Os Dez Mandamentos - O Terceiro Mandamento

Auxílio Homilético

04/03/1982

Santificarás o dia do descanso

Friedrich Genthner

O domingo como dia de descanso torna-se cada vez mais problemático no convívio das pessoas. O relacionamento com o próximo, com Deus e com a Igreja esmorece em consequência do processo individualizante que isola as pessoas em seu apartamento, suas chácaras, seus sítios ou seu quarto de estudo. Temos dificuldades com esse dia, pois tudo é medido, hoje em dia, pela sua eficiência, pelo rendimento de alguém e por sua produtividade. Ser criativo e dinâmico está estreitamente ligado ao lucro, tanto a música como a pintura ou o bordado. Para tanto contribui o fato de que as escolas raras vezes preparam o jovem para as Belas Artes ou para o lazer. Nessa compreensão do dia de descanso está em jogo o próprio homem com toda a sua dignidade, fantasia, inteligência, personalidade, com todas as suas conquistas e a sua tecnologia avançada. O homem está no perigo de tornar-se escravo. O Terceiro Mandamento traz uma interessante contribuição para o tema proclamar libertação, pois é este mandamento que nos mostra até que ponto o homem é liberto ou escravo. É um assunto que exige muita paciência e criatividade por parte das famílias e das Igrejas.

I — O espaço livre para o homem

O Terceiro e o Quarto Mandamentos têm uma formulação diferente dos demais. Ao longo de um processo interessante deixou-se de lado a forma primordial da negação (Dt 27.16; Ex 21.17). Isto é um exemplo de como Israel trabalhava com e nos mandamentos e de como se confrontava com eles para achar uma interpretação adequada e autêntica. Para nós os mandamentos não significam mais o mesmo que para Israel. G. von Rad mostra excelentemente, na sua Teologia do Antigo Testamento, que Israel festejava de sete em sete anos uma festa durante a qual se lia e intrpretava os mandamentos. Eles não eram compreendidos como lei nem como mandamento, mas sim como Dez Palavras que marcavam a história de Israel, como diz Dt 10.13, para o teu bem. Podemos relacioná-las com o testemunho dos profetas quando diziam: Aconteceu a palavra de Jave ou Veio a palavra... Sabemos o que os profetas queriam expressar com isso: Eles foram incluídos e envolvidos na historia da salvação, na grandeza da ação de Deus. No Novo Testamento observamos o mesmo. Lucas, por exemplo, interpreta assim: Aconteceu....

O Dt mostra-nos como se atualizava, na época (Dt 6.4), os mandamentos. A sua observância nasce do amor e da gratidão pelo que Deus fez. Expressavam-se os Mandamentos em forma de negações (Não matarás) para sinalizar os limites da vida humana, dentro dos quais se encontra o espaço livre onde se pode experimentar amor, con-Ilança e responsabilidade. Os Dez Mandamentos marcam um vasto campo, paisagem do amor de Deus (Gn 2.7 - 17). Nas crises e situações conflitantes que Israel experimentava no confronto com as novas religiões, culturas e sociedades tornava-se necessário confessar o que o povo era diante de Deus, o Pai e Criador, e abster-se ostensivamente de práticas pagãs. Neste sentido os Dez Mandamentos estão ligados à aliança que Deus fez com Israel. Foi uma dádiva, algo que enriquecia a vida da gente, algo que era agradável.

II — O dia de descanso como benevolência e alívio

É muito antiga a ideia da semana de sete dias. Há paralelos na Babilónia e na Assíria, como Kraus mostra. Usava-se, nestes povos, até a mesma palavra SCHABAT(sábado, descanso). Lá se conheciam períodos de sete anos abundantes, com prosperidade, e também períodos repletos de epidemias, guerras e morte. É provável que Israel tenha adaptado algo desses costumes. Na época nómade Israel festejava duas festas importantes: o PÀSSAH (Páscoa) (Ex 12.21; 34.25; Dt 16.1-17) de 15 a 22 de janeiro e a Festa dos Tabernáculos (Dt 16.10, 16; Nrn 28.26,24) de 15 a 23 de julho. Essas duas festas eram o ponto de partida para a semana de sete dias. Importante é que o sábado (Ex 34.21; 23.12) significava: deixar de arar e ceifar, largar o trabalho diário. Nesta parada total estavam incluídos a família, os animais e os empregados e escravos. Em Lv 23.3 o sábado é chamado sábado do descanso. Talvez já houvesse naquele tempo dificuldades na correta observância desse dia. O sábado não era um dia de promoções da comunidade judaica ou do santuário (Ex 34.21). Deixar o dia livre significava uma confissão do homem: tudo pertence a Deus. Javé governa, Javé é rei. O povo nem sempre estava ciente disso, inclinando-se a outros deuses e práticas religiosas, abandonando a aliança que Deus fizera com Israel. Que polémica encontramos nas prédicas dos profetas! Não admira que o sábado foi cada vez mais ligado ao santuário de Siquém para propiciar a sua correta observância, assegurando esse espaço livre cedido ao homem. Assim surge uma expressão nova: Santificai o sábado (KADDESCH)I (Ex 20.8).

