Momento atual da IECLB, em especial a relação com o Movimento Carismático - 2005

04/07/2005

A senha do Antigo Testamento para o dia de hoje reza: “Os olhos do Senhor repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor” (Salmo 34.15). Como igreja de confissão luterana, sabemos que “os justos” não são as pessoas que têm méritos próprios, mas sim aquelas pecadoras que acolheram em fé a dádiva da justificação, que Deus por sua graça nos dá. Como tais, pessoas pecadoras mas justificadas, confiamos na promessa de Deus de que ele ouve nossas orações e nos assiste em todos os momentos, também e principalmente naqueles mais difíceis.

Nas últimas semanas e meses tive a oportunidade de participar de muitos eventos, celebrações e diálogos, em vários sínodos e comunidades, com conselhos sinodais, conferências de obreiros e obreiras, instituições, setores e movimentos na IECLB. Na grande maioria dos casos pude registrar com muita alegria o quanto há de vitalidade, espírito comunitário e impulso missionário na IECLB. Ainda no último fim de semana, pude estar em São Luís do Maranhão, celebrando culto e dialogando com uma comunidade embrionária, com nítida marca do povo nordestino, numa capital em que até agora a IECLB não tinha presença. Maravilhosamente, essa comunidade nos descobriu pelo site da IECLB e espera que a acompanhemos pastoral e espiritualmente.

No entanto, também temos dificuldades e problemas na IECLB. Todos o sabem – e nos foros mencionados essas questões foram igualmente tematizadas. No aspecto financeiro, tivemos um promissor Fórum Nacional Fé, Gratidão e Compromisso, animando-nos a novas iniciativas em nosso processo de autossustentabilidade. Mas neste ano somos particularmente atingidos nessa área. A seca ocorrida no Sul e em outras regiões em que a IECLB tem presença mais marcante, atingem a capacidade de contribuição de muitos membros e comunidades. Os recursos do exterior diminuem e, ademais, somos afetados pela forte valorização do real, em relação ao dólar e ao euro. Hoje mesmo estarei viajando à Alemanha, juntando-me ao Secretário-Geral, P. Nestor Friedrich e ao Diretor de Departamento Financeiro, Amauri Ludwig, para uma reunião em que nossos parceiros na Alemanha deverão nos comunicar acerca do montante e do ritmo dos cortes que haveremos de sofrer na ajuda externa neste e nos próximos anos.

Ainda que de nossa parte venhamos a pleitear que essa redução seja a menor possível, o faremos em gratidão pela extraordinária ajuda já recebida por muitos e muitos anos e pela ajuda que ainda haveremos de receber dos irmãos e irmãs de além-mar. Sobretudo, porém, haveremos de fazê-lo na plena consciência de que temos diante de nós o importante desafio de darmos novos passos de fé num projeto de busca de crescente autossustento de nossa Igreja. Conseguimos esse autossustento de maneira gratificante nas últimas décadas em nossa formação teológica e no suprimento de nossas comunidades e campos de trabalho com obreiros e obreiras nacionais. Estamos desenvolvendo, em maior número do que no passado, iniciativas missionárias no país e no exterior. Em relação à autossustentabilidade financeira, haveremos de atingi-la no futuro, quem sabe não tão distante assim. Deus não tem sido parcimonioso, mas abundante, com seus dons à IECLB e a seus membros. Haveremos de trazer ao “altar”, generosamente, nossas ofertas de fé e gratidão, participando assim mais intensamente também dessa forma na missão de Deus em nosso país.

Ainda assim, neste momento, a maior preocupação da IECLB não é de ordem financeira, mas sim de integridade confessional e de unidade da igreja. A diversidade de espiritualidade existente na IECLB é, em princípio, bela e enriquecedora para a igreja. Não são poucas pessoas que têm se sentido atraídas para a IECLB ou a apreciam particularmente porque há nela um espaço bastante amplo para desenvolver de maneira peculiar e característica, a experiência de fé, a edificação comunitária e o projeto missionário. A diversidade tem, porém, seus limites, que são ultrapassados precisamente quando de algum modo são atingidos os pilares da confessionalidade luterana e/ou se instala na vida da comunidade um espírito divisionista que é incompatível com a compreensão de igreja como corpo de Cristo, em que os diferentes membros cooperam para sua edificação.

