Salmos 23

Auxílio Homilético

15/05/2011

Prédica: Salmo 23
Leituras: João 10.1-10 e 1 Pedro 2.19-25
Autor: Martin Dreher
Data Litúrgica: 4º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 15/05/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV 

1. Introdução

No Oriente Antigo, o título “pastor” estava reservado para os governantes; os governados formavam o “rebanho”. Israel, a comunidade joanina e a comunidade à qual Pedro se dirige experimentaram pastores muitas vezes violentos. Os textos do domingo, outrora dedicados ao “domingo do bom pastor”, apresentam pastoreio, domínio alternativo, destinado ao povo de Deus do Antigo e do Novo Testamentos: o domínio de Javé, o domínio do reino de Jesus Cristo. Falam a comunidades que experimentaram cruz e sofrimento e que podem encontrar descanso junto ao guarda de Israel, ao que cuida de suas ovelhas, ao que dá a vida por elas e que as reúne em comunidade. Assim, os textos anunciam evangelho à comunidade pascal, que deve saber que nada nem ninguém pode arrancá-la das mãos, do cuidado, do amor, da dedicação do Deus que se revelou em Jesus Cristo.

2. Exegese

O Salmo 23 é talvez um dos textos mais conhecidos da Bíblia. Foi e é lido em bons e maus dias. É lido em tom idílico, bucólico. Pode ser lido em bênção matrimonial, em situação de luto, por livres e cativos, tristes e felizes. É canto de confiança. No entanto, os sons de confiança quase infantil que dele ressoam não provêm de despreocupação juvenil. Eles são resultado de vida madura, que experimentou muitas situações amargas, como as constantes nos v. 4 e 5, são cantados quando a vida começa a anoitecer, na velhice, e depois de muita experiência amarga encontrou forças na comunhão com Deus. Formulado no mundo oriental, o salmo está prenhe de imagens, o que nem sempre facilita a interpretação, pois devemos nos perguntar a que a imagem está fazendo referência. No entanto, a imagem que apresenta Javé como hospedeiro (v. 5) e a referência à sua “casa” (v. 6) estão a sugerir que o motivo da composição do salmo seja experiência feita em culto, na qual o autor experimentou a felicidade e a bênção encontrada na comunhão com Deus.

V. 1 – No Antigo Testamento, a imagem do pastor não se apresenta para falar da relação de Deus com o indivíduo. Deus sempre é pastor de um coletivo, do povo da aliança. Nesse sentido, é cantado no Salmo 80.1. Terá esse salmo levado o autor do Salmo 23 a pensar em sua situação especial diante de Deus? No encontro da comunidade, o indivíduo pode pensar em sua situação especial. Em todos os casos, a imagem do pastor desperta no autor a certeza: nada me faltará! Talvez recorde juventude despreocupada, em pasto verde e junto a regato tranquilo. Expressa a certeza de que essa tranquilidade se mantém na velhice e o acompanhará até o fim. Sua fé expressa concomitância de tempos, certeza presente na fé de Israel: O mesmo Deus que salvou no passado salva no presente e salvará no futuro. A esperança brota de experiência.

V. 3 – Acrescenta mais uma interpretação à imagem do pastor: Deus é o guia do peregrino na jornada da vida. Fazendo retrospectiva de sua caminhada, o autor verifica o que nem sempre percebeu enquanto caminhava: guiou-o por caminhos certos. Com uma palavra, o autor expõe o lugar, a partir do qual chega a essa convicção: Por amor do seu nome. Na vida não importa a imposição de nossa vontade, mas a vontade de Deus. Como aprendeu a ler sua vida a partir de Deus e de sua vontade, confessa ter sido vontade de Deus que andasse “pelas veredas da justiça” = salvação. Isso é confissão de fé.

V. 4 – A esperança que brota da experiência permite ao autor gloriar o sofrimento. Não foi poupado de andar por muito vale escuro. Recordando essas passagens de sua vida e a superação das mesmas, verifi ca a bênção que vem de íntima relação com Deus. Por isso passa a expressar-se na linguagem da oração, dirigindo-se a Deus com um “tu”. Deus, que não o abandonou nas horas de dificuldade e tirou-lhe o medo, foi seu guia, proteção e consolo na difícil caminhada. Por isso a lembrança dos tempos difíceis é transfigurada em sentimento de gratidão por profunda comunhão com Deus, permitindo-lhe seguir caminhando sem temor e esperançoso, independente do que o futuro vier a trazer.

