Oseias 5.15-6.6

Auxílio Homilético

16/06/1996

Prédica: Oseias 5.15-6.6
Leituras: Romanos 4.18-25 e Mateus 9.9-13
Autor: Martin Volkmann
Data Litúrgica: 3º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 16/06/1996
Proclamar Libertação - Volume XXI


1. O Texto no Contexto Político, Econômico e Religioso

Para se compreender a dureza da crítica do profeta Oséias ao culto israelita, como se expressa no versículo final de nosso texto, é necessário relembrarmos rapidamente alguns aspectos da situação política da época.

Oséias atua num período relativamente longo (em torno de 30 anos) que vai desde antes do final do reinado de Jeroboão II (747/46) até o período anterior à destruição do Reino do Norte (722). É um período marcado por profunda instabilidade política interna: entre 752 e 722 há três golpes de Estado (Menaém, Peca e Oséias — veja 2 Rs 15.17ss.). Além disso, Israel como Estado autônomo está em luta por sua sobrevivência política diante do avanço avassalador do Império Assírio.

Esse império determina a vida política de Israel. Há diversas referências a isso no livro do profeta: 7.10-12; 8.7-10; 12.2. Em contraposição à política de alianças com as forças externas, que o profeta caracteriza como prostituição,

Oséias pede que se deixe de confiar no poder estrangeiro e se busque reforço na própria tradição (...) Somente Javé é fonte confiável de salvação para Israel e, quando a nação abandona seus recursos próprios, para contar com a proteção dos impérios pagãos, perde a segurança que procurava. (Pixley, p. 55.)

Antes desse período altamente conturbado, durante os 41 anos do reinado de Jeroboão II (783-743), Israel teve um período de grande expansão política e econômica. Sua posição estratégica entre os vales do Nilo e do Tigre/Eufrates faz com que por lá passem as principais rotas comerciais, tornando Israel uma potência comercial. Esta situação é possível porque ainda não há um império a dominar todo o espaço. Certo equilíbrio político permite a existência de diversos estados autônomos. Os principais produtos de exportação são cereais e óleo. Mas a riqueza daí decorrente não vem em benefício de toda a população. A alta tributação, geralmente em espécie, acaba beneficiando apenas o aparato do Estado, respectivamente os grandes comerciantes, em especial na cidade. É uma economia de exploração dos camponeses. Também este lado da vida sofre a crítica severa do profeta: 9.1-3; 12.8-9. E, como na critica à política, também aqui Oséias usa a imagem da prostituição para caracterizar essa economia como injusta e contrária à vontade de Javé. Uma economia justa só é possível quando se voltar às tradições nacionais de Javé, o Deus justo e salvador desde os tempos da escravidão no Egito (Pixley, p. 60).

A mesma imagem da prostituição serve para criticar a prática religiosa. Esta crítica se dá em vários níveis. Há a referência ao bezerro de Samaria (8.5), respectivamente de Bet-Áven (casa de pecado; 10.5), que é uma deturpação de Betel (casa de Deus). Oséias sabe perfeitamente que em Betel Javé se revelou a Jacó (12.4). Mas ele critica esse culto como sendo obra de artífice, não Deus (8.6), porque os reis usam o culto em Betel como legitimação da monarquia.

Os líderes de Israel — governantes, sacerdotes — são religiosos. A mim me invocam: Nosso Deus! Nós, Israel, te conhecemos (8.3). Mas a sua religiosidade é falsa, porque o conhecimento de Javé é concomitante com o esquecimento do específico de Javé, qual seja, a prática da justiça, do bem e do respeito pelo próximo (4.1-2).

Outro enfoque da prática religiosa é o culto a Baal, o deus da fertilidade. Também quanto a isso há várias referências no livro: 2.2ss.; 4.12-14. Trata-se de uma prática religiosa muito antiga, com a qual os camponeses procuram garantir a chuva e as demais condições favoráveis para a fertilidade da terra. Na realidade, é novamente uma falta de conhecimento, pois não é Baal que garante a fertilidade, e sim Javé (2.14-23).

O fato de o profeta usar a mesma imagem — prostituição — para caracterizar a infidelidade a Javé em todos os níveis — político, econômico e religioso — só vem a confirmar uma redescoberta da leitura bíblica dos últimos tempos: não podemos ler um texto bíblico sem ver as suas ramificações na realidade social, política e econômica. A religião não pode ser vista desvinculada destes outros aspectos. Assim, a leitura do texto bíblico nestas suas ramificações nos convida a fazermos o mesmo em nossos dias.

