Romanos 1.1-7

Auxílio homilético

01/01/1991

Prédica: Romanos 1.1-7
Leituras: Gênesis 17.1-13 e Lucas 2.21
Autor: Martin Volkmann
Data Litúrgica: Ano Novo Circuncisão e Nome do Senhor
Data da Pregação: 01/01/1991
Proclamar Libertação - Volume: XXVI
Tema: Ano Novo

1. Primeira impressão: surpresa

Ano novo lembra festa, alegria, fogos de artifício. O velho se vai, algo novo vem. Com isso se renovam as esperanças, são colocados novos propósitos. Procura-se esquecer o que de ruim houve no ano que passou; tudo é satisfação e expectativa pelo novo que vem.

O tema e os textos propostos pela nova ordem surpreendem: nada têm a ver com o que normalmente o ano novo sugere e com o clima reinante. Além disso, o que o tema circuncisão tem a ver com a comunidade cristã? Os textos surpreendem, além disso, pela aparente falta de relação entre os três, ainda mais que em Rm 1.1-7 não há referência à circuncisão.

Em meio a estas surpresas, uma tentativa de explicação e busca de saída. O tema circuncisão neste dia (1° de janeiro) não se relaciona com o momento ano novo, mas se deve à data em relação ao Natal: Quando se completaram os oito dias para a circuncisão... (Lc 2.21). E como o tema circuncisão está um tanto distante da comunidade cristã, a saída é partir do texto da Carta aos Romanos, onde o assunto não é abordado expressamente, mas onde talvez haja uma aproximação por via indireta. Rm 1.1-7 é, pois, a opção como texto de pregação.

2. O texto no seu contexto

Rm l. l -7 é o prescrito da carta, como o encontramos na mesma estrutura em todas as cartas autênticas de Paulo: remetente, destinatários e saudação (cf. l Co 1.1-3; 2 Co 1.1-2; Gl 1.1-3; Fp 1.1-2; l Ts 1.1). Cai na vista aqui a forma bastante extensa de Paulo caracterizar a si como remetente — por sinal, a única vez em que ele aparece sozinho como tal:

— há vários adjetivos que o qualificam — v. 1;
— é descrito em síntese o evangelho que ele prega, inclusive fazendo uso de um credo cristológico — vv. 2-4;
— é enfatizada a missão específica de Paulo — vv. 5-6.

Assim, o texto tem a seguinte estrutura:

1. Remetente — vv. 1-6
1.1. Paulo, apóstolo do evangelho — v. l
1.2. Síntese do evangelho — vv. 2-4
1.3. Apostolado entre todos os povos — vv. 5-6
2. Destinatários — v. 7a
3. Saudação — v. 7b

Dentro desta estrutura global, olhando mais especificamente para a disposição dos termos ao longo do texto, cai na vista o seguinte: Jesus Cristo representa a espinha dorsal do texto. Seu nome é mencionado de saída, em conexão com o nome de Paulo, e no desfecho, na saudação. Entre estes extremos, Jesus reaparece no início do v. 3, na referência ao Filho de Deus, para caracterizar o evangelho, e no final do v. 6, para caracterizar a comunidade de Roma. E bem no centro do texto, no final do v. 4, o nome reaparece em conexão com o título máximo em forma de confissão de fé básica: Jesus Cristo nosso Senhor.

V. 1 — Três coisas caracterizam o remetente da carta: ele é servo de Jesus Cristo, vocacionado para apóstolo e destinado para o evangelho. O termo servo (dulos) expressa, de um lado, a pertença total a Jesus e, por outro lado, a missão sob incumbência de ordem superior, à semelhança de Abraão (SI 105.42), Moisés (Nm 12.7s.; Js 14.7; l Sm 8.53), Josué (Js 24.30), Davi (2 Sm 7.5; SI 78.70). Ele vem como alguém que tem autoridade, o que é destacado ainda mais pelo termo apóstolo, usado aqui de forma absoluta, sem artigo ou complemento: ele é o enviado autorizado, detentor de um dom específico (vocação direta por Jesus Cristo) e de uma tarefa específica (pregação do evangelho). Esta sua situação específica Paulo se sente obrigado a destacar diante da comunidade que não o conhece, mas que provavelmente conhece as contestações do apostolado de Paulo: ele foi vocacionado (kletos), portanto, ele não vem por iniciativa própria; mais ainda, ele foi reservado, separado, destinado (aforísmenos) por Deus e para Deus, ou seja, para o evangelho.

