Números 6.22-27 - Vida sob a bênção de Deus

Prédica

01/02/1979

VIDA SOB A BÊNÇÃO DE DEUS
Números 6.22-27 (Leitura: Salmo 121) 

Bênção vem de bendizer. Bendizer é dizer coisa boa a alguém. É desejar-lhe um bem, é pronunciar o bem sobre ele. Não um bem qualquer, assim como o homem entende bem e mal. É o bem da parte de Deus, o bem como Deus o entende. Deus, que criou o homem e que sabe o que é bom para ele. Deus, que conhece o homem, que lhe dá valor e que o ama. 

O homem também pode abençoar por própria conta. Pode abençoar em seu próprio nome. O pai pode abençoar. A mãe pode abençoar. E ai daquele que desprezar a bênção dos pais, que desprezar os seus bons desejos, sua vontade de fazer os filhos felizes, de os ver bem sucedidos, satisfeitos, realizados! «A bênção do pai é que constrói a casa do filho», diziam os hebreus; mas eles acrescentavam; «a maldição da mãe a derruba.» (Siracides 3,11 — dos Apócrifos do Antigo Testamento) Não é que, no entender dos antigos, a bênção provenha do pai e a maldição da mãe. Poderá ser o contrário: Muitos de nós poderão confirmar isso por experiência própria. Mas a palavra citada serve para nos mostrar que a bênção humana está parando na mesma casa que é habitada também pela maldição. As duas estão morando sob o mesmo teto, E não é de se admirar. O homem — pai, mãe, amigo não pode dar outra coisa, a não ser aquilo que tem. E o coração da criatura humana não é um recinto onde só haja luz. Há também escuridão. Assim, a bênção do homem — a que ele dá por própria conta, em seu próprio nome, é sempre uma coisa dúbia, apenas um reflexo muito pobre, senão muito duvidoso, da bênção de Deus, E às vezes este reflexo se apaga totalmente. É então que a bênção vira maldição, É só ver a prática do «benzer» que no Brasil é seguida por milhões de pessoas. «Benzer» é uma forma pervertida, uma maneira corrompida de bendizer. É uma bênção que não tem mais raiz, ou cuja raiz apodreceu, Uma bênção que não tem sua fonte no céu. Bênção que virou magia. Oração que virou fórmula mágica e feitiço. Quanta maldição já se originou desta bênção pervertida! O diabo também abençoa. Mas ele cobra pela bênção que dá. Que Deus nos clareie os olhos para que possamos distinguir entre a bênção do Senhor e a bênção do maligno! 

No Antigo Testamento lemos de vários casos onde pais abençoam seus filhos. Por exemplo o caso de Isaque que abençoou seu filho Jacó. Justamente neste caso fica muito claro que a bênção humana é uma coisa duvidosa. 'saque se deixa enganar pelo filho e lhe dá a bênção que nem lhe quisera dar. Jacó logra o irmão Esaú, roubando-lhe a bênção do pai. Um caso que nos mostra com muita clareza que a fonte verdadeira da benção não pode ser o coração humano. No caso de Jacó, o Antigo Testamento deixa entrever que ele ficou abençoado por Deus apesar das trapaças que fazia, apesar da bênção roubada a seu irmão. Ficou abençoado, porque Deus tinha abençoado Abraão, pai de Isaque, dizendo-lhe: «Eu te abençoarei e tu serás uma bênção.» Ficou abençoado, porque era a vontade de Deus, derramar sua bênção e sua graça sobre os filhos de Abraão — e através deles sobre todo o mundo. E esta bênção é que realmente importa: A bênção que Deus pronuncia sobre os seus filhos. Deus, que não é cego como foi o velho Isaque. Deus, que não se deixa enganar por alguém que finge ser seu filho herdeiro, merecedor de sua bênção. Deus, que não se deixa levar na conversa por pessoas que acham ser donos da bênção divina, que se julgam ser filhos de Abraão, por nascimento ou por merecimento. A bênção de Deus é algo muito sério — muito mais sério que a bênção humana. Mas é também algo promissor, é algo felicitante e jubiloso! 