Como é sabido, nos últimos tempos temos nos engajado num “difícil porém necessário” diálogo, como já o classifiquei anteriormente, com o assim chamado Movimento Carismático. Não preciso recuperar as etapas desse diálogo, intensificado a partir do ano passado, mesmo porque têm havido manifestações anteriores de parte da Presidência, bem como resoluções do Conselho da Igreja. A esperança de que esse diálogo pudesse conduzir a uma maior identificação do movimento carismático com a base confessional da IECLB, a que o próprio movimento carismático viesse a coibir radicalizações e a que pudéssemos em conjunto encontrar modalidades alternativas para legítimos anseios do movimento carismático infelizmente não se concretizou, embora os esforços de parte a parte. De forma alguma pretendo aqui distribuir responsabilidades quanto a esse fato, mas sim registrá-lo, e fazê-lo com muito pesar, pois “se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1 Coríntios 12.26). Parece não restar dúvidas de que há questões teológicas profundas a nos dividir.

Em 5 e 6 de maio passado efetuamos, atendendo resolução do Conselho da Igreja, uma consulta da Presidência com o Grupo Assessor de Teologia e Confessionalidade, os dois ex-pastores presidentes da IECLB e um representante dos movimentos [Movimento Carismático (MC), Movimento Encontrão (ME), Movimento Evangélico União Cristã (MEUC), Comunhão Martim Lutero (CML) e Pastoral Popular Luterana (PPL)], para emitir um parecer a partir da carta da Presidência da IECLB ao MC, datada de 13 de dezembro de 2004. Nessa consulta, em que cada um dos participantes apresentou seu posicionamento, foi reforçada a posição teológico-confessional de rejeição à prática do rebatismo, contida naquela carta oficial, recomendando-se que no tocante ao chamado “batismo condicional”, a IECLB elaborasse critérios e diretrizes para o exame de casos específicos em que possa estar em dúvida se houve previamente batismo retamente efetuado ou não. Nessas diretrizes se procuraria clarear quando (e quando não) e com qual procedimento poderá ser decidido e efetuado o chamado “batismo condicional”. Esta é uma tarefa ainda pendente. A consulta também enfatizou que não se trata de rejeitar as pessoas eventualmente rebatizadas, mas sim a prática do rebatismo e que, portanto, particular responsabilidade cabe aos/às obreiros/as da IECLB, consoante seu voto de ordenação. A consulta também recebeu um informe preliminar do andamento dos estudos no Conselho de Liturgia da IECLB acerca do batismo, estudos mais abrangentes em andamento já antes e independentemente do diálogo com o MC. Esses estudos incluem a elaboração de liturgias de rememoração (recordação) do batismo, o que também atende, nesse tocante, à resolução do Conselho da Igreja.

Na consulta também foi enfatizada ao Movimento Carismático a resolução do Conselho da Igreja de que toda prática de “batismo nas águas” de pessoas que tenham sido batizadas anteriormente, como infantes ou não, deve ser suspensa. O representante do MC, por seu turno, solicitou que nenhum de seus integrantes fosse submetido a processo disciplinar. Foi-lhe recordado que havia um procedimento sinodal em curso e que não há interferência da Direção da IECLB em processos que são de competência sinodal e levados adiante por comissões jurídico-doutrinárias independentes. Que, de outra parte, sempre há a possibilidade de se encontrarem outras soluções para os fatos que deram origem a eventuais processos disciplinares, acarretando assim, eventualmente, a suspensão desses processos.

Neste contexto, cabe uma palavra sobre a natureza e os mecanismos de processos disciplinares, segundo os regulamentos da IECLB. Há, na IECLB, vozes que aparentemente rejeitam qualquer recurso a processo disciplinar; outras, ao contrário, exigem que, em face das infrações existentes e da morosidade e das dificuldades dos mecanismos disciplinares, deveria haver algo como um “rito sumário”. Segundo o Ordenamento Jurídico-Doutrinário (OJD), aprovado pelo XXIII Concílio, realizado em Santa Maria do Jetibá, em 2002, “o conjunto de normas da IECLB sempre deve servir à manutenção ou ao restabelecimento da paz entre irmãos e irmãs” (OJD, preâmbulo, ponto 3). Ou seja: o objetivo de regulamentos disciplinares não é, propriamente, punir infratores, mas antes, através das possíveis sanções, recuperar a pessoa que tenha infringido as normas e a doutrina da IECLB e, em qualquer hipótese, preservar a unidade da Igreja. O OJD prevê que processos disciplinares propriamente ditos sejam antecedidos pela disciplina fraterna, com o objetivo de sanar por este meio os problemas registrados, e por uma sindicância independente para apuração dos fatos. Quando é instaurado um processo disciplinar ele é conduzido por instâncias independentes, eleitas pelo Concílio da Igreja e pelas assembleias sinodais.