Vv. 2-4 — Este evangelho Paulo expõe diante dos leitores desconhecidos para fundamentar assim a sua autoridade apostólica. Ele o faz em duplo sentido: uma vez, apontando para a antiguidade do evangelho — ele já foi anunciado anteriormente pelos profetas (v. 2). Com isso o anúncio deste evangelho diante de todos os povos tem base na Escritura e se dá na continuidade da ação profética: ele é agora a promessa escatológica em sua plenitude (Schlier, p. 22). Mais ainda, este evangelho, baseado na Escritura e que agora é anunciado para todos os povos, une todos, judeus e pagãos, sob o mesmo e único Senhor.

Por outro lado, Paulo caracteriza o conteúdo deste evangelho: ele é a boa nova do Filho de Deus, Jesus Cristo nosso Senhor (vv. 3-4). O v. 3 se liga diretamente ao v. 1b (o v. 2 é uma inserção) e o v. 4b é um comentário de Paulo ao credo cristológico que ele cita aqui. A primeira parte do credo (v. 3b) destaca que o Cristo se torna homem da descendência de Davi, ou seja, como o messias prometido.

Segundo a carne reforça isso, apontando para a humanidade de Jesus dentro das coordenadas humanas e num determinado momento histórico, isto é, enviado p;u;i os judeus (cf. Gl 4.4). A segunda parte do credo (v. 4) destaca o poder universal do Filho de Deus exaltado (em poder), à base, respectivamente a partir da ressurreição. Jesus não é o Filho de Deus apenas a partir da ressurreição, mas na ressurreição Deus lhe confere o poder do senhorio universal sobre todo o cosmos. A esta posição ele é galgado pela força do Espírito da santidade, ou seja, pelo agir do próprio Deus. Por isso — eis o comentário de Paulo — Jesus Cristo é nosso Senhor. Como Kyríos ele é o representante de Deus a quem pertence todo o cosmos e que, em meio à velha criação, inicia a nova.

Vv. 5-6 — No senhorio universal de Cristo se baseia a situação específica ser um agraciado (charís) — e a missão universal de Paulo — ser apóstolo (apostole). A graça é o evento salvífico fundante em Jesus Cristo que tem como conseqüência o apostolado. Ambos Paulo recebe do próprio Cristo; portanto, ele é pessoa autorizada para fazer o que faz.

Seu apostolado tem tripla finalidade:
— levar pessoas à obediência da fé, ou seja, desafiar as pessoas a aceitarem a mensagem da salvação;
— fazer missão entre todos os povos: ao senhorio universal de Cristo corres ponde a missão universal;
— isto se dá por causa do seu nome, isto é, importa que o senhorio universal de Cristo seja reconhecido.

Entre estes povos (ethne = pagãos) se encontram os destinatários da carta. Mas eles já não são mais pagãos; como Paulo, eles são chamados de Jesus Cristo, pertencentes ao Cristo.

V. 7a — Além de chamados de Jesus Cristo, os destinatários são caracterizados como amados de Deus, isto é, eles são o Israel do cumprimento, e santos, aqueles que se encontram na área da justiça de Deus.

V. 7b — A eles Paulo saúda, desejando-lhes graça e paz. Não se trata de um estado emocional de tranquilidade, mas da transmissão de uma realidade espiritual: é a dádiva escatológica da graça salvífica que os envolve totalmente e lhes proporciona uma vida sem medo. Esta dádiva procede de Deus, por intermédio do Senhor Jesus Cristo.

Em resumo, diante da comunidade desconhecida, mas à qual Paulo se sente ligado por ambos fazerem parte dos chamados de Jesus Cristo, o apóstolo se apo¬senta, destacando sua vocação e envio por Deus e expondo resumidamente o conteúdo de seu evangelho: Jesus Cristo, o Filho de Deus, é o Senhor universal. Dele Paulo recebeu o apostolado, a fim de fazer nascer a obediência na fé entre todos os povos.

