Romanos 6.19-23

Auxílio Homilético

20/07/1980

Prédica: Romanos 6.19-23
Autor: Ulrico Sperb
Data Litúrgica: 7º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 20/07/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


I - Vox populi

O primeiro estudo que fiz sobre o texto, foi com um grupo de senhoras da Comunidade de Matador. Num primeiro passo, elas fizeram as perguntas que as intrigavam. No segundo passo, formularam tentativas de resposta às suas perguntas Por motivos práticos, apresento aqui as perguntas e, logo após, suas respectivas respostas. Nesta parte, limitei-me apenas a anotar o que as senhoras diziam.

1 - Difícil de entender é: Quando éreis escravos do pecado, estáveis livres em relação à justiça. (20).

- Quer dizer que quando éreis escravos do pecado, não havia necessidade de ser justo.

2 -Que frutos são aqueles de que agora vos envergonhais?

- Injustiça, falta de amor, falta de compreensão. No filme que eu assisti, apareceu a Eva colhendo a maçã. Depois que comeram o fruto, sentiram vergonha de que estavam nus. Até nem entendi isso direito.

3 - Que é escravidão da impureza?

- Alguém que não sabe viver certo, assim como deveria viver. Impureza como vícios, alcoólatras, adúlteros.

4 - Que é ofereceres membros?

- É uma pessoa que errou muito na vida e depois quer se santificar. Obras feitas pelas mãos; assim também olhos, ouvidos e outros membros podem ser dedicados para obras ou fé.

5 - Que significa justiça?

- É como uma pessoa que praticou um erro e quer ser perdoada. Então, a gente faz uma justiça sobre seu erro. A gente acha simples - justiça -, mas explicar é que é ruim.

6 - Que é santificação?

- Pode-se dizer perdão dos pecados.

7 - Que significa fraqueza de vossa carne?

- Fraqueza - todos têm um momento de fraqueza, deixam se envolver por alguma coisa que nem sonham. Por meio da fraqueza, às vezes, se faz coisas que nem se quer. A gente não é firme.

8 - Que quer dizer o v. 23?

- Por causa dos nossos pecados, merecemos a morte. Quando se faz um pecado, Deus também dá o perdão. É um dom gratuito. Se não fosse isso, todos nós mereceríamos a morte.

9 - Que significa transformados em servos de Deus?

- É depois que a pessoa se purificou. Fazer o que Deus gosta. Fazer uma coisa que é da vontade de Deus. Depois de purificada, toda pessoa deveria ser serva de Deus.

II - Servir a Deus: a grande liberdade

No segundo estudo sobre esta perícope, recorri aos teólogos e suas explicações. Verifiquei que, basicamente, as mulheres estavam na trilha certa. Suas perguntas e respostas atingiram o alvo do texto. O apóstolo Paulo parte da tensão entre antes e depois do batismo. Dirige-se a romanos que não nasceram em berço cristão. São antigos pagãos que assumiram a fé cristã há alguns anos. Antes, imperava a escravidão do corpo às tendências da época: a libertinagem total com relação ao sexo e a dedicação aos outros prazeres do corpo. Era o roman way of life que influenciava a sociedade da época. Depois do batismo, os novos cristãos assumiam um novo estilo de vida. E, para Paulo, não se tratava apenas de parar com as práticas antigas. O corpo, com seus membros, recebe uma nova vocação. A tarefa agora é oferecer os membros para servirem à justiça para a santificação. Neste caso, servir à justiça, significa levar uma vida aprovada por Deus. E, sob santificação, entenda-se simplesmente acesso a Deus. Fé, portanto, não é um estado de espírito. Fé é uma atitude de vida que toma conta de toda a pessoa - espírito e corpo. O cristão põe seu corpo a serviço de Deus.

Paulo fala de uma maneira bem humana: antes vocês foram escravos das sujeiras do mundo, agora sejam escravos da justiça de Deus. As consequências são bem claras: antes o resultado é a morte; depois, é a vida eterna.

