Salmo 16

Auxílio Homilético

27/04/2014

Prédica: Salmo 16
Leituras: João 20.19-25 e 1 Pedro 1.3-9
Autor: Manoel Bernardino de Santana Filho
Data Litúrgica: 2º. Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 27/04/2014
Proclamar Libertação - Volume: XXXVIII


1. Introdução

Quanto ao gênero literário, os salmos podem ser classificados como hino, lamentação ou ação de graças. No caso do Salmo 16, é um cântico que expressa a confissão de fé de um convertido, portanto está dentro do primeiro gênero tão antigo quanto a formação do povo de Israel.

Os textos de apoio para este segundo Domingo da Páscoa assinalam a experiência dos discípulos de Jesus, que, sob o impacto da ressurreição, iniciam um processo de releitura do Antigo Testamento para buscar a confirmação do caráter messiânico da pessoa de Jesus de Nazaré. O texto de João (20.19-25) assinala uma manifestação do ressuscitado no meio da comunidade pós-pascal. A incredulidade de Tomé contrasta com a fé desse novo convertido do Salmo 16. O texto de 1 Pedro (1.3-9) é uma oração de ação de graças pela bendita salvação que nos é concedida pela intervenção de Deus, que nos alcança por meio do Senhor Jesus Cristo. Esse é, na verdade, o espírito do Salmo 16, que se apresenta como um hino de gratidão pela conversão Àquele que é inigualável.

2. Exegese

Não há unanimidade entre os comentaristas da literatura sapiencial sobre a época desse salmo. Uma grande maioria situa o texto entre os escritos produzidos no tempo imediatamente posterior à volta do exílio babilônico. Outros colocam o texto entre os escritos dos hassidins (piedosos) do judaísmo tardio e pretendem explicar o salmo à luz do conflito da religião do Antigo Testamento com os cultos de mistério da época helenística (séc. IV a.C.). No entanto, as várias alusões à festa da Aliança, a presença de Deus e sua glorificação na comunidade, a renúncia aos ídolos e a separação dos adoradores de ídolos sugerem que a origem do salmo deva ser procurada no culto pré-exílico e interpretada como confissão pessoal de uma determinada pessoa, que expressa nessa melodia sua alegria pelo encontro com o Senhor no santuário.

Nos salmos, há frequentes citações de hinos cananitas das cartas de El Amarna, que evidenciam a popularidade da literatura hínica na Idade do Bronze (1500-1200 a.C.) na Síria e Palestina. Em alguns textos que tratam dos mitos ugaríticos foi encontrada uma estrofe que pode fazer parte de um grande hino.

O Salmo 16, a partir de informações linguísticas ugaríticas, mostra que se trata de uma obra de um convertido cananita à religião dos antigos israelitas, expressando sua profissão de fé e sua abjuração dos falsos deuses a que até então serviam. Aqui se encontra o princípio dominante da poesia bíblica e ugarítica, que são a simetria, o paralelismo de ideias, os pares fixos de palavras relacionadas que aparecem tanto numa forma de poesia como na outra.

As ideias presentes no Salmo 16 corroboram a época mais antiga para a composição do texto. Sente-se um ambiente pré-exílico desde que a prática cúltica parece ser a da monolatria e não do exercício do monoteísmo, que caracterizaria a profecia e a literatura posterior ao exílio. A monolatria está presente na história do povo hebreu desde épocas remotas quando das lutas das tribos seminômades nos altos de Israel. É uma forma de adoração que se traduz na aceitação de um único Deus, no caso Javé, dentre tantos outros que se apresentam pelos povos com quem as tribos travaram relações. Tem-se um Deus, mas se admite a existência de outros, como Baal, Astarote e outros. O monoteísmo, a existência de um único Deus, só foi praticado por Israel nos tempos pós-exílicos, ou seja, a partir do século VI a.C.

