Quinze Anos de Proclamar Libertação

Artigo

01/12/1989

Com o décimo quinto volume de Proclamar Libertação a série completará quinze anos de vida. O primeiro volume saiu em 1976, com 16 auxílios homiléticos e uma lista de 22 autores. Com o volume XV os auxílios ultrapassam a cifra de 400 auxílios, a lista de autores chega a 150, dos quais aproximadamente 100 ainda continuam contribuindo para este trabalho em mutirão. De 1976 para cá muita coisa aconteceu. Por certo, cada leitor e cada autor de Proclamar Libertação teria uma história a contar. Gostaria de traçar, aqui, um pouco da história de Proclamar Libertação, mais precisamente dos encontros de autores. Não participei de todos os doze encontros de autores, de modo que me apoio nos relatórios dos mesmos. Pode ser, portanto, que nem sempre consegui captar bem o clima em que foram travadas discussões e tomadas decisões.

1. Questões básicas nos inícios de Proclamar Libertação

No primeiro encontro, realizado em 1978 e contando com a participação de 37 autores, foram traçadas diretrizes gerais de Proclamar Libertação. A série deveria conter auxílios homiléticos redigidos tendo em mente esta finalidade, independente do fato de poderem eventualmente ser utilizados para catequese, estudos bíblicos, etc. . . os leitores visados são pregadores, com ou sem formação acadêmica. Essa diretriz geral ainda não resolvia a questão hermenêutica. A discussão girou, portanto, em torno de que modelo de auxílio homilético seria o hermeneuticamente mais adequado: a) o que ia do texto à pregação (texto-meditação-pregação); ou b) o que ia da realidade ao texto (situação-texto-prédica). Não houve unanimidade quanto a esta questão. Ao primeiro (modelo) se contrapôs criticamente a tentativa de uma objetividade ilusória em poder do exegeta e pregador, ao segundo a perda da dimensão crítica do próprio texto às situações atuais. . . O segundo encontro ratificou esta opinião, constatando que nem o modelo a) garante a objetividade de interpretação, nem o modelo b) garante que o autor evite a fuga da realidade para dentro da exegese. Por estes motivos, cada autor podia escolher o modelo mais adequado ao seu estudo homilético. Consenso dos primeiros encontros era que a exegese do texto bíblico não deveria ter o peso maior; ela sempre deveria estar a serviço da pregação. O auxílio homilético deveria ser, portanto, predominantemente reflexão pessoal e situacional.

Vinculado a esta questão hermenêutica estava, nos primeiros encontros, a compreensão do termo libertação, constante do título da série. Libertação é o mesmo que Evangelho? Decidiu-se abordar a temática libertação sob três aspectos: político, eclesial e individual. Três estudos foram publicados no volume VI que, no entanto, conforme o relatório do terceiro encontro de autores, não representam consenso nem significam programa de Proclamar Libertação, mas querem ser ponto de referência, linha de norteio.

Sobre a linha teológica da série, o primeiro encontro conclui que não se pretende uma linha teológica exclusiva, mas também não um vale-tudo. Parcialmente isto se reflete nos critérios de seleção de novos autores. Conforme estes critérios cada autor deveria ter: a) capacidade e disposição para a exegese científica, ou seja, para uma reflexão teológica engajada e crítica e, portanto, não fundamentalista; b) capacidade e disposição de refletir a realidade; e c) disposição de não restringir-se a uma compreensão individualista do Evangelho. Novos autores seriam escolhidos somente por proposição e aprovação do encontro de autores. Este critério foi estendido, no nono encontro, também aos professores da Faculdade de Teologia.

2. A série de perícope

Desde o início, Proclamar Libertação pretendia algo mais do que trazer meditações sobre os texto de pregação previstos pelas séries de perícopes estabelecidas pela Igreja Evangélica da Alemanha. Para o segundo encontro os autores se propuseram a refletir sobre o significado e implicações de uma série de perícopes, tendo em vista eventuais modificações a partir do volume VII. Para tanto decidiu-se consultar a série trienal católica, as séries alemãs revisadas, a posição dos Distritos Eclesiásticos e, além disso, colher subsídios sobre o surgimento das séries em uso. O segundo encontro, então, decidiu: a) gestionar junto ao CONIC, para que se crie uma nova ordem de perícopes, ecuménica e brasileira; b) até que isto aconteça, seguir a ordem revisada da Igreja Evangélica da Alemanha, adicionando auxílios sobre temas e textos para ocasiões especiais. A preocupação com a realidade nacional fez com que fossem publicados auxílios temáticos como, p. ex., sobre o tema Terra (no volume V) e para ocasiões especiais como, p. ex., o Dia da Independência e um Culto em época de eleição.

As reações à proposta acima foram um tanto frustrantes. Os Pastores Regionais reagiram desfavoravelmente a uma série de perícopes diferente da em uso, mas estavam dispostos a retomar o assunto. No CONIC houve dificuldades em discutir o assunto, pois a Igreja Católica Romana já possuía o seu lecionário, estabelecido universalmente, e as outras igrejas integrantes do CONIC não demonstraram grande interesse, conforme o relatório do terceiro encontro. Porém a ideia de elaborar uma série mais brasileira permaneceu viva, de modo que o quinto encontro de autores decidiu criar uma mini-série própria com uma perícope para cada mês. No encontro de 1983 nasceu, então, a assim chamada Série Alternativa. Quer seja oportuno, quer não, que foi publicada regularmente a partir do volume IX até o volume XIII. Dependendo da aceitação desta série alternativa, tencionava-se ampliá-la para mais do que doze auxílios anuais. A recém criada série queria abordar textos importantes que não constavam da série regular, mas em especial tratar de temas prioritários da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e de temas que brotavam dos movimentos populares. Os encontros que se seguiram a esta decisão foram basicamente reuniões de reflexão e de trabalho sobre os assuntos e temas que Proclamar Libertação deveria abordar.

