Romanos 7.15-25a

Auxílio Homilético

03/07/2011

Prédica: Romanos 7.15-25a
Leituras: Zacarias 9.9-12 e Mateus 11.16-19,25-30
Autor: Kurt Rieck
Data Litúrgica: 3º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 03/07/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV  

1. Introdução

A tensão vivida por Paulo, quando, embora desejando o bem, acaba fazendo o mal, provoca a pergunta: “Quem me livrará do corpo dessa morte?”. Como resposta aponta para a solução: “Jesus Cristo, nosso Senhor”. Assim se encerra o texto de Romanos indicado para a pregação deste 3º Domingo após Pentecostes. Com a solução apontada, somos convidados a olhar para o texto de Zacarias 9.9-12, que lembra a vinda do Rei, justo e salvador, que pactua uma aliança selada com sangue. Quando lemos Zacarias com o olhar cristão, pensamos em Jesus e em sua entrada triunfal em Jerusalém. O capítulo 11 do Evangelho de Mateus pergunta: “Jesus é de fato o Messias?” (PL 32, p. 221). E Jesus se apresenta afirmando ser um com o Pai, chamando toda a responsabilidade sobre si. O relativismo humano tem em Cristo a sua saída.

2. Exegese

O texto divide-se em dois blocos: v. 14 a 20 e 21 a 25. Ambos começam apontando para a lei de forma positiva. As mesmas coisas são escritas duas vezes, iniciando e concluindo de forma semelhante.

2.1 – Discussão em torno da lei

Paulo reflete sobre o papel da lei no propósito de Deus. Qual é o lugar da lei no discipulado cristão? A lei é espiritual (Rm 7.14), boa (Rm 7.16), santa (Rm 7-12), contudo incapaz de nos tornar santos. Ela conscientiza do pecado (Rm 3.20) e condena o pecador (Rm 3.19). Os pecadores são justificados por Deus, não por observar a lei, mas pela fé em Cristo (Rm 3.27 e 28). Os cristãos não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). Em torno desse contexto gira a palavra escolhida para a pregação.

2.2 – A pecaminosidade inata

Entra em cena a pessoa fazendo uma autoanálise e se pergunta: como posso entender a minha forma de agir? Paulo está olhando para dentro de si, desnudando a sua própria alma e convidando o leitor a fazer o mesmo. Vem à tona o “eu” humano:

“Não faço o que prefiro, e sim o que detesto” (v. 15); “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero” (v. 19). A pecaminosidade inata é para Paulo uma questão de autoconhecimento: “sabemos” (v. 14), “eu sei” (v. 18) que a lei é espiritual, mas o ser humano é carnal (sarkinos). Todas as pessoas são oprimidas por sua natureza egocêntrica.

Na Confissão de Augsburgo, Artigo II: Do Pecado Original, lemos: “Ensina- se, outrossim, entre nós que, depois da queda de Adão, todos os homens naturalmente nascidos são concebidos e nascidos em pecado, isto é, que desde o ventre materno todos estão plenos de concupiscência e inclinação más e, por natureza, não podem ter verdadeiro temor de Deus e verdadeira fé em Deus” (Livro de Concórdia, p. 29).

2.3 – Conflito interior

“Por um lado, não faço o que desejo e, por outro, (faço) o que odeio (v. 15b). De semelhante forma, o que faço não é o bem que desejo. Pelo contrário, o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo (v. 19). (Ele) Paulo tem plena consciência de seu ‘eu’ dividido: existe um ‘eu’ que quer fazer o bem e detesta o mal, e existe um ‘eu’ que é pervertido e que faz o que ele odeia e não faz o que ele gostaria. O conflito está entre o desejo e a realização: o desejo existe, mas a capacidade de fazê-lo não. ... É o conflito de uma pessoa regenerada, que conhece, ama, opta pela lei de Deus e anseia por ela e, no entanto, descobre que por si mesma não consegue cumpri-la. ... Somente o poder do Espírito Santo habitando nele poderia mudar as coisas.” (STOTT, p. 254)

O “eu” que faz o contrário é o pecado que habita em mim (v. 17 e 20). Sarx (v. 18) é o “eu” caído, o impostor. O “eu” verdadeiro é o “eu” que ama, que deseja o bem e que odeia o mal. “O conflito é entre minha mente renovada e minha “carne”, sarx, que ainda não se renovou” (ib., p. 257).

Na reflexão do apóstolo Paulo, verificamos a existência de:

1. Dois egos (v. 21): “Tanto o mal como o bem estão presentes ao mesmo tempo, pois ambos fazem parte de uma personalidade caída, mas convertida” (STOTT, p. 256).