3. O texto e os demais textos

Circuncisão é o assunto nos dois outros textos propostos para este dia. Gn 17 trata da aliança entre Javé e Abraão, entre Javé e a descendência de Abraão (vv. 4-8). A circuncisão é o sinal desta aliança, sinal da pertença ao povo da aliança e do compromisso com o Deus da aliança. Mas a circuncisão levou justamente ao exclusivismo e ao isolamento do povo judeu. Em Lc 2.21 é mencionada a circuncisão de Jesus, junto com a denominação, ou seja, Jesus faz parte do povo da aliança. Rm l destaca a vinculação de Jesus com o povo da aliança: ele é da descendência de Davi e o cumprimento da promessa. Mas com este Jesus se dá algo novo: ele é o Senhor universal sobre todos os povos e todo o cosmos. Ele é o cumprimento escatológico da aliança de Deus com todas as nações. Nele está rompido o exclusivismo da circuncisão. Agora está criada a comunidade escatológica dos chamados de Jesus, à qual pertencem todos os povos, judeus e pagãos. O sinal da nova aliança é a obe¬diência da fé.

4. O texto e o nosso contexto

1. A aliança com Abraão, que era para ser uma bênção para todos os povos (Gn 12.2-3), leva ao exclusivismo e confessionalismo centrados na circuncisão. O que era para ser universal se torna regional, local, particular. Jesus se submete ao rito — ele é o messias prometido —, mas ao mesmo tempo rompe este exclusivismo. Ele é o salvador de todos. Este é o evangelho de Paulo: mensagem de salvação para todos os povos. Todos estão inseridos na aliança da graça e da paz, que provém de Deus por intermédio do Senhor Jesus.

Ainda hoje o exclusivismo e o confessionalismo são realidades marcantes: a Igreja está dividida em confissões que muitas vezes, justamente a nível local, se excluem mutuamente. Dentro das confissões, grupos de pessoas são marginalizados: excepcionais, negros, homossexuais são vistos com maus olhos; mulheres são excluídas do ministério; posicionamentos teológicos divergentes são demonizados.

Diante desta realidade importa destacar o evangelho de que Jesus Cristo é o Senhor universal que rompe todas as barreiras e inclui todos sob a mesma graça: todos são chamados, todos são amados, todos são santos. Ali onde a obediência da fé, que reconhece o agir salvífico de Deus em Jesus Cristo, é assumida, rompe-se todo exclusivismo e marginalização. Mas onde permanecem tais sintomas, ali ainda se está sob a obediência da lei.

2. 1° de janeiro é o dia da confraternização universal. Talvez por isso o ano novo seja saudado tão festivamente nos quatro cantos do mundo. Ou será o inverso? Os festejos em toda parte levaram a que se declarasse esse dia como tal? Seja como for, em meio a todo foguetório, brindes, palavras de otimismo não dá para esquecer a realidade conflitiva e contraditória em que vivemos. Cada vez mais se acentua o conflito norte/sul — os ricos ficando cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. E não só a nível de hemisférios ou de impérios. O mesmo se dá a nível interno. Enquanto escrevo estas linhas, estamos em ritmo de inflação galopante, com empobrecimento generalizado da população, na expectativa da posse do presidente eleito. Terá mudado a situação?

Diante desta realidade importa destacar o senhorio universal de Jesus sobre to¬dos os poderes. Nossa realidade é tão conflitiva e contraditória, porque outros senhores postulam o lugar do Senhor universal. Importa destacar o seu nome que está acima de todos os nomes.

3. Todo o festejo do ano novo pode encobrir uma falta de paz interior e de objetivo de vida. Os excessos nestes festejos revelam justamente a ausência de algo mais consistente e de valor. De outro lado, observa-se uma busca intensa de uma base sólida para a vida em novos movimentos religiosos, cristãos ou não-cristãos.

Diante desta necessidade importa anunciar o evangelho do Senhor Jesus Cristo, que diz para cada um individualmente e como comunidade que eles são amados, santos e chamados de Jesus Cristo e que para eles são oferecidas a graça e a paz, não como mera tranquilidade emocional, mas como realidade espiritual.

4. Diante de tantas ofertas de cunho religioso e de tantos outros desafios e pró postas como solução para os problemas pessoais, sociais e mundiais; por outro Ia do, diante de tantas fraudes e manipulações da boa-fé justamente de pessoas mais humildes por parte de falsos pastores — diante disso tudo se levanta com maior intensidade a pergunta pela autoridade do mensageiro.

Paulo enfatiza sob vários aspectos a sua autoridade como apóstolo e a genuinidade de seu evangelho. Como conseguir isso hoje? Quanto à autenticidade do evangelho, o texto apresenta dois critérios: a fundamentação bíblica (v. 2) e a coerência com o credo cristão (vv. 3-4). Isso não significa biblicismo puro e simples nem mera repetição de credos antigos (inclusive Paulo faz acréscimos substanciais ao credo antigo!), mas continuidade genuína com estas fontes da fé. Significa dizer nas palavras de hoje o que os antigos disseram nas suas.

