Romanos 13.11-14a - 1º Domingo de Advento

Prédica

01/12/1968

1º. DOMINGO DE ADVENTO

Romanos 13.11-14a 

Prezada comunidade!

Há três semanas tive a oportunidade de abordar aqui um trecho de uma carta que o apóstolo Paulo escreveu à comunidade cristã de Filipos. Naquela ocasião discorri brevemente também sobre as atividades missionárias daquele homem e sua importância para nós, aqui, hoje. 

Este mesmo Paulo escreveu também uma carta à comunidade cristã de Roma. Paulo não conhecia aqueles cristãos, mas pretendia visita-los em breve. Em vez de simplesmente anunciar sua visita, o apóstolo envia a missiva que conhecemos como Carta aos Romanos, fazendo ali uma exposição mais ou menos sistemática da fé cristã. Assim sendo, a carta aos Romanos não se refere tanto aos acontecimentos concretos da comunidade. Ela traça, em vez disso, os princípios básicos daquilo que nós cremos como cristãos. 

No capítulo 13 desta carta, Paulo fala inicialmente das relações entre o cristão e o Estado, entrando então a discorrer sobre o amor, dizendo que o amor ao próximo é o cumprimento da lei: Se há qualquer ... mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor. A isso segue-se, então, o texto da prédica de hoje: 

E isso (façamos) porque conhecemos o significado do momento presente, ou seja, que esta na hora de acordardes do sono, pois agora a nossa salvação está mais próxima do que quando chegamos a crer. Vai alta a noite e o dia se aproxima. Deixemos, pois, as obras das trevas, e empunhemos as armas da luz. Andemos de maneira digna, como em pleno dia, não em orgias e bebedeiras, no em libidinagem e devassidão, não em intrigas e ciúmes,; mas vesti o Senhor Jesus Cristo.

Ao ouvir a parte referente às orgias e bebedeiras, libidinagem e devassidão, intrigas e ciúmes, alguns devem ter pensado: Agora que eu quero ver; hoje o pastor vai baixar a ripa! Mas não vou, não. O verdadeiro cristianismo não conhece baixar a ripa. E podem estar certos de que todo aquele que, em nome do cristianismo, no fizer mais do que pregar moral e baixar ripa está deturpando e pecando contra o cristianismo. Já vou explicar-lhes por quê. 

Notem bem o seguinte: aquele versículo que falava de todos esses vícios e maus costumes representa a segunda parte do nosso texto, e só pode ser interpretado de fato cristãmente, se ouvirmos primeiro a parte inicial, que dizia: E isso(façamos) porque conhecemos o significado do momento presente, ou seja, que está na hora de acordardes do sono, pois agora a nossa salvação está mais próxima do que quando chegamos a crer. Vai alta a noite e o dia se aproxima. Se entendermos bem esta primeira parte, veremos que a segunda não pensa em pregar moral e baixar a ripa. 

Paulo escreve a cristãos e diz: E isso façamos porque conhecemos o significado do momento presente. Para pessoas diversas o momento presente tem significados diversos. Para o estudante, este 1º. de dezembro significa exames, que podem acabar bem ou mal, atrás dos quais estão as férias - que consequentemente também poderão ser alegres ou amargas. Para a mãe de família, este dia significa que em breve a gurizada não precisa mais ir à aula e vai ser aquela baderna em casa; sem falar nos preparativos para o Natal, que anda perto. Para o homem de negócios, este dia marca o início do mês mais movimentado do ano - o mês que vai tirar o burro do banhado e por os negócios em dia, pois, como se ouve no rádio: Natal não é Natal sem um presente da Masson. Poderíamos citar ainda outros exemplos, que mostrariam como o momento presente tem um significado especial para cada pessoa. 

