Pastoral Ecumênica de Periferia

02/12/1988

PASTORAL ECUMÊNICA DE PERIFERIA

A pretensão do Núcleo/Sul do PP/CEDI

Evaldo L. Pauly

l — Boas desculpas

A Pastoral Ecumênica de Periferia (PEP) nasceu de uma iniciativa da 2; Região Eclesiástica da Igreja Metodista, da 4: RE da IECLB e da Diocese Meridional da Igreja Episcopal, no ano de 1985. O Programa de Assessoria à Pastoral Protestante (PP) do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) foi contatado para executar três seminários sobre o tema. O primeiro seminário tentou uma abordagem teórico-teológica. O segundo permitiu uma visitação participativa em comunidades urbanas organizadas na periferia. Um terceiro elaborou uma proposta de trabalho pastoral, a chamada PEP, recebendo o aval oficial das direções eclesiásticas envolvidas. O registro destes seminários está no Periferia: Desafio à unidade, Cadernos do CEDI, n; 16.

A partir deste marco, o Núcleo-Sul da PP, sediado em Canoas, implementa diversas atividades. Algumas estão registradas. De um curso Ecumênico de leitura popular da Bíblia com leigos das três igrejas de Canoas, publiquei pela Editora Sinodal A Bíblia se Explica Sozinha. De um vigoroso e massivo movimento popular urbano, publicamos os Cadernos do CEDI, n°. 18: Onze de Abril: o Dia da Audácia. A história do processo de ocupação do conjunto habitacional Onze de Abril em Alvorada/RS. O movimento desencadeou um processo que hoje envolve mais de 30 mil famílias na Grande Porto Alegre. Esta história foi planejada, elaborada e escrita pela liderança e por moradores deste conjunto. Trata-se do primeiro registro sistemático do maior movimento social urbano gaúcho em 1987.

No entanto, a história do Núcleo é mais antiga. Já vem de 1980, quando alguns pastores reúnem-se em Esteio. Destaca-se na liderança deste grupo o saudoso pastor metodista Günther Barth. No seu livro Evangelização no Brasil de Hoje, publicado em 1988 pelo CEDI, pode-se retomar a teologia destes inícios. Günther não pôde continuar sua promissora contribuição, pois a morte separou-o de nosso convívio.

Com essas indicações bibliográficas, sinto-me livre para fazer um relato, e livre para fazer uma avaliação mais pessoal. Quero elaborar uma autocrítica de minha atuação na coordenadoria executiva do Núcleo, da qual participam o Rev. Elias Mayer Vergara e o sociólogo Emílio Rodrigues, que são os outros coordenadores. Vou tentar fazer essa avaliação em cima de determinados chavões da pastoral libertadora que minha geração de pastores criou na chamada linha sócio-política.

II — A partir da realidade

A pastoral libertadora nasce a partir da realidade. Concordo com isso. Afinal, uma pastoral que não nasça daí se torna psicótica. Mas de que realidade falamos? Na minha avaliação, que é também compromisso, penso que devemos partir de duas realidades:

1. A realidade das comunidades eclesiais

Aquelas que conheço — e são poucas — são tradicionais. Seus membros estão preocupados em conservar a tradição de sua vida eclesiástica e espiritual. No entanto, conservar é uma prática de resistência no contexto urbano. Na vida urbana só pertencem às comunidades tradicionais aqueles que ainda resistem ao complexo urbano de dominação.

Para a vida urbana não há mais necessidade de igrejas. São anacronismos que apenas atrapalham a vida urbana. Há muitíssimas razões. Aponto algumas. O domingo urbano é para o Sílvio Santos, o Globo Rural, o Esporte Total no mundo dos pobres. Para a classe média, o domingo é do clube, do lazer nas áreas dos parques, o cada-dia-mais-curto passeio de carro, a churrascaria. Ir ao culto é contra todos esses apelos do mundo urbano. Quando olho nos olhos de meus paroquianos no domingo pela manhã leio neles uma absurda fé. Uma resistência decidida e muda às imposições do domingo urbano. Eles estão ali, calados e sentados, como muda e adormecida é sua resistência. A cidade não os conseguiu dominar. No entanto, eles estão ali não para darem vazão a sua resistência inconsciente, mas para ouvirem o acalanto do Evangelho. Eles não vêm ao culto por pressão social.