Vida eterna é algo que inicia neste mundo. Quem é obediente a Deus já está participando da vida eterna. Na obediência a Deus acontece a vida eterna. Ser transformado em servo de Deus tem, portanto, um duplo sentido: - por um lado, é ser libertado do pecado (antes) e, por outro lado, é ter vida eterna (depois). Vida eterna é um sinal de ressurreição, que já é sensível na vida terrena. Por isso, a grande liberdade reside em servir a Deus.

Isso ainda é fundamentado por Paulo na frase final da perícope: O CHARISMA ( do de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Este é o grande dom (CHARISMA) de Deus, do qual se derivam os outros dons. Colocar os dons (do corpo e da mente) a serviço de Deus significa participar do grande dom que é a vida eterna. Agora, isto implica numa radicalidade: ou se é escravo das impurezas, ou se está a serviço de Deus. Não há meio termo. A libertação tem que ser total.

III - No tempo de Petrônio

Num terceiro estudo, lembrei-me que certa vez li o livro No tempo de Petrônio. Reli certos trechos deste livro, no qual é analisada a obra de Petrônio, o Satyricon. Esta obra foi escrita no séc. l d.C., mais ou menos na mesma época da carta aos Romanos (55 a 60 d.C.). Descreve os costumes da época, o estilo de vida dos romanos. É justamente este estilo de vida que Paulo ataca radicalmente, quando diz: Assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza, e da maldade para a maldade... (v.19b); ou Naquele tempo que resultados colhestes? Somente as coisas de que agora vos envergonhais, porque o fim delas é morte. (v.21)

Relaciono alguns títulos de partes do livro:

- Roma: a cidade do prazer. A orgia dos festins magníficos. Os iates dos senhores voluptuosos.
A majestade do rei dinheiro.

Algumas questões que Petrônio aborda no Satyricon:

- A exagerada sensualidade. A infidelidade conjugal. O amor livre. Os banquetes magníficos (O festim de Trimalquião). A devastação dos valores. A exploração dos ricos. As injustiças sociais. A miséria dos pobres (o problema do pão). As superstições e crenças populares. A feitiçaria. As bruxas (benzedeiras). A educação usada para manter o status quo. A perseguição aos críticos da sociedade (o próprio Petrônio foi uma vítima de Nero). A manipulação do poder.

O apóstolo Paulo rompe com esta sociedade e apresenta uma nova vida. Vemos uma severa crítica social e uma nova perspectiva: a vida eterna em Jesus Cristo. Paulo não prega a fuga do mundo. Pelo contrário, ele convoca os cristãos a colocarem todo seu ser a serviço de Deus, para transformar a sociedade. E isso realmente acontecia com os primeiros cristãos. Pois, certamente, não seriam perseguidos e mortos, se fugissem do mundo.

IV - No tempo da Trilateral

O quarto estudo do texto está voltado para sua penetração no mundo atual. As paralelas entre o mundo romano e o nosso parecem óbvias. Não preciso repetir os assuntos do Satyricon. Com algumas variações, vale tudo para o mundo de hoje. Apenas cito um exemplo (mais por influência do livro que estou lendo atualmente, sobre a Trilateral). A Trilateral é uma comissão formada por cerca de 300 empresários da Europa Ocidental, dos Estados Unidos (América do Norte) e do Japão. São eles os principais manipuladores da sociedade de consumo.

Em função dos lucros e do acúmulo das riquezas nas mãos de alguns poucos, são fomentadas a libertação do sexo, a instituição de novos costumes, a rápida mudança das modas... Os direitos humanos são usados como fachada. Acentuam-se os artigos referentes aos direitos individuais (criticando-se a tortura, defendendo-se a liberdade de expressão, a inviolabilidade do lar e da vida privada). Isto, sem dúvida alguma, está certo. Mas é feito em detrimento dos artigos que se referem aos direitos fundamentais do homem (assistência médica e jurídica, igualdade social, direito de participação nos rumos da sociedade).

Existe uma diferença entre Paulo e nós: Paulo se dirigiu a cristãos que antes eram pagãos, nós nos dirigimos a pessoas que são cristãs desde o berço. A tensão entre antes e depois, em Paulo, não tem a mesma expressão entre nós. Os romanos viviam sua fé num ambiente completamente pagão. E nós vivemos nossa fé num ambiente que se julga completamente cristão.

