Romanos 1.1-7

Auxílio Homilético

24/12/2007

Prédica: Romanos 1.1-7
Leituras: Isaías 11.1-9 e Lucas 2.1-7
Autor: Alfredo Jorge Hagsma
Data Litúrgica: Noite de Natal
Data da Pregação: 24/12/2007
Proclamar Libertação - Volume: XXXII

1. Introdução

É a quarta vez que esse texto aparece como motivo de pregação desde o início da série Proclamar Libertação (1990, 1999, 2002 e 2008). No entanto, é a primeira vez que ele é indicado para pregação na véspera de Natal. Nas outras vezes, ele foi refletido no primeiro domingo após o Natal. Apesar da proximidade e afinidade entre as datas litúrgicas, creio que podemos trilhar por um viés diferente. Os textos auxiliares (Lc 2.1-7 e Is 11.1-9) têm estreita relação com o texto em questão. O evangelho narra o nascimento de Jesus; o profeta Isaías anuncia a nova realidade que o nascimento desse descendente do rei Davi vai trazer. Esse descendente “será como um ramo que brota de um toco, como um broto que surge das raízes”. O Espírito de Deus estará sobre ele. Por isso ele terá sabedoria, conhecimento, capacidade e poder. As pessoas necessitadas serão julgadas com justiça, e os pobres terão seus direitos res- peitados. Os v. 6-9, de forma comparativa, apresentam uma realidade sonhada. Lobos, ovelhas, leopardos, cabritos, bezerros, leões, vacas, ursas, bois, crianças e cobras poderão conviver em paz e harmonia. É a utopia da paz que valoriza as diferenças. Com o nascimento de Cristo (Lc 2.1-7) essa nova realidade (Is 11.1-9) vai ser inaugurada em nosso meio. Paulo, servo e apóstolo de Cristo fala, nesses primeiros versículos da Carta aos Romanos, dessa boa-nova que é o evangelho de Cristo e de sua responsabilidade em fazer esse tesouro chegar a todas as nações e também aos que moram em Roma.

2. Informações exegéticas

Em todas as suas cartas, Paulo faz uma breve apresentação e introdução do conteúdo a ser apresentado. A carta de Paulo aos Romanos não foge à regra. Quando Paulo escreve essa carta, ele ainda não havia tido oportunidade de conhecer a comunidade de Roma pessoalmente. Do ponto de vista teológico, pode-se dizer que essa é a mais importante de todas as cartas de Paulo. “Esta epístola foi escrita, provavelmente, por volta do ano 55, durante uma permanência de Paulo na cidade de Corinto. Tanto pelo seu conteúdo como pelas características literárias, assemelha-se à epístola enviada às igrejas da Galácia. As duas pertencem a mesma época e revelam interesses doutrinários semelhantes. O que não se sabe é qual delas foi escrita primeiro. Por isso alguns vêem em Romanos uma exposição ampliada, muito refletida e serena da breve epístola aos Gálatas, enquanto que outros pensam que Gálatas é uma espécie de síntese de Romanos.” (Introdução à Carta de Paulo aos Romanos – Bíblia de Estudo Almeida – Revista e Atualizada)

Esses sete primeiros versículos fazem parte do prólogo. Ali Paulo diz quem ele é e o que pretende anunciar. A saber: a boa-nova prometida por Deus por meio de seus profetas e escrita nas Sagradas Escrituras (v. 2). Essa boa-nova anuncia Jesus Cristo como Senhor (v. 3). Não qualquer senhor, mas aquele provindo de Deus, que ressuscitou (v. 4). Paulo não escreve partindo de sua própria autoridade, mas como apóstolo a serviço de Deus. Com essa carta Paulo pretende passar seus conhecimentos teológicos à comunidade de Roma.

