Romanos 11.25-32

Auxílio homilético

22/08/1976

Prédica: Romanos 11.25-32
Autor: Klaus van der Grijp
Data Litúrgica: 10º. Domingo após Trindade
Proclamar Libertação - Volume: I


I - O destino de Israel

Nos capítulos 1-8 da epístola aos Romanos, Paulo da uma longa exposição sobre o plano salvífico de Deus e sobre a fé em Jesus Cristo, mediante a qual a salvação é oferecida ao homem pecador. No fim do capitulo 8, que trata da certeza da fé, ele parece atingir um clímax absoluto, uma altura espiritual que não mais poderá ser superada. Mas logo a seguir, no capítulo 9, surge uma pergunta angustiante: Se a promessa da salvação foi feita primordialmente a Israel, e a promessa se cumpriu em Jesus Cristo, como se explica então que a maioria do velho povo não quis reconhecer Cristo como seu Messias? O que torna este problema tão grave para o apóstolo e em primeiro lugar a própria credibilidade do evangelho, que parece desafiada pela atitude negativa dos judeus; em segundo lugar também a profunda afeição que Paulo esta sentindo por este povo, que é seu próprio povo e com cujo destino ele se sabe intimamente solidário. Segue-se, portanto, uma profunda reflexão sobre o lugar de Israel no plano salvífico de Deus, a qual finalmente é resumida nalgumas conclusões. E estas conclusões constituem o nosso trecho. A primeira palavra-chave é o endurecimento que veio sobre Israel. Com isso, o apóstolo consegue dar nome ao enigma que atormentava seu espírito; e dando-lhe nome, lhe tira o horror abismal. Não aconteceu nada imprevisto, nada que estorvasse inesperadamente os desígnios de Deus. A rejeição de Cristo da parte de Israel é uma fase necessária no processo salvífico; é um acontecimento que Deus dispôs, ou permitiu, e que Ele usará a sua maneira para a realização de seus objetivos.

Por isso Paulo ganha plena confiança para formular a tese de que todo o Israel será salvo. Nas reflexões anteriores, a constatação do endurecimento o obrigou a admitir a noção do remanescente (9.27; 11.5-10): só uns poucos dentre o povo eleito alcançariam o cumprimento da promessa, como também os profetas o haviam anunciado. Mas agora Paulo pode declarar que essa noção não é a verdade última com respeito ao plano de Deus; ela é uma necessidade provisória, ela pertence à estratégia da salvação, mas um dia a salvação se tornará extensiva a todo o Israel. É usado aqui um termo hebraizante, que no Antigo Testamento se refere ao povo reunido em santa assembléia diante do Senhor. Deus se lembrará das suas promessas,da sua aliança com os pais, e lhes guardará fidelidade. A citação veterotestamentária alude à aliança de Jr 31.33, que é aliança nova e ao mesmo tempo prolonga a antiga, porquanto a desobediência do povo não pode anular a fidelidade de Deus. Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. Existe na Bíblia a noção de que Deus pode revogar certas decisões suas, ou arrepender-se delas. Portanto Paulo não argumenta aqui com a imagem de um Deus impassível, eternamente imutável, como é o Deus dos filósofos. Mesmo acompanhando os homens ao longo da história, mesmo sentindo dor, desilusão e aborrecimento, Ele permanece fiel a sua palavra empenhada. Os dons que Ele deu - os carismas, diz o texto original - são como semente que Ele espalhou um dia no campo do mundo; semente que todos os espinhos da maldade humana não poderão sufocar. A sua vocação é sempre vocação eficaz, ela é evocadora como a sua própria palavra, e não voltará vazia para Deus.

Mas Paulo sabe dizer mais sobre o endurecimento de Israel. Não se trata de um simples incidente no processo da salvação, de uma simples retardação, que Deus previu e vencerá. O endurecimento de Israel está positivamente relacionado com a salvação dos gentios, que entrarão na glória enquanto os primeiros convidados se demorarem. É retardação, sim, mas uma retardação expressiva da longanimidade de Deus; pelo endurecimento Ele se manifesta como um Deus paciente, um Deus que sabe esperar. Entra o fator tempo como expressão da graça do Senhor. O próprio tempo que transcorre entre o endurecimento de Israel e a sua salvação final é como um convite para os gentios se converterem. Assim se estabeleceu um nexo entre a exposição de Rm 1-8, sobre a justificação pela fé em Cristo, e a problemática levantada nos capítulos seguintes. A atitude negativa de Israel, longe de contestar a verdade do evangelho, cria as condições para que este possa se tornar operante entre os gentios. E a salvação dos gentios, por sua vez, efetuará misteriosamente o cumprimento da promessa para todo o Israel. Parece que Paulo está descobrindo a trama escondida da história salvífica: dados que de início eram julgados irreconciliáveis, mutuamente exclusivos, aparecem agora como sucessos complementares dentro de um plano divino perfeitamente coerente. E eis que da reflexão do apóstolo sobre o destino do seu povo endurecido resulta uma mensagem bem eloquente para os cristãos dentre os gentios.