Nem para descansarem. Nem porque não possuam outras opções. Vêm porque têm uma fé que resiste ao mundo. É muito difícil pregar para essa gente. Às vezes, sinto que eles devem pregar a mim.

Seu conservadorismo não é necessária e mecanicamente reacioná-rio. O que querem é conservar a fé, defendê-la das ameaças terríveis do mundo urbano. A resistência que possuem contra a politização da IECLB deve ser atribuída muito mais à experiência de que a política é coisa suja do que à posição política ideológica de direita. Tudo o que ameaça a fé deve ser exorcizado do culto e da vida eclesial. Não podem admitir a entrada das coisas do mundo, do dia-a-dia, pois que pertencem ao inimigo da fé.

Em tese, penso descrever as comunidades eclesiais urbanas como congregação de um setor daqueles que resistem ao mundo citadino e a suas propostas de organizar a vida de todas as pessoas. O seu conservadorismo representa resistência e não apenas reacionarismo. Assim consigo explicar porque as atividades eclesiais estão muito mais ligadas à resistência passiva do que ao enfrentamento, à ofensiva. Que eles enfrentem o mundo que destrói a fé, é exigir demais deles, é subestimar o poder de fogo do inimigo. As comunidades apenas podem se defender, não possuem os meios de contra-atacar. Afinal, o que pode fazer uma comunidade urbana contra a pornografia, além de condená-la em nome de Deus? O que pode fazer contra a corrupção da administração da coisa pública? O que podem fazer contra o empobrecimento massivo dos membros que inviabiliza o modelo tradicional de comunidade?

Para estas questões, e muitas outras, nossos luteranos esperam respostas. Colocar o horizonte do socialismo — mesmo que adocicado com a visão herética de ser o Reino de Deus — é por demais distante, inviável, e só aumenta a angústia. Colocar a necessidade da participação política (que só existe dentro de partidos), não posso. Sou pastor de todos, não de partes! Não posso e nem quero, os partidos que o façam se puderem. Esses são problemas que compete à razão resolver. Esta prostituta na teologia, prima-dona na política, como Lutero a via. Para mim o impasse da IECLB é sair da resistência passiva para a ofensiva.

2. A realidade do movimento popular urbano

Essa dimensão da vida urbana é expressiva. Varia desde o time de futebol de várzea até a ocupação organizada e a manutenção política de imensos conjuntos habitacionais. Este movimento também é resistên-cia às imposições da cidade. O seu caráter de classe também é difuso. Não são apenas proletários os seus protagonistas. Há muitos que nem proletários chegam a ser, as imensas levas de miseráveis alheios à produção capitalista. Bairros burgueses e pequeno-burgueses, alguns organizam praças, feiras de produtos naturais, promoções culturais. Mesmo sendo expressiva, policlassista, o movimento não atinge a todos. A maioria absoluta da população urbana está desorganizada, não possui vínculos e compromissos com coletividades.

Mesmo com caráter de resistência este movimento tem uma organização legal legítima dentro dos limites de nossa estrutura político-ju-rídica. A maioria das formas de organização são legais. De alguma maneira, no entanto, representam um poder político que extrapola as relações de poder consentidas pelo arcabouço jurídico das classes dominantes. Por exemplo, se em termos de legislação eleitoral, o vereador é o representante legal de parcela da população, em termos de prática política ninguém se elege na cidade se não controla ou tem o apoio de organizações do movimento popular, sejam associações de moradores, escolas de samba, times de futebol. . .

Há poucos anos o movimento social urbano era a prática política possível para muitos políticos de esquerda. Com o processo democratizante, ainda em curso, as organizações de luta urbana passam a ter outro caráter. Só conseguem expressão social maior aquelas que implementam uma política de ação concreta e massiva. Os partidos então passam a dar ou não sua contribuição específica. As lutas deixam de ter uma conotação de esquerda, já que são agora assumidas também pelos partidos de centro e de direita. As lutas urbanas — pelo que avalio — hoje tem uma conotação de luta por justiça social. Não se luta mais pelo esgoto, por exemplo, para desnudar o caráter de classe dos agentes do Estado; luta-se, no entanto, porque é um direito das crianças terem saúde! A perspectiva atual da luta urbana é muito mais no sentido de ser uma luta a favor de do que uma luta contra. Para mim isso representa um avanço na consciência de cidadania. Não se é contra ninguém, mas a favor da maioria. Se o Estado não faz o esgoto, ele que explique por que é contra as crianças terem saúde e por que é a favor de que sejam doentes. O movimento popular urbano, assim, vive da luta pelas coisas que a cidade promete fornecer, pode oferecer, mas não o faz para as classes populares.

