Números 6.22-27

Auxílio Homilético

01/01/2009

Prédica: Números 6.22-27
Leituras: Lucas 2.15-21 e Filipenses 2.5-11
Autor: Júlio Cézar Adam
Data Litúrgica: Ano Novo: Nome de Jesus
Data da Pregação: 01 de janeiro de 2009
Proclamar Libertação - Volume: XXXIII

1. Introdução

Estamos diante de um dos textos mais conhecidos da Bíblia. Um dos textos que em tão poucas palavras (em hebraico são apenas 15 palavras) consegue sintetizar muito do ser de Deus e do cuidado, da relação desse Deus com seu povo, conosco. O texto de Números, mais conhecido como a bênção aarônica, foi incorporado à liturgia da igreja protestante e é um texto tão conhecido, sempre tão atual e profundo, que muitos nem mesmo conhecem sua origem bíblica.

O texto é uma bênção, a mais antiga na Bíblia; bênção de Deus proferida a Moisés e desse para Aarão. Fala do olhar amoroso e misericordioso de Deus e da paz que nele é possível. O conteúdo dessa bênção vira notícia na boca dos anjos, que anunciam a encarnação desse olhar misericordioso de Deus no menino da estrebaria: Jesus. Lucas 2.15-21 fala disso. Em Filipenses 2.5-11, a bênção desdobra-se em novas palavras, torna-se hino e conta em poesia a graça do Deus que se digna a descer, tornar-se gente em Jesus Cris- to, para assim acessar por nós a glória do Pai.

Temos diante de nós, pois, o privilégio de pregar a partir de três textos, que em poesia e relato resumem a graciosa grandeza do Deus de Israel, do Deus de Jesus Cristo, sempre de novo por nós. Os três textos falam da graciosa providência de Deus por nós. Primeiro em forma de bênção, olhar de Deus por nós (Nm 6.22-27), depois através da encarnação, Jesus Cristo (Lc 2.15-21 e Fp 2.5-11).

2. Exegese

Números tem esse nome devido às muitas listas genealógicas, resultado do censo feito entre o povo saído do Egito. O título original bemidbar, no entanto, significa “no deserto”. O livro conta, em sua essência, a história do povo de Deus no deserto, as provas vividas e o processo de adaptação até o assentamento. Os acontecimentos de Números se dão em torno do Sinai, no sul de Canaã, e das planícies de Moabe e Edom.

Os textos lá encontrados são de grande diversidade e revelam um longo período de composição. Listas, leis, relatos, ordens divinas, instruções para o culto e essa bênção. O tema que prevalece no livro é a providência divina. O fio vermelho do livro é este: Deus cuida, vela por todas as necessidades de seu povo, sejam elas necessidades militares, físicas, nutricionais ou espirituais.

Nosso texto é um texto isolado, entre a lei do nazireu e a das ofertas dos príncipes. Trata-se de uma bênção que Deus ditou a Moisés para que esse instruísse Aarão como abençoar Israel. Daí vem o adjetivo “aarônica”. A tradição diz que os sacerdotes a cantavam no templo, confiantes e alegres.

Não por acaso essa poesia está entre textos de instruções e leis. Pretende, assim, mostrar que o objetivo maior e permanente de Deus é abençoar seu povo em sua marcha de libertação e construção da identidade como povo de Deus. Sua bênção é para todo o povo e não apenas para os nazireus (pessoas separadas para Deus). Parece que assim como a instrução de Deus ajuda o povo a se organizar e viver, a bênção realiza esse cuidado de forma amorosa, independente do cumprimento ou merecimento do povo, ou seja, Deus abençoa o povo tão-somente por providência e por misericórdia. Não existe glória maior para Deus do que essa.

Uma bênção é, na verdade, um voto e uma oração. Um jeito de marcar o povo ou a pessoa. Vem de Deus e, portanto, é livre e inquestionável. Pela fé, ela tem influência na vida da pessoa sobre a qual é proferida. Resultado final é a paz de Deus. Essa paz – shalom – é a paz de Jesus Cristo, cantada e anunciada pelos anjos aos pastores no v. 14 de Lucas 2, ou seja, versículo que encerra a perícope do evangelho, anterior à nossa (talvez seria interessante tomar como leitura do evangelho todo o texto, já desde o v. 8). Na Epístola de Paulo aos Filipenses, essa paz na terra se mostra no esvaziamento, na entrega, na cruz de Jesus Cristo, que possibilita a glória de Deus no céu, como os anjos no campo cantaram. É possível estabelecer, portanto, um elo forte entre os três textos.

Os três caracterizam-se por poucas palavras e pela precisão de resumir a essência de Deus e de sua relação conosco.

3. Meditação

O texto de Números é da comunidade, já que geralmente encerra o culto dominical. Está dentro da liturgia de encerramento, preparando a comunidade e cada um dos membros a ir de volta para o mundo, para o cotidiano. A prédica poderia começar com essa observação. Talvez pudessem ser feitas algumas perguntas sobre o que as pessoas sentem, como entendem a bênção final, quais as palavras que mais marcam e o que para elas significa essa parte do culto. A partir dessas considerações podem-se tecer algumas ideias a partir do texto de Números.

