Romanos 7.15-25a

Auxílio Homilético

06/07/2014

Prédica: Romanos 7.15-25a
Leituras: Zacarias 9.9-12 e Mateus 11.16-19,25-30
Autor: Guilherme Lieven
Data Litúrgica: 4º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 06/07/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII


1. Introdução

O texto de Romanos 7.15-25a, previsto para a prédica no 4º Domingo de Pentecostes, exige um cuidado exegético e uma dedicação teológica. A sua mensagem central está relacionada com conteúdos primários de nossa fé. Somos capazes, sem Deus, de encontrar a paz, a liberdade da morte e fazer o bem? Qual a nossa condição humana, existencial, na busca pela comunhão com Deus? Convido você para encontrar inspiração e auxílio nas referências exegéticas e na meditação apresentadas a seguir para a abençoada tarefa de proclamar a presença, o amor e a salvação de Deus.

Antes destaco que estão agrupados a esse texto, sugeridos para leituras no culto, os textos de Zacarias 9.9-12 e do Evangelho de Mateus 11.16-19,25-30. Zacarias anuncia a chegada de um rei justo. Mesmo sendo pobre e miserável, mesmo sem aparência de rei, ele destruirá o mal, anunciará a paz e restituirá a vida. O texto do Evangelho de Mateus apresenta as dificuldades do povo da época e de suas lideranças para compreender a presença de Deus no mundo por meio de seu Filho. Racionalmente, ninguém conseguia entender que o Filho do Homem, que come e bebe, amigo de pecadores e pecadoras, pudesse ser mais poderoso do que os profetas e João. O ser humano não aceita esse rei sem os poderes de rei, esse Filho do Homem sem a aparência de Deus, para livrá-lo do mal e conceder-lhe a liberdade da morte. Essas dificuldades permanecem também em nosso tempo, transitam nas mentes de pessoas ligadas ou não às comunidades cristãs.

2 Comentários exegéticos

2.1 – A Carta aos Romanos

Paulo escreveu a carta em Corinto por volta do ano 56, antes de se dirigir a Roma e a Judeia. Nela sistematizou sua teologia, desenvolvida em suas viagens missionárias no oriente do Império Romano, onde se deparou com controvérsias, conflitos e ameaças ao evangelho de Jesus Cristo. Certamente elaborou suas convicções pensando em sua visita à comunidade em Roma, preparando-se para eventuais debates e oposição. Talvez esses sejam os estímulos que o apóstolo recebeu para obter uma elaboração teológica notável.

2.2 – O texto de Romanos 7.15-25a

Ele está inserido no bloco em que Paulo argumenta positivamente sobre as consequências do pecado humano e sobre a ação de Deus (3.21 a 8.39).

Paulo comunica que a morte do ser humano é vencida por Cristo, graças à vontade absoluta de Deus (v. 25a). A questão teológica, no entanto, é apresentada nos versículos anteriores. “Faço o mal que não quero, e deixo de fazer o bem que tanto quero e almejo” (v. 15). Paulo define teologicamente a pessoa humana como um ser frágil, dependente, que não consegue fazer o que quer. Reitera essa posição (v. 16) já definida no início do capítulo 7, quando reafirma a lei como instrumento bom, que denuncia ao ser humano o seu erro, o seu desvio do bem. A lei torna-se a referência para o discernimento entre o bem e o mal. Conforme o v. 21, a lei denuncia uma força do mal que habita no ser humano e o impede de fazer o bem. Mas essa lei não resolve o conflito, antes evidencia a contradição em que o ser humano vive. Ao mesmo tempo, Paulo afirma que há no ser humano uma vontade de fazer o bem, mas que sozinho ele não consegue fazer (v. 18). Ele sentencia que há um conflito interno, forças em oposição que anulam o livre-arbítrio do ser humano. Os v. 22 a 24 reforçam a definição da situação desgraçada do ser humano, que o torna dependente de uma ação externa de Deus para salvá-lo desse conflito, da morte e prepará-lo para fazer o bem.

