Romanos 15.4-13

Auxílio Homilético

09/12/2007

Prédica: Romanos 15.4-13
Leituras: Isaías 11.1-10 e Mateus 3.1-12
Autor: Acir Raymann
Data Litúrgica: 2º Domingo do Advento
Data da Pregação: 09/12/2007
Proclamar Libertação - Volume: XXXII
Tema: Advento

1 Introdução

O período do Advento é um tempo de espera. Quem espera confia. Esperar tem o seu lado surpreendente: a expectativa e a alegria. O melhor da festa é esperar por ela. Deus nos ensina a esperar por ele, por sua vinda diária na palavra e sacramento, e também por sua segunda vinda. Espera é demonstração de firmeza, confiança.

Na visão do mundo, quem espera é fraco, dependente. O forte não espera. Quem tem poder deve demonstrar o poder. No reino de Deus, quem espera é que é forte. O cumprimento da esperança não está nele, mas fora dele: está em Deus. Na aparente demonstração de fraqueza é que está a fortaleza.

Isaías 11 fala sobre Deus, poderoso e salvador, que se encarna na fragilidade humana, na fraqueza da raiz de Jessé. O rico se fez pobre. Mesmo como verdadeiro homem que recebe a septiforme manifestação do Espírito, “ele não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos”.

Em Mateus 3, o reino de Deus está perto, na pessoa e obra do Cristo, que veio, que vem e que há de vir. Nesse reino há esperança.

2 Texto e meditação

A igreja de Roma é formada por uma diversidade de pessoas de origem, raça e cultura diferentes. As congregações cristãs hoje, notadamente as luteranas, já passam por situação semelhante – graças a Deus. Os grupos que formam a congregação de Roma são basicamente dois: cristãos de origem judaica e cristãos de origem gentílica. O apóstolo dirige-se a ambos. Ele fala de fortes e fracos. Quem são os fortes? Quem são os fracos?

A responsabilidade em amor dos fortes na Carta aos Romanos está numa relação tanto negativa (14.13-23) como positiva (15.1-6). Negativamente: “Tudo o que não provém da fé é pecado” (14.23) – mesmo a prática da liberdade na fé, sem considerar os efeitos perniciosos no irmão fraco, é pecado; abandonar o caminho do amor e entristecer o irmão (14.15); abusar da liberdade causando a ruína daquele por quem Cristo morreu (14.15); destruir a obra de Deus numa pessoa, sua fé e salvação (14.20); fazer o irmão tropeçar (14.21) e cair (14.21); induzir a consciência a dúvidas (14.23). Tais procedimentos não são frutos da fé. Positivamente: a fé olha para Cristo e dele extrai o seu conteúdo e forma. Cristo não agradou a si mesmo (15.3), mas entregou sua vida em favor dos outros, de maneira que seus conterrâneos o injuriaram pela pródiga liberalidade de sua graça e ultrajaram Deus por ter enviado seu Filho em busca do que estava perdido. O grito do salmista tornou-se o grito de Cristo. O Salmo 69 é o lamento de um filho de Deus que suporta abuso pelo fato de ser filho de Deus. Paulo cita a segunda parte do v. 9, e seu propósito é claro: “Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Jesus Cristo” (15.5). Jesus não procurou se preservar da fraqueza de nosso pecado, mas teve consideração por nós: ele a carregou por nós. Em relação a nós, fraqueza/enfermidade; em relação a Deus, injúria/ ultraje. A primeira parte do Salmo 69.9 inclui a cláusula que o evangelista João aplica à purificação do templo: “O zelo da tua casa me consumirá” (Jo

2.17). Parece-nos que o zelo de Jesus pela casa de Deus pode ser entendido, em primeiro lugar, no zelo pela pureza de Deus, e Jesus coloca-se no caminho de nossos insultos, de maneira que tais insultos caiam sobre ele, Jesus. Ao mesmo tempo, Jesus coloca-se no caminho da justa ira de Deus por causa de seu zelo em favor da casa de Deus, ou seja, o povo de Deus.

O centro nesta perícope é a busca por unidade. Que unidade? Não se trata de unidade ecumênica. Não se trata de unidade nas metas ou no orça- mento da congregação, o que, não raro, provoca tensão. Paulo fala de uma unidade “segundo Jesus Cristo” para “glorificar ao Deus e Pai”. Portanto essa unidade está relacionada à confissão em torno da palavra e dos sacramentos, em torno da compreensão do reino de Deus, que precisa ser anunciado ao mundo.
“Acolhei-vos... como também Cristo nos acolheu” (v. 7). O verbo não significa apenas um acolhimento relacionado a amizade, festa, entretenimento, abraço. Faz parte, mas não é a essência, o foco, o centro da unidade. A igreja não é um clube. Clube faz discriminação de sexo, faixa etária, raça, poder econômico. Igreja não é clube. Nem ONG. Congregação cristã não tem nada a ver com aparência ou ostentação. Acolhe todos, pois uma congregação cristã tem a ver com Cristo e seu reino. Ele é o centro, não nós.

“Acolhei-vos”, diz o apóstolo. O verbo significa “agregar”, “associar” aquele que é diferente, estranho. A motivação vem em seguida: “como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus” (v. 7). A “acolhida” de Cristo é totalmente inclusiva. Em Cristo, Deus é glorificado, ou seja, tornado conhecido e adorado como o único Deus de todos, que “justificará, por fé, o circunciso [judeu] e, mediante a fé, o incircunciso [gentio]” (3.30). O amor de Cristo em favor de todos em todos os tempos cinge diferenças maiores e bem mais graves do que as que separavam vegetarianos dos que comiam carne. O que é adiáforo não deve ser motivo de desarmonia. Judeus e gentios estão na igreja, lado a lado. São diferentes em raça, história, cultura, costumes. Tais elementos sempre causam tensão. Quem é o forte? Quem é o fraco? Os judeus poderiam dizer que eles são os “fortes”. Eles têm a Escritura, a tradição. Afinal, o livro de Atos diz que o evangelho veio aos gentios por meio dos judeus. Os gentios podem argumentar que eles são os “fortes”, exatamente porque são novos, têm a fé vibrante, têm novas idéias, sabem “como é o mundo lá fora”.

