Saudades sem Túmulo

02/11/2012

Os ritos de passagem em torno dos funerais têm a idade da humanidade e são sinais de que os seres humanos descobriram a sua finitude. As mais variadas crenças, antigas ou modernas, forjaram ritos que sintetizam os valores fundamentais de cada povo. Assim, os ritos funerais celebram a passagem para uma outra vida. Dependendo da tradição religiosa, as pessoas creem em ressurreição ou na reencarnação. Em nosso contexto brasileiro, fortemente híbrido, estas tradições se mesclam. Outros, céticos ou ateus, não buscam explicações nas tradições religiosas, mas não se eximem da participação dos ritos de despedida.

Independente das crenças numa vida no além ou da aceitação da finitude, o rito redefine o lugar de quem fica e de quem morre. No romance “Dona Flor e seus dois maridos”, de Jorge Amado, é o marido morto que não deixa a viúva em paz em seu novo relacionamento. Além da morte física, Vadinho precisa morrer ritualmente.

No dia de Finados acorrem para os cemitérios grande parte de nossa população, fortemente influenciada pela tradição cristã e por outras que definem um lugar simbólico e geográfico para os mortos. Faz parte de nossa cultura levar flores aos túmulos de entes queridos, expressando, assim, um profundo respeito por quem partiu. Logo, é fundamental para a elaboração do luto saber do lugar onde nosso ente querido está sepultado. Em nossa cultura, o funeral e a sepultura fazem parte do direito à memória.

Nas escutas da Comissão Estadual da Verdade, criada em agosto pelo Governo do Estado, esta dimensão não será esquecida. Muitos parentes de pessoas desaparecidas, eliminadas por agentes do Estado entre 1964 a 1985, por se oporem ao governo militar ilegítimo, que derrubou governantes eleitos pelo povo, viveram ou vivem a dor intensa de um luto incompletamente elaborado. Ninguém pode ser impedido de sepultar os seus mortos, independente da causa que subtraiu a vida. A memória e a sepultura fazem parte da dignidade humana. É um Direito Humano.

Os Comitês de Verdade e Memória da sociedade civil, alguns anteriores à constituição das Comissões da Verdade, estaduais e nacional, celebram em espaços de tortura a memória dos que morreram pelas suas convicções políticas. O nome dos mortos e desaparecidos se torna presente com estes rituais políticos que dignificam a memória de quem foi morto pela violência por aqueles que juraram defender os símbolos nacionais e a própria constituição federal.

Ao ser constituído como um canal institucional da expressão da luta pelo reconhecimento, mesmo que tardio, das pessoas quem foram exiladas, mortas, torturadas e estupradas, a Comissão da Verdade oferece guarida a todos que buscam a verdade que nos liberta da sistemática política do esquecimento a que somos submetidos. Simbolicamente, resgatando os corpos desaparecidos e suas histórias, o corpo social poderá viver em paz com o passado, condição para um futuro transparente.

P. Dr. Oneide Bobsin
Reitor da Faculdades EST e membro da Comissão da Verdade - RS
 


Autor(a): Oneide Bobsin
Âmbito: IECLB / Organismo: Faculdades EST
Natureza do Texto: Artigo
ID: 17452
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