2. Duas leis (v. 22 e 23): A lei do pecado está continuamente guerreando com a lei de minha mente.

3. Dois clamores do coração (v. 24): Miserável, “desventurado homem que sou! “Quem me livrará do corpo dessa morte?” Trata-se de um grito de clamor por socorro, que brota do fundo da alma e que termina com um ponto de interrogação. O segundo clamor encerra com um ponto, expressando confiança e gratidão: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”.

2.4 – A saída

“Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor.” Deus fez, através de seu Filho, aquilo que a lei não tinha poder para fazer. Assim esse conflito tem uma saída: Jesus Cristo. O título completo dado a Jesus é usado aqui como em outras quatro vezes mencionadas no livro de Romanos (1.4; 5.21; 6.23; 8.39). “Lei e graça são princípios opostos que refletem a antiga e a nova ordem, de Adão e de Cristo. ... Estar debaixo da graça é reconhecer a nossa dependência da obra de Cristo para a salvação, e assim ser justificados ao invés de condenados – e, portanto, libertados” (STOTT, p. 216).

Lembramos o que nos diz a Confissão de Augsburgo no Artigo IV: Da Justificação: “Ensina-se também que não podemos alcançar remissão do pecado e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossos, porém que recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que, por sua causa, os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna” (Livro de Concórdia, p. 29 e 30). Jesus Cristo é divino, não foi dominado pela “carne”. Ele, a lei de Deus viva, se faz gente. Ter Jesus como Senhor é acreditar ser ele a orientação certa para a vida. Aceitar a salvação em Jesus Cristo é crer nele. Confessamos que ele é o nosso Senhor. Viver essa confissão nos torna outro. Isso é possível porque Jesus foi – e é – o Filho de Deus. Por ele nós também passamos a ser filhos de Deus.

Cristo fazendo parte de nossa confissão altera a direção de nossa vida. Nele acontecem o morrer do velho homem e o nascer de um novo homem (Jo 3). Esse fato desencadeia um processo de santificação, operado pela ação do Espírito Santo, que interfere no conflito humano anteriormente descrito. O cristão continua pecador; no entanto, encontra-se num processo de santificação, em que a lei do amor incondicional, pela ação do Espírito Santo, opera a transformação necessária. A graça de Deus torna-se o agente transformador do ser humano.

3. Meditação

Confiar na lei é para nós cristãos uma falsa segurança. Olhar para as próprias deficiências é essencial. Desejar o bem e fazer o mal é inerente ao ser humano.

3.1 – Outros pensadores

Os contemporâneos de Paulo pensavam assim: Sêneca, filósofo romano, falou de “nossa impotência nas coisas necessárias”. Ovídio, o poeta romano, escreveu: “Eu vejo as coisas melhores e as aprovo, porém sigo as piores”. Os judeus afirmavam que em cada pessoa há duas naturezas, duas tendências, dois impulsos. Era convicção judaica de que Deus fez os seres humanos com impulso bom e impulso mau. No entanto, ninguém tem por que sucumbir ao impulso mau. Para eles, era uma questão de escolha (BARCLAY, p. 111).

Há uma festa hinduísta chamada Semana do Holi, ou festival das cores, em que os participantes se banham de multicores, comemorando o triunfo do bem sobre o mal. Podemos ampliar esse horizonte, pesquisando como outras seitas e religiões entendem esse conflito humano.

3.2 – Perguntas de aproximação

Paulo elabora esse conflito dizendo: “Não faço o que prefiro, e sim o que detesto”(v. 15). “Não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero” (v. 19). A essência humana continua a mesma, e para refletir sobre a atualidade da questão, fazemos as seguintes indagações:

1. Como podemos definir a luta interna do mal contra o bem?

2. O que nos faz agir dessa forma?

3. Descreva momentos em que isso ocorre ou ocorreu em sua vida.

4. Qual é a solução para essa incoerência?

3.3 – Poimênica

Numa visita pastoral, conversei com uma pessoa que passou por uma depressão profunda. Pedi a ela que descrevesse seus sentimentos quando estava em depressão. Ela relatou de uma luta interna do mal contra o bem. O mal tentava sufocar o bem. Pensamentos positivos em luta com pensamentos negativos. Consciente do valor da vida, constantemente era tomada pelo desejo de se suicidar. Como explicar tais sentimentos? Eles estavam longe de ser dominados.

3.4 – Contrição e graça

Fazendo uma autoanálise, verificamos que todos trazemos “defeitos de fábrica”. É a marca do Adão que está em todos. Há falhas em nosso modo de ser que, sem desejar, voltamos a praticar. Tornamos a cometer erros já confessados. As falhas que residem em nossa constituição são mais fortes do que o nosso desejo de não falhar. A transformação desses defeitos requer avaliação profunda. Aconselhamento pastoral é essencial. Faz-se, em muitos casos, necessário buscar orientação psicológica. Os processos de conscientização, arrependimento e transformação se dão graças à ação do Espírito Santo, que nos convence do mal que cometemos. Por vezes, nada mais resta senão dizer: Espírito Santo, tenha misericórdia de mim pecador e atue em mim tal qual o oleiro faz com o barro, refazendo os pedaços quebrados.