Mas aqui Paulo fala a cristãos. E para o cristão, todos esses significadinhos de que falei desapareceram ao lado do significado do seu momento presente, da sua atualidade. O que é que caracteriza o momento presente do cristão? A melhor maneira de descrevê-lo é a que lemos há pouco: para o cristão vai alta a noite e o dia se aproxima. O cristão ainda vive na noite. Mas não é noite desesperadora, interminável. É uma noite que cederá ao dia. Não é a noite da morte, mas a noite na qual já se vislumbra o crepúsculo. Para o cristão, o passado marca o presente, e o futuro já se realiza no presente. Ele leva uma vida determinada pela tensão dos dois momentos-chave da história humana: de um lado, Páscoa e Ascensão de Jesus; de outro, a segunda vinda de Cristo. 

O tempo, em que nas, cristãos, vivemos, e o espaço entre esses dois polias. Mas não é um tempo parado. Ê um tempo que anda, para frente, em direção ã meta. Para o cristão, não se processa na história o eterno retorno de todas as coisas. Para nós, o tempo anda firme, em linha reta, não em círculos. Precisamente, esta existência entre esses dois poios, entre Páscoa/Ascensão e a segunda vinda de Cristo, representa toda a força e toda a fraqueza do cristão.

Esse tempo representa a força, o poder do cristão pelo seguinte motivo: Ele sabe que não vive no vazio, que tem dois pontos de apoio. O primeiro está num evento que ocorreu no passado. Este evento lhe é testemunhado pelas palavras da Bíblia e por todas as pessoas que se ocupam em passar adiante o que acontece então. O que e que houve naquele evento? Houve uma coisa fantástica, tremenda. Naquela vez, Deus viu que os homens se encontravam num beco sem saída, andando firmemente para um fim desesperador, porque não conseguiam viver numa relação de harmonia com Deus e com seus semelhantes. E Deus fez, então, a única coisa capaz de nos tirar dessa trajetória fatal. Enviou seu Filho até nós. Este seu Filho veio, viveu entre nós, viveu como os mais humildes entre nos, pregou o arrependimento e exemplificou, em sua maneira de ser, qual a única forma de harmonizarmos nossas relações com Deus e com os homens: o amor. O amor total e irrestrito por todos os nossos semelhantes. E não só isso. Para que nós no tivéssemos que sofrer o preço por nossa existência pecadora, Deus imputou a este seu Filho - sem pecados e faltas - todo o castigo que caberia a nós. Assim este seu Filho morreu, crucificado. Mas, tudo isso não teria passado de um bom exemplo, não fosse o que aconteceu depois. A Ressurreição, isto é, Jesus Cristo rompeu as barreiras que a morte impõe à vida humana. Ele abriu caminho através da morte para aquela outra existência que nós adivinhamos e vislumbramos: a vida eterna. Aquela vida que nós não conseguimos descrever nem imaginar, mas da qual sabemos que lá, sim, o homem poderá viver em harmonia com Deus, em harmonia com os semelhantes, com a criação. Esta harmonia ser a possível porque lá não haver a pecado. Lá teremos incutido dentro de nós o amor de tal maneira que não saberemos o que é pecar.

Esta é a força do cristão neste momento presente: a fé, a certeza de que Deus fez tudo isso por nós em seu Filho, de que Jesus Cristo já abriu o caminho e tocou na frente para abrir essa brecha pela qual também nós passaremos para a vida eterna. O segundo ponto que representa sua força é a consciência de que a história caminha para o momento da segunda vinda de Jesus, que marcara a nossa entrada para aquela vida. Nós viemos, portanto, de uma certeza e andamos em direção a outra, que temos pela frente. A nossa esperança da vitória final é tanto maior, quanto maior for a certeza de que a batalha decisiva já foi vencida. Como dito essa é a força do cristão no momento presente. 

Mas é precisamente nisso que também reside sua fraqueza. A comunidade cristã sabe de onde vem e para onde vai; mas ela ainda se encontra a caminho, ainda no chegou lá: Ela conhece o Senhor dos tempos, mas este Senhor está oculto. Ele está oculto porque os eventos que o revelaram como Filho de Deus, a Ressurreição e a Ascensão, não são eventos que se pode provar por a + b, não são eventos que se podem fotografar e documentar. Eles só são acessíveis à fé. E o Senhor está oculto, também, porque da mesma forma não podemos provar matematicamente que a sua segunda vinda ocorrerá. Nós cremos nela, temos fé nela. A fé que, como diz a carta aos Hebreus, é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se no vêem. 