As organizações dos movimentos populares urbanos não são revolucionárias. Apenas reivindicam aquilo que a vida urbana oferece a todos, mas nega à maioria. Conquistar água, luz, esgoto, casa, escola, lazer, ônibus, saúde, etc. . . não é revolucionar a sociedade. Pelo contrário, é oferecer aos donos do capital melhores condições de reprodução da força de trabalho! Apesar dessa realidade, se a luta urbana consegue mobilizar pessoas, cidadãos que saem do anonimato e da apatia, trazendo-os para o palco do exercício democrático, cria-se uma situação política nova, desafiante, inquietante para toda a sociedade, de cima a baixo. No entanto, esta é uma consequência possível da luta, não o seu objetivo imediato.

3. Dando nó em pingo d'água

Em nossa experiência, sempre procuramos colocar em diálogo lideranças do movimento popular urbano e lideranças eclesiais. Com a esperança de que se descubram mutuamente como focos de resistência aos problemas e imposições da cidade grande. No sentido de compreenderem-se como formas de defesa da família. Afinal, defender .a família nos parece ser característica das comunidades eclesiais e, em última análise, do próprio movimento popular urbano.

Em ambas as lideranças há um pensamento pragmático que é maior que a posição política explícita. A descoberta de possibilidades de uma prática comum e útil aos dois parceiros logo pode aparecer. Por exemplo, a paróquia sente necessidade de fazer assistência social. A caridade é muito forte e precisa ser canalizada, faz parte da experiência religiosa. Logo surge a ideia de dar comida, roupa, remédio aos pobres. Nesse assistencialismo, a comunidade logo será lograda pelos pobres. Alguns vendem a comida para comprar cachaça. Outros não necessitam, mas conseguem ludibriar a comunidade para receberem as doações. Outros até parece desejarem entrar na igreja, até que o rancho de outra igreja qualquer seja mais sortido. . . Uma associação de moradores pode muito bem distribuir essas doações caridosas daj comunidade. Isso lhe dará legitimidade e aumentará o poder de mobilização. A associação também controlará melhor essa distribuição, evitando inclusive que a comunidade gaste tempo neste trabalho. A paróquia pode incentivar seus paroquianos a colaborarem com a associação, seja associando-se, caso residam na área, seja auxiliado em trabalhos burocráticos, técnicos ou outros. A associação, em contra-partida, poderá indicar à paróquia moradores luteranos, migrantes recentes, que a paróquia ainda não contactou. Outra possibilidade muito concreta entre os parceiros, refere-se às questões de ordem legal. Muitas paróquias possuem CGC, reconhecimento de utilidade pública, etc. Com o CGC podem-se fazer compras no atacado, e estão dadas as condições para uma cooperativa de consumo. A utilidade pública pode servir para realizar convênios com órgãos de assistência governamental como LBA, FEBEM, SEAC, etc., ou privadas como SENAC, SENAI. É evidente que as paróquias não têm condições para implementar os convénios a nível da base, mas uma associação representativa e democrática tem. Esta, por sua vez, não tem o mesmo respaldo jurídico que as paróquias possuem.

As possibilidades são muitas, mas há de ser vencer dois preconceitos básicos:

1) A visão dos paroquianos e da sua liderança do que sejam na prática e na verdade as organizações populares de luta urbana. A maioria não sabe que essas organizações são legais e, na Nova República, até incentivadas.

2) A visão do movimento popular que não conhece a estrutura democrática das congregações religiosas protestantes. Normalmente se pensa, a partir do movimento, em ganhar o pastor como se ele fosse o bispo.

A colaboração pode fortalecer ambos os parceiros. A presença da igreja no bairro é facilitada pela cooperação da associação. Já não seremos um estranho no ninho dos pobres. Também não haverá necessidade de aumentar o orçamento para expandir o trabalho eclesial. A organização popular, por seu turno, receberá da igreja um incentivo moral que falta a quase tudo no Brasil. Apesar de tudo a igreja ainda é das poucas instituições que não sofre tão gravemente a crise de legitimidade e moralidade que assola as instituições governamentais, partidárias e públicas do país. É preciso, em todo caso, manter a independência dos parceiros, explicitando suas diferenças. A igreja não substitui a associação, nem a organização popular tornar-se-á porta-voz do Evangelho e dispense ira dos sacramentos.

