Provérbios 9.1-6,10

Auxílio Homilético

17/08/1997

Prédica: Provérbios 9.1-6,10
Leituras: Efésios 5.15-20 e João 6.51-58
Autor: Carlos E. M. Bock
Data Litúrgica: 13º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 17/08/1997
Proclamar Libertação - Volume: XXII


Os textos bíblicos de sabedoria estão sendo muito usados atualmente nas celebrações e meditações. Naturalmente pessoas têm recorrido aos livros de sabedoria para elaborar mensagens atualizadas. Qual a fonte desse interesse? Suspeito que após a queda do muro de Berlim, a globalização e a pós-modernidade, a sabedoria responde a algumas inquietações profundas tanto a nível individual quanto coletivo. A sabedoria, diferentemente da filosofia grega, não busca o princípio que explica os fenómenos. Ela se interessa pela vida prática. A experiência do dia-a-dia é a base e o campo da sabedoria. Sua tentativa fundamental é encontrar um melhor caminho na vida (Pv 3.1-2; 3.14-16; 4.11-13; 4.20-22; Sb 8.9-16). (Azevedo, p. 19.) Estamos diante de um convite. Então vamos aceitá-lo.

1. Informações sobre o Texto

Quanto ao seu aspecto literário, o texto de Pv 9.1-6 é classificado por estudiosos como um poema sapiencial de extensão maior. Eles dividem o Livro de Provérbios em cinco partes. A nossa perícope está inserida na parte I, que encerra o cap. 9. Esta primeira coleção é chamada de Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel. A coleção I é a mais recente. A exatidão de datas para o surgimento dos textos de provérbios é muito difícil. Crê-se que a coleção I tenha sido compilada no séc. 5 a.C. Surge numa época em que as escolas de sabedoria tentam realizar a fusão da sabedoria internacional com a piedade tradicional (Silva, p. 15).

A perícope é uma sextina (peça de seis versos) mais o v. 10, que faz parte da segunda sextina. A primeira sextina forma um paralelismo com a terceira sextina do cap. 9. O paralelismo opõe a sabedoria à insensatez. Mesmo que a delimitação proposta não inclua a terceira sextina, é bom compararmos as duas em momento oportuno.

2. A Personificação da Sabedoria

Este texto apresenta a personificação da sabedoria. Ela tem a capacidade de construir uma casa, preparar um banquete e mandar as suas empregadas convidarem pessoas com uma proposta bem clara: participar do seu banquete.

A descrição inicial nos leva a uma pergunta: seria a sabedoria uma deusa egípcia? A casa sustentada por sete colunas aponta para a possibilidade de a construção ser um templo sagrado onde eram celebrados cultos a uma deusa. Schökel e Limdiz (p. 248) apresentam algumas explicações para esta pergunta.

Uma hipótese levantada é que a sabedoria pode ser a deusa Istar. Ela é uma deusa do amor. No seu templo aparece, regular ou ocasionalmente, a figura das prostitutas cultuais. A favor desta argumentação está a histórica ascendência da sabedoria egípcia na cultura israelita.

A construção da casa no lugar alto da cidade pode indicar uma referência à acrópole. A acrópole servia de cidadela na defesa das cidades gregas. Em associação com essas indicações casa/templo, altura/acrópole, festa/culto sacrifical poderia-se afirmar que a senhora Sabedoria tem raízes profundas em algum tipo de culto sacrifical antigo com conotações sincréticas no mundo helenístico.

Ainda que sobrem outras indicações de que há na formação do texto um fundo politeísta, a opção mais acertada parece ser o banquete da sabedoria. O fato de este texto ter sido compilado por mestres das escolas de sabedoria fundamenta a ideia de exaltação da sabedoria. Ela adquire uma importância destacada na reorganização da vida no Israel pós-exílico.

3. O Texto

V. 1: A Hokma faz a sua festa. Hokma é nome próprio, sujeito. Não tem artigo. Por isso a sabedoria é uma personalidade. Sendo pessoa, pode agir. Constrói a sua casa e lavra as sete colunas. Conforme Schökel, o número 7 se presta a muitas aplicações. Também as primeiras ações da sabedoria são sele. Buscar explicações seria especular com numerologia.