1 – O primeiro ponto deveria falar sobre bênção. Bênção vem ao encontro de um dos maiores clamores de nosso tempo. Assim como o povo que estava no deserto, nos relatos de Números, assim como Abraão, Jacó, as pessoas buscam a bênção de Deus para se sentir protegidas e iluminadas pela promessa de Deus. Bênção envolve palavra, gesto e toque. Promessa e realização. Passa- do, presente e futuro. Desejo e realização. Deus, seu povo, a comunidade e a pessoa, em sua individualidade. Bênção é uma oração que se materializa no voto imperativo de Deus ou em nome de Deus. Bênção faz o que a oração pede e o que o texto bíblico promete. Por isso precisa ser resgatada na vida litúrgica da comunidade. A bênção remete-nos ao Batismo (Confirmação), matrimônio, unção e, inclusive, lembramos dela no sepultamento.

2 – O segundo ponto deveria entrar nos detalhes, nas palavras do texto de bênção, sua história e sua profundidade para nós, hoje, em tempos de insegurança (deserto). A bênção de Deus veio para o povo em uma situação de transitoriedade, fuga, adaptação, “caminho no deserto”, tempo de crise diante da grande mudança, a saída da escravidão para a libertação. Quantos já não passaram por situações assim? De repente encontram-se diante de uma nova situação, uma situação desejada talvez, mas que traz consigo insegurança, medo, incertezas. É nessa situação, na crise, no deserto da vida, que o Deus da providência vem a nós com sua bênção. Deus vem a nós para abençoar, proteger, guardar, resplandecer (iluminar), ter misericórdia, levantar e dar a paz. Sobre cada uma dessas ações de Deus, presentes na bênção aarônica, poderíamos fazer uma prédica. É interessante tecer ideias nesse rumo no início de mais um ano do calendário civil.

3 – Por último, pensar na dimensão do olhar, do encontro do rosto de Deus com o rosto humano, presente no texto de Números. Nosso Deus é um Deus que deixa seu rosto nos iluminar. É um Deus que nos olha nos olhos, no rosto. Seu olhar nos vê por inteiro. É um olhar que olha para a gente. Não é um olhar especulador, investigativo, repressivo, mas um olhar de misericórdia e pacificador. Esse olhar de Deus nos compromete pelo amor. Se Deus nos olha assim, quem somos nós para olhar as pessoas, o outro, de outro jeito que não seja pelo viés da misericórdia (e misericórdia é muito mais do que pena) e da paz? Se o Deus de Israel nos olha assim, por que nós tantas vezes usamos de tão pouca misericórdia quando olhamos para nós mesmos nessa sociedade competitiva, hedonista e individualista em que vivemos? Esse jeito de olhar de Deus, expresso na bênção aarônica, terá seu desdobramento radical em Jesus Cristo – na simplicidade, na singeleza da criança da manjedoura (Lc 2.12) e no esvaziamento, no servir, no humilhar-se, tornando-se igual a nós, na cruz, por nós (Fp 2.6ss). Interessante que o texto de Paulo começa com o convite “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (v. 5). Se não somos capazes de entender o olhar misericordioso e pacificador de Deus, em Jesus Cristo temos o espelho para continuar.

4. Imagens para a prédica

Uma imagem boa para trabalhar o texto no culto é pensar o olhar das pessoas. O que um olhar significa? A psicologia diz que o bebê busca no olhar da mãe confiança e proteção, que o ajudam a construir sua identidade. O olhar faz dele/dela uma pessoa. Penso também no olhar dos adolescentes quando se apaixonam e o quanto esse olhar – o encarar – é algo que estabelece contato e dá confiança. Outro olhar de que vale a pena falar é o olhar dos pais e dos filhos. Quando os pais têm dúvida se seu filho/sua filha está ou não falando a verdade, eles pedem para olhar nos olhos. O olhar fala por si. Também pelo olhar podemos perceber se alguém está sendo sincero ou não. “Fulano não ri com os olhos”, ouvi alguém dizendo, como forma de questionar a sinceridade do sorriso do outro. Na escola, é comum que a professora, quando fala com seus alunos, grandes e pequenos, pede para que a olhem, às vezes inclusive pede que o aluno ou aluna olhe nos seus olhos. Outro dia, ouvi uma professora dizendo que o olhar nos olhos dá segurança à criança. Tantas vezes baixamos a cabeça e o olhar para chorar ou nos esconder... em nossa vergonha (quando alguém é preso, esconde o rosto das câmaras)... e alguém levantou o nosso rosto, chamou-nos para olhar nos olhos e, assim, remontar a dignidade, a inteireza, para continuar.

Pois bem, exatamente esse segredo e poder estão contidos no olhar de Deus quando ele nos abençoa. A bênção de Deus olha-nos por inteiro. Por dentro, por fora, passado e presente, razão e sentimentos, medos e entusiasmos, tristezas e esperanças. Quando nos abençoa, Deus nos devolve a esperança e a confiança. A bênção de Deus dá-nos segurança para viver, porque seu olhar é misericordioso. O resultado final é que nos sentimos em paz.