Resgatar a moral, a dignidade, o respeito, a bondade, a honesti¬dade são tarefas necessárias ao movimento popular. Num país como o nosso, em que campeia a corrupção de cima a baixo na sociedade, ainda há esperança de resgatar esses valores aparentemente insignificantes diante das necessidades que brotam da miséria. Mas creio que pode ser parte do diálogo entre estes dois focos de resistência.

III — Metodologia de ação

O método que temos experimentado, e nem sempre tem dado certo, é —nós pastores e líderes ditos conscientes —procuramos pessoalmente o movimento popular, no intuito de nos apresentarmos. Apresentamos a estrutura das paróquias, sua composição, sua religiosidade, sua forma democrática. Apresentamos suas instâncias de poder (os diversos concílios e grémios), seus vínculos locais, nacionais e internacionais (especialmente as agências de financiamento de projetos). A intenção básica é abrir a igreja protestante, uma desconhecida. Se a liderança popular entender que lhe interessa uma aproximação, então planeja-se uma estratégia de ação.

A liderança popular precisará aprender a como ganhar a igreja para o seu lado. Provavelmente o discurso anti-capitalista ou anti-governista não seja o melhor caminho. Mas temos percebido uma criatividade muito grande de parte do movimento. Provavelmente o tema de defesa da família conquiste os corações, a possibilidade de permitir o exercício mais sadio da caridade sejam motivações mais cativantes para iniciar o diálogo e a cooperação. Evidentemente nestes momentos iniciais, a liderança laiga da igreja não deve ser envolvida na luta política da associação. Mas se, até o momento, esta luta foi levada sem apoio ecíesial, poderá continuar existindo sem ele. Outro aspecto é necessário. É preciso que a liderança popular compreenda o que são as linhas teológicas em conflito na igreja. Para que não enfiem a mão em cumbuca. Para o movimento popular a linha teológica é irrelevante. Um detalhe que, para nós teólogos e cristãos, é fundamental; para o movimento, no entanto, uma questão interna da igreja, que não lhes diz respeito.

A questão do assistencialismo também se relativiza. Se a comunidade distribui ranchos, apenas contemporiza a desigualdade e a injustiça. Se uma associação faz isso, ela contemporiza mas também constrói uma legitimidade que pode e deve ser usada para fazer avançar lutas e mobilizações contra injustiças. Ao que sei, nenhum sindicato combativo destruiu sua estrutura assistencialista, apenas deu-lhe outro caráter.

O método que tentamos desenvolver é muito mais criado pelas organizações populares do que pelas comunidades eclesiais. É muito mais iniciativa do movimento, do que da pastoral. O que inclusive permite preservar a figura do pastor ou da liderança eclesial consciente. Se eu fizer prédicas contra o governo, pelo socialismo, corro o sério risco de perder meu emprego e fechar por muito tempo a comunidade para essas questões. O movimento, trazendo sua voz para dentro da igreja, pode também se queimar. O que seria um prejuízo mínimo, pois o movimento existe independentemente da vontade eclesial, embora esta lhe pudesse ser útil. Por outro lado, se a experiência for exitosa, o êxito não será do pastor, mas da comunidade eclesial e do movimento popular.

IV - O método de leitura da Bíblia

Justificar biblicamente as ações do movimento popular foi uma necessidade. Foi, quando a repressão política no país não permitia uma justificação política explícita. Hoje, essa justificação bíblica é anacrônica. O movimento popular não precisa ser, como certamente foi considerado, o braço de Deus agindo visivelmente na história. O movimento popular não é mais grandeza escatológica, como parece ter sido considerado por setores da teologia da libertação. Digo isso, considerando que uma interpretação teológica do movimento popular, à luz da Bíblia, permanece sendo uma necessidade interna e que interessa apenas aos crentes. O movimento popular justifica-se por si mesmo. Vencemos, graças a Deus, a Idade Média na política brasileira. Portanto, o objetivo da leitura bíblica não precisa ser legitimação, podendo ser, só então, crítica.