2. Alguns Detalhes Exegéticos

Javé se retira (v. 15) por causa da prostituição do povo, especialmente de suas lideranças — sacerdote, profeta e rei —, que fazem com que o povo não tenha conhecimento de Javé (4.4ss.; 5.1ss.), levam à guerra fratricida (5.8ss.) e estabelecem alianças com as potências estrangeiras (5.13s.). Javé se afasta a fim de que se efetue no povo a mudança: o reconhecimento da culpa e a volta a ele. Cai na vista que o afastamento de Javé, por um lado, e o buscar a Javé pelo povo, por outro lado, são expressos duplamente. Isto só vem reforçar o caráter pedagógico desse retirar-se de Javé: tem por finalidade mostrar ao povo que este depende totalmente de Deus.

A atitude de Javé parece ter o efeito esperado: Vinde, retornemos para o Senhor! (v. 1). Aparentemente o povo sabe que Javé é a solução para suas dificuldades. Por isso, talvez, a reação está marcada por expressões de certeza absoluta da ajuda de Javé: ele feriu, ele também curará a ferida (cf. Dt 32.29; Jó 5.18). Essa certeza baseia-se na experiência sofrida ao longo da vida de que Javé é a origem da dificuldade e, conseqüentemente, também a única saída (Jeremias, p. 84). Essa confiança absoluta na intervenção de Javé com a consequente mudança radical da situação é reforçada, no v. 2, com a referência ao curto espaço de tempo: depois de dois dias, no terceiro dia. Os verbos revigorar, levantar, viver (v. 2) — como já o mostraram as expressões despedaçar, curar, ferir, ligar (v. 1) — indicam que a situação é de perigo mortal, mas que Javé pode salvar. No v. 3, a certeza da intervenção de Javé é descrita com imagens da natureza. Aqui se percebe a influência da religiosidade cananéia, em que a natureza recebe caráter divino: Deus é como a chuva e a aurora (divindade da fertilidade). O elemento mitológico transparece também no verbo radaf (perseguir, seguir atrás de, buscar): lembra a busca da divindade que dorme ou que está ausente (l Rs 18.27; cf. Wolff, p. 151).

A volta do povo a Deus está determinada pela certeza da volta de Deus a ele. Mas em nenhum momento transparecem verdadeira penitência, arrependimento, reconhecimento de culpa. Ao invés de uma volta sincera do povo, há essa falsa certeza da volta de Deus. No mesmo sentido também vai a expressão conhecer o Senhor (v. 3). É um tema central da mensagem de Oséias (4.1; 5.4 e especialmente 6.6). Mas aqui a combinação com o verbo radaf mostra que é uma busca infrutífera; é como correr atrás do vento (12.1; veja também 2.7).

Essa inconsistência da volta do povo determina a reação do profeta (vv. 4-6). Ela está na primeira pessoa do singular, ou seja, como a fala do sacerdote em nome de Deus em resposta à confissão do arrependido. Será por isso que falta a fórmula profética Assim diz Javé?

A resposta de Deus, através do profeta, inicia com uma disputa de Deus consigo mesmo: Que te farei? (cf. 11.8). É uma característica de Oséias alternar acusações severas com lamentações misericordiosas de Deus (4.4ss.; 5.10s.). É o próprio Deus que luta consigo mesmo na luta por seu povo. Pois ele percebe a falta de seriedade e profundidade no ato penitenciai do povo. A hésed deles não tem consistência: é como uma nuvem ou como o orvalho. O termo hésed (ele retorna no v. 6!) evidencia que, com seu ato penitenciai, o povo expressa sua união com Javé; ele se sabe unido a seu Deus. Esta consciência, porém, não tem consistência; logo, também a comunhão com Javé não permanece. Cai na vista o paralelismo com o versículo anterior. Ali o povo expressa a certeza da intervenção divina com termos tirados da natureza. Oséias devolve com a mesma moeda: tão certo como a aurora o povo espera a intervenção de Javé, tão fugaz como o orvalho e a cerração matutina é a seriedade do compromisso do povo.

Esse paralelismo tem dupla finalidade: por um lado, acentua a falta de seriedade no arrependimento; por outro, questiona o excesso de confiança, que encara a intervenção de Javé como algo normal e natural e que, com base nos elementos da natureza, equipara Javé a Baal.