Temos, no entanto, uma tensão que também apresenta uma radicalidade intransponível. É a tensão entre a verdadeira e a falsa fé. Existe a fé que provém de uma vivência autêntica e a fé por conveniência. Cada um tem que se examinar se está a serviço de Deus, ou se Deus está a seu serviço. Estar a serviço de Deus significa, por um lado, ser crítico frente à sociedade atual; por outro lado, também significa trabalhar para a transformação desta sociedade. Para Paulo, viver a fé não é somente deixar de fazer o mal. É também fazer o bem.

Paulo deixa claro que a grande liberdade reside em servir a Deus. Isto significa, para o nosso mundo, o seguinte: quem serve a Deus está livre do jogo do mundo. Quem serve a Deus, também está participando da obra libertadora de Deus. O servo de Deus é livre e libertador.

Isso, no entanto, carece de uma explicação. Vimos que o mundo romano e o nosso mundo são manipulados por grupos de interesse. São grupos egoístas, que não hesitam em usar o povo para seus interesses. Eles acumulam para si as riquezas deste mundo. Deus, entretanto, criou essas riquezas para todos. Ele quer que todos participem igualmente dos bens do mundo. A miséria de muitos tem sua origem na riqueza de poucos. Quem não serve a Deus, serve a esses grupos de interesse. Não há meio termo. Servir a Deus, portanto, tem como consequência a libertação desse jogo do mundo. Não se precisa mais fazer esse jogo. Não se precisa estar a serviço dos interesses egoístas de alguns poucos.

V - Aproveite, que a liberdade é de graça!

Assim eu daria o título à prédica sobre Rm 6.19-23, a qual passo a delinear neste quinto estudo. No início de nosso estudo, ouvimos as dúvidas e as respostas de pessoas do povo. Nossa pregação não deve responder a perguntas que nem foram feitas. Devemos nos nortear peias dúvidas do povo. As respostas do povo também são importantes. A teologia do povo não deve ser desprezada.

Na pregação sobre esta perícope, usarei como ponto de partida as perguntas e respostas apresentadas no início. As perguntas refletem a preocupação do povo: qual é o sentido da vida? Teologicamente, a pergunta pode ser formulada assim: como se pode viver com Deus hoje? É a procura de uma vivência autêntica (livre). As respostas que as mulheres deram refletem uma procura de se libertar do jogo do mundo.

A prédica, em sua primeira parte, vai compartilhar com os participantes do culto essas preocupações das senhoras. Na segunda parte, vou aprofundar a oferta de Paulo: libertação do pecado e transformação em servos de Deus. Deus dá a vida eterna de graça. Por isso, posso dizer que a liberdade é de graça.

Na concretização da prédica, vou usar os exemplos do terceiro e do quarto estudo, acima desdobrados. Farei uma comparação entre os tempos romanos e os nossos tempos.

Acentuarei o imperativo da opção que Paulo estabelece. Não é possível fazer o Jogo do mundo e viver com Deus. Por fim, refletirei sobre o evangelho desta perícope: a grande liberdade está em servir a Deus? E isso tem consequências para o mundo de hoje: ser livre é servir a Deus. E servir a Deus é ser livre dos interesses do mundo. Ao mesmo tempo, porém, é estar a serviço da obra libertadora de Deus. Oferecer os membros para servir à justiça é encontrar o sentido da vida.

VI - Bibliografia

- NYGREN, A. Der Roemerbrief. 4a. ed., Goettingen, 1965.
- KAESEMANN, E Römer 6.19-23. In: Exegetische Versuche und Besinnungen Vol. 1. Goettingen, 1970.
- AZEVEDO, F. No tempo de Petrônio. 3a ed., São Paulo, 1962.
- ASSMANN, H. / DOS SANTOS, T. / CHOMSKY, N. A Trilateral. Nova Fase do Capitalismo Mundial. Petrópolis, 1979.


Autor(a): Ulrico Sperb
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 8º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 19 / Versículo Final: 23
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18282
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