2.3 – O contexto maior e a teologia de Paulo

As definições e posicionamentos do apóstolo, contidos em Romanos 7.15-25a, exigem referências ao contexto maior para ampliar nossa aproximação às intenções e aos pressupostos teológicos de Paulo, expressos na carta. Comprometeríamos a mensagem se deslocássemos esse texto do bloco maior da carta, que apresenta a teologia da justificação pela fé e a ação salvadora de Deus em Jesus Cristo.

Por exemplo, nesse bloco, Paulo refere-se à teologia do pecado original (Rm 5.14-19) para explicar a necessidade humana da ação salvadora de Deus em Jesus Cristo, conforme nosso texto (v. 25a), aquele que livra o ser humano da escravidão do pecado e da morte. O embate entre a vontade de fazer o bem e a escravidão de sempre fazer o mal que não se quer pressupõe o conceito sobre o ser humano definido pela teologia do pecado original. Ou seja, o ser humano
nasce escravo do pecado, com a propensão para fazer o mal, com uma dificuldade para fazer o bem, mesmo que tenha a vontade de fazer o bem.

A solução anunciada pelo apóstolo (v. 25a) exige ainda ampliar a compreensão e a dimensão da justiça de Deus, da salvação doada por Deus em Jesus Cristo. Consideramos que a ação salvadora de Cristo restaura o ser humano como criatura de Deus. Liberta do poder do mal (na oração do Pai-nosso: livra-nos do mal) e restitui ao ser humano a liberdade. Aqui podemos nos referir ao “nascer de novo”, à “nova criatura”, ao “novo ser humano”, a um ser humano reconciliado e em comunhão com Deus a partir da ação salvífica do próprio Deus, realizada em Jesus Cristo.

Estendendo a reflexão, mesmo sem a autorização direta de nosso texto de pregação, precisamos retomar, por fim, a compreensão de que a ação salvadora de Cristo não nos retira da condição humana neste mundo. Ela restitui a nossa dignidade como criaturas humanas e concede-nos a filiação plena com Deus, antecipa a nossa liberdade diante dos poderes da morte e livra-nos da morte final. Significa que a luta interna permanece agora, porém em comunhão e reconciliados com Deus. A partir dessa novidade de vida, somos chamados para viver em comunhão com Deus em nossos contextos, na realidade de cruz. Permanece também a importância da lei para continuar denunciando e identificando o rosto do mal, presente em nós e na face da Terra.

Com isso estamos nos referindo à teologia da simultaneidade da presença da justiça de Deus no ser humano, mesmo sendo pecador, vítima do pecado original, portanto atacado pelo mal. A justiça de Deus cria no ser humano a consciência do pecado e de sua verdadeira realidade humana. Ao mesmo tempo, concede o perdão, livra-o constantemente do mal. Essa ação salvadora inaugurada em Cristo é uma dádiva incondicional, instalada, por graça, no ser humano. Essa ação do amor e da misericórdia de Deus denuncia no ser humano seu desamor, sua escravidão e, ao mesmo tempo, antecipa sua participação na ressurreição de Cristo.

Essa simultaneidade libertadora, que conjuga a iniciativa do ser humano sob a condução de Deus, impede o pensamento de processo e progressão moral do ser humano. Desautoriza a ideia de que entre os cristãos há uns mais santificados do que outros. O amor incondicional não permite a hierarquia de santidade. Cremos que se trata de um constante morrer e ressuscitar, uma ação salvadora viva, conduzida por Deus.

3. Meditação

Onde está a salvação? E como ela acontece? Essas são as perguntas de todos os dias, não de todos, mas para um segmento da humanidade. Esse ser humano percebe a sua fragilidade, o seu vazio e, comumente, busca socorro. Almeja a paz e a liberdade, busca por sentido e felicidade, não raro confundindo-as com prazer, poder, benefícios e interesses individuais passageiros. Nessa busca, é comum fazer várias tentativas e considerar todas as propostas humanas e religiosas, subjetivas e objetivas como possíveis para atingir a meta de livrar-se do mal e de seus poderes.