Por isso — v. 5 — essa inconstância e infidelidade não podem ficar impunes. Novamente, como nos versículos anteriores (despedaçar/sarar e ferir /ligar; aurora e chuva; orvalho e cerração), dois verbos destacam a reação de Deus, não apenas agora, mas já há muito tempo: hazab (abater) e harag (matar). Ao invés da vinda benéfica da aurora e da chuva, Javé intervém —já há tempo! — de forma aniquiladora: através da palavra do profeta, que é a palavra do próprio Deus (palavra da minha boca), Deus anuncia o seu juízo. Hazab e harag, apesar da dureza das expressões, não visam a eliminação definitiva do povo. Pelo contrário, têm em vista o estabelecimento definitivo de um pacto de vida oferecido por Javé: para que o meu direito surja como a luz. Em contraposição à inconsistência da hésed do povo, o mishpath de Javé é consistente: ele estabelece a correia relação de comunhão. O mishpath determina, por um lado, a postura de Javé, pois ele estabelece uma ordem de vida. Mas, por outro lado, justamente por estabelecer uma ordem de vida, ele renova a existência de Israel e possibilita uma nova vida (cf. Wolff, p. 153).

Essa intenção de Javé ao estabelecer o seu mishpath — ou seja, não de destruir definitivamente, mas de salvar — é destacada também pelo v. 6. Este versículo é o ponto culminante desta unidade, pois estabelece uma declaração fundamental, de princípio: hafaz (ter prazer, agradar-se) — no perfeito — expressa que a vontade de Javé tem consistência e permanece. Javé declara o que vale.

Mais uma vez ocorre uma construção paralela: duas frases que se complementam mutuamente. E em ambas, a contraposição de dois contrastes: hésed x sacrifício; daat x holocausto. Sacrifícios são a marca da religião; são a forma de se agradar à divindade. Em Israel — em certas épocas mais, em outras menos — os sacrifícios sempre desempenharam uma função importante no relacionamento com Deus. Mas não são o fundamental: eles não garantem um relacionamento correto com Javé, porque este se estabelece em outro nível.

O relacionamento correto com Javé, o culto verdadeiro é determinado por hésed e daat. Hésed é um termo relacional: ele caracteriza a aliança entre duas partes. Assim como Javé evidencia o seu hésed para com o povo o guardando, protegendo e também castigando, o hésed do povo se mostra em sua fidelidade à aliança com Javé. Por sua vez, a fidelidade à aliança determina a ética: o hésed para com Javé se concretiza em hésed em relação ao próximo. Inversamente, onde há falta de amor, de misericórdia, respeito e solidariedade para com o próximo, também não há verdadeiro amor, respeito e devoção a Deus. E isso não pode ser compensado com sacrifícios, seja de que tipo forem.

O relacionamento correto com o próximo está baseado na fidelidade à aliança com Javé. Isso fica reforçado pela expressão paralela daat (conhecimento de Deus). Já vimos acima que este é um tema central da mensagem de Oséias (4.1ss.). Se a volta do povo a Deus, buscando conhecer a este, é censurada pelo profeta como um correr atrás do vento (v. 3), aqui é dito em que consiste esse conhecer, justamente por seu paralelismo com hésed. É antes de mais nada um saber objetivo do credo: Deus criador e libertador da escravidão. Este saber nasce da revelação do próprio Deus em palavra (4.1s.) e ação (11.1-3; 13.4). Mas não é apenas um saber do agir de Deus no passado. É o conhecimento de que tudo o que Israel tem e é, não o tem nem é por si mesmo e de si mesmo, mas como dádiva exclusiva de Javé. Por isso Javé é seu único sustento em bons e maus momentos (Jeremias, p. 89).

Com esta declaração fundamental Oséias coloca todo o culto e toda a história sob o enfoque correto. O culto que agrada a Deus não pode ser camuflado com uma religiosidade descompromissada ou com uma multiplicidade de boas obras (sacrifícios). Pois é isso que a aparente penitência do povo evidencia: os sacrifícios estão infestados do espírito de Baal e representam um relacionamento mecânico com Deus. O culto e toda a religiosidade não são expressão de uma vivência de fé e de uma relação com Deus verdadeiras, mas se colocaram em lugar delas. Porém o culto que agrada a Deus é expressão da aliança com ele. E essa aliança abarca todos os âmbitos da vida. Por isto esse culto não se limita ao âmbito estritamente religioso. Ele marca o relacionamento em todos os níveis: pessoal, político, econômico, social.

3. O Texto no Contexto Atual

O texto inicia com o anúncio do afastamento de Deus. Deus se retira. A ausência de Deus é a percepção de muitas pessoas também em nossos dias, principalmente em momentos de crise pessoal, de acidentes, de fatalidades. Quando o curso normal da vida não dá certo, a ausência de Deus é percebida de forma profunda. E geralmente o próprio Deus é acusado dessa ausência: por que Deus me abandonou? Por que ele permite que isso aconteça comigo?

