Romanos 1.1-7

01/01/2003

Prédica: Romanos 1.1-7
Leituras: Gênesis 17.1-13 e Lucas 2.
Autor: Paulo Daenecke
Data Litúrgica: Ano Novo Circuncisão e Nome do Senhor
Data da Pregação: 01/01/2003
Proclamar Libertação - Volume: XXVIII
Tema: Ano Novo

1. Introdução

Nos PL XVII, p. 77ss. e PL 25, p. 55ss., estão disponíveis uma pesquisa aprofundada e um trabalho exegético sobre este texto. Tenhamo-los como luz!

2. Duas âncoras

Os textos de leitura centram a sua palavra na aliança de Deus. Em Gênesis 17.1-13, o acento está na aliança de Deus com Abraão e na promessa da presença de Deus ao longo das gerações. Disto pode-se deduzir a universalidade do alcance do projeto de vida, expresso no cumprimento de sua aliança (a circuncisão).

O Evangelho, Lc 2.21, identifica Jesus como descendente, como parte da promessa de Deus a Abraão. Ele recebe o nome e é circuncidado. Ele não é de fora. Nasce dentro do povo eleito, através do ramo de Davi! Mas ele tem uma palavra de vida também para além do seu círculo.

3. Centrifugando...

Temos à nossa frente o texto introdutório à Carta de Paulo aos Romanos. Identifiquemo-lo com um trailer, com um cartão-postal multifacetado, uma fotomontagem, apresentando alguns pontos-chave, referenciais de seus conceitos e de sua atuação a serviço da causa divina. Algumas amostras destacadas:

a) servo de Jesus Cristo: esta caracterização é importante, na medida em que se tem como pano de fundo a realidade de alguém perseguidor da cristandade, alguém limitado pelo apego cego à visão imposta pelo império romano, alguém que, no entanto, experimenta uma grande guinada, uma caminhada de profunda transformação na compreensão de mundo, fé e vida (Atos 9). Aqui transparece a convicção de fé, a novidade que fundamenta uma postura diferenciada. Quem fafa e age é o novo propulsor, Paulo, a serviço de Jesus Cristo (v. 1).

b) Evangelho de Deus: o culto imperial, os diversos grupos religiosos e as seitas emergentes no contexto político, social e espiritual configurava uma crise entre as relações de poder. Separado para o Evangelho de Deus (v. 1) enfoca o ponto do qual emerge a fé incandescente: Deus. Há uma ruptura no entendimento religioso e político, pois, a política estava essencialmente impregnada de religião, e separar uma da outra era impossível. O culto formava o laço de união, dava coesão a toda a sociedade (A bem-aventurança da perseguição, p. 16). Alijar, pois, as práticas religiosas não alinhadas ao divino imperador era a excelência do poder imperial. Dessa forma, na apresentação do cartão-postal, a referência explícita ao Evangelho de Deus aponta para o fundo especial sobre o qual surge, com firmeza, o ministério apostólico de Paulo.

c) prometido por intermédio dos seus profetas: os profetas têm um fator determinante na afirmação da fé em Javé que ouve, vê, sente e vem libertar o seu povo das amarras escravistas, injustas e opressivas impostas ao povo de Israel. Evocar a ação profética em sua apresentação à comunidade de cristãos e cristãs em Roma, atribui a Paulo, em seu ministério, uma indumentária específica: o Evangelho de Deus transcende o olhar dos profetas e encontra em Paulo uma extensão de sua radicalidade. Os profetas foram primorosíssimos defensores da justiça. Imbuir-se do espírito profético realça a dimensão do compromisso apostólico. O discernimento paulino respalda-se na acareação dos dois projetos: evangelho x império, que ele mesmo experimentou (Atos 9)). O projeto de vida abundante, o evangelho, sustenta a ação de Paulo fidedigna à compreensão do conteúdo da fé, alicerçada na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Articular a vocação profética oportuniza gestar o desprendimento (da lei) para o exercício da liberdade gerada pela graça (fé).