O salmo começa com uma expressão de confiança naquele que pode responder à oração. Essa confiança dá suporte a tudo o que vai ser dito nos versos seguintes. É uma confiança segura e serena. A pessoa que faz a oração é alguém que se sente tranquilo e seguro ao depositar sua confiança no Deus Todo-Poderoso. A profissão de fé está presente no v. 2. O convertido expressa sua alegria pela confiança plena depositada em Javé. Literalmente, o autor diz: “Meu Senhor, tu és minha felicidade. Não há ninguém acima de Ti”. O v. 3 é de difícil interpretação, tanto que a versão atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) afirma: “Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer”. A Bíblia de Jerusalém (BJ) afirma: “Destes demônios da terra. Eles se impõem a todos os que os amam”. Um sentido mais claro só é possível na BJ se o início do v. 3 for continuação do v. 2: “Minha felicidade não está em nenhum destes demônios da terra”. Como diz Schökel, tudo depende do sentido que dermos a Qedoshim (santo, demônio, criatura celeste, divindades, anjos ou aqueles que são consagrados a Deus). O v. 4 declara a abjuração dos antigos deuses cananitas, que agora eles têm como falsos, mas aos quais até então eles serviam.

Os v. 6 e 7 continuam a expressar a gratidão pela proteção de Javé. A tradução de Almeida Revista e Atualizada (ARA) – “caem-me as divisas em lugares amenos...” – não parece refletir o sentido do texto. O verbo sãbar está relacionado com “medida”. Tem o sentido de dizer que os limites têm sido traçados por Deus e o espaço que Ele cria é delicioso. Por isso a sua herança é abençoada. O Senhor é Aquele que nos aconselha até durante a noite. O Salmo 127.2b afirma que “aos seus amados ele o dá enquanto dormem”.

O louvor a Javé continua no v. 8. Está sempre presente, e com ele à sua direita a pessoa permanecerá firme. O salmista parece convencido de que lhe será concedido o mesmo privilégio que fora dado a Enoque e Elias. Crê que Deus o levará para si mesmo, sem que passe pelos sofrimentos da morte. Esse sentimento também está presente nos Salmos 49.15 e 73.24.

O v. 10 expressa a confiança de que ele não ficará no sheol, lugar de separação do Senhor. Ele escolheu Javé, portanto espera que o Senhor o mantenha consigo. Mantém a esperança de que escapará da morte que o separaria de Deus. Há aqui uma esperança ainda que imprecisa na possibilidade da ressurreição. Algumas versões traduzem sheol por “cova” (BLH) e “corrupção” (ARA). A comunidade pós-pascal aplicou a Jesus esse verso, vendo-o como um salmo messiânico.

Os v. 10 e 11 são, de fato, uma afirmação da crença poética na imortalidade, doutrina bem conhecida entre os cananitas. Por isso a confiança de que a sua união com Javé seria eterna.

3. Meditação

Como vimos, a apropriação desse salmo pela tradição cristã remonta ao próprio texto do Novo Testamento. Em sua releitura do Antigo Testamento, os apóstolos percorreram os textos proféticos e sapienciais para encontrar ali o fundamento para um messias pobre e marginalizado.

No dia de Pentecostes, Pedro inicia uma pregação para a multidão reunida em Jerusalém para celebrar a festa (At 2.14-36). Eram 3 horas do dia (9 da manhã) quando coisas estranhas começaram a acontecer no seio da comunidade de discípulos e discípulas de Jesus. A comunidade estava reunida diante de centenas de peregrinos procedentes das mais distantes regiões do Império Romano. A relação de representantes de povos está em Atos 2.10-11. Ainda atordoados com os acontecimentos que culminaram na morte de Jesus, cerca de 120 pessoas reuniram-se para ouvir Pedro falar sobre esses estranhos acontecimentos.

A primeira e maior tarefa daqueles cristãos era produzir compreensão para o “escândalo da cruz”. A expectativa messiânica ensinada pelo rabinismo não contemplava a possibilidade de um messias sofredor; portanto era necessário que os discípulos de Jesus buscassem a produção de sentido para aqueles acontecimentos.