Com o acontecimento da Pascoa, com a Ressurreição, os tempos já chegaram ao seu fim, á sua meta. A partir de então, a comunidade de cristãos já vive na etapa futura, porque ela já tem a certeza, a fé. Mas, por outro lado, também é certo que ela ainda não atingiu a linha de chegada. Ela ainda esta a caminho, trazendo na bagagem aquele passaporte decisivo que é a sua fé na Ressurreição. A badalada da hora derradeira já foi dada, mas ainda esta ressoando. Deus ainda dá tempo à comunidade. Tempo para a obra do Espírito Santo, tempo para a fé e para o arrependimento, tempo para a comunidade cristã, e - nesse sentido - tempo de paciência, de graça.

E agora sim, prezada comunidade, tendo compreendido o significado do momento presente, tendo compreendido o que Deus já fez e o que ele mantém preparado para rias; agora sim, depois de ter pregado o Evangelho, agora podemos passar àquela segunda parte, sem fazer da nossa pregação um simples apelo á moral. Porque agora nós podemos dizer: Vejam, visto que tudo isso é assim, visto que vocês receberam essa graça de Deus e têm um futuro tão maravilhoso pela frente; por isso: deixem as obras das trevas e empunhem as armas da luz andem de maneira digna, como em pleno dia, não em orgias e bebedeiras, no em libertinagem e devassidão, não em intrigas e ciúmes. E notem uma coisa: Paulo não diz: Não façam isso e não façam aquilo porque é contra a moral, contra o bom-tom, contra as tradições, contra a família, etc. Ele diz: Não façam essas coisas, porque fazendo-as vocês está agindo contra a sua realidade de cristãos, que vivem o momento presente entre Pascoa e segunda vinda de Cristo; fazendo isso vocês estão ofendendo a Deus (não a moral, o bom-tom, etc.), estão abusando dos bens que Deus lhes deu. Deus lhes deu a comida, a bebida, Deus os fez homem e mulher e lhes deu, como um maravilhoso presente, o prazer do sexo; Deus lhes deu tudo o que está aí para ser usufruído; mas, fazendo uso excessivo, depravado e pervertido dessas suas dádivas, vocês está pecando contra o Criador, e demonstrando com isso que não entenderam, não atinaram no significado do seu momento presente, como cristãos. Como vêem, não estou pregando moral> Não estou dizendo: Não façam isso, não façam aquilo. O que eu go é: Reconheçam o seu momento presente, a sua realidade de cristãos, e se vocês o reconhecerem, na fé, não poderá haver entre vocês esses abusos. 

Como vêem os senhores, a mensagem deste texto nos cai muito bem neste primeiro domingo de Advento. A época do Advento é espera, preparação para aquele evento que será celebrado a 25 de dezembro. Da mesma forma como o momento presente do cristão é de espera e preparação para a meta, á qual nos encaminhamos. Para o cristo, que reconhece e compreende o significado do momento presente em que vive, todas as horas, todos os dias são Advento, sempre e em qualquer época do ano. Ele está sempre em marcha, para frente, á espera, aguardando o momento de atingir a meta. É sobre isso que deveríamos meditar, cada qual para si, ao iniciar-se hoje a época do Advento. Amém. 

Oremos: Nosso Senhor Jesus, dá-nos fé na tua Ressurreição e na tua próxima vinda, quando chegares para instituir teu Reino definitivamente. E dá que esta fé nos mantenha alertas, acordados, em constante Advento, fazendo com que no abusemos das tuas dádivas, que nos concedeste. Por Jesus Cristo. Amém.

Veja:
 Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
 Editora Sinodal
 São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo do Natal
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 1º Domingo de Advento
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 13 / Versículo Inicial: 11 / Versículo Final: 14
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 19917
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