Romanos 12.9-12

Auxílio Homilético

28/08/2011

Prédica: Romanos 12.9-12
Leituras: Jeremias 15.15-21 e Mateus 16.21-28
Autoria: Alfredo Jorge Hagsma e Vera Regina Waskow
Data Litúrgica: 11º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 28/08/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV 

1. Introdução

As cartas apostólicas como um todo constituem um importantíssimo segmento do ensinamento neotestamentário, porque são um vasto celeiro de ensinamentos teológicos, doutrinários e morais. Elas marcam o momento em que a igreja sistematizou o conhecimento de Deus, até então expresso nos livros do Antigo Testamento, e desenvolveu, inclusive a partir da nova ótica trazida por Jesus Cristo, uma nova compreensão da forma como deveria relacionar-se com o Pai. Surge, nesse período, de forma mais clara e didática, a doutrina da Trindade, os temas do amor de Deus, do chamado dos gentios, da salvação pela fé em Jesus Cristo, da ressurreição dos mortos, da vida eterna e tantos outros.

As cartas de Paulo compreendem mais da metade de todo esse legado da igreja primitiva e estão entre os mais importantes documentos que nos têm chegado às mãos. Dentre as cartas de Paulo, certamente a Carta aos Romanos ocupa lugar de destaque. Alguém já a chamou de “evangelho dentro do evangelho”, dado à forma linear, sistemática, profunda e completa com que seu autor expõe sua compreensão do plano da salvação.

O texto indicado para a mensagem (Rm 12.9-12) para este domingo aponta, de maneira muito prática e concreta, para o agir e o viver da pessoa que tem a vida orientada pelo Espírito de Deus. Aparentemente, não revela as dificuldades do servir, mas enfatiza a alegria que esse servir pode proporcionar. Os demais textos – Jeremias 15.15-21 e Mateus 16.21-28 – apontam com muito mais ênfase para as dificuldades e para os sofrimentos inevitáveis e consequentes desse servir a Deus. Não obstante, os três textos relacionam-se e interagem a partir da entrega incondicional a Deus com todas as suas implicações.

2. Exegese

A Carta de Paulo aos Romanos tem sido, ao longo da história, um importante instrumento para o fortalecimento da fé cristã. A entrega e a confiança absoluta de Paulo à graça de Deus dão a esse escrito autenticidade e profundidade como poucos na história cristã. Essa carta foi escrita provavelmente por volta do ano 55 durante uma estada de Paulo na cidade de Corinto. “Alguns veem, em Romanos, uma exposição ampliada, muito refletida e serena, da breve epístola aos Gálatas, enquanto que outros pensam que Gálatas é uma espécie de síntese polêmica e veemente da epístola aos Romanos” (Introdução aos Romanos na Bíblia de Estudo Almeida). Em qualquer das hipóteses, o que importa saber é que os dois textos revelam conceitos fundamentais similares: o domínio do pecado sobre todos os seres humanos, a incapacidade da Lei de Moisés para salvar o pecador, a graça de Deus revelada em Cristo, a justificação pela fé e os frutos do Espírito. A Carta aos Romanos está dividida em duas partes principais: a primeira (1.16-11.36) é basicamente doutrinária, e a segunda (12.1-15.13), de recomendações práticas para a vida comunitária. No texto em estudo para a mensagem neste 11º Domingo após Pentecostes (Rm 12.9-12), inserido no segundo bloco, o apóstolo Paulo exorta a comunidade a viver de acordo com a “lei do amor”. Toda pessoa que confessa a fé cristã é chamada a pôr em prática essa “lei” em sua vida. Segundo Paulo, a fé manifesta-se no amor. A fé opõe-se a qualquer atitude de soberba pessoal ou coletiva. Nesse sentido, não se trata de “lei do amor”, mas simplesmente de amor consequente. Todo o capitulo 12 trata do serviço a Deus, da diaconia, que brota da fé. Segundo o texto em questão, esse serviço se pauta por questões bem concretas, que têm a sua origem no amor. Daí provêm a sinceridade, a distância de tudo o que é mau, o carinho de irmãos de um para com o outro, a preferência ao outro, ou seja, a negação do egoísmo, o entusiasmo, a alegria, a esperança, a paciência e, não por último, a oração. As principais versões em português (Almeida, Bíblia de Jerusalém e Linguagem de Hoje), se comparadas, não trazem elementos divergentes em suas traduções.