«Disse o Senhor a Moisés: Fala a Arão e a seus filhos, dizendo: Assim abençoareis os filhos de Israel; dir-lhes-eis; O Senhor te abençoe e te guarde . . .» — No povo de Israel, não era qualquer um que podia abençoar os outros. Arão e seus filhos receberam a tarefa sacerdotal de abençoarem o povo de Deus. Eles eram os sacerdotes de Israel, conforme a Antiga Aliança, que requeria intermediários entre Deus e os homens. Sacerdotes, cuja função era sacrificar, anunciar a vontade de Deus, orar pelo povo e abençoá-lo, Mas vejamos bem, como aquela bênção vai sendo confiada a Arão e seus filhos: Eles vão abençoar, sim. Mas eles não se vão apoderar da bênção. Não vão ser os donos dela. Não vão fazer de conta que é coisa sua, que é um poder seu. Deus manda dizer Moisés a Arão e seus filhos que eles devem abençoar Israel, dizendo: «O Senhor te abençoe e te guarde!» -- Isso é que nem uma oração. Não é Arão, quem abençoa. É Deus — ele só — mais ninguém!: E para que este ponto fundamental fique bem claro, a bênção (erroneamente chamada de «bênção de Arão») continua; «O Senhor faça resplandecer seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti. O Senhor levante o seu rosto sobre ti e te dê a paz.» Três vezes: «o Senhor»! É para excluir qualquer dúvida: Não é Arão quem abençoa. Não é o homem quem é a fonte da bênção. É o Senhor, quem abençoa seu povo. É ele, mais ninguém. E como se não bastasse que a própria bênção pronunciasse três vezes o nome daquele que dá a bênção, o último versículo de nosso texto não deixa nenhuma margem para dúvida: «Assim porão o meu nome sobre os filhos de Israel e eu os abençoarei.» 

Pôr o nome do Senhor sobre os filhos de Israel: O nome do Senhor, no Antigo Testamento, é Javé (falsamente pronunciado «Jeová»). Traduzido, Javé significa: «Eu sou o que sou.» Eu sou sempre o mesmo, o Deus eterno e fiel. Então é este nome o Eterno, o que é fiel a si mesmo, que vai sendo posto sobre os filhos de Israel. Deus foi revelando o seu nome (que no Antigo Testamento ainda permanece um segredo «Eu sou o que sou .. ») com toda a clareza em Jesus Cristo. «Pai de Jesus». «Pai nosso que estás no céu.» Este é o nome que o Senhor manda pôr sobre o povo da Nova Aliança. É, nome de Salvador, nome bom, nome querido, nome que não inspira medo, nome que inspira confiança, nome que é sinônimo de graça e santo amor. 

«O Senhor te abençoe e te guarde.» Nós estamos acostumados de ouvir estas palavras de bênção ao fim de nossos cultos. Palavras que já estão sendo usadas para abençoar o povo de Deus por milhares de anos. E como foi no tempo de Arão, assim continua sendo hoje: A bênção se dirige a todo o povo, povo reunido para adorar, e ela se dirige ao indivíduo, ao membro individual deste povo: «O Senhor te abençoe e te guarde.» Deus trata toda a comunidade por «tu». E a mim, pessoalmente, ele me trata por «tu» também. Ele promete guardar-me como todo o seu povo, que lhe é tão precioso. Assim, este «tu» individual não pode separar-se do povo todo, povo herdeiro da bênção. Ninguém procure alcançar uma bênção particular, só para ele, desligada do povo de Deus. Tal bênção não terá vez no reino de Jesus. 