Durante o exílio Israel fez desse guardar ou santificar o sábado um sinal de sua identidade (Ez 20.12). A confissão (Ez 20.20) a essa aliança ganhou importância: Israel foi exortado a não somente santificar o dia, mas também, com dedicação e capricho, fazer com que este não fosse secularizado (Ex 31.12-17; Ez 20.13, 16,21; 22.8; 23.38). Os trabalhos do Códice Sacerdotal no Antigo Testamento deveriam ser vistos também sob o aspecto da sua preocupação com a nova geração que desconhecia as experências que seus pais tiveram com Javé (Dt 11.2; Dt 6.22.23).

A ligação do sábado com o santuário de Siquém garantia a observância e a interpretação autêntica. E cada vez mais gente reunia-se em Siquém (Is 1.13). Esse processo que houve em Israel é significativo: Ê necessário que haja uma Comunidade que facilite a celebração do dia?
Dt 5.15 interpreta: Javé é um Deus que liberta, ele é superior a todos os poderosos deste mundo e Israel vive sob o seu governo. Na cristandade houve uma grande mudança, passando-se do sábado para o domingo (de dominus - dia do Senhor), o primeiro dia da semana. A cristandade confessa, assim, que a partir da ressurreição de Jesus Cristo dos mortos o domingo (sábado) recebeu um novo conteúdo: É o dia da libertação do pecado, da morte, do diabo.

Novas dimensões de vida estão aparecendo: Deus continua a executar o seu plano da nova criação. Comparando o Terceiro Mandamento com o Quarto e com Gn 1.26-28 é evidente o lugar que o homem recebeu. Na Santa Ceia celebramos em favor de muitos (Mt 26.28) e compreendemos isto no sentido de que Deus deseja insistentemente a nossa participação na sua comunhão. O dia de descanso torna-se, portanto, uma tarefa para nós: a de agirmos criativamente para fazermos sentir a beleza e a misericórdia de Deus.

III — Resumo

Deus quer encontrar-se constantemente com as pessoas por ele criadas, a fim de dialogar, alegrar-se e viver em comunhão com elas. O dia do Senhor revela o valor que Deus nos dá e com que dignidade ele nos equipou, cedendo-nos espaço livre para amar, confiar e aceitar-nos mutuamente. Devemos considerar santo este dia, gostar de celebrá-lo com alegria e fantasia, querer dialogar com nosso Pai celeste e ser orientados por ele.

IV — Meditação

O número sete e o dia de descanso formam uma corrente através do Antigo e do Novo Testamento, como se vê em Gn 2.1-3; Mc 16.1-8; At 2.1-4. Nossa pergunta é: Como festejar o domingo? Interessante é que dos sete dias da semana apenas o domingo recebeu o seu nome. Esse dia destacado é para descarregar. A sua ligação com Deus «t com a vida diária não se pode esconder. A humanidade apresenta sinais de estar cansada, desesperada, mandada e obrigada. A correria, a busca por tranquilidade, distração, descanso é imensa. A cruz de Cristo nos diz: um forte confessou que finalmente conseguiu um novo dia, um novo amanhecer, a conquista da libertação.

O domingo tornou-se uma pedra de tropeço, porque muitos querem apenas tempo para si mesmo. As tensões aumentam nos fins de itmana e as crianças apanham muito. Quantos são os que temem o domingo e esperam pela segunda-feira com saudade! Pausa não há, nem diálogo nem tempo. O que sobra é tempo vazio e vida frustrada. Temos que pensar em nossa situação: a Igreja, durante muito tempo, vivia em uma situação rural. Lá se criaram as formas que ainda hoje seguimos. Verdade é que muita gente vive em situação urbana ou suburbana, mas nós não acompanhamos essa mudança e estamos continuando no ritmo de épocas passadas. Verifique uma vez quantos cultos estão sendo realizados durante um domingo e onde se encontra o maior número de famílias! Será que também nós estamos tentando, como em outras profissões, superar um déficit através de mais programações e atividades? É preciso ter tempo para a sua salvação, para distanciar-se de si mesmo e de seus afazeres! É preciso parar e ser gente! É difícil para um membro da Igreja e também para nós pastores.

Quantas confissões deste tipo ouvimos: Não dou mais conta de tudo; perdi o controle; todos se agarram em mim; não posso dizer: não; estou perdido; não vejo mais como sair! E realmente, onde se depositam cargas como estas? Atritos, medo, preocupações, fracasso, inveja, ciúmes, cobiça por algo — essas injustiças todas? No melo desse mundo poluído e sujo Deus instituiu esse dia, deu-nos essa chance, essa dádiva para festejarmos. E isso não está relacionado com as parábolas que falam de festa e de convites?