Nessa busca, outro segmento expressivo de pessoas deixa seduzir-se pelas múltiplas ofertas, luzes, movimento, diversidade, cores e oportunidades, tornando-se vítimas de um sofisticado mercado. Geralmente, paga caro ao relativizar seus valores e seus amores, submetendo-se ao processo de alienação da dignidade e do direito humano, distanciando-se cada vez mais da paz e da liberdade.

Identificamos também aqueles e aquelas que já se convenceram dos limites dos poderes da ciência, tecnologia e automação. Descobriram que, mesmo tendo acesso ou controle sobre todo esse aparato, ainda não encontraram a paz e a libertação dos tormentos e conflitos interiores e externos.

Não podemos ignorar ainda que impera em nosso tempo um sutil culto ao ser humano. A sociedade pós-moderna alimenta uma estrutura deslumbrante para sustentar o ser humano na condição de início, meio e fim, centro da criação, aquele que pode usufruir de tudo, de todos, da história e salvar-se a si mesmo.

Assistimos à desconstrução de princípios, conceitos e sistemas. Colhemos um tempo de barbárie, de pouca solidariedade e pouco comprometimento com o coletivo e com a vida em comunidade. Instalou-se a indiferença diante das desigualdades, injustiças, poderes e meios de morte. Transitam a alta competitividade e a lógica da acumulação de bens e das aparências. Importa muito, para dar sentido à vida, o ser reconhecido, ser admirado, ter prazer e acesso a uma infinidade de produtos e serviços voltados para si mesmo. Um tempo em que as pessoas passam umas por cima das outras, sem qualquer constrangimento ou culpa. Para que servem a oferta e a ação salvífica de Deus se eu posso buscar e escolher aqui mesmo as “coisas” que me dão sentido para a vida e me salvam? Como Deus pode salvar-me se não sou escravo de nada?

Sabemos, no entanto, que aquilo que estava ruim ficou pior. Ganhamos o declínio da eficácia do serviço público, o desvirtuamento da política, a crise ecológica, o aumento do fundamentalismo, a epidemia das doenças psíquicas, a fragmentação de pequenos e grandes sistemas de verdadeira ajuda e formação do ser humano. Ganhamos uma geração voltada para si mesma, presa ao presente e alienada da perspectiva de horizontes e da continuidade da história. Com ela perdemos os grandes ideais, a esperança. Para essa geração, a salvação está aí: a minha beleza e independência, o meu prazer, tudo posso hoje mesmo e com crédito tudo posso ter. Ganhamos o culto à jactância. Os dons e carismas, adulterados, receberam nova função. Sem exageros, podemos aferir que a crise humana se acirrou. Com a linguagem teológica de Paulo podemos dizer que a força do mal está ganhando a batalha, mesmo que o ser humano aspire ao bem.

A mensagem de nosso texto, Romanos 7.15-25a, e da teologia de Paulo estão vivas. No contexto que identificamos acima, é notícia nova e boa, mesmo não sendo aceita. O ser humano necessita da vitória de Deus sobre a morte e a escravidão do pecado.

A novidade de nosso texto está na mensagem de que a salvação vem de fora, de Deus. O Deus que em Jesus Cristo veio para essa realidade e para o ser humano vazio de salvação assumiu as consequências de seu amor e instalou nela uma nova dimensão da vida, a vida maior do que o mal, que pode ser edificada nessa história através de sinais. O Deus rei, salvador, apresentado no livro de Zacarias e no Evangelho de Mateus, despido dos ideais humanos de poder. Essa é a ação reconciliadora de Deus, que em paradoxo ao estabelecido cria no ser humano a comunhão santificadora, mudando seus planos e tornando-o mais forte do que o mal, um ser humano que não se conforma com a injustiça, a desigualdade, a brutalidade, a intolerância, a destruição da criação e da vida no mundo, um ser humano que incide na realidade disposto a servir e amar com liberdade, perseverança, esperança, com o espírito bom, dádiva, força do Espírito Santo, vocação da presença salvadora de Jesus Cristo.