O 11o encontro decidiu por não continuar com esta forma de Série Alternativa. Em vez de auxílios homiléticos, achou-se necessário que, nesta série, fossem publicadas contribuições que retratassem estudos bíblicos feitos em grupos, de preferência luteranos sem excluir, no entanto, experiências a nível ecuménico. Os trabalhos deveriam conter o contexto em que aconteceu o estudo, o método de abordagem do texto e da realidade, além de uma avaliação teológico-crítica dos resultados do estudo. Com esta nova concepção Proclamar Libertação ultrapassava os limites da pregação no culto. Além de auxílios homiléticos, Proclamar Libertação queria recolher experiências feitas com a Bíblia em grupos e movimentos para iluminar uma prática pastoral mais ampla. Os volumes XIV e XV trazem as primeiras contribuições deste género, denominadas, a partir do 12o encontro, Relatos de Caminhadas com a Bíblia.

Esta decisão não revogou a intenção primeira de Proclamar Libertação, ou seja, a de oferecer auxílios homiléticos que ajudem os pregadores em sua árdua tarefa. Ela, no entanto, parece implicar uma desistência de procurar elaborar uma série de perícopes própria para a pregação. Também por isto, o encontro de Cascavel/PR, em 1988, o primeiro fora de São Leopoldo, nomeou uma comissão que estudasse a série trienal católico-ecumênica e desse sugestões sobre a possibilidade de adoção da mesma. Entrementes o Conselho Diretor da IECLB decidiu adotar a série trienal e implantá-la a partir de Advento de 1990 (cf. o Apêndice).

3. Uma palavra final sobre os encontros

Os encontros de autores de Proclamar Libertação foram sempre um lugar de reflexão intensa e, muitas vezes, cheios de tensões. Conforme os autores, os encontros em que houve discussão de uma temática, foram os mais proveitosos. Se, desde o início, a questão hermenêutica (tanto a interpretação do texto quanto da realidade) era central — e, sem dúvida, continuará sendo, dada a natureza de Proclamar Libertação — os encontros de 1987 e 1988 estiveram preocupados com a crise da prédica dominical. O encontro de Cascavel avaliou as diversas concepções de culto e a função da pregação. O encontro de 1989, programado para Curitiba, quer novamente discutir a interpretação de textos bíblicos sob abordagens distintas.

Os encontros de autores foram também uma fonte de ideias novas para o trabalho pastoral. Além dos auxílios temáticos alternativos e dos relatos de experiências com o estudo da Bíblia, lembro, em especial, os dois Suplementos de Proclamar Libertação: o primeiro com subsídios sobre o Catecismo Menor de Martim Lutero e o segundo com reflexões sobre os ofícios litúrgicos. Achou-se importante que também a liturgia tivesse seu lugar em Proclamar Libertação. Além da decisão de incluir subsídios litúrgicos após cada meditação, sentiu-se a necessidade de elaborar e publicar, sob forma de Suplemento, coletâneas de liturgias para cultos especiais.

Desde o início, os encontros foram financiados com a revenda dos exemplares de autor, doados para este fim. Além disso, despesas adicionais eram rateadas pelos próprios participantes dos encontros. No quarto encontro foi rejeitada uma doação do exterior para financiar os encontros, a fim de resguardar a autonomia de Proclamar Libertação. Com o tempo, a venda de exemplares de autor somente permitia a participação de autores das cercanias de São Leopoldo/RS, onde se realizaram os primeiros onze encontros. Porém, mais e mais, autores trabalhavam em todos os cantos do Brasil e também da América Latina. Para dar oportunidade também a estes ou, pelo menos, a alguns destes colaboradores ao participarem das reuniões anuais, o décimo encontro decidiu aceitar e angariar verbas para financiar pelo menos alguns encontros maiores. Em parte pelo mesmo motivo da distância, resolveu-se realizar os encontros fora de São Leopoldo.

Proclamar Libertação chega aos quinze anos de existência. Não é fácil avaliá-los. Sem dúvida, foram anos de muito trabalho abnegado e de dedicação por parte de autores, redatores e divulgadores. A afirmação um tanto jocosa de que os colaboradores de Proclamar Libertação pagam para trabalhar confere com a realidade. Estamos conscientes de que Proclamar Libertação ainda é um projeto pequeno se olharmos para a tiragem de cada edição (1500 exemplares). Por outro lado, representa algo único em sua natureza, no Brasil e talvez na América Latina. Nem sempre Proclamar Libertação esteve à altura das exigências dos leitores e pregadores. Cada vez mais, no entanto, Proclamar Libertação tem conquistado leitores dentro e fora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e até de outros países. O último encontro de autores correspondeu a esta tendência, escolhendo mais colaboradores da América Latina de fala espanhola e incentivando a difusão da série também para fora do continente. Este passo é sinal de uma esperança demasiadamente arrojada? O futuro — quem sabe os próximos quinze anos? – o dirá!


Autor(a): Nelson Kilpp
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1989 / Volume: 15
Natureza do Texto: Artigo
ID: 13510
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