nossa fé nos dá consciência de cidadania. Será que nós latino-americanos somos realmente um povo descartável, como o pensam as forças hegemônicas que governam o primeiro mundo? Será que é possível que povos e nações possam morrer? Será que o extermínio, a esterilização em mas-sa, a manipulação e o patenteamento de técnicas de manipulação de gens humanos, no sentido de criar mutações, é a saída para a frente que Jesus propõe? Como comunidade de Jesus Cristo assumimos compromisso com a vida e com este mundo. E este compromisso nos proíbe de, por desconhecimento, desinteresse ou por motivações ideológicas, ficar de fora da luta por soluções e com isto concordar com o que fazem os que hegemonizam este processo. Esses não perguntam pelas consequências desastrosas para milhões de seres humanos. Apenas o compromisso existencial de colocar nossas vidas a serviço da vinda do reino, de que fala Mateus, será coerente com o envio para curas e ressurreições. É, pois, extremamente, necessário que nos preparemos, cada vez mais intensamente, para poder enfrentar o que está aí tão patente e o que ainda vem por aí.

Mas importantíssimo é que este engajamento seja a nível de propostas. Não basta mais ficar criticando o que está errado, fazendo análises que ninguém mais quer ouvir. Planos diretores de cidades, Movimento dos Sem-Terra, Reforma Agrária, Dívida externa (temas meio esquecidos ultimamente) são pontos de pauta constante da missão cristã. A presença política da Igreja terá que ser sempre mais concreta, sua atuação deve ser de propostas e não mais de conversa. O imaginário religioso deve sair das esferas celestiais e ideais para cair na realidade política diária, de cura. Mas curas de fato, e não de ilusão. !

A esperança não está num nível muito bom no Brasil, na época em que escrevo. E não creio que estará melhor quando este artigo estiver sendo lido. Mas a proposta dos cristãos não é uma esperança apática, fatalista, otimista. Ela é toda ativa, ela insiste em existir contra toda falta de esperança, ela se recria das cinzas, renasce a cada dia, mas na luta. Ela não está aí como um dom natural, mas ela é criada, trabalhada, estabelecida e precisa de fatos concretos, por menores que sejam, que a legitimem. Se não ela pode tornar-se perigosamente alienante, especialmente quando é confundida com otimismo. A esperança é fundamentalmente ativa, crítica, pessimista diante da realidade presente. Pois somente quem não mais acredita que esta realidade tenha qualquer razão de ser pode começar a construir a esperança no novo. É isto que penso seja a compreensão do reino que está às portas e o conteúdo do trabalho missionário de uma comunidade e de seus líderes. Seja ela com luteranos/as, com brasileiros/as, com latino-americanos/as ou com outros seres habitantes deste planeta, incluindo aí animais e plantas. Mas esta é outra história.

4. Subsídios litúrgicos

1. Leituras bíblicas: Evangelho: Êxodo 19.2-8a

2. Oração de coleta: Epístola: Romanos 5.6-11

Pertencemos a um povo que é levado pela opinião dos mais fortes. É manobrado e sem esperança. É instrumento, máquina, objeto, que faz funcionar o grande reprodutor de capital, que é o mercado. Mas sua felicidade, sua saúde e sua vida não são grandezas respeitadas. Temos esperança, Deus, Mãe e Pai de todos nós, de que isto vai mudar. Os testemunhos da tua história nos dizem isto. Acreditamos nisto. Ajuda a termos líderes e poder para mudar o que está aí, dentro e fora de nós. Como Jesus nos mostrou. Amém.

3. Oração de intercessão: Pedimos, Deus, que, quando escolhemos líderes, tu nos abras os olhos, para podermos ver quem pode nos dirigir de maneira justa, democrática, a uma sociedade onde a vida seja o primeiro mandamento. Dá também à tua comunidade e Igreja no mundo o discernimento e a incorruptibilidade dos apóstolos. Que não sejam o ouro e a posse que dominem nossas ações, mas o verdadeiro interesse na construção do reino, do mundo, como lugar para viver e não para morrer. Amém.


Autor(a): Dario Schaeffer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 35
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13550
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João 14.6
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