d) para a obediência por fé, entre todos os gentios: a fé em Jesus Cristo, o ressuscitado (v. 4) é sinal da aceitação da graça (v. 5) libertária suscitada pelo evangelho. A obediência ao Evangelho de Cristo resulta em apostolado (v. 5) que se fundamenta no amor de Deus (por nós) em Cristo e (de nós) por ele nas atitudes com o próximo numa relação de universalidade entre todos os gentios. O apóstolo (Paulo) compreende seu engajamento nesta tarefa como alguém separado (v. 1) para o exercício da fé na amplidão do mundo, na direção dos horizontes até os confins da terra (Atos 1.8). Portanto, a novidade é que no sistema de Cristo, tudo parte do evangelho que revela ser a salvação dom de Deus, graça e não mérito humano. O homem responde pela fé à graça de Deus; esta fé é confiança em Deus, acolhimento e receptividade em face do dom de Deus. A fé é vida no Espírito: ela procede do Espírito e leva a uma vida vivida pelo impulso do Espírito. O Espírito leva à justiça verdadeira, não a uma justiça fruto dos esforços humanos pelas suas práticas e obras, mas a uma justiça fruto da misericórdia e do perdão divinos. O Espírito é fonte de liberdade e constitui os filhos de Deus, cuja regra é a liberdade: já não dependem de leis nem de obras, nem de princípios, nem de poderes humanos (Evangelizar, p. 107).

e) chamados para serdes de Jesus Cristo (...) para serdes santos: eis a grande novidade de Paulo em seu projeto: quebrar as correntes da propriedade circundante de si própria, como comunidade exclusiva, para uma prática inclusiva; pois, os gentios têm acesso direto às promessas de Deus mediante a f é e não por se submeterem às prescri¬ções da lei (conforme Rm 3.21-24). Paulo estava convencido de que o judaísmo era algo bom, excelente mesmo e querido por Deus (conforme Rm 3.1-2). Mas era a caminhada de um determinado povo, o conjunto de seus valores peculiares, sua cultura. A boa-nova, o evangelho, transcendia a isso e podia perfeitamente encarnar-se em outras culturas. O gentio podia ser discípulo de Jesus conservando, diríamos hoje, sua identidade cultural própria (Ribla, p. 35). A novidade era constante motivo de crises e conflitos, que, porém, ajudam a elucidar a convicção de fé! Para Paulo, importava que o evangelho fosse anunciado, que atingisse as pessoas e as transformasse por graça em bênção de vida. Afinal, todos, judeus e não-judeus, são escravos do pecado (Rm 3) e todos carecem do perdão e são justificados não pelas obras da lei, e sim pela graça de Deus, pela fé em Jesus Cristo.

4. Nossa convicção - como está?

O evangelho está aí para ser proclamado para todas as pessoas e a todos os povos e nações no mundo. Quem por ele é atingido não permanece no mesmo estado e estágio de conhecimento e compromisso (ainda que alguns e algumas tentem descaracterizá-lo). Ele é libertador, profético, transformador, vivificador. Tê-lo como espaço de vida é como abrir uma porta que nos faz ver para além da moldura. Este abrir a porta põe-nos em movimento, direciona-nos e redimensiona o olhar na perspectiva do horizonte em toda a sua amplitude.

Somos acionados e acionadas pelo evangelho para o exercício da sua essencialidade, ou seja, o anúncio da graça, do dom gratuito de Deus, sem mérito e sem iniciativa de nossa parte. Deus manifesta a gratuidade do seu amor, chamando justamente os que estão mais longe dele. O evangelho para Paulo, assim detectamos, não é dirigido preferencialmente a uma nação por sua distante localização geográfica, mas também por sua distância no convívio humano, ético, social, moral. A missão, portanto, não se restringe a apenas levar o anúncio do evangelho a pontos geográficos distantes (Evangelizar, p. 122), mas abarca essencialmente a radicalidade do compromisso transformador da espiritualidade e da realidade circundante.

