Mudanças: povo é preparado para confiar em Deus.

A função dos "dois pontos" - Josué 5.9-12

30/03/2019

Cara comunidade!

Nossa vida é feita de objetivos a serem alcançados. Quando alcançados classificamos estes objetivos como conquistas. Ora, vejam como é a nossa vida: o longo período de formação chegou ao fim. Foram anos de educação infantil, ensino fundamental e, depois, ensino médio. Depois só faltou seguir uma carreira dentro da área de interesse e se alegrar com a profissão escolhida. Ponto final? Não! São dois pontos. E este não é apenas um sinal de pontuação na escrita. “Dois pontos” significa: agora tudo vai começar. Quanta frustração ou quantos desafios surgem a partir dos dois pontos: carreira, emprego, saúde, casamento, filhos, família, casa, lar, doenças, velhice, e por aí vai.

Quando, afinal, é possível colocar um ponto final nos desafios da vida?

Sempre que pensamos em colocar um ponto final em nosso tempo, Deus coloca um “dois pontos” e começa algo novo em nós. Mesmo a morte não significa para Deus um ponto final. Em cima deste ponto coloca mais um e nos chama para uma vida nova em uma dimensão totalmente desconhecida e desafiadora.
Hoje pretendemos tomar conhecimento do texto de pregação aos poucos. Vamos lendo esta tradução livre do hebraico à medida que avançamos.

Dois pontos
 

Então o SENHOR disse a Josué: “Hoje removi de vocês a vergonha do Egito”. Por isso até hoje o lugar se chama Gilgal. (5.9)


O “então” pressupõe um assunto em andamento. É praticamente um “dois pontos”. Falava-se sobre a circuncisão. Encontramos a instituição da circuncisão entre os israelitas no texto de Gênesis 17.9, este relacionado a Abraão. Em outro texto, Êxodo 4.24-26, o assunto está relacionado a Moisés. 

A celebração litúrgica da circuncisão acontece em Gibeate-Aralote (traduzido: colina dos prepúcios), uma pequena elevação. Na verdade, a circuncisão não é outra coisa que a introdução do indivíduo na vida cúltica. Por isso é de se pensar no acontecimento de Gibeate-Aralote como um ritual de acesso ao verdadeiro e grande centro cultual que era Gilgal. É o que hoje denominaríamos um ritual de passagem.

Os dois pontos são aqui um novo início a partir do toque de Deus. Por isso o toque no corpo – aqui na forma de circuncisão mas que pode ser hoje relacionado ao batismo – representa esta intervenção de Deus na totalidade da pessoa que o aceita. Esta marca identifica o povo de Deus; esta marca lembra a intervenção salvífica do SENHOR. 

A nova geração de israelitas recebe um novo alento de vida. A antiga geração experimentou a circuncisão, mas não a assumiu de coração. Isto é a mesma coisa que permanecer incircunciso (Romanos 2.28-29). E permanecer incircunciso é estar reprovado por Deus (Gênesis 34.14).

Para marcar esta mudança é importante dar uma atenção ao local onde ela acontece: Gilgal. No vers. 9 encontramos a razão do nome Gilgal: afastei de vocês a vergonha do Egito. O verbo traduzido por afastei tem em sua raiz o termo rolar. Deus literalmente rolou para longe toda a vergonha infligida sobre Seu povo no Egito. Por isso Gilgal denota o início de uma nova realidade para o povo, e isto marcado tanto pelo memorial das doze pedras como pela circuncisão. Mas não só isto.

Celebrando o que é novo

Dentro da ordem litúrgica que transparece em todo quinto capítulo do livro de Josué, temos agora a segunda parte: a volta da celebração da páscoa (passah).

Na tarde do dia catorze do mês, enquanto estavam acampados em Gilgal, na planície de Jericó, os israelitas celebraram a Páscoa. (5.10)

Novamente temos uma indicação clara para o texto de Êxodo 12.43-49. Toda a questão da circuncisão funciona como um prelúdio para a festa da passagem. Sem a circuncisão o passah não seria possível. Dito diferente: sem o toque de Deus o novo início é fadado ao fracasso. Mas agora, com a vergonha do Egito removida, a própria lembrança da passagem assume um novo sentido. Aqui está um povo definitivamente liberto dando seus primeiros passos para o fortalecimento social e pessoal. 