Nunca seremos tão bons quanto sabemos que deveríamos ser. Essa é a nossa condição humana. Mas essa afirmativa não serve de justificativa para nos acomodarmos em nossos erros. No capítulo 12, versículo 9 de Romanos, Paulo diz: “Detestai o mal, apegando-vos ao bem”. Trata-se de uma atitude necessária e consciente. Já no capítulo 6, versículo 14, lemos: “Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça”. “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5.25), que a graça terminará vencendo. A graça de Deus estende-se aos filhos pródigos que retornam para casa. Esse amor perdoador refaz relações e promove a salvação.

4. Imagens para a prédica

4.1 – Introdução

O conflito entre o bem e o mal é da humanidade. É fácil encontrar um fato relacionado ao tema, que ocorreu na semana, para ilustrar a relevância da temática. A conexão chamará a atenção dos ouvintes ao que será anunciado.

4.2 – Leitura do texto

a) Falhamos

Sabemos o que é errado. Há o mal involuntário, o mal explicado, o mal interpretado, a incoerência, as máscaras. Na família, essa realidade se desdobra. O lar é constituído a partir do amor que une duas pessoas. Os filhos são esperados com muita expectativa. É nela que exercitamos a mais profunda intimidade. Nesse ninho de amor se desenvolvem os maiores atritos. Brigamos com aqueles que nos são mais caros. Verifique a abordagem mais conveniente para tratar do conflito interior que existe em cada ser humano.

b) Lei e evangelho

Fale acerca da função da lei. Ela aponta, dá limites, orienta, deseja estabelecer regras em favor da vida. Disserte sobre a função do evangelho. O evangelho não é legalista. O evangelho atua na essência do ser humano. Ele age na estrutura de cada ser a partir da graça de Deus.

c) Jesus salva

“Quem me livrará do corpo dessa morte?” A salvação reside em Cristo. Jesus não só sabe o que é o mal, mas também corrige o mal. Ele não oferece uma crítica, e sim uma ajuda. Ele estende a mão e nos resgata desse conflito.

4.3 – Conclusão

No Evangelho de João, capítulo 3, versículo 17, lemos: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”. Por intermédio da aceitação de Cristo experimentamos a graça transformadora que atua na essência humana.

5. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados:

Palavras que nos ajudam a dar relevância à confissão de pecados: “À medida que alguém oculta o que faz, também oculta partes de seu próprio ser; nega-se a revelar sua identidade aos outros. O grande perigo é que termina por desconhecer- se: produz-se uma crise de identidade que costuma ser acompanhada de intensa angústia. A culpa deve ser enfrentada de forma realista e construtiva, com atitudes que impliquem confissão e restituição” (Daniel Schipani).

Oração:

Senhor Jesus, falamos contigo sobre a nossa fragilidade. Queremos o bem, desejamos que as relações sejam permeadas de amor, almejamos a paz. Quando nos damos conta, promovemos o mal, não conseguimos aceitar o outro com as suas diferenças e acabamos causando inúmeras intrigas. Venha com a força do Espírito Santo transformar aquilo que a nossa humanidade não consegue. O perdão é a contrapartida da confissão; sem um, o outro não existe. A confissão é um salto no escuro em busca de compreensão e ajuda.

Anúncio da graça:

“Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17).

Oração do dia:

Em tuas mãos colocamos os pensamentos inquietos, os sentimentos confusos, a vida. Em teu colo colocamos a cabeça cansada, os frutos do trabalho, as
preocupações. Sob teu manto colocamos o corpo desprotegido, a alma machucada, o espírito abalado. Em tuas mãos colocamos os amigos, os não-amigos, a vida. Amém!

Bênção:

Que o caminho seja brando a teus pés.
Que o vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe sobre o teu rosto.
Que as chuvas caiam serenas em teus campos.
Que Deus te guarde na palma de suas mãos.
Que nossas vozes proclamem a fé no Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo.
Amém!

Bibliografia

BARCLAY, William. Romanos. Buenos Aires: Asociación Editorial La Aurora, 1973.
LEENHARDT, F. J. Epístola aos Romanos. Associação de Seminários Teológicos Evangélicos, 1969.
STOTT, John. Romanos. São Paulo: ABU Editora, 2000.


Autor(a): Kurt Rieck
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 3º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25051
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Sabemos que todas as coisas trabalham juntas para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles a quem Ele chamou de acordo com o seu plano.
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