O evangelho (Lc 2.1-7) dispensa maiores informações exegéticas. Trata-se de um texto clássico: a narrativa do nascimento de Jesus. Lucas apresenta a situação social da época. Sob o poderio do imperador Augusto, todos os cidadãos do império precisam participar do senso a fim de ser feita uma contagem da população. Cada um deve dirigir-se à sua cidade natal para esse senso. José vai a Belém. E, enquanto estão na cidade, Maria dá a luz um menino. É uma realidade de dominação. Todas as pessoas são obrigadas ao senso, e de exclusão, tendo em vista que não são garantidas as condições mínimas nem mesmo para uma mãe na hora do parto. Paulo diz que há muito tempo essa boa-nova foi prometida por Deus por intermédio de seus profetas. Nesse sentido, o profeta Isaías (11.1-9) faz referência a um rebento que sairá do tronco de Jessé. Sobre esse repousará o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor (v. 1,2). Nos v. 3-11, de forma analógica, o profeta apresenta uma nova realidade que esse esperado Messias implantará. Esse Messias anunciado pelo profeta é o próprio Cristo.

Há perfeita sintonia entre as três leituras propostas. O Evangelho de Lucas 2.1-7 relata o nascimento do Messias, o profeta Isaías anuncia a nova realidade a ser implantada por esse Messias e o apóstolo Paulo, no texto que temos como base para a pregação (Rm 1.1-7), coloca-se como servo desse Messias. Ele tem a função de fazer levar adiante a mensagem desse Messias prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras. Creio que os aspectos exegéticos aqui abordados são suficientes para a compreensão do texto em questão. No entanto, para quem desejar um aprofundamento exegético desse texto, considere o Proclamar Libertação vol. 25, p. 55s., como preciosa sugestão.

3. Meditação

É noite de Natal. Provavelmente o templo está superlotado. As pessoas estão ansiosas por uma mensagem cativante. Todos os anos, nessa noite, o foco principal da mensagem é o mesmo: nasce o menino Jesus numa estrebaria, entre animais, porque para ele não havia lugar na cidade organizada. Mas isso não é problema. Agora tudo está tranqüilo. Canta-se “Noite Feliz”. Todo mundo vai para casa contente para celebrar a ceia, e tudo estará bem. A tragédia transforma-se em romance. A situação de exclusão não entra em questão. Não é atualizada, apenas maquiada, bem perfumada. “Que Natal estranho” – afirmou o pastor e teólogo luterano Milton Schwantes numa reflexão que sugiro como base para a mensagem na noite de Natal.

Este é um tempo festejado ano após ano; o Natal não deixa de pôr seus acentos. A gente o vê em toda parte. Comemora quem crê. E também festeja quem não crê. E convém que assim seja. Afinal, Deus está conosco no Natal. A gente se alegra com esta maravilha que é nosso Deus. Não é mera idéia. Nem é alguma ilusão. E muito menos um tipo de construção. Ele é presença entre nós.

Tudo isso é muito concreto. Tem data e local. Acontece em Belém, na manjedoura, em torno de um menino. Assim aparece a amizade de Deus por nós: concreta, palpável. Vale a pena comemorar tamanha amizade, tão maravilhoso aconchego de Deus em nossa vida. O que, aliás, vale para crentes e descrentes. Mas, por falar em manjedoura, que estranho! Parece não caber no quarto. Por isso os presépios tanto a enfeitam. Embelezam sua feiúra. Escondem seu mau cheiro. De todo jeito, foi na manjedoura que floriu a amizade de Deus. Estranho!

E Herodes não gostou. Mandou procurar o menino. Pediu que fosse denunciado seu paradeiro. E para apanhá-lo, mandou logo matar duas mil crianças que corriam pelas ruas de Belém. Herodes, esse chefe todo-poderoso, não se agradou dessa amizade de Deus. É que Deus vem a nós de jeito estranho, inesperado. Faz-se rodear por gente que nem parece ser, por esses tipos que vivem junto às manjedouras e aos lixos do mundo. Começa por convidar pastores de ovelhas, gente difamada e malvista. Convoca doentes e doidos. Felicita empobrecidos. E tudo fica às avessas.

Estava tudo tão claro e ordenado. Uns no poder e outros excluídos de tudo. Herodes lá no palácio. E os demais cá na miséria. Todos já se haviam acostumado. Davam-no como aceito, normal, quase natural. E Deus põe tudo às avessas. Não vai ao palácio, para nascer por lá. Vem pela manjedoura, rodeado de gente desfigurada, com cara e cheiro dos porões da humanidade. Que Natal estranho!