Não apenas os versículos em estudo, mas todo o capítulo 12 é basicamente um manual de orientações de como viver a vida conforme a vontade de Deus.

V. 9 – O amor pode ser fingido, pode ser “adulterado”; o mal precisa ser rechaçado e o bem seguido.

V. 10 – Amar uns aos outros, se preciso até com esforço.

V. 11 – Trabalhar com entusiasmo, com alegria, sem preguiça.

V. 12 – A esperança concederá a alegria necessária para suportar os sofri-
mentos.

A nova existência em Cristo manifesta-se em relação a Deus com fé e concretamente na vida comunitária através da prática do amor. A fé se evidencia no
amor. No v. 9 está a exortação clara para que o amor não seja hipócrita, mas autêntico e verdadeiro. Mostrar ao próximo um amor artificial seria um grande desrespeito a ele e uma volta à existência anterior, sem Cristo, sustentada nos próprios interesses. Os versículos seguintes (10-12) descrevem, de diferentes maneiras, a mesma preocupação. Seguidamente, apontam para o perigo de a velha criatura voltar a dominar a nova com seu amor próprio, sua incapacidade de identificar-se com o próximo, sua insensibilidade com as alegrias e sofrimentos de seus irmãos e irmãs. A partir do v. 11, percebe-se que o ardor original da nova existência em Cristo precisa ser constantemente renovado. Essa renovação só pode acontecer pela misericórdia de Deus e pela entrega absoluta a Deus, conforme o v.1, tal qual sacrifício vivo, santo e agradável. O v. 12 encerra garantindo que a relação com Deus fortalece, renova e capacita para o amor em todas as circunstâncias.

3. Meditação

O escritor e poeta cubano José Martí disse: “A melhor forma de dizer é fazer”. Ou seja, conforme esse autor, a ortopraxia (prática ou conduta correta) está acima da ortodoxia (ensino correto). Não adianta falar muito; o que importa é fazer. Essa teoria encontra respaldo em muitas passagens bíblicas (Tg 2.14ss, por exemplo), inclusive em palavras do próprio Jesus, como em Mateus 7.21: “Nem todo aquele que me chama: Senhor, Senhor entrará no reino do céu, mas somente aquele que faz a vontade de meu pai que está no céu...” As igrejas luteranas têm enfatizado historicamente a justificação pela fé como base de sua teologia. É conhecida também como a Igreja da Palavra ou da ortodoxia. Tanto que Lutero caracterizou a carta de Tiago como uma “carta de palha” porque essa enfatiza a importância das obras na vida da pessoa cristã em “detrimento da fé”. “Portanto, a fé é assim: se não vier acompanhada de ação, é coisa morta em si mesma” (Tg 2.17). Conforme Heinz Ehlert, “a comunidade ou igreja de confissão luterana faz bem em lembrar-se constantemente desse fato, para a renovação de sua fé e conduta”. No entanto, não basta voltar ao fundamento, à razão de nossa fé; “é preciso buscar uma sintonia entre fé e ação, deixando que a misericórdia e o amor de Deus nos conduzam em nosso relacionamento com o próximo e em nossa ação e trabalho na sociedade” (PL v. V, p. 22). Essa sintonia não pode ser forçada; aquilo que vem antes, a fé, o fundamento, tem como consequência natural o serviço de amor ao próximo e a toda a criação de Deus. Se essa reação não acontece naturalmente, pode-se concluir que há um problema no fundamento.