Entrementes, as relações da IECLB com o MC sofreram vários desdobramentos e agudizações. Dois pastores e uma pastora solicitaram recentemente seu desligamento do quadro de obreiros/as da IECLB (além do pastor Valdemar Botke, que já o fizera no ano passado): o casal Luciano Linzmeyer e Simone Thereza Schier Linzmeyer (Sidrolândia / MS), e João Daniel Gasperin da Silva (Cosmópolis / SP). Foram constituídas pelo MC várias comunidades independentes, fora das estruturas e dos procedimentos na IECLB (Cristal / RS, Caxias do Sul / RS, Dourados / MT, Guaíba / RS) e enviadas pelo MC pessoas encarregadas do atendimento pastoral a essas comunidades. O MC, questionado a respeito dessa prática, tem dito que se trata do esforço pastoral emergencial para evitar que essas pessoas se desliguem definitivamente da IECLB. Contudo, é certo que nenhuma dessas decisões foi tomada em entendimento, consulta ou comunicação prévia à IECLB. No caso de Guaíba, a IECLB recebeu um abaixo-assinado de cerca de 140 membros da comunidade comunicando seu desligamento da IECLB, em protesto ao processo disciplinar em curso em âmbito do Sínodo Rio dos Sinos contra o P. Roberto Etter dos Santos por prática de rebatismo e outras infrações a regulamentos da IECLB, processo este em sua fase final. O grupo passou a reunir-se em novo local de culto. A carta menciona que nenhum membro da comunidade estaria em desacordo com as medidas tomadas. Entrementes, porém, foram reiniciados os cultos, pelo acompanhamento pastoral indicado pelo Sínodo, com a participação de significativo número de membros que se sentiam ou foram afastados no período anterior. Em Cosmópolis, um expressivo número de membros também passou a realizar seus cultos num local próprio. A IECLB enviou um pastor à comunidade remanescente.

Todos esses exemplos assinalam para um processo de cisão dolorosa para a IECLB, por ela de modo algum desejada, mas como consequência de opções teológicas e pastorais tomadas no interior do MC, as quais a IECLB não pôde e não pode simplesmente acatar. De outra parte, porém, cabe registrar que essas opções teológicas e pastorais são tomadas pelo MC em consonância com suas convicções de fé. Não cabe, portanto, à IECLB qualquer sentimento de superioridade ou arrogância. Ao contrário, devem prevalecer o respeito e a reflexão.

Devemos reconhecer, como Igreja, que o movimento carismático não é um fenômeno restrito à IECLB, nem a nosso país, nem ainda a nosso continente. Não podemos sonhar com um cenário ilusório em que pudéssemos estar, como igreja, totalmente imunes às influências desse movimento. O movimento pentecostal-carismático pode ser observado hoje em todo mundo, praticamente em todas as denominações. Ele, à sua maneira, responde, pois, a necessidades espirituais que as pessoas de nosso tempo sentem ou têm. Assim, o movimento pentecostal-carismático de nosso tempo lança desafios a igrejas históricas, como a IECLB. Somos uma igreja por demais racional? Apegamo-nos demais a aspectos culturais de nossa proveniência étnica e de nossa tradição? Qual o espaço que damos em nossos cultos e atividades às necessidades de ordem pessoal que nossos membros têm? Inspiramos o suficiente para a ação missionária? Com que intensidade estamos dispostos a apoiar com nosso tempo, nossos dons e nossos recursos financeiros para a missão de Deus? Temos considerado o suficiente a ação do Espírito Santo em nossas vidas e nosso tempo? Essas e outras são questões que devem nos ocupar com seriedade de maneira continuada, em qualquer circunstância. No entanto, temos igual certeza de que a IECLB, com suas características e, sobretudo, com sua base bíblico-confessional, tem importante contribuição a dar no cenário religioso brasileiro, como expressão da missão de Deus. “Justificação por graça e fé”, “distinção entre lei e evangelho”, “liberdade cristã”, “ser cristão simultaneamente justo e pecador”, “igreja como povo de Deus, igualmente justo e pecador”, são alguns dos conceitos teológicos peculiares que devemos proclamar, interpretar e vivenciar.