Na introdução à Carta aos Romanos (1.1-7), o apóstolo Paulo coloca-se a serviço da pregação do evangelho como servo de Deus. Ele quer e precisa anunciar a história da salvação, e isso significa da manjedoura à cruz. Sem esconder nada. Nós que ousamos pregar o evangelho também estamos nessa mesma condição. Justamente por isso precisamos tomar cuidado para não acabar maquiando a realidade do Natal. O Natal vai continuar sendo estranho aos olhos de Deus se a realidade do nascimento de Jesus não for apresentada.

4. Pregação

Certamente a celebração da noite de Natal é marcada por muitas participações: as crianças trazem sua mensagem, os jovens e outros departamentos da comunidade. Pelo menos é assim em muitas comunidades, de tal sorte que o tempo para pregação propriamente dita fica restrito. No entanto, creio que é importante não deixar passar em branco os aspectos abordados no ponto anterior. Sugiro a seguinte estrutura:

1) A comunidade que se reúne é comunidade de servos e servas de Jesus Cristo. Nesse sentido, a comunidade tem a incumbência de anunciar o evangelho sem maquiagem.

2) O nascimento de Jesus naquelas condições denuncia a falta de espaço na sociedade organizada para milhões de crianças. Paulo escreve essa carta para anunciar a boa-nova, e essa não pode esconder a realidade, muito antes a denuncia.

3) Quais as consequências do crer e obedecer (v. 5) para a comunidade local?

4) Assim como Deus chamou a comunidade de Roma para ser de Cristo, também a comunidade local pertence a Cristo. Que implicação tem este “pertencer a Cristo”? (v. 6.7)

5) A comunidade de Cristo é abençoada com palavras de graça e paz. Que implicações tem para a vida comunitária ser gente abençoada? Em resumo, penso que a pregação deve apontar para a razão do ser comunidade cristã. Vivemos numa realidade em que a grande maioria professa a fé cristã; no entanto, a situação denuncia uma fé sem comprometimento.

5 Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados:
Bondoso Deus, quantas vezes ficamos indignados com os donos das pensões de Belém. Por que eles não deram abrigo a José e Maria? Como foram deixar uma mulher grávida repousar numa estrebaria? Quão insensíveis foram eles! No entanto, amado Deus, ainda hoje milhares de crianças continuam nascendo sem nenhuma proteção e dificilmente ficamos indignados, fechamos nossos olhos. Talvez por isso tentamos a todo custo pintar com beleza o teu nascimento. Perdão, Senhor. Percebemos que o nosso compadecer por tua situação é demagogia. Perdão, Senhor, perdão, por amor do Jesus menino. Amém.

Proclamação da graça:
Desejamos mudar de vida, desejamos um Natal diferente, desejamos perdão e Deus o dá a todas as pessoas que sinceramente se arrependem. Assim, proclamo o perdão que vem Deus com as palavras do apóstolo Paulo: “Que a graça e a paz de Deus, o nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com vocês”.

Oração do dia:
Querido e amado Deus, mais uma vez queremos celebrar o nascimento de teu amado filho Jesus. Reconhecemos que temos encontrado dificulda- des para celebrar de forma digna esse aniversário. Temos comercializado o nascimento do filho de Deus, vendemos e compramos esse tão sublime acontecimento como qualquer outra mercadoria. Perdão, Senhor, perdão. Queremos novamente voltar ao sentido pleno desse dia. Queremos a paz de teu nascimento, a humildade, a entrega e a justiça. Vem nascer em nossos corações. Rogamos a Deus para que o Jesus da manjedoura possa encontrar lugar em nossa vida. Por Cristo. Amém

Bênção:
Que o Deus menino com sua humildade e simplicidade vos abençoe e vos guarde; que o Deus menino faça resplandecer o seu rosto sobre vós, tenha misericórdia de vós; que o Deus menino sobre vós levante o seu rosto e vos dê a paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Bibliografia

KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1973. p. 395-416.
CELEBRAR NATAL em família e comunidade. São Leopoldo: Sinodal, 2006.

 


Autor(a): Alfredo Jorge Hagsma
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: Véspera de Natal
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 1
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18545
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