A data e a hora desta celebração coincidem com os relatos de Números 9.3 e Levítico 23.5, embora falte em Josué o nome do mês. Observando a rápida sequência da narrativa, somos induzidos a pensar em uma celebração que transcorre apenas duas semanas após a grande travessia. É muito improvável isto ter acontecido neste tempo, uma vez que não haveria a possibilidade da realizarem uma colheita em período tão curto, como veremos nos versículos seguintes. 

O sustento que vem de Deus

O fato de Gilgal ser mais uma vez mencionado mostra a importância que tem o local central do culto ao SENHOR. No entanto, o tema principal do texto de Josué ora em análise, não é a celebração da Páscoa. A intenção é celebrar a providência divina através dos frutos da terra e olhar com confiança para todas as bênçãos de Deus reservadas ao seu povo todo.

No dia seguinte ao da Páscoa, nesse mesmo dia, eles comeram do produto daquela terra: pães sem fermento e cereais tostados. O maná cessou no dia seguinte ao dia em que comeram do produto da terra; já não havia maná para os israelitas, mas naquele ano eles comeram do fruto da terra de Canaã. (5.11-12)

Enquanto o passah é uma festa tipicamente pastoril, a festa que segue, uma festa da colheita (mazzoth), é típica de agricultores. Os pães sem fermento pertencem à tradição pastoril, enquanto os cereais tostados pertencem à tradição rural. Temos aqui uma clara indicação para a mudança radical na estrutura de vida de um povo. O que não era mais sustentável como antes, precisa ser trabalhado em uma nova perspectiva.

As duas festas – que hoje chamamos de Páscoa e da Colheita -- passam a ser celebradas em conjunto. Desta forma sinalizam a mudança da organização social e econômica deste povo: deixam de ser seminômades (criadores de gado) e passam a ser sedentários (agricultores). Não podemos pensar que esta mudança tenha acontecido da noite para o dia como denota este texto, mas sim um processo mais longo, quem sabe sofrido e cheio de incertezas. Mas é significativo o fato de que o maná do SENHOR cessou assim que puderam comer do fruto da terra. Isto não significa que Deus tenha mudado seu jeito de ser junto ao povo, que tenha deixado o povo na mão. Sua fidelidade para com a aliança permanece. Apenas muda a maravilhosa provisão de sustento do deserto (Êxodo 16) como sinal de encerramento de uma etapa na caminhada do povo, para o fruto da terra, não menos importante e maravilhoso, como cumprimento da promessa de que o povo de Deus viveria onde a terra mana leite e mel (Êxodo 3.8, 17 e Josué 5.6).

Ou seja, Deus mais uma vez colocou um “dois pontos” para que houvesse a oportunidade de recomeçar.

Atualizando

Com certeza todas as pessoas que acompanham esta pregação já vieram fazendo paralelos com as situações dos dias de hoje. Há muito a ser mudado e há muita falta de vontade para mudanças. Na transição para uma nova realidade – onde ansiamos por paz, entendimento, justiça social, compreensão – há de se empenhar muito esforço e trabalho. Nem tudo se resolve gritando nas esquinas ou nas páginas sociais.

Os próprios israelitas se queixaram, nos dias de Moisés, que precisavam seguir pelo deserto sem ter os peixes, os pepinos, os melões, os alhos silvestres e as cebolas do Egito (Números 11.5), embora agora finalmente fossem livres. Mudanças desestabilizam e nos tiram da zona de conforto.

Prezada comunidade:
Quais “dois pontos” Deus está colocando na vida da nossa sociedade e da nossa comunidade de fé e vida? Em que sentido podemos construir pontes – que sempre vão ligar dois pontos -- para a paz, para o entendimento, para a tolerância? Algumas pessoas desta comunidade se retiraram da convivência e do serviço cristão porque, assim entendo, de forma arrogante preferem cair nas suas panelas das sopas de cebolas. Mas há muitas pessoas somando forças, em presença, em oração, em zelo comunitário, vivendo a mudança de paradigma necessária para que a Igreja de Cristo permaneça sendo relevante neste lugar.

Lembra-te de mim, SENHOR, quando tratares com bondade o teu povo; vem em meu auxílio quando o salvares, para que eu possa testemunhar o bem-estar dos teus escolhidos, alegrar-me com a alegria do teu povo, e louvar-te junto com a tua herança. Salmo 106

Amém.
 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Antigo / Livro: Josué / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 12
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 51373
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