Olimpíadas da Juventude Evangélica?

01/11/1974

Olimpíadas da Juventude Evangélica?

Sílvio Schneider

A competição esportiva é algo bastante antigo. Já os antigos gregos tinham no esporte uma ocupação que tomava grande parte do seu tempo. Preparavam-se com esmero e dedicação. As olimpíadas no mundo antigo e pagão tinham um fundamento religioso, pois a tocha olímpica era acesa diretamente no templo de Atenas (o que ainda ocorre em nossos tempos), e levada por atletas até o local das competições, onde inflamavam a pira olímpica. Seguia-se o juramento e dedicação dos atletas e competições aos deuses. Tais competições não aconteciam somente entre o próprio povo grego, porém outros povos estrangeiros passavam a tomar parte. Assim através do esporte havia aproximação.

Tal ponto de partida também têm as olimpíadas modernas, que querem aproximar povos, não em campo de batalhas e guerras, porém partindo da confraternização, e desportividade, no campo esportivo.

Também na Antiguidade, a exemplo do que ocorre hoje, em quase todos os países do mundo, o esporte era utilizado como meio de alienação social e política, desviando o povo das legítimas preocupações sociais. Nero, o imperador romano que incendiou Roma e posteriormente culpou os cristãos, costumava reinar à base de PÃO E CIRCO, isto é, satisfazia demogógica e superficialmente as necessidades mais imediatas das classes pobres e marginalizadas atirando-lhes moedas e comida (lembra muito um conhecido apresentador de TV Vocês querem bacalhaaaaau???), com o que o povo devia reconhecer sua grande generosidade. O povo devia satisfazer-se com esmolas, e viver de favores. A isso acrescentava-se o CIRCO romano, o Coliseu, cujas ruínas ainda permanecem até hoje na Cidade Eterna. No Coliseu, cuja forma se assemelha aos grandes estádios de futebol, acontecia a diversão para o povo. O povo tomava parte no espetáculo, decidindo a sorte de um gladiador derrotado, apontando com o polegar se devia morrer ou viver. O polegar para cima significava vida, para baixo morte.

Assim, vimos o esporte cumprindo uma boa e uma má finalidade.

Olimpíadas?! Ha! Ha! Ha! Pois, sim! Vocês erraram no nome! É olimPIADA! Que é que a Igreja tem a ver com esporte? Já não bastam os milhões de cruzeiros que se gastam neste País com o futebol? Agora também a Igreja se mete nisso? Será que não há mais nada a transmitir aos jovens do que espírito competitivo, fisicultura e aprimoramento corporal? É, meu amigo, isso realmente não passa de uma olimPIADA! Assim reagiu uma pessoa que se confessa cristã fervorosa, ao saber que o Conselho Distrital da JEL (Juventude Evangélica Luterana), sob a orientação e coordenação da Secretaria Geral da JE, iria promover uma competição esportiva em várias modalidades, sob o nome de OLIMPÍADA DISTRITAL DA JE.

Reunir-se-iam num fim de semana aproximadamente 180 jovens evangélicos luteranos.

Tal reação não foi única, mas pode ser considerada expressão de um considerável número de fiéis evangélicos luteranos. Não deixam de ter razão se permanecerem apenas em emitir juízos morais e à distância, e não acompanharem de perto o planejamento, preparo e próprio encontro dos jovens numa Olimpíada.

Tal como em nosso Distrito Eclesiástico Sul do Paraná, as Olimpíadas aconteceram em quase todo o território nacional onde se encontram comunidades evangélicas luteranas. Naturalmente um juízo à distância pode (e até deve) fazer da Olimpíada uma PIADA.

Não nos cabe perguntar até que ponto têm eles razão ou não, pois estaríamos igualmente emitindo juízos sem conhecimento de seus reais argumentos. Fato é que se pode constatar que tais juízos partem, em sua maioria, de pessoas distanciadas de todo o trabalho com jovens que não condiga ou coincida com o seu ponto de vista.

O que têm a dizer os que promovem e defendem as Olimpíadas Evangélicas?

Não podemos nos arrogar o direito de falar em nome da Secretaria Geral da JE, de quem partiu a iniciativa. Entretanto, como Coordenador Distrital da JEL posso dizer como reagimos no Distrito Eclesiástico Sul do Paraná ao projeto das Olimpíadas, e como nos engajamos para a realização das mesmas.

Em primeiro lugar, em momento algum entendemos ser nossa tarefa promover fisicultura e aprimoramento corporal. Entendemos ser o esporte um MEIO para congregar jovens evangélicos sem jamais perdermos de vista o FIM, que é o de proclamar e vivenciar o Evangelho de Jesus Cristo.
Esse fato tem se evidenciado das mais variadas maneiras, quer dentro da própria cancha de esportes, na hora das competições, quer na confraternização fora do campo, aproximando ainda mais os jovens dos mais diferentes grupos e procedências.

Em segundo lugar, o próprio posicionamento das Olimpíadas. Evangélicas tem proporcionado aos jovens entenderem o esporte a partir de um outro ângulo. A profissionalização do esporte em nosso País é uma realidade. Esse fato traz consigo quase que uma mercantilização do ser humano.

O atleta e membro da Juventude Evangélica que participa da Olimpíada da JEL em momento algum se entendo e é tratado como um objeto comercializável. Tal procedimento numa sociedade de consumo onde o esporte é usado igualmente como meio de alienação social e política, pode ser de grande atualidade.

E, em último lugar, caberia a pergunta: Qual o jovem, luterano ou não, que não pratica esporte, quer em sua escola ou colégio, quer em sua cidade ou bairro residencial? Todos, é óbvio. O esporte é uma linguagem que todo jovem entende, e quando posicionado a partir da fé cristã pode tornar-se excelente parábola da própria vida cristã. Não é em vão que já o próprio apóstolo Paulo faz a comparação entre o atleta que corre para alcançar a coroa corruptível e exorta os cristãos de Corinto a se empenharem de igual modo a alcançar a coroa incorruptível 1 Corintos 9. 22-27.

É claro que o apóstolo Paulo não está contando uma PIADA quando faz tal comparação, porém expressando em figuras de linguagem e conteúdo o objetivo da existência cristã.

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Autor(a): Silvio Schneider
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Anuário Evangélico - 1975 / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1974
Natureza do Texto: Artigo
ID: 24737
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