As nossas dificuldades consistem em não sabermos como mudar os costumes. É necessário pedir por muita coragem para dar à Comunidade espaço livre para a criatividade e a participação. Não posso dar uma receita. Talvez seja suficiente dizer à Comunidade que é tarefa nossa, de todos, buscar formas novas para festejarmos o domingo. Sena necessário começar com os confirmandos que sentem tanto a obrigação de frequentar os cultos. Se nós dissermos uma vez o que o domingo nflo é (seguindo a formulação dos mandamentos), poderíamos avistar o espaço livre que o dia do Senhor prevê. Será que o membro, a família, os confirmandos, etc. não se alegrariam com isso? O Saimo 84 revela um desejo. Aqui não se sente comodidade, indiferença ou preguiça. Essa saudade motiva, suscita fantasia. Que bom que ao lado da triste constatação (Gn 3.17-19) existe essa maravilha do domingo. Naturalmente o membro que pouco ou nunca aparece aos cultos, aos ensaios para tal, não conhece as melodias a cantar nem se sente à vontade. Nessas coisinhas começa o preparo. Poder-se-ia dizer: não perca o encontro com Deus!

V — Sugestão para a prédica

O culto no qual será refletido sobre o Terceiro Mandamento deveria ser preparado. Uma fase preparatória poderia ser a reflexão em grupos como a Juventude, OASE, Escola Dominical, etc. sobre a pergunta: Como festejar o domingo? O grupo apresentaria seus resultados, o que iniciaria a reflexão no culto. Eu faria esta em três passos:

1. O presente de Deus — ter tempo: falar das obrigações, do trabalho diário e do nosso sofrimento. Cada um recebeu algo que se chama: tempo livre para ser alguém. Esse tempo vale a pena usar da melhor maneira. Nós deveríamos sentir algo e os nossos próximos também.

2. O presente de Deus — ter comunhão: estou disposto, em condições, livre para ouvir, participar e conviver. O diálogo com Deus, a celebração da Santa Ceia, o canto, a criatividade destacam o valor dessa comunhão. Assim vamos despedir um mau costume: sentar-se na igreja como se fosse um cinema e aguardar o espectáculo.

3. O presente de Deus — ter missão: cada um que participou leva para a semana um pouco de vontade de se interessar pelo outro, facilitando a vida do colega, prevenido para consolar o outro, disposto a visitar recém-chegados sem solicitação da Comunidade ou do pastor e feliz em poder participar da nova vida em Cristo.

O final poderia ser: Lembra-te do dia de sábado para o santificar!

VI — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: O Salmo 98.1,2,4-8 levanta motivos de louvor a Deus. lembrando as suas maravilhas na história de Israel e na cristandade.

2. Leitura Bíblica: Teria como opção Mc 2 23,24,27; 3.1-6 que fala como Jesus lidava com o sábado e como ele compartilhava com a gente. Ou SI 105.1-6.

3. Hinos: Esses são escolhidos do novo hinário e são: 123; 124; 16; 176. O último, 176, dá oportunidade ao pregador descrever a beleza da paisagem na qual Deus colocou o homem. Vamos descobrir o que há de bom e belo.

4. Absolvição: A palavra bíblica que poderia servir como resposta à conllssflo poderia ser At 1.8, pois a mudança da gente pelo Espirito Santo se expressa pelo novo rumo que será: ser testemunha — sempre. O que Deus conseguiu de escravos do pecado! Ele é bacana.

5. Confissão dos pecados: Senhor, nosso Deus e Pai! Mais uma semana pousou com correrias, nervosismo, medo e pressa. Estamos chocados que em nossa vida tu não tens muito a dizer. Parece que tu não cabes mais no mundo por nós organizado. Sentimo-nos como especialistas nas questões de administração e nas decisões a tomar. Pouco perguntamos por teu plano para com esse mundo e para conosco. Perdoa-nos por estarmos perdendo a dignidade e a lua semelhança que tanto nos desejas dar. Salva-nos da derrota e tem piedade de nós! Amém.

6. Oração de coleta: Bondoso Pai no céu! Louvamos o teu nome por nos teres dado o dia de descanso, o tempo livre, o espaço para ser alguém. Que amor tu tens para conosco! Pedimos: abençoa esse encontro contigo, hoje, e l«2e com que passemos este dia condignamente na comunhão contigo. Amém.

7. Oração final: Como sugestão para essa oração: preparar com um joovem, um pai, uma mãe e um operário algo típico da vida deles e pedir orientação, coragem e fantasia para celebrar o dia de descanso em seu ambiente. Na oração se pede também por todos que se tornam escravos do tempo, das obrigações, da pressão social, e intercede-se para que as familias encontrem formas de deixar o domingo ser um dia de alegria, prazer e bênção para a nova semana.

VII — Bibliografia

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RAD, G. von. Das fünfte Buch Mose (Deuteronomium). In: Das Alte Testament Deutsch. Vol. 8. Gõttlngen, 1964.


Proclamar Libertação – Suplemento 1
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Friedrich Genthner
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1982 / Volume: Suplemento 1
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7281
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