Sete de Setembro

23/11/1994

'Ó pátria amada,

idolatrada
salve, salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido,
de amor e de esperança à terra desce,
se em teu formoso céu risonho e límpido
a imagem do Cruzeiro resplandece.'
'

— Osório Duque Estrada

Fazei pois morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão, lascívia, desejo maligno, e a avareza que é a idolatria; por estas cousas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. (...) e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou. — Colossenses 3.5-6 e 10.

1. Dadivosas advertências

A democracia brasileira e o governo nacional autônomo e independente derivam-se da gestão democrático-popular dos municípios e estados federados. Em razão desta tese, sugiro que a pregação relacione a independência da pátria amada com o poder político municipal. Inicio com duas advertências pessoais:

a) Sou pastor de uma comunidade que trabalha para o governo municipal. A Fundação de Educação Social e Comunitária da Prefeitura e a Comunidade Evangélica de Porto Alegre (CEPA) mantém um convénio que viabiliza a Oficina de Pão da Paróquia São Marcos. É um projeto de geração de renda para uns 20 adolescentes. A Paróquia também trabalha com o Conselho Popular do Morro da Cruz e a Escola Municipal do Morro, num projeto de prevenção comunitária da saúde mental. A nível mais geral, represento a CEPA no processo de formação do Conselho Municipal da Assistência Social. Minha experiência de pastor da EECLB em Porto Alegre, sob a Administração Popular, é bastante tradicional para o luteranismo: submissão do governo da Igreja ao governo civil e democrático nas questões políticas e sociais.

A IECLB é Igreja de Jesus Cristo no País. Como entidade civil, é uma associação religiosa (Constituição da IECLB, Art. 1B). Uma concepção eclesiológica dialética: a IECLB é parte do corpo místico de Cristo, portanto está sob o senhorio de Jesus Cristo, ao mesmo tempo em que é parte da sociedade civil organizada, regendo-se sob o senhorio do governo dessa sociedade. Essa relação dialética entre os dois reinos, ou dois senhorios, é o que garante a independência das pessoas filiadas à IECLB: nós nos submetemos a uma Igreja que não possui infalibilidade. Nós nos submetemos a uma sociedade cujo governo também não ó infalível (ditatorial, em linguagem política), pois apenas governa a sociedade que o sustenta enquanto governo.

A fé no Batismo (como ordenação ao sacerdócio universal) e na ação do Espírito fundamenta a eclesiologia democrática. A comunidade, como entidade civil, submete-se ao governo quando este, por sua vez, submetido à vontade de Deus, é ministro de Deus para o teu bem (...) para castigar o que pratica o mal (Rm 13.4).

b) Participo das reuniões do Orçamento Participativo do bairro onde moro. Testemunhei algo inusitado: as galerias da Câmara de Vereadores repletas de vileiros pedindo aumento de impostos, especialmente do IPTU, enquanto vários vereadores, da tribuna, insistiam em diminuí-lo. Os dois grupos possuem respectiva legitimidade política para sustentarem teses opostas. A conflitividade política é constitutiva do governo democrático. Quando falo do governo, falo de algo do qual sou parte integrante. Sei, como cidadão brasileiro, que o governo não são os outros. Sou eu e todas as outras pessoas. O governo somos nós. Sei, como pastor luterano, que o nosso governo é justo e, ao mesmo tempo, injusto. Seu pecado é meu pecado; sua virtude, minha virtude. Por isso a democracia e o pluripartidarismo são bênçãos divinas que ajudam a combater o pecado social e político que há em nós e na sociedade que sustentamos.

2. A independência leiga na IECLB

O imigrante boêmio Josef Umann trabalhou em fábricas de lapidação de vidro e militou no Partido Operário Alemão (socialismo utópico de Proudhon). Chegando ao Brasil, Josef fundou sociedades culturais e de canto no interior de Venâncio Aires a partir de 1870. Ele escreveu a poesia Quem deve migrar:

Aquele a quem o futuro abanar sem esperança,
e nenhuma manhã alegre lhe sorri,
para quem nenhuma estrela brilhar
e a velhice tristemente o espreita.
(...)
E quando tiver sua casa própria,
e sua lavoura trabalhada,
vê-se alegre em meio
a um mundo construído por ele próprio.
(Umann, p. 61)

Gente assim fez a IECLB. Gente leiga cuja esperança estava na singela poesia de Umann. Fugitivos da velhice e mesmice europeia. Não são versos alienados. São palavras de quem militou na dura vida proletária no século XIX. É gente que sonhava com signifícantes como a casa própria, com a família, a prole, um nome, uma vizinhança, uma comunidade. Sonhava plantar uma nova lavoura, com seus significantes de trabalho, abundância, independência e liberdade. Diz Umann que entre os colonos não se perguntava pela crença que cada um professava, se católico, protestante ou livre pensador. Éramos colegas de profissão, e nos auxiliávamos onde e quando necessário, pois ainda não havia surgido nenhuma aristocracia rural (Umann, p. 61 a 66).