Quanto à autoridade do pregador, esta não se consegue com autoritarismo nem com um fundamentalismo biblicista e/ou confessionalista. Porque estes poderão ser mera fachada para esconder falsas intenções. Veja os exemplos de fraudes entre tele-evangelistas, falsos sacerdotes, pastores pentecostais! Autoridade só se consegue com coerência de vida e de palavra. Se nosso testemunho for coerente com o testemunho bíblico e do credo, também teremos autoridade para dar este testemunho.

5. A pregação do texto

Uma pergunta fundamental é se se vai tomar o assunto circuncisão como tema do culto, tal como é sugerido pela ordem de leituras. Neste caso pode-se fazer uma rápida referência inicial a Gn 17, lido anteriormente, apontando para a importância positiva da circuncisão (sinal da aliança), mas também as consequências negativas (exclusivismo, formalismo). Também a referência a Lc 2.21 será importante. A seguir poderão ser desenvolvidos os tópicos da reflexão anterior, apontando para a novidade sempre nova e atual de Jesus Cristo, o Senhor universal e por isso escatológico, como Paulo faz na introdução da carta. Caso não se queira tematizar o assunto circuncisão, poder-se-á, aproveitando o texto de Gn 17 como leitura, centrar a reflexão no tema aliança, enfatizando a seguir em que sentido Jesus é a consumação desta aliança na nova aliança para todos. Também aí podem-se seguir os tópicos da reflexão anterior, sem uma atenção maior ao item l.

6. Subsídios litúrgicos

1. Intróito: 2 Co 5.17 ou Gl 6.15s.

2. Leitura bíblica: Gn 17.1-13 e Lc 2.21.

3. Confissão de pecados: Iniciamos hoje um novo ano. Atrás de nós estão 365 dias de boas realizações, mas também de muitos fracassos e propósitos não atingidos. Que tu nos acompanhaste no ano que passou, por tua proteção e bênção nós te agradecemos. Pelo nossos fracassos e erros te pedimos por teu perdão. Onde deixamos de amar, perdoa-nos nossa falta de amor. Onde ofendemos e ferimos outras pessoas, perdoa-nos nossa insensibilidade. Onde só pensamos em nós e não vimos nosso próximo ao nosso lado, perdoa-nos nosso egoísmo. Onde não percebemos teu amor e tuas dádivas que mantiveram nossa vida, perdoa-nos nossa falta de fé. Tem piedade de nós, Senhor.

4. Oração de coleta: Senhor Jesus Cristo, nós estamos aqui reunidos para ouvirmos a tua palavra. Por meio do Batismo tu nos fizeste participar da tua salvação. Mas nós facilmente esquecemos que pertencemos a ti. Por isso voltamos sempre de novo à tua presença para nos conscientizarmos de que tu és nosso Senhor e que em ti está a vida plena. Tua palavra é a fonte da vida. Por isso ilumina-nos com teu Santo Espírito e dispõe-nos para ouvirmos o que tu nos tens a dizer. Amém.

5. Elementos para a oração final:
— Agradecimento pelo ano que passou e pela oportunidade de um novo ano.
— Agradecimento pelo momento de culto e pela mensagem (retomar alguns aspectos).
— Pedido por proteção e orientação no novo ano.
— Intercessão pela Igreja, pelo que sofrem sob diversas situações, pelos necessitados da localidade.

7. Bibliografia

KÄSEMANN, E. An die Römer. In: Handbuch zum Neuen Testament. Vol. 8a. 2a ed. Tübingen. 1974.
NIGREN, A. Der Römerbrief. 3a ed. Göttingen. 1959.
SCHLIER, H. Der Römerbrjef. In: Herders Theologischer Kommentar zum NT. Vol. VI. Freiburg, Basel e Wien. 1977.
SCHMIDT, H. W. Der Brief des Paulus an die Römer. In: Theologischer Handkommentar zum NT. Vol. VI. Berlin. 1963.
WILCKENS, U. Der Brief an die Römer. In: Evangelisch-Katholischer Kommentar zum NT. Vol. VI/1. Neukirchen e Vluyn. 1978.


Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia
 


Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Ano Novo

Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 7
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1990 / Volume: 16
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 11401
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É totalmente insuportável que em uma Igreja cristã um queira ser superior aos outros.
Martim Lutero
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