Novo ano! Abre-se nova porta. Podemos olhar para dentro dela. Há expectativas diante dos dias vindouros. O país está envolto nos acontecimentos pós-eleitorais. Há uma nova perspectiva. Novas pessoas. Novos ideais. Novos governantes que tentarão, quem sabe, reestruturar o país através de um novo governo que se mova numa prática fundamentada na dignidade, ética, verdade.

Fomos desafiados como nação mais uma vez ao longo do ano pré-eleitoral pelas estapafúrdias e ignominiosas forças maquiavélicas do poder cambial com suas garras mortíferas em nítida ingerência e interferência na soberania nacional. Quais as consequências para o povo? Por estes dias de elaboração destes subsídios o contexto é de altas e baixas, fluxos e refluxos na economia, nos balanços das bolsas de valores, investimentos, medos, frustrações. Não nos foge a pergunta: quem internamente tem interesse na instabilidade? Pesquisas eleitorais (confiáveis ou não!) apresentam tendências; as entrelinhas não deixam escapar que uma democracia popular participativa atinge o cerne do poder escravizador. Os grupos que detêm o domínio não admitem um redimensionamento na concepção de uso da res publica.

No âmbito da IECLB, é um tempo de repensar um reordenamento interno. Há reflexões em torno do já aprovado (imaturamente?!) minis¬tério missionário, ainda que (eventualmente tarde?) suscite uma série de perguntas, desafios, reargumentações, questionamentos! A criação do ministério missionário é reflexo de um casuísmo eclesiástico? Não é demonstração de desprezo pelos ministérios (catequético, diaconal, pas¬toral) até então reconhecidos e que levaram muitos anos para serem reconhecidos, apenas depois de comprovadas práticas? Eles não são missionários em sua essência e prática? Não está a fortalecer uma concorrência e desvalorização dos ministérios? O trabalho árduo, dedicado, exigente, nas antigas Novas Áreas de Colonização (NAC), no Mato Grosso, Rondônia, Acre, Nordeste, na Transamazônica, não foi missionário? Sem mencionar o trabalho junto aos povos indígenas? Não estão sendo jogados ladeira/barranco abaixo? Não é mais um sinal de força dissidente?

A garantia e a qualidade de ser missionário e missionária não residem em um título ou ministério específico, mas sim na prática convicta do evangelho de Jesus Cristo, alimentada pela fé a serviço da vida, como membros do corpo-igreja, unidos e unidas pelo batismo!

Convicção, uma profunda confissão de fé é apresentada pelo apóstolo Paulo, juntamente com sua apresentação a todos os amados de Deus em Roma. Em meio aos desafios que hoje atraem nossas atenções, ainda que motivados e iluminados pelo brilho do natal e dos vivas e bendizeres do Ano Novo, é fundamental que também nós, iluminados e iluminadas pela fé em Jesus Cristo, apresentemos como comunidade-igreja uma proposta de vida para ser vivida nos dias do novo ano. É momento de nos alegrar e render nossa gratidão a Deus pela possibilidade de abrir as portas do novo ano, dos nosso templos, de nossas casas, de nossas vidas para que os novos horizontes, sob a amplidão da fé, despertem-nos para a redescoberta do amor, da dignidade, da justiça, da participação solidária com gestos de inclusão.

Bibliografia

BRAKEMEIER, Gottfried. A justificação por graça e fé em Paulo e sua relevância hoje. Estudos Teológicos, São Leopoldo, n. l, 1976.
COMBLIN, José. Evangelizar. Petrópolis: Vozes, 1980.
KÜMMEL, Werner Georg. Síntese teológica do Novo Testamento. Sinodal: São Leopoldo, 1974.
LESBAUPIN, Ivo. A bem-aventurança da perseguição. Petrópolis: Vozes, 1977.
MOSCONI, Luis. Paulo Apóstolo: fidelidade a Jesus Cristo e ao reino no meio dos conflitos. Vozes: Petrópolis, 1987. (Estudos Bíblicos, 12)
RIBLA. Paulo de Tarso - Militante de fé. Vozes: Petrópolis, 1995.

Proclamar Libertação 28
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ano Novo

Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 7
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2002 / Volume: 28
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7186
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