V. 2: Neste versículo começa a descrição da festa da sabedoria. Os preparativos definem o cardápio da festa. A carneação dos animais pode dar a ideia de atos sacrificais. Como descartamos a possibilidade de essa festa ser sacrificai, ficamos com o ato de preparação do banquete que inclui a carne de animais. O ato de misturar o vinho era costume na Antiguidade. Provavelmente a intenção era melhorar o sabor e a qualidade do vinho. A mistura podia ser com água, aromas ou temperos. Em Sl 75.15 Deus tem um cálice de vinho cheio de mistura do qual até os ímpios bebem. E o cálice do juízo de Deus. Em Jr 25.15 o cálice contém o vinho misturado com o furor de Deus.

V. 3: A sabedoria convida por meio das suas criadas. Ela toma a iniciativa de convidar para a sua festa. O convite é às claras. Inicia no alto da cidade. Não há segredos. A festa é aberta. Há um aspecto ético muito importante nesse convite público e aberto feito pela sabedoria. O que ela faz é conhecido e acessível. Por isso é ético, ao contrário da insensatez que convida para o oculto (Pv 9.17).

V. 4: Neste versículo encontramos especificamente os convidados. São convidados os simples. No original simples tem a mesma raiz como insensato. Mas sempre que aparece como simples pode ser traduzido por o que não tem malícia, maldade, premeditação do mal. Outros convidados são os que não têm senso. Não ter senso significa padecer da incapacidade de extrair ensinamento dos acontecimentos, de conhecer a direção que se quer tomar, não ter a capacidade de julgar corretamente as coisas. Os convidados são o centro da festa. Sem eles toda a preparação cuidadosa não tem sentido.

V. 5: A sabedoria conclama novamente os seus convidados a participarem da sua festa. O seu pão está preparado.

V. 6: Neste versículo fica claro o objetivo do convite. A sua finalidade é a vida. Quem aceita o convite da sabedoria vive. É necessário, porém, que faça uma opção: precisa abandonar a companhia dos insensatos. Os insensatos, ao contrário dos simples, têm a intenção da maldade e sabem o que estão fazendo.

V. 10: Este versículo faz parte da segunda sextina. Segundo Schökel, esta segunda sextina é incluída no texto para acentuar o caminho dos insensatos. Suspeita-se que esta segunda sextina tenha sido introduzida num texto que tinha o objetivo de comparar a sabedoria com a insensatez. Apesar de a sabedoria ser uma senhora capaz de promover uma grande festa, ela não tem autonomia. Ela só é plena para os simples e os que são faltos de senso se eles a buscarem a partir do temor do Senhor. A sabedoria é na verdade serva. Conforme Jó 28.28, o temor do Senhor é a própria sabedoria. A sua festa é celebração no caminho para o Senhor e a sensatez. Temor é reverência ao que é conhecido e não o medo ao desconhecido. O temor não é posse, é relação. (Peixoto, p. 53.)

4. Comparação da Primeira Sextina de Versos com a Terceira

Creio que essa comparação nos ajuda a perceber melhor o conteúdo do texto. Nela se evidencia a diferença entre a sabedoria e a insensatez.

A sabedoria é ativa. Ela convida para a sua festa. Manda as suas empregadas buscar seus convidados, que devem ser muitos. Acima de tudo, que sejam os que necessitam e desejam participar da sua festa. A festa da sabedoria é uma festa as claras, E aberta ao público. Ela chama os sem senso e simples. Aceitando o convite eles encontram a vida.

A insensatez não é personificada. Ela toma a figura da prostituta. Não se move do seu lugar. Espera pela vinda dos clientes. Não entende e nem se preocupa com nada. A sua casa está situada num ponto estratégico. Sua pregação não é pública. São diferentes também os alimentos oferecidos. Ela oferece pão e água. A proposta da insensatez é o furtivo, o escondido. Dar ouvidos à insensatez leva à morte.

A diferença fundamental entre as duas consiste justamente em que uma leva para a vida e a outra para a morte. Uma ensina o caminho da prudência e a outra o caminho do abismo. A sabedoria nasce no temor a Deus e a insensatez na tentação.