No mundo, é muito difícil unir costumes e culturas diferentes. Sempre há tensão. Mas, no reino de Deus, tais fatores são irrelevantes. Essa é a diferença entre Deus e os pecadores. Nós estabelecemos diferenças, separação, abismos. Deus cria pontes. A ponte entre Deus e o ser humano pecador é Cristo. A ponte entre o ser humano e outro ser humano continua sendo Cristo. As diferenças tornam-se periféricas quando o ponto focal, nuclear são Jesus Cristo e sua obra redentora. No reino de Deus, não há acepção de pessoas; todos somos vestidos com o manto branco da justiça que Cristo nos adquiriu. Cristo faz- nos uniformes. As diferenças culturais, históricas e raciais não interessam. Católicos que se tornam luteranos continuam a usar o genuflexório e a fazer o sinal da cruz na igreja luterana (nesse ponto eles têm muito a nos ensinar); judeus cristãos seguem com sua alimentação kosher e celebram suas festas junto com o Natal; árabes cristãos continuam a vestir-se à sua maneira. O que une os cristãos é a confissão do nome de Cristo nas orações, nos hinos, na comunhão, na palavra, nos sacramentos.

Quem é o forte? No reino de Deus, não é aquele que mostra poder, mas aquele que serve. O Filho de Deus sofreu e morreu. Não veio para demonstrar poder, mas serviço. O forte serve. Os fortes são os que servem, porque o amor de Cristo os constrange. Cristo serviu os fracos. Não procurou tornar as coisas agradáveis para si; nunca usou seu poder em seu próprio benefício. Os evangelhos não registram qualquer milagre que não fosse ministério a outros. Seus milagres eram obra do Servo (Mt 8.17, cf. Is 53.4; 41.1-40), parte integrante da vida que, em todos os seus momentos, era jornada em direção à cruz. Cristo, o Todo-poderoso Deus, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de todos.

O v. 13 diz que o Deus que fez essas promessas e as cumpriu em Jesus Cristo é um Deus de esperança. Ele dá esperança a todos os seres humanos. Todos podem depositar confiadamente seu futuro em suas mãos. Paulo intercede com ele: ele pode dar aos fortes e aos fracos a alegria e a paz que necessitam para viver e cultuar juntos na igreja. Toda a alegria e paz podem ser suas “no crer”. Crer é receber. Esperança é o poder que determina e guia a vida da igreja. Só porque a igreja não se conforma com este mundo que ela é um poder neste mundo. Ainda não vemos o povo de Deus perfeito e perfeitamente unido, que um dia se manifestará. Por ora, “cremos numa única santa Igreja Cristã e Apostólica... e esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro”.

3. Ilustração

O menino estava num barco em alto-mar. Por um descuido, ele caiu ao mar. Vendo-o, um marinheiro lançou-se ao mar e o salvou. Dois dias depois, a mãe do menino veio ao capitão do barco para saber qual marinheiro havia salvado o seu filho. Ao encontrar o marinheiro, ela pergunta: “Onde está o boné do meu filho?”. Nós muitas vezes enfocamos o aspecto errado. Centramos as coisas em nós mesmos, em nossos bonés, não em nossa salvação em Cristo.

4 Subsídios litúrgicos

Confissão e absolvição:

O – As palavras de Jesus “Se de alguns perdoardes os pecados, são- lhes perdoados” nos dão autoridade e garantia neste momento de confissão e arrependimento. Confessemos, pois, diante do Deus justo e santo, com humildade todos os nossos pecados, os conscientes e os inconscientes. E arrependidos aceitemos o seu gracioso perdão.

O e C – Senhor Deus, quem sou eu diante de tua pureza, santidade e justiça? Sou apenas uma pessoa dividida ao meio, pois não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Tenho prazer em tua Lei, ó Deus, mas ao mesmo tempo me sinto prisioneiro da lei do pecado. Assim dividido estou eu, por isso sinto-me desventurado. Nesse estado suplico a tua graça e o teu perdão em Cristo.

O – Agora já não há mais condenação para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida em Cristo te livrou da lei do pecado e da morte. Em ti habita o Espírito daquele que envia o seu Filho Jesus, que assumiu a nossa natureza humana para que nos livrasse da morte e da condenação eternas. Esse mesmo Espírito vivifica também a ti mediante o seu perdão e reconciliação. Perdoados estão os teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

C (fala) – Amém!

Coleta do dia:

Estimula o nosso coração, ó Senhor, a preparar o caminho do teu Filho Unigênito para que em sua segunda vinda nós o adoremos em pureza e unidade de Espírito. Por Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor, que contigo e o Espírito Santo é Deus e reina sobre nós agora e sempre. Amém.

Bibliografia

FRANZMANN, Martin. Carta aos Romanos. Mário L. Rehfeldt e Gládis K. Rehfeldt, trad. Porto Alegre: Concórdia, 1972.
NICOLL, W. Robertson, ed. The Expositor’s Greek Testament, II. New York: Hodder and Stoughton, s.d.

 


Autor(a): Acir Raymann
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Advento
Perfil do Domingo: 2º Domingo de Advento
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 4 / Versículo Final: 13
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18451
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