Neste ponto, desejo responder a uma questão específica, frequentemente levantada: por que a Igreja priorizou a questão do batismo/rebatismo, deixando de lado outras muitas questões importantes no diálogo com o MC? Não há dúvida que há muitos outros assuntos, mas numa Igreja de confissão luterana, Palavra e Sacramentos têm preponderância e não podem ser diluídos entre muitas outras questões, ainda que relevantes. Há um núcleo de unidade confessional, do qual não é possível abrir mão, sem trair a própria confessionalidade luterana, a partir da Escritura. Sobre isso, em particular o significado do batismo, bem como a relação entre graça e fé, já nos manifestamos em cartas anteriores e, de múltiplas formas, deverá continuar merecendo a atenção das comunidades, dos sínodos e da Igreja.

Desejo me reportar ainda à questão de como haverão de continuar as relações entre IECLB e MC. Não se trata de fazer previsões, mas observar tendências e estabelecer critérios. Faço-o em alguns tópicos:

1. Os órgãos de Direção da IECLB, em particular, a Presidência devem continuar perseguindo as possibilidades de diálogo teológico-confessional em relação aos assuntos pertinentes, na medida em que se propiciarem espaços e interlocutores para tanto.
2. Em particular, a IECLB deverá levar a término as tarefas pendentes, de elaborar os critérios para concessão ou não do chamado “batismo condicional” e as liturgias para rememoração do batismo efetuado, como assinalado acima.
3. Os sínodos, como é natural, continuarão agindo no âmbito de suas responsabilidades constitucionais e regimentais, incluindo, neste momento, a tarefa com que foram encarregados pelo Conselho da Igreja de efetuar um “levantamento da incidência de prática do rebatismo nas comunidades”, colhendo “informações dos obreiros e obreiras quanto à sua prática batismal e quanto a seu próprio batismo”.
4. O MC, ao que tudo indica, está num processo de tomada de decisão, conforme circunstâncias particulares dos locais em que atua. Seu desdobramento para dentro e para fora da IECLB não é ainda de todo previsível, mas devemos contar com a possibilidade de ter o movimento carismático ou parcelas dele estruturadas de maneira totalmente autônoma da IECLB.
5. É importante realçar mais uma vez que a IECLB rejeita, por razões confessionais, o rebatismo, mas não as pessoas rebatizadas. A prática do rebatismo equivale, como o expressou o XXIV Concílio, realizado em São Leopoldo / RS, em 2004, à “autoexclusão da base confessional” da Igreja, mas não ao desligamento automático da Igreja enquanto membro. A IECLB deve estar disposta e preparada para lidar pastoralmente com toda pessoa que, por motivos de consciência, tenha se submetido ao rebatismo. Tal acompanhamento inclui o desafio a que passe a encarar seu batismo anterior, retamente efetuado, como o batismo plenamente válido, enquanto expressão da graça de Deus recebida em fé.
6. Em princípio, essa distinção vale também para a pessoa do/a obreiro/a que tenha optado para si pelo “batismo nas águas” e/ou o tenha ministrado a outras pessoas. Contudo, a continuidade do exercício do ministério com ordenação que lhe foi conferido pela IECLB, acompanhado dos respectivos votos de ordenação, irá depender menos da própria IECLB do que da disposição para clara revisão pessoal e pública da posição teológico-prática adotada.

Irmãs e irmãos: Não me foi fácil redigir esta carta. Mas espero que possamos todos e todas sermos confortados pela palavra do apóstolo Paulo: “Temos, porém, este tesouro [do evangelho] em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo” (2 Coríntios 4.7-10).

Fraternalmente,
na paz de Cristo

Walter Altmann
Pastor Presidente

 

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