O evangelho c precioso tesouro guardado em vasos de barro (2 Co 4.7). O evangelho vive dessa tensão permanente entre a novidade de vida (a salvação, a libertação, a profecia...) e a velhice de vida (a instituição, a hierarquia, a acomodação cultural...). Não serve a causa do evangelho o autoritarismo dos pastores que estabelecem a distinção entre o saber do leigo e o saber teológico do clero como justificativa para impor sua dominação cultural. O evangelho não permite que pastores sustentem sua autoridade a partir da oposição à autoridade do leigo balizado. Pois aquela decorre e depende desta. Existem leigos/as sem pastor/a) mas não pastor/a sem leigos/as. A independência da Igreja de Jesus Cristo cria a independência do povo da Igreja. A gente é livre de obedecer cegamente qual¬quer autoridade imposta na Igreja ou na sociedade, mas também é livre para obedecer criativamente a autoridade legitimada democraticamente pela sociedade ou pela Igreja.

Essa é a origem da IECLB: a comunidade de deserdados que conquista um lugar e estabelece um nome numa nova terra. Na perspectiva do Dia da Independência é possível relacionar a independência conquistada pelos colonos do século XIX através do trabalho suado e honesto com a conquista da independência nacional que deve muito mais aos/às trabalhadores/as brasileiros/as do que à corte palaciana e ao imperador de então.

3. Independência e democracia na comunidade luterana

Hoch entende que, após 1525, Lutero tornou-se mais cauteloso no tocante à ênfase no ministério leigo (Hoch, p. 263). Essa afirmação retrata a frustração de quase todos/as os/as teólogos/as luteranos/as que desejam refletir sobre sua confessionalidade a partir da gente pobre. Parece que Lutero perde sua legitimidade por esse provável erro político. Mesmo que Lutero tivesse uma posição política equivocada, por que esperar dele a infalibilidade? Sobre a Guerra dos Camponeses, pelo menos no debate marxista atual, não há unanimidade. Já não se imagina a teologia de Müntzer como revolucionária e a de Lutero como reacionária. A análise clássica de Engels foi feita sob as condições materiais da pesquisa no século passado e, principalmente, sob determinados interesses político-partidários imediatos do autor. Engels tem sua legitimidade dentro desses limites; além deles suas análises tornam-se dogmatismos perigosos para a democracia popular (Löwy, p. 15).

Em 1523, Lutero legitima leologicamente um texto eclesiológico produzido por leigos organizados. É o estatuto da primeira comunidade luterana. A Paróquia de Leisnig elabora uma espécie de pacto social envolvendo as diversas classes sociais da cidade. Uma assembleia popular estabelece um pacto político-religioso. Esse texto passa a ser analisado a seguir por sua peculiar característica: é teologia urbana leiga e, como tal, avaliada pela teologia pastoral de Lutero.

A paróquia de Leisnig toma o poder eclesiástico. As pessoas tomam posse dos bens da Igreja e precisam criar novos mecanismos para geri-los. É a sua independência. Estabelecem esses mecanismos através de assembleias democráticas para a época! Elegem sua direção política e eclesiástica, representando de forma igual as diferentes classes (magistrados, nobreza, burguesia e campesinato). Essa representação não-proporcional demonstra um dos limites de Leisnig em relação à democracia liberal burguesa, que se baseia na tese: um cidadão, um voto.

Posteriormente a comunidade solicita um parecer teológico de Lutero. Essa experiência de gestão de alguns serviços urbanos e da Igreja é logo abortada por confrontar-se com a administração municipal vinculada ao príncipe. Por ocasião da Guerra dos Camponeses, a classe dominante em Leisnig destrói a gestão democrática dessa Igreja/assembleia popular, após longa disputa jurídica (Bahmann, p. 88-95).

Lutero considera que esse acordo mereceria ser publicado de forma impressa (...) para que chegue a ser um exemplo geral, imitado também por muitas outras comunidades. Esse acordo estabelece, entre outros dispositivos, que:

a) os ministros sejam nomeados para nosso comum ofício do sagrado ministério. Tal nomeação incluía o chamado, a eleição, a instalação e a respectiva destituição. O ministério, no entanto, permanece comum e coletivo. O clero subordina-se, institucionalmente, ao laicato;

b) todos os donos e donas de casa em nossa paróquia se comprometem a ouvir e praticar a palavra de Deus;

c) seja criado um livro-caixa para contabilizar as verbas advindas de contribuições, coletas e rendas imobiliárias. A caixa da coleta seria fechada com quatro cadeados diferentes. Uma das chaves seria entregue aos nobres, outra aos magistrados, outra à comunidade urbana, e outra aos camponeses. Só um pacto social permitiria abrir o cofre das verbas comunitárias.