5. Subsídios litúrgicos

Cantos:

Bênção Aarônica, Louis Marcelo (Revista Tear, 25, p. 6).
Dá-nos esperança e paz (Coleção Miriã I, p. 38) – “Dá-nos a luz de teu olhar”.

Invocação:

L: Envia, ó Deus, tua luz e tua verdade. Derrama, ó Cristo, tua graça. Vem, Santo Espírito, renova e recria a vida.
Pai nosso, dá-nos tua bênção.
Jesus Cristo, dá-nos a paz do teu amor. Santo Espírito, dá-nos esperança e fé.
C: Nossa ajuda está no nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo. Amém. (G. Oberman)

Kyrie:

(Para o período natalino)

L: Criança de Belém,
cujos pais não encontraram lugar na hospedaria:
oramos por todas as pessoas que não têm pátria (desterradas).

C: Senhor, tem misericórdia.
L: Criança de Belém, nascida numa estrebaria: oramos por todas as pessoas que vivem na pobreza.
C: Senhor, tem misericórdia.
L: Criança de Belém, rejeitada como se fosse estrangeira neste mundo:
oramos por todas as pessoas que estão perdidas e solitárias.
C: Senhor, tem misericórdia.
L: Criança de Belém, que Herodes procurou matar: oramos pelas pessoas que vivem em perigo e são perseguidas.
C: Senhor, tem misericórdia.
L: Criança de Belém, refugiada no Egito: oramos por todas as pessoas que tiveram que abandonar sua pátria.
C: Senhor, tem misericórdia.
L: Tu, criança de Belém, o Eterno estava entre nós através de ti. Pedimos-te: ajuda-nos a descobrir em cada pessoa a tua imagem e dar somente a Deus a honra.
C: Amém. (Adaptado de EG, p. 601).

Confissão de fé:

Creio em Deus, que criou a mim e a todas as criaturas, que me deu e sustenta meu corpo com todos os seus membros e meu espírito com todas as suas faculdades; que me provê abundante e diariamente o alimento, vestimenta e habitação e todo o necessário para a vida. Que me ampara contra todo perigo e me protege e guarda de todo mal; e tudo isso ele faz sem nenhum mérito ou dignidade de minha parte, por sua pura bondade e sua divina misericórdia. Isso é certamente verdade. Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é meu Senhor. Redimiu a mim, perdido e condenado, libertando-me do pecado, da morte e do poder do maligno, não com ouro ou com prata, mas com seu sangue e seus sofrimentos e por sua morte inocente, para que eu lhe pertença para sempre e viva uma vida nova como ele mesmo, que ressuscitou dentre os mortos, vive e reina eternamente. Isso é certamente verdade. Creio que o Espírito Santo me chama pelo evangelho, me ilumina com seus dons e me santifica, me mantém na verdadeira fé, na igreja que ele congrega dia a dia. É Ele também quem perdoa plenamente meus pecados, assim como todos os crentes. É Ele quem no derradeiro dia me ressuscitará dentre os mortos e me dará, com todos os fiéis em Cristo, a vida eterna. Isso é certamente verdade. (Martinho Lutero).

Oração eucarística:

L: Deus, tu criaste um mundo bonito. O arco-íris nos fala de sua beleza. Por isso:
C: Nós te louvamos, Senhor.
L: Através de Jesus te aproximaste de nós. Não precisamos nos sentir sós. Por isso:
C: Nós te louvamos, Senhor.

L: Por meio do testemunho de profetas, apóstolos e evangelistas somos instigados a caminhar em direção a um horizonte, onde tu mesmo nos aguardas. Por isso:
C: Nós te louvamos, Senhor.
L: Louvamos-te e bendizemos-te, nosso Deus, pelo jeito de ser de Jesus, por seus ensinamentos, pelos caminhos que trilhou. Também te louvamos pelo que Jesus fez em nosso favor, sem poupar sua própria vida. Pois, na noite da sua traição, sentado à mesa (segue a narrativa da instituição).
C: Anunciamos, Senhor, a tua morte e proclamamos tua ressurreição. Vem, Senhor Jesus!
L: Deus bendito, para não esmorecermos na fé e não perdermos o horizonte de vida cristã, envia-nos sempre o Espírito Santo, para que ele nos encoraje e oriente em nossa relação contigo e em nosso relacionamento entre irmãos e irmãs.
C: Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra.
C: A ti, trino Deus, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre. Amém.

Bibliografia

RIGGANS, Walter. Antigo Testamento comentado: Números. Buenos Aires: Ediciones La Aurora, 1988.
WENHAM, Gordon J. Números: introdução e comentários. São Paulo: Vida Nova, 1985.


Autor(a): Júlio Cézar Adam
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ano Novo

Testamento: Antigo / Livro: Números / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 27
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2008 / Volume: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18575
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Um pregador deve estar ciente que Deus fala pela sua boca. Caso contrário, é melhor silenciar. 
Martim Lutero
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