II - Consequências para a igreja

Chegamos a entender o lugar da igreja na história da salvação. A igreja como ela é hoje em dia, a igreja composta de não-judeus e ocasionalmente também de uns poucos judeus conversos, a nossa igreja, é um episódio no plano de Deus com Israel. Ela é o lado positivo daquela mesma ação divina que no endurecimento do povo escolhido encontra o seu lado negativo. Paulo nos demonstra que as raízes do evangelho se encontram no Antigo Testamento e na aliança de Deus com Israel. As suas colocações decisivas com respeito à eleição, aos carismas, à vocação, a fidelidade de Deus se baseiam no Antigo Testamento. Vale para a igreja tanto como para Israel que virá de Sião o Libertador. A igreja não é uma grandeza independente, que nasce da palavra verticalmente, em qualquer tempo e lugar; muito menos ela é uma instituição salvífica autônoma, capaz de reclamar exclusivamente para si a autoridade dos apóstolos. Certo, ela nasce da palavra, mas de uma palavra inserida na história, de uma palavra que ganha a sua profundeza apenas se a entendemos a partir da Promessa feita a Israel. Ela se baseia na autoridade dos apóstolos, mas já a própria composição do colégio dos doze nos recorda o seu relacionamento com as doze tribos de Israel (cf. Mt 19.28 par). A igreja possui o seu tesouro apenas por participação nos bens confiados a Israel. Julgar de outro modo seria incorrer no erro do docetismo, ou seja: no erro de não levar a sério a encarnação da palavra de Deus na história. E efetivamente, a tentação do docetismo é grande. Muitas vezes consideramos o Antigo Testamento, na prédica e na devoção pessoal, como uma simples introdução ao próprio evangelho, como propedeuse que, em última análise, seria dispensável. Ou limitamo-nos a uma leitura edificante dos Salmos, sem enxergar que estes também querem ser entendidos, antes de mais nada, como cânticos de angústia e esperança do velho povo.

Até aqui falamos principalmente em termos de história. A igreja prolonga hoje o que Israel experimentou outrora. Usamos um esquema diacrônico ou de sucessão temporal dos fatos. Mas esse esquema não expressa toda a realidade da relação igreja-Israel. O Libertador não veio apenas uma só vez, lá no passado, de Sião, para residir doravante no sagrado recinto da igreja. Para nós, ele continua sendo Aquele que vem e Aquele que virá (assim nó nosso texto; observe-se que, no original hebraico da passagem citada, o perfeito consecutivo é presente e futuro ao mesmo tempo). No Advento a igreja costuma meditar sobre essa tríplice vinda do Senhor. E Sião está relacionada com os seus três aspectos. Igreja e Israel são grandezas simultâneas na história da salvação. O esquema diacrônico deve ser completado por um esquema sincrônico. Trata-se de confrontar a igreja de hoje com o Israel de hoje, e de reconhecer que eles continuam sendo como os dois lados da mesma moeda. Paulo enfatiza isso com a palavra agora, três vezes repetida nos vss. 30-31. Os cristãos gentílicos alcançaram misericórdia agora em vista da desobediência dos judeus; e assim também estes agora foram desobedientes, para que igualmente aqueles agora alcançassem misericórdia (o terceiro agora falta na tradução de Ferreira de Almeida, mas consta nos melhores manuscritos gregos assim como também, por exemplo, na tradução brasileira divulgada pela comunidade de Taizé). Admitindo-o ou não, encontramo-nos em tensão dialética com o velho povo da aliança, entrelaçados uns com os outros pela vontade salvífica de Deus. Essa tensão muitas vezes foi dolorosa no decurso da história. Muitas vezes os judeus tiveram que assumir o papel de inimigos por nossa causa. Pensando, porém, na realidade da eleição, não podemos deixar de amá-los. Nós, cá no Brasil, temos poucas sinagogas em nosso meio. Mas mesmo assim deveríamos fazer o possível para enxergarmos os fios espirituais que nos ligam com Israel, dando-lhes expressão visível quando houver ocasião.