V. 5 – Observando o ambiente em que se encontra, o salmista volta-se à outra questão. Parte do culto findou, os hinos emudeceram. Parte-se agora com roupas festivas, tendo a cabeça ungida com óleo, para a ceia sacrificial no templo. Cf. Salmo 45.7; Lucas 7. 46. É motivo de alegria poder ser hóspede de Javé (cf. Sl 15.1). Já outras vezes, o salmista há de ter participado essa cerimônia, louvando o hospedeiro. Ela lhe lembra que, durante toda a sua vida, vem sendo hóspede de Javé; dele recebeu comida e bebida. Mesmo seus inimigos não podem tirar o brilho de sua alegria pela presença e bondade de seu hospedeiro. Assim, a alegria em Deus se apresenta como possibilidade de superação das amarguras, provocadas pelos desacertos na convivência humana. O salmo nada diz a respeito do passo que deve ser dado para a superação da inimizade: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem! Esse talvez seja o déficit do salmo.

V. 6 – O reconhecimento da muita bênção recebida provoca no autor um grito de imensa alegria: Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias de minha vida. Ele descobriu a grandeza da bênção de Deus em sua vida. Sua felicidade não pode mais ser diminuída por experiências más. Até o fi m de sua vida, nada poderá separá-lo da bondade e do amor de Deus. A experiência da proximidade de Deus no templo transforma-se em certeza do que há de acontecer no futuro. Novamente a concomitância de tempos da fé de Israel: para todo o sempre. É óbvio que o “para todo o sempre” não se refere mais ao templo, mas à comunhão com Deus, pois o templo não durará para todo o sempre. Mesmo assim, o templo é o lugar santo no qual se experimenta mais profundamente a proximidade de Deus do que na balbúrdia das avenidas.

3. Meditação

“O Salmo 23 é salmo de gratidão, no qual o coração cristão louva a Deus e lhe agradece por ensiná-lo e mantê-lo no caminho certo e consola e protege em toda a necessidade por meio de sua santa Palavra. Compara-se a uma ovelha, bem apascentada por pastor fiel em capim tenro e água fresca. Do mesmo modo também toma do Antigo Testamento e de seu culto cálice e óleo qual parábola e designa a tudo de Palavra de Deus, com a qual também designa cajado, bordão, capim, água e caminho certo. Ele pertence ao terceiro mandamento e à segunda prece (do Pai-Nosso)” (Lutero, WA 38,25,13-21).

Ao meditar sobre o Salmo 23, fui ao encontro de Lutero e procuro aqui deixá-lo falar. Não o cito ipsis litteris, mas sigo a intenção que teve, em 1530, quando se encontrava na fortaleza de Coburgo, enquanto seus amigos, enfrentando situação complicada, se defrontavam com Carlos V em Augsburgo. Ali meditou sobre o Salmo 23.

Dizer O Senhor é meu pastor é palavra de gratidão. A expressão, contudo, também contém promessa de bens para a vida e para a fé. Quem as profere sabe de tudo o que recebe para o sustento de sua vida e de sua fé. É belíssima alegoria. Poder expressá-lo é poder ter tranquilidade. – Nada me faltará é confissão de fé: Se tenho a Deus, que mais me faltará? Tenho comida, tenho um pastor. – Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Quem pode dizer isso não tem temores. Crê ser ovelhinha, que tem casa e capim em abundância, onde pode pastar sem preocupação. – Leva-me para junto das águas de descanso. É Deus quem me conduz, quem me situa na vida, me dá comida, e não só isso: também me dá água, de modo que nada preciso temer. Dá-me, pois, comida e bebida, descanso e paz. – Refrigera-me a alma. Naphash significa recuperar-se e saciar-se. É como diz a expressão: “um bom gole ajuda o corpo e a alma”, ou: Sobre barriga cheia tem que estar cabeça alegre”. Por isso também dizemos após ter comido: “Agora tá melhor!”.

Essa é a primeira metade do Salmo. Deus não nos abandona em nossas necessidades diárias.

Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Essa é outra dádiva de Deus. Deus nos deu o ministério da Palavra. Sua função é me conduzir para a vida eterna. Por sua Palavra, esse tesouro tão querido, conduz e estabelece como devemos viver e nos mover. – Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum. Assim que a Palavra se manifesta, o diabo e seus anjos vêm com suas tentações. Ao dizer ainda que eu ande, confessa que o que é dito e feito por nosso Deus deve ser experimentado na provação e passar pelo fogo. Ele está dizendo: Mesmo que tenha que viver em dificuldade, mesmo assim quero reter essa palavra e ater-me a ela. Em Augsburgo, os nossos agora se encontram em tal vale. Podem estar tremendo, mas não há razão para temor. – Porque tu estás comigo. E mesmo que pareça que me abandonaste, ainda assim sei que estás comigo. Não te vejo, não te sinto, mas te ouço. Por isso continua: A tua vara e o teu cajado me consolam. Com isso confessa que sente muito bem a desgraça, pois diz: não temo, e: consolam-me. Vemos que está aflito, do contrário não usaria essas expressões. A vara é a Palavra que nos guia. O cajado é a Palavra que nos sustenta. Pois é isso que significa o termo hebraico naham, um cajado no qual podemos nos apoiar. A vara está sobre nós, o cajado sob nós. – Preparas uma mesa na presença dos meus adversários. Que belo protetor! Os seus estão assentados à sua mesa e assim enfrentam os inimigos. Até poderíamos pensar: preparas-me armas e muro seguro, mas o texto diz: uma mesa. Com isso está anunciando o maravilhoso poder da Palavra. Nossa vitória consiste simplesmente em comer e beber, isto é, em tomar a Palavra e nela crer. Pois a Palavra também nos é servida, assim como os pães são servidos na mesa de Moisés. Com isso nos é dito qual é nosso muro de proteção: crer. Sossegando e confiando, vocês serão fortes (Is 30.15 e Sl 4.4), como está escrito: Sossegai (permanecei firmes). – Unges-me a cabeça com óleo. Davi bem poderia ter dito: pensei que ele iria me colocar um elmo (capacete) na cabeça, mas me passou óleo, como se estivesse a caminho do baile! Como é possível que o Espírito Santo fale com tanta arrogância contra o diabo! No fundo, não te está escrito: tu me ungiste, mas: tu me besuntaste, isto é, tu me mergulhaste na Palavra, consolaste, ensinaste e fortaleceste. Tal unção é nosso armamento. Ah, o diabo vai ficar maluco, quando ouvir que fazemos pouco caso de sua raiva, pois estamos saindo para o baile. – O meu cálice transborda. O cálice sou eu. Estou cheio, estou provido, tenho um pastor. Estou bem! – Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida. Trata-se de agradecimento por bens recebidos no passado e pedido por bens no futuro. Confirma em nós, Senhor, o que nos fizeste: aumenta, no futuro, tuas bênçãos sobre nós, enquanto estivermos na terra. – E habitarei na casa do Senhor para todo o sempre. É prece por questões políticas e espirituais. É como quisesse dizer: assim como deste tua Palavra, permite que a preserve comigo. Pois morar na casa do Senhor é estar ali, onde se ouve a palavra de Deus. Onde não se ouve a palavra de Deus, ali não há casa de Deus.

4. Imagens para a prédica

O texto do Salmo traz uma profusão de imagens. O mesmo acontece com a meditação a partir de Lutero. A comunidade reunida em culto conhece muito bem o Salmo. Ela também conhece e experimentou imagens; por isso deveria ser convidada a participar com elas. O pregador pode convidá-la a falar e a colocar as demais imagens.

5. Subsídios litúrgicos

Hinos de graça, louvor e adoração devem ser cantados em profusão. Idosos podem ser valorizados nessa comunidade do quarto domingo após a Páscoa e convidados a formular as orações a partir da experiência do idoso no Salmo 23. Cajados, bengalas, varas, água, óleo (também fixador de cabelo), a cruz, o cálice, a pia batismal, uma ovelha (?) não deveriam faltar na ornamentação simbólica do local de culto. Por que não instrumentos musicais para lembrar o baile sugerido por Lutero?

Bibliografia

KRAUS, Hans-Joachim. Gottesdienst in Israel. Grundriß einer alttestamentlichen Kultgeschichte. München: Chr. Kaiser Verlag, 1962.
MÜHLHAUPT, Erwin (ed.). D. Martin Luthers Psalmen-Auslegung, Bd. 1. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1959.
WEISER, Artur. Die Psalmen (Das Alte Testament Deutsch 14/15). Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1966.


Autor(a): Martin Dreher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 4º Domingo da Páscoa
Testamento: Antigo / Livro: Salmos / Capitulo: 23
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25041
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