Há acontecimentos na vida das pessoas que não conseguimos explicar. Não sabemos por que isso aconteceu com essa pessoa; por que essa família foi atingida por tamanha fatalidade. Realmente, não temos condições de explicar os caminhos de Deus. Deus conduz a história. Além disso, os eventos da vida não seguem uma simples causalidade: por causa deste pecado ocorre aquele castigo. Mas ao mesmo tempo não se pode negar a nossa parcela de culpa no curso da história. Mesmo que não tenha sido este ato errado meu que tenha causado aquele sofrimento, nós somos participantes de uma situação de pecado. Assim, o isolamento de Deus não é o primeiro passo. Como também não o foi na época de Oséias. É a resposta de Deus ao afastamento das pessoas.

O que num primeiro momento foi colocado sob uma ótica um tanto individual também pode ser enfocado sob o ponto de vista social. Há muitas situações que tornam a vida quase insuportável — e não apenas individualmente, mas atingindo sobretudo grupos de pessoas, camadas inteiras da sociedade, em especial os mais fracos: desempregados, sem-terra, minorias raciais, crianças e velhos. O sistema de saúde está liquidado, a Previdência não apresenta perspectivas a longo prazo, o desemprego atinge grandes camadas da população. Moradia? Só na periferia, na favela. Em consequência, aumentam a cada dia a corrupção, a violência, o consumo de drogas, a desagregação da sociedade.

Por que tudo isso acontece? Deus abandonou o seu povo? Se antes se disse que individualmente somos participantes de uma situação de pecado, tanto mais isso vale agora. Não apenas cada pessoa individualmente traz a marca do pecado, mas toda a sociedade e todo o nosso mundo estão marcados pelo pecado. É pecado estrutural.

Nesta situação, a proposta neoliberal — globalização da economia, livre mercado, enfraquecimento do Estado, privatização de setores fundamentais da economia, eliminação de direitos sociais — só vem agravar a crise. Isto significa, concretamente, descartar grande parte da população porque ela não interessa a essa economia. Ela não produz nem consome. Não precisa viver. É sacrificada em prol da minoria.

É Deus quem se afasta do seu povo? Ou são as elites, os detentores do poder, os que dirigem os destinos do povo que fazem com que a situação continue como está e se agrave cada vez mais? Que fazem alianças com potências internacionais, alegando salvar a nação dessa forma, mas na realidade aumentando cada vez mais o fosso entre ricos e pobres. Na realidade, essas elites oferecem os pobres da terra em sacrifício; eliminam em holocausto os que não servem.

E tudo isso acontece com a bênção da religião, pois a religião é a marca registrada tanto das elites quanto de camadas mais pobres da população. Mas, ao invés de levar a um questionamento e a uma real mudança da situação, a religião, por um lado, serve para encobrir os interesses dos dominantes; por outro lado, para as camadas mais pobres, serve de fuga da realidade. Não é piedade autêntica.

Neste contexto, a declaração fundamental de Os 6.6 se evidencia como de uma atualidade sobremodo real e concreta: o que se quer são relacionamentos justos, em que cada qual tenha sua dignidade como pessoa e como criatura de Deus. Tal postura nasce do (re)conhecimento do senhorio de Deus sobre tudo e todos.

4. Sugestões para a Prédica

A pregação poderia seguir a seguinte estrutura:

1. A retirada de Deus — a sensação de ausência de Deus

2. Retirada de Deus? Ou afastamento do próprio povo?

3. Penitência inautêntica: intervenção automática de Deus

4. Religiosidade inautêntica: passageira e sem consistência

5. Religiosidade autêntica: (re)conhecimento de Deus e relacionamento justo entre todas as pessoas.

5. Bibliografia

JEREMIAS, J. Der Prophet Hosea. Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1983. (Das Alte Testament Deutsch, 24/1).
P1XLEY, J, Oséias: Nova Proposta de leitura a partir da América Latina. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, 1990, vol. l, p. 44-65.
WOLFF, H. W. Dodekapropheton l Hosca. 3. ed. Neukirchen/Vluyn, Neukirchener, 1976. (Biblischer Kommentar Altes Testament, xiv/1).
—. Oseas hoy; las Bodas de la Ramera. Salamanca. Sígueme, 1984.
ZWETSCH, R. Misericórdia Quero; Oséias Fala para a América Latina dos Pobres. Mosaicos da Bíblia. São Paulo, CEDI, 1992. vol. 5.


Autor(a): Martin Volkmann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 3º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Oseias / Capitulo: 5 / Versículo Inicial: 15
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14222
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