d) se elejam anualmente dez administradores para gerir a comunidade. Essa equipe promoveria a cada domingo avaliações da pregação do pastor, à luz da Bíblia;

e) sejam pagas da caixa comum, além das despesas eclesiais normais, as da escola para ensinar meninos e meninas. Essa caixa também mantém a previdên¬cia social para idosos e doentes abandonados e impossibilitados para o trabalho. Socorre também aos órfãos, educando-os até que possam trabalhar. Artesãos que não puderem instalar-se para o seu trabalho receberão um empréstimo para montar sua oficina. O poder público municipal e a caixa da comunidade comprariam estoques reguladores de cereais. Para formar esse fundo, cada família deveria contribuir conforme seus ganhos e conforme o orçamento aprovado pela assembleia geral (Acuerdo, p. 112-132).

Certamente a derrota política da comunidade autogestionada de Leisnig contribuiu para a mudança de ênfase que Hoch detecta em Lutero. A democracia de Leisnig não teve condições históricas de sustentar seu modelo de democracia 266 anos antes da Revolução Burguesa de 1789! Esse fato da política concreta é mais relevante que as ideias teológicas de Lutero. O povo e sua eclesiologia foram derrotados em Leisnig pela correlação de forças entre as classes sociais nessa cidade. Independência depende da capacidade do povo organizar-se, de produzir suas leis e fazê-las valer e, além disso, da capacidade do povo de ser crítico em relação a si mesmo e de ser, acima de tudo, livre, alegre e criativo. Isso é independência popular.

4. Meditação

Sugiro estruturar uma prédica dialogada:

a) Introdução:

* Independência nacional e o poder local (municipal). Você pode lembrar as iniciativas políticas mais antigas das comunidades da IECLB: criação de escolas, hospitais, creches, etc....

* Leitura da poesia de Ummann.

b) Motive a comunidade para interpretar a poesia.

* Na semana anterior, apresente-a para estudos nos grupos da comunidade que trariam suas ideias ao culto.

* Apresente e comente o estatuto de Leisnig.

c) Confronte o texto do hino com Cl 3.5, 6 e 10:

* Apresente os textos num cartaz ou faça cópias ou uma transparência com esses textos.

* Demonstre que, no hino, a expressão idolatrada é sinónimo de pátria amada. Idolatria no texto bíblico é o contrário: é pátria prostituída pelos avarentos.

* Não sei da pátria em 1995. Hoje é 23.11.93 e ouço notícias sobre graves traições à pátria amada. Fala-se da quadrilha dos sete anões na Comissão do Orçamento.

* Combater a idolatria no Brasil independente é ser fiel à nossa filiação divina, à imagem que somos do Criador. Combater a corrupção com eficácia significa ampliar e criar mecanismos de controle da sociedade civil organizada sobre o Estado — como tem sido o caso do Orçamento Participativo da Prefeitura de Porto Alegre, que precisa ser aprimorado a cada edição.

* Em minha vida nunca ouvi falar tanto em prostituição, impureza, paixão, lascívia, desejo maligno e avareza quanto na corrupta época de Collor e João Alves. Essa gente é incapaz de cantar com sinceridade Pátria amada, idolatrada, salve, salve....

* Como cristão confesso: se esta é a pátria onde a imagem do Cruzeiro resplandece, é porque somos um povo marcado pela cruz segundo a imagem daquele que o criou'' como povo. A cruz de Cristo é para nossa salvação; salvos pela cruz, podemos lutar para salvar a pátria da idolatria — uma das quais é a corrupção.

5. Bibliografia

ACUERDO Fraternal, acerca de la Caja Común de Toda la Asamblea Parroquial en Leisnig. In: Obras de Martín Lutero. Buenos Aires, El Escudo, 1977. v. 7, p. 113-135.
BAHMANN, Manfred K. Estúdio Preliminar. In: Obras de Martin Lutero. Buenos Aires, El Escudo, 1977. v. 7, p. 85-95.
HOCH, Lothar C. O Ministério dos Leigos: Genealogia de um Atrofiamento. Estudos Teológicos, São Leopoldo, 30(3):256-72, 1990.
LÖWY, Michel. Marxismo e Teologia da Libertação. São Paulo, Cortez, Autores Associados, 1991, 120 p. (Polémicas do Nosso Tempo, 39).
UMANN, Josef. Memórias de um Imigrante Boêmio. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1981.

Observação: Este auxílio homilético contém trechos de minha dissertação de mestrado intitulada Da Cidadania pela Metade à Dupla Cidadania.


Autor(a): Evaldo Luis Pauly
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17684
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