Estamos acostumados com o esquema: fato de vida/fato da Bíblia. No esquema dos círculos bíblicos de Carlos Mesters, que já não os escreve mais. Um método que tem sido fundamental nas CEBs católicas. Duvido que seja o método mais eficiente para ler-se a Bíblia entre evangélicos. Nós não temos apreço pela história da vida, pelo fato da vida. Nós até os desprezamos, na verdade. Os católicos, pela sua compreensão de ministério e eclesiologia, podem valorizar a história dessa forma. Nós, não. Deus, para nós, revela-se tão-somente pela Bíblia e, normalmente, contra a história. Nossa mediação entre os fatos da Bíblia e os da vida necessita de muitos complicadores hermenêuticos que não são do domínio e agrado popular. Toda a dialética luterana tem que se enfronhar nessa mediação. É necessário discernir Lei e Evangelho, letra e espírito, fé e obra.

Nossas comunidades, a grosso modo, são fundamentalistas. Acho que o método de leitura mais eficiente entre o povo evangélico é este.

No meu livrinho, que indiquei no início, tento desenvolver esse funda-mentalismo. Nós precisamos aceitar o fundamentalismo de nossos paroquianos e, de fato, radicalizá-lo. Muito mais no sentido de confirmá-lo do que de destruí-lo. Insistindo na leitura, não só do versículo, mas da perícope. Não só da perícope, mas do capítulo, quiçá do livro. Valorizando as referências do Almeida. Apontar as contradições apenas quando a Bíblia mesma as apontar. As questões da exegese acadêmica devem entrar quando a Bíblia mesma a exigir, através da leitura do leigo. Introduzir estas questões antes, é pedantismo do pastor. É violentar textos que o povo sabe de cor, de coração, com coisas do racionalismo. Isso desvaloriza a leitura popular e pode desqualificar o sacerdócio geral, pecando contra o Espírito Santo. Ciência, exegese, grego e hebraico, descobertas do método histórico-crítico, do estruturalismo, da leitura materialista, podem e devem entrar quando a leitura fundamentalista e leiga assim o exigir. O pastor passa a ser, assim, informador e formador do seu rebanho, mas sob a regência deste rebanho. Quando isso me aconteceu, notei que o povo perdeu o respeito/medo por mim, passando a me exigir ainda mais ciência e exegese. Muito mais do que as exigências que tive de enfrentar no mundo académico. Se respeitamos o fundamentalismo do povo, ele começa a me perguntar, e a se perguntar por quê?. Aqui o fundamentalismo ganha vida e se ultrapassa.

Como se dá a ligação entre fatos da vida e fatos da Bíblia? Para mim simplesmente não se dá! As duas dimensões permanecem distintas e mutuamente críticas. Acho isso positivo. A vida não se legitima pela Bíblia, e nem a vida legitima a Bíblia. Uma é instância crítica da outra. Os fatos da vida precisam de chancela bíblica? A Bíblia precisará da história para ser Palavra de Deus? Para mim, ter fé no Reino e nas suas promessas, ansiar desesperadamente por ele, não é a mesma coisa que ter fé na vida e ansiar e lutar desesperadamente pela justiça. A prática histórica dos movimentos populares não precisa ser a prática da libertação do Egito. Acho que me coloco fora da Reforma se preciso de confirmação histórica visível da revelação de Deus na cruz.

V — Pistas para a prédica

Estranhei o convite dos colegas do PL para que escrevesse sobre a experiência do Núcleo-Sul da PP/CEDI. Sempre pensei no PL como livro de auxílios para a prédica. Não sei como o leitor poderá pregar sobre essa experiência, se nem eu que a vivi posso fazê-lo?!

Aceitei o desafio dos colegas para convidar meus leitores e tentarem uma aproximação entre suas comunidades e os movimentos populares urbanos existentes em suas paróquias. Talvez seja essa a única prédica possível. Pensar com o movimento popular na forma mais viável de articular uma cooperação entre esses dois focos de resistência ao mundo diabólico da urbe caótica.

Provavelmente esse desafio concreto possa estimulá-lo a colocar-se nas mãos de Deus, firmando os pés nesta terra.

(Obs.: Endereço para informações e contatos: CEDI — Programa de Assessoria à Pastoral Protestante, Núcleo — Sul, Rua Frei Orlando, 95/101, Centro, Cx. postal 192, 92010 - Canoas/RS, Fone: (0512)76-1769.)


Autor(a): Evaldo Luis Pauly
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1988 / Volume: 14
Natureza do Texto: Artigo
ID: 17920
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