Conforme Heinz Ehlert, “a fé em Cristo dá um sentido que se cumpre quando se segue a ele, praticando o amor ao próximo”. Nesse sentido, tanto a ortodoxia como a ortopraxia, quando isoladas, são contraditórias ao evangelho de Cristo, são insuficientes por si só. A palavra de Deus – Sagrada Escritura – oferece subsídio para condenar tanto uma como outra (ortodoxia e ortopraxia). A fé tem como resposta natural as ações de graças, e essas, por sua vez, encontram sua fundamentação na fé. Nesse sentido, a comunidade cristã não faz assistência social, mas vive a diaconia. A ação das comunidades, vista a partir da perspectiva da assistência social, é muitas vezes um fardo para a comunidade cristã e, por conseguinte, não se consegue servir com o coração cheio de entusiasmo, conforme recomenda o apóstolo Paulo (v. 11). Quando a ação é uma exigência, não há alegria no servir; muito antes representa um peso. Como consequência da fé, o servir será sempre cheio de entusiasmo, de alegria e esperança. “Vivam alegres, com esperança que vocês têm, tenham paciência nas dificuldades e nunca deixem de orar” (v. 12). Essa é a recomendação mais adequada para um servir com sentido: alegria, esperança, paciência nas dificuldades e, sobretudo, nunca deixar de orar. Nas atas das reuniões dos presbitérios de nossas comunidades, é bem comum encontrar frases do tipo: “Após a parte espiritual, (meditação) realizada pelo pastor/a, passou-se para os assuntos da reunião...” Ou afirmações tais como: “O/a pastor/a cuida da parte espiritual, que o presbitério cuida da parte administrativa”. Ou seja, o “espiritual” não se relaciona com os demais assuntos. Não há uma interação entre eles. Há uma nítida separação entre “sagrado e profano”. A fé, a palavra de Deus, a oração estão à parte do dia-a-dia, das muitas atividades que a comunidade realiza. E, sendo assim, essas não passam de ativismo impensado e por isso provocam tamanho desgaste. O que o apóstolo Paulo recomenda aos romanos é um servir cheio de alegria e esperança, de entusiasmo e paciência, de carinho e amor, tendo esse servir como foco sempre a outra pessoa e não si próprio. Um agir assim só pode encontrar sua razão de ser na fé em Jesus Cristo.

4. Imagens para a prédica

Mãe e filhinha de seis anos retornavam do culto quando, na rua, avistaram um cavalo pastando. A menina pergunta: Mãe, este cavalo também é cristão? A mãe fica assustada com a pergunta da menina. Mas que pergunta é essa, minha filha? Cavalos não são cristãos! Por que você perguntou isso? Mãe, é que ele também está com a cabeça baixa e com um semblante triste igual às pessoas que estavam lá na igreja! Por que as pessoas vão à igreja, ao culto, com um olhar de sofrimento, de dor e de cansaço? É bem provável que muitas tenham motivo para estar assim, mas, em muitos encontros, esse sentimento parece generalizado. Será que servir a Deus tem se tornado um fardo para a comunidade ou será que nossas celebrações não permitem uma postura diferente? A fé, o estar na presença de Deus e da comunidade, de poder celebrar com outras pessoas por si só é motivo de gratidão e de alegria. É da celebração que brota a força para um servir com sentido e alegria em qualquer circunstância.

Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e decidiu tirá-lo da água. Mas, quando o fez, o escorpião o picou. Pela reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e estava se afogando de novo. O mestre tentou tirá-lo novamente, e novamente o animal o picou. Alguém que estava observando se aproximou do mestre e lhe disse: “Desculpe-me, mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo?” O mestre respondeu: “A natureza do escorpião é picar, e isso não vai mudar a minha, que é ajudar”. Então, com a ajuda de uma folha, o mestre tirou o escorpião da água e salvou sua vida.

A natureza da pessoa cristã é servir. E isso não por interesse, por mérito ou por obrigação, mas como disse o apóstolo Paulo: “Por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como sacrifício vivo e dedicado a seu serviço e agradável a ele” (Rm 12.1). Essa natureza da pessoa cristã não é uma escolha, uma opção; é uma reação àquilo que Deus já fez. Quando a pessoa é tomada pela graça de Deus, ela não consegue mais agir de outra forma. O velho ser humano já não existe mais. Por isso o apóstolo Paulo também disse: “Porém Deus, na sua graça, me escolheu antes mesmo de eu nas- cer e me chamou para servi-lo” (Gl 1.15).