E assim a igreja pode se entender como a plenitude dos gentios, ou dos povos, que entra na glória, enquanto que Israel está temporariamente afastado. A plenitude dos gentios é o número pleno e completo dos eleitos, ao qual aludem os apocalipses judaicos e também o de João (6.11; 7.4; 14.1). O que significa concretamente para nós o fato de pertencer a essa plenitude? Significa em primeiro lugar que pertencemos a ceifa que o Senhor está recolhendo em vista dos últimos dias, ou seja, que como igreja estamos compreendidos na dinâmica englobante da Missão de Deus. Às vezes a igreja está fraca, estagnada, desanimada; às vezes parece que ela perdeu a coerência por dentro e a orientação por fora. Mas em tais ocasiões a igreja deveria se lembrar de que ela faz parte de um movimento histórico-salvífico que nenhum poder no mundo poderá parar; que ela é, por definição, plenitude dos gentios a caminho da glória. Em segundo lugar quer-nos parecer que a expressão plenitude dos gentios nos ensina algo com respeito a estrutura ecumênica da igreja. Gentios, que nas línguas originais da Bíblia também quer dizer povos, sempre tem uma conotação de unidades étnicas ou culturais, de comunidades de pessoas; dessas comunidades é dito aqui que todas elas são reunidas para formarem uma plenitude,que é a igreja. Só a plenitude é igreja no sentido autêntico! E a comunidade particular é igreja na medida em que ela vive também a dimensão de comunidade universal. Em terceiro lugar - seja dito aqui de novo, em outro contexto - o fator que unifica as nossas comunidades, que nos converte numa só plenitude, é o povo de Israel no seu duplo papel de eleito e recusante. Israel é, em certo sentido, a pedra angular do ecumenismo cristão.

III - A graça soberana

Assim é que todos são um só corpo: patriarcas e apóstolos, o povo da velha e da nova aliança, a nossa comunidade e as comunidades em outras partes do mundo, a comunidade particular e a comunidade universal, igreja e Israel. Todos somos um só corpo, não em virtude da nossa opção, nem por amor ao universalismo, mas por sermos todos, na mesma medida , objeto do amor de Deus. Deus encerrou a todos na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. Quer dizer que todos nós nos encontramos diante de Deus no duplo estado de desobedientes e indultados, de pecadores e justificados. Todos nós estamos confrontados com a ira de Deus, aquela ira abismal que se reflete, no nosso texto, em conceitos como endurecimento e inimizade e que é resumida finalmente na expressão: Deus a todos encerrou na desobediência. É a ira perante a qual o homem se sabe culpado e condenado, mesmo nas suas melhores intenções. Mas é também aquela ira na qual, como diz Lutero, se esconde o amor de Deus. É o amor de Deus que se inflama contra o pecado, que nos persegue e nos cerca, até ter-nos encerrado na desobediência, para só então se revelar como misericórdia sublime e inaudita, como graça soberana que justifica o pecador. Queremos confiar o nosso destino a esse amor, individualmente, mas também e sobretudo como integrantes da plenitude dos gentios, e em comunhão com Israel.

E para terminar, voltemos ao início do nosso texto. Não quero, irmãos, que ignoreis este mistério. Reparemos uma vez na ambivalência desta expressão. Um mistério é por definição uma verdade impenetrável, inconhecível. Mas mesmo assim, este mistério não é fechado para nós. O apóstolo não quer que o ignoremos. A gente sabe, e não sabe. Essa é a forma na qual o agir de Deus nos é conhecido! Deus no-lo dá a conhecer, e ao mesmo tempo o mistério permanece mistério. Nunca passa a ser um conhecimento objetivo, a nossa livre disposição. é muito importante lembrarmo-nos disso quando meditamos o plano da salvação. Porque existe o perigo de sermos presumidos em nós mesmos. Presumido em si mesmo é aquele que fala do plano da salvação como se fosse um sistema racional e explicável. Há pessoas que usam a Bíblia como um compêndio de doutrinas que inclusive podem ser reduzidas a um fácil esquema sinótico: a eleição na coluna direita, a reprovação na coluna esquerda. Há também pessoas que sabem qualificar exaustivamente o judeu com dois ou três adjetivos de cunho tradicional, do mesmo modo como eles saberiam qualificar o negro, o romanista ou o yankee. Tudo isso é presunção, é desrespeito a verdade de Deus, que vem até nós em forma de mistério, na forma de um testemunho vivo, e não de um sistema fechado. Queremos abrir-nos para o agir de Deus como Ele se nos dá a conhecer. Queremos fixar os olhos no nosso Libertador, em Aquele que veio, vem e virá de Sião, e no qual Deus manifestou a sua misericórdia para com todos nós.


Proclamar Libertação 1
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Klaus van der Grijp
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 11º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 11 / Versículo Inicial: 25 / Versículo Final: 32
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1976 / Volume: 1
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7180
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