Os antigos entenderam a bênção divina mais no sentido de bênção material: Ter muitos filhos, ter saúde, ter rebanhos e outros bens, ser honrado e bem sucedido — isso tudo era considerado sinal de bênção divina. Também a bênção confiada a Arão poderia ser entendida assim. Deus guardava as pessoas, protegia-as de desgraças. Olhava-as com o rosto resplandecente, sorrindo, amigo. Olhava com simpatia o que o homem vinha fazendo, olhava para ele de rosto erguido e lhe dava paz. Paz, para o israelita, significava saúde, bem-estar, vida plena e feliz. Não vamos nós desprezar esta compreensão de bênção. Ela toma muito a sério as coisas da vida real e não afasta Deus das coisas materiais e corporais. Não permite que sejam consideradas dádivas do diabo, como se ele fosse o senhor do mundo. Mas é como se na bênção da Antiga Aliança ainda faltasse pôr um nome, um acontecimento, que deixasse bem claro, qual é o último alvo, qual é a dádiva definitiva da bênção de Deus. Aí precisamos lembrar o que vem escrito em Lucas 24,51: «Aconteceu que, enquanto Jesus os abençoava, ia se retirando deles, sendo elevado para o céu.» — Só em Jesus podemos compreender o que significam as palavras: «O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti.» Não é assim que o evangelho de Jesus é a revelação do rosto resplandecente de Deus? — E a parte seguinte: «O Senhor levante seu rosto sobre ti e te dê a paz.» O que é, levantar o rosto, sobre alguém? — Os hebreus tinham sua maneira própria de falar: Levantar o rosto sobre alguém era olhar para ele, tomar conhecimento dele, olhá-lo com atenção, com interesse, com amor e amizade. Para compreendermos melhor essa expressão, vejamos o que vem escrito em Gênesis 4, de Caim: Quando ele viu que sua oferta não agradava a Deus, ele se irou, e «seu semblante descaiu». Ao pé da letra: «O seu rosto caiu.» Ele olhou para baixo, Desviou o rosto do irmão, porque o odiava. Veja: É bem o contrário o que Deus faz comigo e contigo, quando nos abençoa pelo evangelho de Jesus Cristo. Aí ele levanta o seu rosto sobre nós. Em seu Filho amado ele nos olha de frente, com o rosto resplandecente, buscando-nos, aceitando-nos, tornando-se nosso irmão — bem ao contrário de Caim, cuja face caiu. Assim nos abençoa, e nós passamos a ser o povo abençoado, os benditos do Senhor. Passamos a ser o povo salvo, povo iluminado pelo resplendor de seu rosto! 

É algo confortante ouvirmos que Jesus subiu aos céus com atitude de bênção. Suas mãos continuam estendidas sobre a sua comunidade. Deus seja louvado. O Senhor te abençoe! 

Um jovem pastor me contou recentemente que um membro lhe perguntou, por que os pastores não diziam: «O Senhor nos abençoe», em vez de «vos abençoe», já que o pastor também precisava da bênção divina. O homem realmente tem razão. O pastor precisa de bênção. E muito. Mas ele pode «pôr a bênção» sobre o povo de Jesus com as palavras antigas: «O Senhor te abençoe», ou «O Senhor vos abençoe». É que numa comunidade cristã haverá uma resposta dos que vão sendo abençoados. Eles todos são sacerdotes e todos poderão abençoar. É como na liturgia inicial do culto: «O Senhor seja convosco» -- «e com teu espírito», isto é, «e contigo também»! O povo abençoado pode responder em seus corações: «Ó Senhor, abençoa-o também a ele, que proclama a tua palavra, que põe a bênção do evangelho sobre o teu povo.» — Veja: Bênção produz bênção. É uma corrente. Deus quer que você seja um elo desta corrente. Um elo ligado a Jesus Cristo, pelo qual Deus se ligou a você. 

Oremos a bênção sacerdotal como intercessão e prece, em no-me de Jesus:

Senhor, abençoa-nos e guarda-nos. Faze resplandecer o teu rosto sobre nós e tem misericórdia de nós. Levanta o teu rosto sobre nós e nos dá paz. Amém. 

Veja:

Lindolfo Weingärtner

Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão

Editora Sinodal

São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Lindolfo Weingärtner
Âmbito: IECLB
Testamento: Antigo / Livro: Números / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 22 / Versículo Final: 27
Título da publicação: Lançarei as redes - Sermonário para o lar cristão / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19696
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