5. Subsídios litúrgicos

Oração inicial:

Deus bondoso, tu tens em tuas mãos todo o vasto mundo. Tu podes transformar corações e atitudes conforme teu agrado. Concede-nos a graça da fé, que
nos permite experimentar teu abraço e tua proteção e que nos dá força para buscar a paz que une e refaz e semear o amor, teu grande poder transformador. Transforma nosso ser e também nosso viver. Por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém. (Baseado na oração do Livro de Culto – IECLB, p. 285)

Confissão de pecados (baseada no Salmo 31):

Amado Senhor, em ti busco proteção, tu és a rocha de abrigo, a fortaleza. Não deixe que o pecado seja a armadilha que me afasta de tua presença. Perdoa,
amado Pai, a minha falta de confiança, a minha falta de disposição. Não tenho vivido conforme a tua vontade, nem mesmo vivido como teu filho/tua filha, nem mesmo cuidado de tua criação. Tenho deixado de praticar o amor, fruto claro da fé em ti. Não tenho demonstrado minha fé no dia-a-dia, nem tenho confiado em ti. Muito antes tenho sido descrente e desconfiado. Tenho tido dificuldades para esperar em ti, para suportar as dificuldades, crendo que tu caminhas comigo. Senhor, perdão, em tuas mãos entrego minha vida, tenha compaixão de meu ser. A tristeza e a dor do pecado acabaram com minhas forças, mas a ti senhor eu peço: Olha com bondade para mim e perdoa minha desobediência e minha falta de amor com o irmão e a irmã. Por isso clamo a ti: Perdão, Senhor.

Absolvição:

Jesus Cristo disse: “Vinde a mim os que estão cansados e sobrecarregados que eu vos aliviarei” (Mt 11.28). O Deus da vida nos perdoa, nos restabelece e
nos renova, para que possamos viver como povo perdoado, aliviado, disposto a perdoar e a partilhar o que Ele nos tem oferecido. Alegrem-se, pois os pecados de vocês estão perdoados: em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Kyrie eleison:

A comunidade perdoada levanta o olhar e percebe as dores do mundo e por elas intercede a Deus: Clamamos, Senhor, pelas pessoas que sofrem por não crer, por não esperar em ti, por não te amar de todo o coração. Clamamos por mais fé, mais vontade de testemunhar nossa confiança em ti, por mais alegria em ser teus filhos e filhas. Clamamos, Senhor, por toda a criação, para que o amor e esperança, a fé e ação possam reger o viver de cada pessoa. Por isso pedimos cantando:

Canto:

Diaconia (Rodolfo Gaede)

1. Quero aprender de Maria a ouvir com devoção,
ter de Marta a energia, pressa e dedicação.
Acontece diaconia na ação com oração.
Ser uma Marta-Maria: que bonita vocação.

Estribilho:
Vamos juntos trabalhar na seara do Senhor,
Pois o povo está a vagar qual ovelhas sem pastor.
Libertados pela graça nos dispomos a servir.
Sirvamos com alegria, exaltando o Deus do amor.

2. Do pequeno, ser amigo, ao faminto dar o pão,
com o nu buscar abrigo, com o doente comunhão.
Acolher o forasteiro, ao sedento saciar.
Libertar o prisioneiro e os mortos sepultar.

3. Todos nós somos chamados para este mutirão.
Venham, pois, muito animados, integrar a comunhão,
Vivenciar diaconia com os mais pobres deste chão;
Resgatar cidadania, superar a escravidão!

Obs.: Esse belo hino não se encontra nos hinários da IECLB. Sua melodia pode ser escutada no CD 1 do Grupo Espaço.

Bibliografia

Romanos e a Teologia de Paulo (Originalmente publicado em Pauline Theology, V. III, ed. David M. Hay & E. Elizabeth Johnson). Minneapolis: Fortress, 1995. p. 30–67. http://www.ntwrightpage.com/port/Wright_Romanos_Teologia_Paulo.pdf (Carta de São Paulo aos Romanos. Rubem Martins Amorese. http://www.monergismo.com/textos/comentarios/romanos_amorese.htm
Ehlert, Heinz. In: Proclamar Libertação. V. 5. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1979. p. 22ss




 



 


 


Autor(a): Alfredo Jorge Hagsma e Vera Regina Waskow
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 11º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 12
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25060
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