5. Reflexão

A exaltação da sabedoria (cap. 8) e a sua personificação (cap. 9) querem ajudar o povo de Israel a reencontrar o caminho na época pós-exílica. As várias invasões ocorridas destruíram conceitos universais, paradigmas, conceitos éticos e morais do povo. Nasceu entre o povo a pergunta pelo lugar do ser humano diante de Deus e dos acontecimentos. Quando a sabedoria convida para o seu banquete, ressurge a oportunidade de o ser humano participar. Mesmo que a sabedoria nasça do temor do Senhor, aceitar o convite para o banquete da sabedoria é liberdade humana. A sabedoria tem a capacidade de ajudar o indivíduo e o coletivo da época a responder a pergunta pelo seu lugar no mundo.

O ser humano da atualidade também está se perguntando pelo seu lugar neste mundo. Diante dele estão a globalização, a revolução técnico-científica, a robotização, a pós-modernidade, a individualização, a coisificação da pessoa, a demonização na teologia carismática, etc. Em acréscimo a isso há uma inflação de ideias novas, conceitos e informações difíceis de serem comprovadas que vão criando insegurança. Então, o método da sabedoria, que é a experiência e a posterior reflexão, ajuda a dar passos curtos, mas seguros. Na ausência da ética, da moral, de uma filosofia norteadora, a sabedoria ganha espaço, pois permite vislumbrar um lugar para o ser humano num mundo onde valem a ciência, a tecnologia, o lucro. Neste mundo que isola o ser humano da possibilidade de encontrar a felicidade sonhada a sabedoria convida para um banquete onde ele pode encontrar o seu lugar rumo à vida no seu sentido pleno.

Aceitar o convite da sabedoria na atualidade é optar pela vida, pelo ético, pelo comunitário, pela solidariedade. A sensatez produzida pela sabedoria consiste em não cair nas tentações do mercado, no hedonismo reinante, na desvalorização do ser humano que é coisificado. A insensatez hoje é justamente cair na tentação do individualismo, da ausência de ética nos relacionamentos.

A sabedoria não é o conhecimento como saber, como capacidade cognitiva.

A sabedoria que prepara o seu banquete é o conhecimento da arte de viver a vida cm sua plenitude. O conhecimento como saber serve também para o domínio do outro, enquanto que a sabedoria quer libertar.

A sabedoria é o aprendizado pela experiência que vai se acumulando na vida de uma pessoa, grupo ou povo. Quando um dito é pronunciado, o ouvinte logo o associa com acontecimentos de sua vida. Se lemos o mashalde Pv 27.10c: Mais vale o vizinho perto do que o irmão longe, os ouvintes certamente lembrarão do dia em que pediram um favor ao vizinho. Se conseguirmos um levantamento dos ditos populares entre as pessoas da comunidade, estaremos aptos a conversar sobre a sabedoria e o seu convite para a vida. Ajudar ouvintes da proclamação da liberdade é ajudá-los a verem além das aparências neste mundo globalizado e insensato.

6. Sugestão

Recolher o maior número possível de ditos populares entre as pessoas e escolher entre eles aqueles que falam do temor do Senhor, do dia-a-dia, de relacionamentos e dialogar sobre a sabedoria encerrada em tais ditos da sabedoria popular, sobre que alternativas eles apresentam ao que está predominando na sociedade e que é insensatez. Apontar para Jesus Cristo, que foi sábio, pois soube optar entre a insensatez e a sabedoria.

7. Bibliografia

AZEVEDO, Valmor O. O Homem e a Existência na Literatura Sapiencial. Estudos Bíblicos; na 48: Sabedoria. Petrópolis, Vozes; São Leopoldo, Sinodal, 1996.
PEIXOTO, Western C. A Experiência de Deus nos Sapienciais. In: Ibid.
SCHÖKEL, Alonso L. & LIMDIZ, J. Vilchez. Sapienciales I - Provérbios. Madrid, Cristandad, 1989.
SILVA, Airton J. da. Judaísmo e Helenismo: Encontro e Conflito. In: Estudos Teológicos; n 48: Sabedoria.


Autor(a): Carlos E. M. Bock
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 13º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Provérbios / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 6
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17642
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