O livro “O Deus Escandaloso. O uso e abuso da cruz”, de Vitor Westhelle (Editora Sinodal, 2008), mostra que a cruz é a crise do cristianismo. Ela é apresentada como o mais radical questionamento da fé cristã, da igreja de Jesus Cristo e das pessoas que nele creem. Mostra quão incômoda é essa cruz fincada no chão deste mundo e no coração da fé da igreja.

Ao longo da história, muitas foram e ainda são as visões dessa cruz. Por uns é vista sob uma interpretação gnóstica e docética (Cristo não sofreu), só o homem de Nazaré. Outros têm uma visão dolorista. Nunca saem do Calvário; outros são derrotistas (a cruz foi o fim de um projeto).

Devemos sempre nos perguntar o que foi que fez Jesus Cristo ser conduzido à cruz. Seus conflitos com os religiosos de seu tempo são fortes. Foi considerado blasfemo. E por quê? Porque dizer a verdade de forma ousada pode parecer heresia. O que levou Jesus à cruz foi a acusação de blasfêmia contra Deus e o imperador. Lutero diz no Debate de Heidelberg (21) que o “teólogo da cruz diz as coisas como elas são”. A palavra grega para isso é parresia, que significa falar de modo ousado e dizer tudo sem reserva.

Foi isso que Jesus fez. Disse tudo. Não temeu os poderosos de seu tempo. Lutou para dizer a verdade. Esse foi também o lema de Gandhi. Ele usava uma palavra sânscrita – satyagraha – como mote de seu movimento de libertação da Índia. Tem o significado de “amor pela verdade” ou “a força da verdade”.

Por isso destinaram Jesus à cruz, que é sinônimo de miséria, maldição e desgraça. Mas também é sinônimo de graça. É a partir dela que tomamos consciência de que Deus se faz presente no fraco e no miserável do mundo.

Ao pregar aos peregrinos, Pedro fala do cumprimento de profecias (At 2.22-23) e finalmente que Deus levantou Jesus da morte (2.24-35) quando cita o Salmo 16.8-11 como um testemunho da ressurreição do Senhor (At 2.25-28,35). Quando aqueles primeiros cristãos olharam o salmo à luz do que tinha acontecido entre eles, entenderam que se tratava de um cumprimento de profecia.

O Salmo 16 também se liga ao Novo Testamento por meio de um sermão de Paulo, que se encontra em Atos 13. O apóstolo é um convidado da sinagoga de Antioquia da Pisídia. Depois de ler textos da Lei e dos Profetas, ele começa a falar dos poderosos feitos do Senhor na história de Israel desde os antigos patriarcas e dos tempos da peregrinação no deserto. Fala brevemente de Davi e dá um pulo de mil anos para falar que aquilo que Deus prometeu aos antigos pais está se cumprindo para nós, seus filhos, na ressurreição de Jesus Cristo (32). Paulo cita textos do Salmo 2, Isaías 55 e Salmo 16.10 (At 13.35).

Aqueles cristãos primitivos foram convencidos de que as promessas encontradas no Antigo Testamento foram cumpridas na vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Quando eles experimentaram a ressurreição, pensaram no Salmo 16. Aqui o salmista aponta para o Senhor, mostrando o caminho (11). Esses primeiros cristãos usaram a mesma imagem para o novo movimento chamado de “O Caminho” (At 9.2; 19.9). Não era uma designação original. Quando Tomé perguntou “como saber o caminho?”, Jesus respondeu: “Eu sou o caminho...” (Jo 14.5-6).

O Salmo 1 fala de dois caminhos: o caminho da justiça e o caminho da insensatez. O Salmo 15.2 fala da coragem para caminhar irrepreensivelmente. O Salmo 16 mostra o caminho da vida que Deus nos revela e onde a alegria pode ser encontrada, porque, quando alguém vai por esse caminho, o Senhor põe-se a andar com ele.

4. Imagens para a prédica

O coração da fé cristã é a certeza da ressurreição. Paulo afirma que, se não há ressurreição, então Cristo não ressuscitou e, se ele não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a nossa fé (1Co 15.14).