4. Indicações para a prédica

Não é possível pregar sobre esse texto se não confessamos a teologia do pecado original e a fé na superação da força do mal por meio da ação salvadora de Jesus Cristo. A mensagem de nosso texto exige reconhecer em Deus o poder de guiar o ser humano para a liberdade e a vida justa, criativa e criadora. Esse texto e a teologia de Paulo não autorizam uma pregação que sustente a ideia de que há pessoas mais santas do que outras ou que nosso objetivo é formar comunidades só de justos, convertidos e limpos de pecado. O texto, ao contrário, apresenta o desafio de proclamar a mensagem da salvação nas situações em que a morte e o pecado estão presentes.

Sugiro inspirar-nos pela imagem da dinâmica do diálogo, do Deus que dialoga constantemente com a realidade e com o ser humano. O Deus que instalou no mundo a proposta comunitária da fé, a criação de comunidades que reúnem pessoas humanas pecadoras, simultaneamente santificadas por sua ação salvadora, prontas para interagir com a sua realidade de cruz e morte, revestidas dos poderes do bem, que desperta o ser humano para interagir com sinais da verdadeira e duradoura novidade de vida já presentes no mundo.

No bojo da mensagem, pode-se ainda referir a um exemplo de simultaneidade da presença do bem e do mal, por exemplo o trânsito em médias e grandes cidades. O trânsito polui e mata devido ao pecado do ser humano, que, mesmo sabendo das regras de trânsito, insiste em não observá-las. Mas esse mesmo trânsito salva vidas ao viabilizar o transporte, o socorro de vítimas e a locomoção das pessoas com segurança e organização.

Outras situações humanas hospedam a simultaneidade da presença do mal e da ação salvadora de Deus em Jesus Cristo. Referir-se a elas facilita a formulação de respostas para as perguntas que queremos responder: Onde está a salvação? Como ela transforma as pessoas humanas e incide na realidade, no cotidiano? Por que a jactância, o consumismo e o hedonismo estão em contradição à comunhão com a presença salvadora de Jesus Cristo em nós e em nossa realidade?

Tomar consciência de nossa condição pecadora, de nossa incapacidade de salvar a nós mesmos, aproxima-nos da ação salvadora de Jesus Cristo e cria comunhão com Deus. O nosso protagonismo pessoal, comunitário e no contexto em que vivemos passa a ser mediado pela ação salvadora de Jesus Cristo.

5. Referências litúrgicas

Apresento algumas sugestões e observações para a preparação litúrgica do culto. Por exemplo, no introito, destacar o tradicional versículo do Salmo 124.8: “O nosso socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”.

Anunciar o perdão dos pecados como uma ação de Deus já “disponibilizada”. Se oportuno, neste momento, referir-se à fé, cuidada pelo Espírito Santo, que viabiliza o nosso diálogo com o amor incondicional de Deus, cria comunhão e desperta certeza no perdão, na novidade de vida.

Preparar com antecedência os motivos do grito por piedade, a oração pelas dores do mundo. Trazer referências ou imagens da prédica para este momento. Priorizar as situações do cotidiano: sofrimentos na família, trânsito, violência na cidade, desigualdades urbanas, intolerância, ataques à dignidade e à vida comunitária.

Sugiro, ainda, o hino abaixo para algum momento da celebração. Ele canta a mensagem do texto de Romanos 7.15-25a.

Por fim, sugiro incluir na liturgia de despedida elementos da mensagem sobre a ação salvadora de Jesus e também sobre a simultaneidade que necessitamos admitir e, pela fé, administrar.


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Autor(a): Guilherme Lieven
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Romanos / Capitulo: 7 / Versículo Inicial: 15 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 28655
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