Portanto a fé cristã fundamenta-se sobre a ressurreição de Jesus Cristo. Mas os discípulos foram assimilando aos poucos. Apesar de terem sido preparados por Jesus para os acontecimentos que se dariam, como nós às vezes, não compreenderam as palavras de Jesus sobre a ressurreição.

Como cristãos, precisamos fazer a experiência da ressurreição. Cremos em Jesus de Nazaré, mas cremos também naquele que ressuscitou. Alguns ficaram apenas com o primeiro. Mas é preciso transcender o momento inicial. Marcos não se retém, como as mulheres (16.7), na busca de recordações paralisantes em torno do morto, ante o qual a única tarefa eram a contemplação, a unção e o embalsamento para a história. Marcos vai exigir que haja movimento: “Sigam para a Galileia e lá o vereis”.

A história de Jesus dá-se em três momentos fundamentais: primeiro, sua vida e ministério, sua história; segundo, a morte e ressurreição; terceiro, a experiência da ressurreição. Precisamos testemunhar que cremos e que temos estado com o ressuscitado.

A Escritura convida-nos a abrir os olhos e ver o Senhor na experiência da história, na vida das pessoas, na gratuidade do amor de Deus. E não somente ver o Jesus que vive, mas o Jesus que vem outra vez. Aquele que nos interpela, que nos chama para o desafio de anunciar o seu Reino e de crer em suas promessas.

Sugiro que se façam figuras representando a comunidade reunida. Pode ser da comunidade como um todo e que um professor/a orientador/a mostre maneiras de fazer experiências da ressurreição, como, por exemplo, mostrar que sentir Cristo na vida, no cotidiano das pessoas, no fortalecimento do ambiente comunitário. Porque Ele ressuscitou é que existe a comunidade chamada igreja, formada por pessoas que creem na ressurreição e na vida eterna. O Salmo 16 expressa a confiança inabalável de que Deus não nos deixará na morte, mas nos fará ver os caminhos de vida.

5. Subsídios litúrgicos

“Creio na ressurreição do corpo...”
Corpo para sempre; face do Espírito.
Corpo com sede,
Corpo doente,
Corpo migrante,
Corpo com fome,
Corpo na prisão...
“Quando o fizestes a um destes pequeninos,
a mim o fizestes...”
Corpo: santuário, altar, hóstia.
Santo dos santos.
O Espírito ama,
O amor se faz jardim,
Corpos
Que se amam no jardim:
Jardim do Espírito,
Jesus de Nazaré,
Que se fez pão e vinho,
Corpo distribuído
Para mais amor:
Semente do universo-jardim,
Corpo de Deus,
Cristo,
Nós.
Eu.

(ALVES, Rubem. Creio na ressurreição do corpo. Meditações. Rio de Janeiro:
CEDI, 1982)

Oração:

Senhor da vida, dá-nos a capacidade de crer e experimentar a ressurreição no cotidiano de nossas vidas. Dá-nos a alegria do salmista, que em sua conversão a Javé expressa toda a sua alegria por esse dom maravilhoso de uma nova vida. Dá-nos que creiamos com plena confiança na ressurreição de Jesus Cristo, que é a garantia de nossa própria ressurreição. Tu tens o poder sobre todas as coisas, inclusive o poder sobre a morte. Que a nossa confissão de fé expresse essa certeza e nos dê a confiança para acreditar em um mundo cheio da Tua graça e de todo o Teu amor. Amém!

Bibliografia

SCHÖKEL, Luís Alonso; CARNITI, Cecília. Salmos I (1-72). São Paulo: Paulus, 1996.
WEISER, Artur. Os Salmos. São Paulo: Paulus, 1994.


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Autor(a): Manoel Bernardino de Santana Filho
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 2º Domingo da Páscoa
Testamento: Antigo / Livro: Salmos / Capitulo: 16
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2013 / Volume: 38
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 29840
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